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José Bonifácio e Gonçalves Ledo – Maçons antagonistas
Autor: Rogério Vaz de Oliveira
Domingo, 8 de Novembro de 2020
Última atualização: 15/12/2020 01:28:56



Ao deparar com a tarefa de analisar a rivalidade ideológica e maçónica entre José Bonifácio de Andrada e Silva e Joaquim Gonçalves Ledo, não imaginava o quanto de profundo deveria ir na história da América Latina, Europa e finalmente do Brasil, e o quanto foram complexas e intrincadas as formas de pensar e dos diversos grupos que formavam a elite política e intelectual luso-portuguesa.

Maçons
José Bonifácio
13/06/1763Santos/SP
6/05/1838Niterói/RJ
Maçom



Entender o cerne das disputas destes dois personagens, determinou uma breve revisão bibliográfica dos factores pré-independência do Brasil, seus articuladores e os grupos que integravam. Portanto, é fundamental uma breve exposição de como era visto e sentido o Brasil do início do Séc. XIX e por consequência a Maçonaria.

Ao longo do estudo ficou nítido que a maçonaria brasileira não possuía uma homogeneidade e concordância no pensamento político dos grupos que actuaram no “Movimento de 1822”. Explicitado nos diversos conflitos internos entre os partidários que defendiam a forma republicana de governo para o Brasil independente, a exemplo de Joaquim Gonçalves Ledo, e os seus concorrentes, entre os quais se destacavam José Bonifácio e Hipólito José da Costa, que visavam a manutenção do regime monárquico.

Joaquim Gonçalves Lêdo
11/12/1781Rio de Janeiro/RJ
9/05/1847Sumidouro/RJ
Maçom, Bandeirante



José Bonifácio e Gonçalves Ledo – Maçons Antagonistas

A força de um ideal é tamanha que poderá mudar o mundo. As revoluções acontecem pela crença em ideais e terem à frente, homens capazes de liderarem grupos que levem adiante o propósito de mudança. O Brasil teve inúmeros luminares, porém o destaque deste trabalho ficará com dois personagens que no embate de suas ideias, mudaram o Brasil e por consequência, mudaram o mundo.

José Bonifácio de Andrada e Silva nasceu em Santos, São Paulo, no dia 13 de Junho de 1763. Frequentou a Faculdade de Direito de Coimbra, complementou seus estudos com filosofia, história, química e matemática. Fruto do seu brilhantismo académico tornou-se secretário da Academia de Ciências de Lisboa, membro das mais importantes sociedades de pesquisa da Europa, catedrático de mineralogia em Coimbra; deputado, vice-presidente da Província de São Paulo, ministro do Império; exilado político, tutor do imperador Pedro II e articulador da independência brasileira. Faleceu em 6 de Abril de 1838, em Niterói-RJ [1].



O imperador Pedro II aos 12 anos de idade (1838)
Acervo/Fonte: Félix Émile Taunay, no Museu Imperial
Vestindo o uniforme imperial de gala

Não há data e local da sua iniciação maçónica exacta, pois quando no seu discurso de posse ao cargo de Grão-Mestre do Grande Oriente do Brasil, declarou que se tornou maçon aquando da sua viagem científica por diversos reinos da Europa, financiado pelo Estado Português, que teve início em 1790. Ao voltar a Portugal em 1800, não frequentou as lojas maçónicas em funcionamento. Disse ainda:

“Como legítimo Maçon, fui sempre homem honrado e fiel aos meus juramentos, amei a minha Pátria e ao meu Rei, respeitei sempre a religião de meus Pais, procurei ser caridoso para com o meu próximo, e mormente para com meus Irmãos. Mas não vendo (talvez me enganasse e fosse injusto), na organização de novas Lojas Portuguesas realizados os fins sublimes da Verdadeira e Legal Maçonaria, julguei então dever executar para com elas o conselho do Evangelho – Sacudi o pó das sandálias, e mudei de terra” [2]



José Bonifácio (1830)
Acervo/Fonte: Biblioteca Brasiliana

Joaquim Gonçalves Ledo foi jornalista, orador e político brasileiro, nasceu no Rio de Janeiro, em 11 de Dezembro de 1781, e faleceu no município de Cachoeiras, no Rio de Janeiro, em 19 de Maio de 1847. Participou activamente dos movimentos de 1821 pela independência brasileira, surgiu nas lojas maçónicas como uma de suas principais figuras. Fundou o Revérbero Constitucional Fluminense, órgão de propaganda política, tornando-se posteriormente o arauto da campanha de libertação.

Pertencente à Loja Maçónica “Comércio e Artes”, Ledo atendia pelo nome simbólico de Ir.’. Diderot, uma alusão a Denis Diderot (1713/1783), filósofo e escritor francês. Juntamente com Januário Barbosa, escreveu o famoso discurso que em 13 de Maio de 1822, em nome dos patriotas, ofereceu a D. Pedro o título de Defensor Perpétuo do Brasil. Com a sua actuação política, conseguiu a assinatura do decreto que convocava a Constituinte. Maçonicamente propôs a imediata independência do Brasil.

Rompeu com José Bonifácio, logo depois da Proclamação, e teve de fugir para Buenos Aires, pois corria perigo de morte. Voltando mais tarde, foi homenageado por D. Pedro I com a Ordem do Cruzeiro e com a Comenda de Cristo.

Despotismo Ilustrado

Na América Latina, a necessidade de criar repúblicas ou países independentes, no contexto de uma sociedade muito mais atrasada do que a europeia, fez com que ganhasse corpo a ideia do despotismo ilustrado como ideologia de construção nacional. Para Wanderley Guilherme dos Santos (1978), cientista político, é um discurso de modernização de países periféricos que se acreditam atrasados.

Uma revolução pelo alto. Este movimento iniciou-se no século XVIII, onde alguns países europeus perceberam o grande distanciamento entre os demais, apresentando exércitos maiores, desenvolvimento económico, e ao analisarem o cenário dos países mais desenvolvidos perceberam que estes estavam enfrentando os senhores feudais e a Igreja. Citamos a França e Inglaterra como países que iniciaram este enfrentamento e Portugal, Espanha e Prússia foram os países que resolveram reduzir este atraso. Voltaire, o grande arauto iluminista do despotismo ilustrado, dizia: “um bom rei é a melhor coisa que um céu pode dar ao país. O rei ilustrado, claro, orientado pelo bem comum, eliminará o poder da Igreja e da grande propriedade rural para modernizar o país”.

A independência da américa ibérica trouxe à baila um grande debate: seria ela uma monarquia ou uma república? Ocorreu então um fenómeno curioso. A liberdade foi o discurso principal que os países utilizaram nas suas independências, porém liberdade, por sua vez, estava associada à descentralização. Os patriotas eram todos pertencentes às camadas dirigentes, às elites sociais. Ao cortarem laços com a Espanha, e as oligarquias se libertando dos espanhóis, surgiu a seguinte questão: quem mandará a partir de agora?

Todas as oligarquias reivindicaram o posto, este foi o estopim para o início da guerra civil. Afinal, não existia mais a autoridade legítima que mantinha o centro e a unidade. O movimento de independência, feito em nome da liberdade, obrigou esses países a construir estados em nome da ordem, e passaram a restringir essa mesma liberdade. Tornando-se necessária a imposição da ordem pública pela autoridade que devia legitimar-se no poder. Surgindo um paradoxo, uma “ditadura” em nome da liberdade. É possível que o actual alinhamento ideológico dos países da América Latina seja reflexo destes movimentos iniciais de ruptura com a Metrópole Espanhola e o gosto pelo poder exercitado pelas elites oligárquicas.

Maçonaria brasileira e a sua actuação

Os maçons estiveram presentes nos movimentos de independência dos países da américa latina e a criação de repúblicas oligárquicas, que impregnados pelo pensamento iluminista espalharam seus ideais por todo o continente, no Brasil não foi diferente, a maçonaria brasileira, que para a historiadora Eliane Lúcia Colussi (2003) diz:

(…) recebeu forte influência especialmente da [maçonaria] francesa que, no transcorrer daquele século, foi assumindo gradativamente posicionamentos políticos liberais, anticlericais, laicisistas e racionalistas. Exemplo disso foi o Grande Oriente da França, que (…) excluiu de seus estatutos a obrigação (…) da crença em Deus, na imortalidade da alma e do juramento sobre a Bíblia (…). As maçonarias da Inglaterra e dos Estados Unidos reagiram a isso de forma radical e, juntamente com outros países, romperam relações com a da França e demais países sob a sua influência. Assim, consolidaram-se duas principais vertentes maçónicas que já há muitas décadas actuavam com perspectivas diferentes: a considerada por alguns historiadores como maçonaria regular, ou ortodoxa, e a outra, a maçonaria irregular, heterodoxa. [3]

A aparente união fraternal propugnada pelos ideais maçónicos, não foi impeditivo para uma oposição ideológica entre republicanos e monarquistas, fomentando as divergências no seio dos maçons brasileiros.

Isabel Lustosa (2011) afirma que Gonçalves Ledo foi um dos maiores idealistas do Brasil, porém não menos José Bonifácio e Hipólito José da Costa, opositores ferrenhos, construindo desta forma o pensamento e o papel dos integrantes da maçonaria no momento da independência brasileira.

Hipólito José da Costa Pereira
13/08/1774Exterior
11/09/1823Exterior
Maçom, Jornalista



Diante deste cenário de oposição entre simpatizantes republicanos e monarquistas, podemos inferir que o processo da Independência do Brasil não teve nada de “romântico”, leve ou até mesmo consensual. O embate ideológico foi ferrenho e o terreno utilizado foi a maçonaria. No processo de independência brasileiro, quase todos os estados se dividiam entre as correntes liberais, que desejavam o modelo americano, de república federativa, e os conservadores, que preferiam centralização e unidade.

Na ebulição ideológica da época, destacaram-se dois grupos políticos os “Saquaremas” e os “Luzias”, que irão situar as posições antagonistas de José Bonifácio e Gonçalves Ledo.

“Saquarema” foi a denominação dada aos conservadores do Império. “Luzia” era o apelido dedicado aos liberais da época. Saquarema era o nome do município do Rio de Janeiro onde um dos líderes conservadores, o Visconde de Itaboraí, tinha uma fazenda, local onde o grupo se reunia com frequência. Luzia era uma referência a uma pequena cidade de Minas Gerais, Santa Luzia, onde ocorreu a maior derrota dos liberais na revolta de 1842.

Os saquaremas, conservadores, defendiam a centralização do poder; os luzias, liberais, pregavam a monarquia federativa, opondo-se ao Poder Moderador e ao Senado vitalício, dominado pelos conservadores. Nesta divisão ideológica podemos indicar que os pensamentos de José Bonifácio se enquadravam como “Saquarema” e de Gonçalves Ledo de “Luzia”.

A fragmentação da América Espanhola em pequenos estados, faz com que o Brasil se torne um caso único, mantém praticamente todo o seu espaço físico intacto e com o retorno de D. João à Portugal, deixa aqui um protótipo de burocracia estatal, caso inédito nos países hispano-americanos. Colocando em postos estratégicos da administração do Brasil, praticamente todos os brasileiros que tinham estudado em Coimbra e achavam importante manter os vínculos com Portugal, pois um Reino Unido a Portugal significava manter os vínculos também com a Europa e, portanto, com a civilização.

Na época, não existia nenhum segmento social, fora da burocracia, que conseguisse ver o país como uma unidade. A sua cidade era a sua pátria, depois vinha a sua província e, em seguida, a condição de português-americano. Ninguém tinha a identidade de brasileiro. Brasil era simplesmente um nome genérico que designava o conjunto de possessões de Portugal na América. A Inconfidência Mineira, por exemplo, não desejava emancipar o Brasil, e sim Minas Gerais.

O pensamento burocrático e os seus apoiantes, no entanto, viam o Império português como uma coisa só, unido em torno da dinastia de Bragança. Angola, Moçambique, Brasil, Portugal, Algarvia, tudo isso representava a mesma unidade. Havia uma hierarquia, claro, mas de alguma maneira esses burocratas luso-brasileiros – todos mais ou menos discípulos de Rodrigo de Souza Coutinho, Conde de Linhares, sobrinho do Marquês de Pombal e ministro de D. João – viam o Brasil e o Império como uma unidade.

O Brasil actual ainda reflecte o pensamento dos burocratas luso-brasileiros, mantendo-se altamente burocrático, privilégios e concessões aos produtos do exterior, sejam bens de consumo ou culturais.

A eclosão da Revolta do Porto (1820) precipitou uma crise em Portugal de carácter liberal e tinham como objectivos reduzir os poderes de D. João VI, e buscar o resgate da tradição colonial de Portugal. Deram-se início os trabalhos das Cortes Gerais, Extraordinárias e Constituintes de Portugal, entretanto, neste primeiro momento sem a participação de deputados brasileiros. Porém José Bonifácio de Andrade e Silva exerceria a sua influência na Corte Portuguesa, apresentando o seu projecto de nova concepção de Reino Unido, sendo representado por seu irmão António Carlos de Andrada e Silva, deputado constituinte por São Paulo.

Bonifácio era defensor da manutenção do Reino Unido, mas com a prevalência do princípio federativo, não ficando nenhuma das partes subordinada a outra, porém a sua estratégia de conseguir nas cortes portuguesas manter a união entre Brasil e Portugal não funcionou, já que os deputados portugueses ficaram irredutíveis, e alguns deputados brasileiros, em virtude de seus interesses locais, ficaram simpáticos a tese dos portugueses.

Parte do fracasso da tese de Bonifácio teve a actuação de Joaquim Gonçalves Ledo que articula a convocação de uma Assembleia Constituinte no Brasil convocada por D. Pedro, mesmo contra a vontade do seu Ministro José de Bonifácio. Surpreso com o ardil de Ledo, que após do dia do Fico, utilizando-se da imprensa, apresenta uma representação pedindo a convocação da constituinte brasileira, derrubando de vez José Bonifácio, que renuncia ao Cargo de Ministro.

Porém, mesmo tendo falhado na sua estratégia inicial, afasta-se do cenário político, e ao retornar virá mais forte, e posicionando-se pela independência do Brasil, acarretando graves consequências para Ledo e para a Maçonaria.

Neste contexto podemos resumir claramente que no primeiro momento José Bonifácio não pensava em independência do Brasil e sim um Reino Unido e com maior probabilidade de crescimento, já Gonçalves Ledo alimentava o rompimento com a Metrópole. A primeira derrota de Bonifácio foi o estopim para se antagonizar com Gonçalves Ledo.

O primeiro tiro foi dado, agora faltava definir o campo de batalha, que logo apresentou-se nos jornais. Ledo publicará o Revérbero Constitucional Fluminense [4], que como próprio nome demonstra encabeçou a campanha pela convocação da Assembleia Constituinte Brasileira. Este jornal era verdadeiramente independente, já que não possuía nenhum vínculo com o governo.

Em contraposição ao Revérbero Bonifácio orientaria principalmente dois jornais O Espelho [5], editado por Ferreira de Araújo, ex-editor do Correio do Rio de Janeiro, e o Regulador Brasílico-Luso [6] (depois Regulador Brasílico) editado pelo maçon frei Francisco de Santa Tereza de Jesus Sampaio, e que pelo seu primeiro nome já demonstrava claramente o ideal de José Bonifácio de manter o Reino, dentro de uma monarquia constitucional.

A efervescência dos debates continuou e a maçonaria também foi integrada a esta disputa política e ideológica, na época estava em funcionamento o Grande Oriente Brasílico, mostrando-se que a influência de Gonçalves Ledo prevaleceria sobre José Bonifácio, apesar de o primeiro ter um cargo hierarquicamente menor, já que Bonifácio era o Grão-Mestre e Ledo o seu Primeiro Vigilante. Contudo é notório que nas reuniões mais importantes daquele ano de 1822, Gonçalves Ledo presidirá as sessões, função que caberia a Bonifácio, que tinha perdido o seu espaço na Maçonaria.

Com a ausência de José Bonifácio, Joaquim Gonçalves Ledo, primeiro vigilante, presidiu uma das reuniões mais importantes da maçonaria brasileira. Tendo nesta reunião, no dia 9 de Setembro de 1822, sido proposta a Independência do Brasil e a proclamação do Príncipe Regente com Imperador Constitucional do Brasil. O termo constitucional demonstra a preocupação de dar a nova nação um cunho liberal, já que Ledo acreditava numa independência mais próxima da República, e para isto o controle constitucional seria indispensável. A ausência do Grão-Mestre numa tão importante sessão demonstra o choque de interesses dos principais malhetes da Maçonaria brasileira. Aliás nesta reunião, ainda não se sabia o que tinha ocorrido no dia 7 de Setembro às margens do Ipiranga.

Com relação aos jornais, nesta mesma sessão do Grande Oriente, Ledo fez aprovar moção para que o editor do Regulador Brasílico comparecesse a uma Assembleia Geral e desse explicações acerca de suas ideias, que para a Maçonaria (Ledo), feria os interesses do Brasil. No caso de não comparecimento do editor, o maçon frei Sampaio, sofreria as penas maçónicas e os maçons deveria cancelar assinatura do periódico e devolver as edições anteriores.

O desentendimento entre Bonifácio e Ledo já vinha aumentando desde quando Bonifácio propôs e foi aprovada a iniciação de D. Pedro na maçonaria em 13 de Julho de 1822, tendo este adoptado o nome simbólico de Guatimozim. O Grão-Mestre dispensou os trâmites e em poucos dias eleva D. Pedro ao grau de Mestre Maçon, mostrando claramente que queria trazê-lo para a maçonaria, aumentando assim a influência sobre o futuro imperador.

Joaquim Gonçalves Ledo não ficará inerte frente esta ofensiva de Bonifácio, e tentará influenciar o neófito utilizando-se da maçonaria para tal fim. No mês de Setembro de 1822 numa sessão do Grande Oriente, novamente presidia por Gonçalves Ledo, como tinha ocorrido na sessão do dia 09 daquele mês, o Primeiro Vigilante comunica ao povo maçónico que D. Pedro, para a maçonaria o irmão Pedro Guatimozim, tinha sido escolhido para ser o Grão-Mestre do Grande Oriente Brasílico.

Ledo tentou não só se aproximar mais do futuro imperador, mas, principalmente, anular o poder de Bonifácio junto a ordem maçónica. A substituição do Grão-Mestre foi um verdadeiro golpe dentro da maçonaria, retirando Bonifácio do mais alto cargo da ordem, colocando-o numa cilada, se reivindicasse o seu cargo ofenderia D. Pedro, se deixasse a influência da maçonaria crescer sobre o Príncipe perderia influência sobre este. Sem dúvida a chegada de D. Pedro ao cargo de Grão-Mestre, do Grande Oriente Brasílico, foi o capítulo definitivo da luta entre Bonifácio e Ledo, e trará consequências drásticas a ordem maçónica e a seus dois líderes.

O clima de hostilidade entre o grupo de Bonifácio e de Ledo chega ao máximo, e a maçonaria se torna um barril de pólvora pronto para explodir. Ainda dentro das manifestações pós-independência, o jornalista João Soares Lisboa, maçon ligado a Joaquim Gonçalves Ledo, publica artigo informando que D. Pedro I apoiaria a República se o povo assim quisesse. O imperador achou tal atitude subversiva e deu oito dias para que Soares Lisboa deixasse o Rio de Janeiro.

A tendência republicana do grupo de maçons, liderada por Ledo, fez com que Imperador, e Grão-Mestre do Grande Oriente Brasílico, sob a influência directa de José Bonifácio mandasse suspender os trabalhos do Grande Oriente para averiguações, D. Pedro I tentava investigar quais os maçons que estariam ao seu lado e quais poderiam ser perigosos na nova ordem que se estabelecia.

O encerramento da maçonaria fora planeado por Bonifácio sobre a acusação de que havia uma conspiração de carácter republicano, liderada por Ledo.

Inicia-se um período de perseguições conhecida por a Bonifácia, que terá como principal alvo Ledo e seus seguidores, o que significa os maçons. Vários maçons foram presos, e outros, como Ledo, tiveram de fugir temendo represálias de José Bonifácio.

Diante destes factos, apesar de não haver uma decisão formal do Grão-Mestre Pedro Guatimozim, que tinha permitido a reabertura dos trabalhos do Grande Oriente Brasílico; a luta entre Bonifácio e Ledo tornou inviável a reunião dos maçons, tendo a maçonaria com suas colunas adormecidas praticamente durante todo o reinado de D. Pedro I.

Conclusão

Ao finalizar este trabalho, podemos inferir que o papel dos dois líderes maçons – Bonifácio e Ledo – Antagonistas, foi em defender suas ideias, e que Bonifácio com o passar do tempo mudou a sua opinião sobre a independência, terminando por apoiá-la e defender o seu modelo de governo centralizador. Gonçalves Ledo, no entanto, muitas vezes conseguiu submeter Bonifácio a sua vontade, tendo sido muito importante para isto a sua luta pelo poder dentro da maçonaria, onde conseguiu neutralizar José Bonifácio.

Prevaleceu o modelo de Bonifácio, embora não fosse um revolucionário e houvesse observado, na sua longa permanência na Europa, os perigos e inconvenientes de uma revolução, desde logo se impôs, pela cultura, pelo equilíbrio e moderação, como o principal estadista da Independência, cabendo-lhe, sem qualquer dúvida, com a maior legitimidade, o título que a história lhe consagra, do seu “patriarca”.

Porém a posição de Gonçalves Ledo na defesa de uma Assembleia Constituinte acelerou o processo de independência, além do ingresso do então príncipe regente na ordem para influenciá-lo. Percebe-se com clareza ao reproduzirmos parte do seu discurso ao hesitante Príncipe D. Pedro:

“a independência, Senhor, no sentido dos mais abalizados políticos, é inata nas colónias, como a separação das famílias o é na Humanidade. A natureza não formou satélites maiores que os seus planetas. A América deve pertencer à América, e Europa à Europa, porque não debalde o Grande Arquitecto do Universo meteu entre elas o espaço imenso que as separa. O momento para estabelecer-se um perdurável sistema, e ligar todas as partes do nosso grande todo, é este […]” [7].

Sobre as consequências para a maçonaria, apesar das colunas do Grande Oriente Brasílico terem ficado adormecidas de 1822 até praticamente o fim do primeiro reinado, restou uma actuação importante na história do Brasil. O propósito do Grande Oriente Brasílico era a independência do Brasil, este objectivo foi atingido, e se não continuou a funcionar foi porque representava claramente um perigo para D. Pedro I, já que as sementes do pensamento republicano tinham sido plantadas e já germinavam. O próprio temor sobre o seu funcionamento demonstra quão forte era o seu poder de organização.A República já estava em gestação, porém seu nascimento ocorreu somente a 15 de Novembro de 1889.

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