Batalha de Venda Grande, a derrota do exército de Sorocaba; depoimento de um soldado sobrevivente
Autor: J.M.Fantinatti
Terça-feira, 7 de Junho de 1842
Última atualização: 18/12/2020 08:55:30



Após ser proclamado pelos rebeldes presidente interino em Sorocaba, que foi declarada capital provisória da Província, o Brigadeiro Tobias se encarregou de reunir a chamada Coluna Libertadora, com 1.500 homens, com a qual tentou invadir São Paulo para depor o presidente da Província, o Barão de Monte Alegre.



José da Costa Carvalho (1861)
Acervo/Fonte: Sébastien Auguste Sisson
O Barão de Monte Alegre

Declarou Sorocaba capital provisória e pretendia marchar com seus homens rumo à “verdadeira” capital, São Paulo, para depor o “verdadeiro” presidente da província. Foi acuado no meio do caminho, em Campinas, pelas tropas imperiais do barão de Caxias, o futuro duque de Caxias. Derrotado, teve de fugir para o Rio Grande do Sul, onde foi preso.

Combate de Venda Grande

Hoje, poucos conhecem a história do monumento. Instalado no canteiro central da avenida e rodeado de flores e arbustos, ele é mantido diariamente pelos próprios moradores da área.



Rafael Tobias de Aguiar (1845)
Acervo/Fonte: Maximiliano Scholze
O Brigadeiro Tobias

Num pedaço de Campinas que vai aos poucos ganhando urbanização, quase nas bandas do subdistrito de Barão Geraldo e antiga área da Fazenda Santa Genebra, logo após o Campo dos Amarais e o Colégio Técnico Industrial “Conselheiro Antonio Prado”, um marco pouco visível indica o local onde em 7 de junho de 1842 ocorreu o combate da Venda Grande.

Combate, em Campinas?

Sim, exatamente isso! Um combate no qual as tropas imperiais derrotaram forças rebeladas, num movimento deflagrado na Província de São Paulo, sob o comando do brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar.



Fazenda Venda Grande em Campinas
Data: 7 de Junho de 1842
Acervo/Fonte: Pró-Memória de Campinas
Local da batalha entre Sorocabanos e o exército do Duque de Caxias

Foi o ponto derradeiro da Revolução Liberal que também teve o Padre Diogo Antonio Feijó como um de seus líderes e eclodiu em Sorocaba, principal centro da revolta contra o Ministério.

O marco, erigido em 1956 por iniciativa do Departamento de História do Centro de Ciências Letras e Artes de Campinas, pretendeu assinalar com a data gravada e dizeres breves ("Combate de Venda Grande - 7-6-1842") tudo aquilo que teve um epílogo que estremeceu a gente do seu tempo e ceifou vidas em inúmeras famílias campineiras.



Marco da Batalha em Campinas
Data: Dezembro de 1842
Acervo/Fonte: Pró-Memória de Campinas

Pouco divulgado e bem pouco conhecido, o episódio de Venda Grande vai permitir, reproduzir o campo da operação bélica o quanto possível dentro do cenário existente nos dias em que Boaventura do Amaral tombou morto sob o assédio e o fogo dos comandados do coronel Amorim Bezerra, que o então Barão de Caxias mandou vir atacar os paulistas em armas.

Um quadro a óleo de um dos pintores "Dutra", conservou a imagem do prédio, construído provavelmente em 1.802. Seu proprietário e possível construtor, major Teodoro Ferraz Leite, já era falecido por ocasião do combate, quando o casarão estava abandonado e fazia parte do espólio em inventário.

No térreo situavam-se os serviços e no andar superior residia a família do riquíssimo Teodoro Ferraz Lelte, senhor de engenho casado em segundas núpcias com a mulher que, na época, era considerada a mais bonita e a mais gorda de Campinas (Dona Maria Luiza Teixeira). Era o local conhecido no tempo como o "Sítio do Teodoro" ou "Venda Grande".

O depoimento dos antigos davam conta de que o capitão Boaventura do Amaral e muitos dos seus companheiros feridos por ocasião do ataque do exército imperial, morreram naquele edifício.

Quem pretender conhecer onde fica o "cemitério da guerra" lamentavelmente não encontrará muita coisa; pois este passou a ser mera referência, porque, em verdade, houve mortos sepultados em torno da Venda Grande, depois removidos para locais não identificados. Mas o respeito popular ainda ocasiona manifestações que se traduzem no freqüente aparecimento de velas e imagem junto ao marco instalado pelo Centro de Ciências Letras e Artes.

O movimento liberal ergueu-se contra os conservadores, que estavam no poder, em 1842. Os motivos, segundo Washington Luis, que foi também notável historiador, resume-se no seguinte: "As leis da reforma judiciária, criadora do Conselho de Estado, atentavam contra a Constituição do País, violando o Ato Adicional.

O golpe de estado de "maio de 1842, que dissolveu a Câmara dos Deputados, em sua maioria contra o governo, amputara à oposição o recurso legal". Os conservadores estavam no poder desde março de 1841, sendo presidente da Província de São Paulo, o baiano Barão de Monte Alegre.

Os liberais estavam exasperados, e em São Paulo projetaram depor o presidente, e aclamar o brigadeiro Rafael Tobias Barreto para o cargo. O movimento foi chefiado pelo senador Feijó, já muito idoso e doente.

O verdadeiro historiador da Venda Grande, Amador Bueno Machado Florence, publicou na Gazeta de Campinas, em 1882, uma série de 14 crônicas, entre os dias 7 junho e 16 de julho.

O cronista era filho de Hércules Florence, que foi amigo íntimo e compadre do cabeça da revolução em Campinas, Antônio Manuel Teixeira. Ele relatou minuciosamente os episódios da ação revolucionária de 1842 em Campinas, ressaltando o heroísmo dos participantes.

Assim ele descreve o exato momento em que se deu o confronto entre as tropas governistas e os rebeldes, segundo o relato de um dos combatentes liberais (aqui é usado português da época):

"Fomos surpreendidos sem que tivessem ainda chegado Reginaldo (de Moraes Salles) com os da Limeira. Esperávamos descansados e dispersos, alguns mesmos em profundos sono no velho sobrado e dependências, quando assomou no alto do pasto, em nossa frente, a cavalaria inimiga, contra a qual logo que pudemos apontar duas pecinhas de difícil manobra nos tais carretões de arrastar madeira, bem ou mal, mandamos o nosso primeiro pelotinho de calibre 4, que nos pareceu dar com alguns em terra, pois estavam distantes.

Mal sabíamos, porém, que só chamavam para aquele ponto a nossa atenção, fingindo cair; o que queriam era que pelo flanco, todo em capoeira, nos viessem até quase a retaguarda os periquitos do Bezerra.

E, de facto, quando demos por eles, foi já pelo relampear das baionetas, e pelas cerradas descargas sobre o grupo dos nossos poucos que puderam tomar as armas em desordem e empunhar bravamente as duas pecinhas, cujos tiros não iam tão apressados como desejávamos, pela simples razão de não termos artilheiros, sendo o melhor que tínhamos o Chico de Barros,que o sr. Mateus conhece, o Camarada do Vicente Leite.



Luís Alves de Lima e Silva (1861)
Acervo/Fonte: Domínio público
O Duque de Caxias

O Boaventura (do Amaral) e o Vianna ainda assim faziam os impossíveis, secundados com denôdo por companheiros como Luiz Aranha, capitão Silva, (o nosso Chico Rato) parente de vosmeces, e outros bravos, cujos nomes agora me passam do sentido, mas que direi ainda.

Tinham já dado uns 8 tiros, pois iam acertando com a pontaria, quando o granizo das nutridas descargas dos negrinhos começou a dar sério, ora n’um ora n’outro dos nossos, que nenhum troco podiam dar de fuzilaria, pois só então verificariam nada valerem as suas espingardinhas de caça, em frente as reiunas de formidável adarme e alcance de 400 passos e mais, rapidamente manejadas, como estavam”.

Outro momento marcante do relato é o da nomeação dos mortos no combate:

“o bravo e generoso Boaventura, deixando numerosa família; o valente e atrevido Antonio Joaquim Vianna; o destemido Negueime, primo de Joaquim Bonifácio; o João Evangelista Monteiro, primo de Juca de Salles; o João Francisco, alfaiate, official do Cezarino e um camarada do Bittencourt, cujo nome não me ocorre”.

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Compilado por Adriano Cesar Koboyama
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