O ano em que Sorocaba teve 4 prefeitos, 2 deles assassinados
Autor: Nilza Alencar
Sábado, 28 de Janeiro de 1933
Última atualização: 18/12/2020 02:56:18



Neste ano Sorocaba teve quatro prefeitos. Quando David Alves Athayde foi assassinado, a praça se chamava “João Pessoa”, em homenagem ao aliado de Getúlio Vargas, também assassinado no Recife.

O assassinato de João Pessoa teria deflagrado a Revolução de Getúlio Vargas. Foi esta revolução que trouxe David Alves Athayde á Sorocaba ou teria sido um assassinato ocorrido no Rio de Janeiro no ano anterior?

Getúlio Dornelles Vargas
19 de Abril de 1882
24 de Agosto de 1954

Presidente do Brasil, Senador, Advogado / formado em Direito, Ministro de Governo

Tentando entender o assassinato do Prefeito David Alves Athayde, em 1932, encontramos duas notícias, publicadas em 1931, associando David Alves á um assassinato ocorrido no Rio de Janeiro.

No dia 2 de fevereiro o Diário da Noite do Rio de Janeiro publicou:

"Perante o juiz da 1a. Pretoria Criminal prosseguiu hoje, o sumário de culpa a que respondem o ex tenente Joaquim Teixeira e o engenheiro David Alves Athayde.

Os acusados compareceram acompanhados do advogado dr. Adherbal Cattete funcionando como promotor o sr. Mauricio Eduardo Rabello.

Compareceram e foram ouvidas as testemunhas Rosalina Alves e José Maria Cots. No dia 4 continuara o sumário e deverão depois Oswaldo Accioly Cahet e Arsenio Rodrigues Montes."



Sumário dos acusados de assassinar o tenente Garro
Data: 2 de Fevereiro de 1931
Acervo/Fonte: Diário de Noite/RJ

No dia 17 de junho de 1931 o pai da vítima, o major Luiz Garro teve seu manifesto publicado no jornal A Esquerda/RJ:

"Sr. redator, tendo sido o seu jornal um dos que mais escrupulosamente trataram o bárbaro e covarde assassinado de meu filho, o tenente Napoleão Brasil Garro, venho rogar-lhe o favor de dar publicidade a estas linhas.

Acho ainda estranhável, sr. redator, que tendo sido o meu filho assassinado na casa da estrangeira Janette, esta nem sequer tenha sido chamada a prestar declarações pela polícia, que devia por todo o seu empenho elucidar completamente o caso.


Tenente Napoleão Brasil Garro
Data: 23 de Fevereiro de 1931
Acervo/Fonte: Jornal de Noite/RJ
Assassinado com participação de David Alves do Athayde. Prefeito de Sorocaba

Acho ainda estranhável, sr redator, que o dr. A. Cardoso, sendo como é, advogado da seção jurídica do Lloyd Brasileiro, e tendo, portando, um nome a zelar, aceito o patrocínio de bandidos da pior espécie como os que friamente assassinaram o meu filho Napoleão.

Esse advogado, que defendeu o assassino Joaquim Teixeira, que matou meu filho no momento em que ele se achava seguro por David Alves Athayde e os dois indivíduos e o "garçom" da pensão, anda industriando as testemunhas, com o intuito de inocentar os culpados.

Insinuou Lyra Pereira para que dissesse ser inimiga de Paes e passou um telegrama ao sr. Fernando de Salles Victor, testemunha do crime, convidando-o para comparecer ao Lloyd, afim de se entenderem (...)"



Relato do pai do Tenente Garro
Data: 17 de Junho de 1931
Acervo/Fonte: A Esquerda/RJ

No ano seguinte, 1932, "o ano dos acontecimentos", a população local era de 78937 habitantes. A cidade, 38775. Na zona rural, 20679 habitantes. Os outros 19483 habitantes estavam distribuídos nos distritos de Votorantim (5217), Salto de Pirapora (888), Campo Largo (12019) e Brigadeiro Tobias (1359).

No dia 11 de Julho de 1932, 2 dias após a eclosão da Revolução Constitucionalista, o prefeito Octacílio Malheiros renunciou (Wikipédia) e o Jornal Cruzeiro do Sul publicou:

"Em Sorocaba a atitude de S. Paulo foi recebida com justificado jubilo popular, mantendo se o povo na praça catedral em comentários favoráveis.

Á hora do concerto musical a banda executou o hino nacional, ouvindo-se ao final vibrantes aplausos e vivas. A população se mantem em calma e na mais perfeita ordem.

E é preciso que isso continue não só para o sossego da família sorocabana como também porque é essa uma das melhores maneiras de se concorrer para a causa que nesta hora empolga todos os corações."



Prefeito Otacílio Malheiros
Data: 22 de Novembro de 1930
Acervo/Fonte: Jornal "Eu Vi"/RJ
O primeiro á partir da esq. Homenagem á Dr. Baptista Luzardo, Chefe de Polícia do Distrito Federal

Na terça, dia 12, ocorreram 3 fatos importantes: Doutor Ernesto de Campos assume a prefeitura, os primeiros voluntários para lutar e foi fundada a sede do MMDC local.

No dia 13, fundou-se a Caixa Popular, com intenção de prestar auxílios aos voluntários pobres. Os estudantes do Ginásio Municipal e da Escola Normal (ambos no mesmo prédio) telegrafaram ao governador do Estado.

A adesão ao levante resultou ainda na criação do batalhão feminino e de um infantil, com mais de 200 crianças.

Os estudantes do Ginásio Municipal e da Escola Normal (ambos no mesmo prédio) telegrafaram ao governador do Estado:

“Exmo. Sr. Embaixador Pedro de Toledo, muito digno governador de S. Paulo. Normalistas e gymnasianos de Sorocaba, solidários na cruzada patriótica de constitucionalização do país, hypothecam seu apoio a V.Exa. Sorocaba, 13-7-932.”

Pedro Manuel de Toledo
29 de Junho de 1860
29 de Julho de 1935

Advogado / formado em Direito, Governador de SP, Ministro de Governo

No mesmo dia chega a mensagem da primeira leva de voluntários moços de Sorocaba:

CONTERRÂNEOS: A época é de ações e não de palavras. Mentiríamos ao nosso honroso título de Paulistas, se nos deixássemos quedar indiferentes ante os acontecimentos históricos do momento.

Eis porque partimos para a Capital do Estado, dispostos se mister for, a sacrificar a nossa vida em holocausto á causa Bandeirante.

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Ao partirmos, levamos a convicção de que somos acompanhados pelo vosso beneplácito, porque vós também sois Paulistas.

Si, como tudo faz supor, a causa Paulista for vitoriosa, voltaremos satisfeitos de haver cumprido o nosso dever. Si tombarmos no campo da luta e da honra, vós conterrâneos queridos, irei nos substituir!

Gentes conterrâneas! Juntae as vossas orações ás de nossas mães, para que possamos brevemente regressar incólumes, trazendo a nova palpitante do triunfo da causa de nossa terra!

(aa) Hilario Correa – Ary Seabra – Jorge M. Passos – Francisco M. Rogich – Rubens Gonçalves – Rubens Schrepel – Alvaro Martins Filho.



Jornalista Hilário Correia (1967)
Acervo/Fonte: Jornal de Maringá
Da esq p/ a dir: Hilário Correia, Silvio Barros, Laércio Souto Maior e o adm do Distrito de Itambé

Na sessão de 1º de agosto, o "Venerável" comunica aos presentes que os representantes da Loja Perseverança III haviam decidido encaminhar um ofício ao prefeito Ernesto de Campos pondo à sua disposição as três salas das Escolas Noturnas.

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Em 5 de outubro o Doutor Ernesto de Campos deixa a prefeitura de Sorocaba para, no dia seguinte, o Doutor David Alves Athaide assumir a prefeitura.

No dia 14 de janeiro de 1933, ano do assassinato, David Alves assina o decreto que, para alguns, foi o estopim dos trágicos acontecimentos. Segue o conteúdo do decreto:

"Pelo Decreto nº 6, de 14 de janeiro de 1933, David Alves de Athayde, Prefeito Municipal de Sorocaba, usando das atribuições que lhe conferem os artigos 4º, do Decreto nº 19.398 de 11 de novembro de 1930, do chefe do governo Provisório e artigo nº 7, do Decreto nº 4.810, de 31 de dezembro de 1930, do Int. Federal no Estado, e considerando a inexistência de um quadro de funcionários Municipais, e, sendo de toda a conveniência para a boa ordem e eficiência dos serviços, determinou a organização de um quadro de funcionários Municipais com funções e atribuições definidas"

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No sábado, dia 21 de Janeiro de 1933 o Prefeito se posicionou ruidosamente contra um benefício que favorecia apenas a elite sorocabana.

A escola municipal era gratuita, e ele passou a cobrar uma taxa para todos os alunos. Então ele morreu porque passou a cobrar o que antes era gratuito. Era gratuito sim, mas só estudavam aqueles filhos da "elite" sorocabana.

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Escolas em Sorocaba
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Os pobres continuariam sem dinheiro para estudar, mas, ao menos, agora, se tivessem dinheiro poderiam estudar e os ricos que podiam pagar, discordaram da lei por perderem um benefício exclusivo à eles. A elite argumentou que não haveria estrutura para todos.

Na quarta-feira, dia 25 de Janeiro de 1933, uma medida tomada pelo prefeito impede utilização da praça central para uma comemoração de estudantes ao aniversário de São Paulo, pois o evento seria realizado a noite, o que seria impossível. Visando economizar, o prefeito decidiu apagar as luzes da praça no período da noite.

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Praça Fernando Prestes
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A notícia publicada pelo jornal Cruzeiro do Sul, em sua edição de 30 de janeiro de 1933, ao meu ver, resume os motivos do assassinato. Intitulada "Alvejado por populares na praça central da cidade, o prefeito municipal está em estado grave na Santa Casa", começa assim:

"A Praça João Pessoa foi, ontem a noite, teatro de graves acontecimentos que têm sua explicação na animosidade crescente entre o nosso povo e o atual prefeito engenheiro dr. David Alves de Athayde, que é pessoa ESTRANHA ao nosso meio.

Essa animosidade corporificou-se ainda mais depois que o prefeito suprimiu a iluminação extraordinária da praça da catedral, sem que explicasse à população os intentos que o animavam ao deixar ás escuras aquele logradouro público.

E mais que se agravou o dissidio ao impedir a prefeitura que se efetuasse, no dia 25, no coreto da praça, um concerto musical comemorativo da fundação de S.Paulo."



Reunião na Praça João Pessoa (1931)
Acervo/Fonte: Nicolau Alonso Martins
Atual Praça Cel. Fernando Pretes

Quem foi o "herói" que assassinou o prefeito?

No dia 16 de março dois jornais estamparam o nome do assassino em suas páginas. O Diário da Noite do Rio de Janeiro e o Correio Paulistano de São Paulo publica um artigo intitulado: Écos dos acontecimentos de Sorocaba, os resultados do inquérito policial sobre a morte do dr. David Athayde.


Assassinato do prefeito David Alves do Athayde
Data: 17 de Mar?o de 1933
Acervo/Fonte: Diário de Notícias/RJ

Destaquei os trechos mais importantes:

“Os tristes acontecimentos de Sorocaba, que culminaram na morte do prefeito daquela próspera cidade, ainda repercutem no espirito público.

Para aquela cidade industrial foi enviado (...) o dr. Carvalho Franco que, em companhia do escrivão, iniciou um meticuloso inquérito, trabalho dificílimo considerando a grande multidão que tomou parte na manifestação.

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O dr. David Alves Athayde, que foi vitima dos seus próprios erros (...) tratou de se indispor com a população, tirando-lhe os pequenos benefícios que seus antecessores tinha conseguido, através de muitos esforços.

Entre esses benefícios encontrava-se a iluminação da Praça João Pessoa, a qual, por determinação, sua, foi cortado.

O dr. Carvalho Franco, com paciência evangélica, ouviu 63 testemunhas. Aos poucos restringindo suas investigações até um grupo de cinco pessoas, que, no momento do tiroteio, cercaram o prefeito.Foi desse grupo que partiram os tiros.

E o delegado de Segurança Pessoal colheu veementes indícios contra o negociante Octavio Marques Flores. Concluído o inquérito (...) ficando completamente esclarecido o conflito”.



Assassinato do prefeito David Alves do Athayde
Data: 17 de Mar?o de 1933
Acervo/Fonte: Correio Paulistano/SP

Em 1 de junho o jornal A Gazeta:

(...) havendo leves indícios contra o comerciante Octavio Marques Flores, o juiz Dr. Aguiar Vallim mandou que os autos baixassem à polícia para melhores esclarecimentos. O inquérito foi de novo remetido ao Fórum (...) o juiz determinou seu arquivamento.


Assassinato do prefeito David Alves do Athayde
Data: Julho de 1933
Acervo/Fonte: A Gazeta

Dia 4 de julho de 1933 o Doutor João da Costa Marques deixa a prefeitura deixou a prefeitura, assumindo no dia seguinte o Tenente Coronel Ary Cruz assume a prefeitura.

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Dia 5 de setembro o Tenente Coronel Ary Cruz deixa a prefeitura assumindo no dia seguinte o Doutor Eugênio Salerno, que também seria assassinado, mas issa história fica para a próxima!

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