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Jornal Correio Paulistano
Nas margens do Rio Infeliz as ruínas centenárias do embrião de V. Redonda, 11.09.1960. Fernando Hossepian de Lima
11 de set. de 1960, domingo ver ano



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A industria siderurgica brasileira tambem teve por berço as terras de São Paulo.

Quem demanda o interior paulista pela Sorocabana, há de encontrar logo após Sorocaba, uma pequena estação de nome Varnhagem. Ali, á direita do leito da estrada, e dentro da Fazenda Ipanema, do Ministério da Agricultura, estão as ruinas da primeira Real Fabrica de Ferro, fundada em principio do seculo passado, por uma ordem de D. João VI, então no Brasil.

Em torno das ruinas, respira-se misterio e misticismo. Um pequeno lugarejo de nome São João do Ipanema jaz na fralda são todos funcionarios da Fazenda Ipanema. Na “Casa Grande” D. Pedro I já habitou, e foi ali que em 1816 nasceu o Visconde de Porto Seguro — pai da historia brasileira.Pelas ruas do lugarejo, e pelas ruinas, durante as noites, já foram surpreendidos os vultos de um monge — O Monge do Morro da Fabrica — que “habita uma caverna na serra e que vive ali desde 1844”. Outras lendas e outros vultos povoam ainda as ruinas da Fabrica, visitada tambem pelo fantasma da Menina Santa, que ali viveu em 1820 e que, doente, de seu catre da do morro, em frente aos altos fornos centenarios da Fabrica. Seus habitantes fazia profecias, prevendo mesmo a Guerra do Paraguai.

Mas, no fundo, a Primeira Real Fabrica de Ferro nasceu de uma lenda. O Morro de Ferro, às margens do Ipanema, foi descoberto em 1589 por Afonso Sardinha, quando em expedição á procura da Lagoa Dourada, “que num ponto qualquer da serra existia, nadando em suas aguas peixes e patos de ouro”.Afonso Sardinha jamais encontrou o seu Eldorado. Encontrou, porém, “nas fraldas do Morro Araçoiaba, uma grande jazida de minerio ferruginoso” e disso deu apenas noticias deixando ali alguns escravos e partindo a explorar a serra, na cata da Lagoa Dourada.

Hoje, a quem quer que se pergunte em São João do Ipanema — sobre a tal Lagoa, não se houve resposta. Ninguem a viu, mas ninguem a contesta.

“Essa serra é tão grande” —Limitam-se a divagar

A HISTORIA

A Real Fabrica de Ferro não se pode afirmar que tenha sido um successo de empreendimento. Caso não fosse, não existiriam hoje dela apenas as ruinas. A instalação da Fabrica em 1.800 pelo Capitão Manoel de Melo Castro e pelo chimico João Manso marcou, sem duvida, o inicio da exploração economica das jazidas de ferro do Brasil. Mas, por outro lado, a criação da Fabrica assinalou tambem, a existencia de um dos primeiros e mais rumorosos casos de incuria administrativa no Brasil.

O capitão Manoel de Melo Castro e o chimico João Manso haviam sido autorizados a proceder estudos para a montagem da “fabrica de ferro” por uma Carta Regia de D. João, datada de 19 de agosto de 1790. Das pesquisas fizeram um relatorio.Com base no relatorio daqueles dois pioneiros e tecnicos, D. João VI ordenou — por volta de 1805 — que se arregimentassem especialistas na Europa para organização da Fabrica. O encarregado de tal tarefa de contratação foi o consul Bayer em Estocolmo, Suecia. Esse funcionario diplomatico português enviou então ao Brasil um seu credor de nome Carlos Gustavo Hedberg, que nunca fora especialista em siderurgia. Junto a esse aventureiro vieram outros leigos, a apenas um tecnico em usinarem — o coronel alemão Frederico Varnhagem.

O ERRO

“A primeira fonte de infelicidade desta Fabrica foi a Companhia Sueca que trouxe Hedberg, o qual em vez de trazer mestres fundidores, refinadores e moldadores, trouxe os mais que de manipulação de ferro nada sabiam” — essas palavras são de José Bonifacio de Andrada e Silva que em 1820 — com a fabrica já decadente deu o golpe mortal na empresa ao denunciar a irregularidade da fundação da fabrica, num relatorio onde sua assinatura vinha com a autoridade de Intendente Geral das Minas e Metais do Reino.

Na epoca da publicação do relatorio de José Bonifacio a Real Fabrica estava praticamente falida. Em seus dez anos de funcionamento havia produzido pouco mais de 50 mil arrobas de ferro. Em 1821 — um anno após a declaração de José Bonifacio — Frederico Varnhagem, o unico que havia feito qualquer coisa pelo empreendimento e que estava á testa dos trabalhos desde 1814, deixou o cargo, apresentando um balanço onde “eram consignados perto de 74 mil cruzados de credito e artigos armazenados”. As instalações da Fabrica, todavia, achavam-se arruinadas.

(...) foram feitos os primeiros canhões para as batalhas contra os guaranis. Tão prospera esteve então a Fabrica e o pequeno povoado de São João de Ipanema, que o imperador D. Pedro II esteve ali em visita. Nessa ocasião o imperador transpôs pela primeira vez o chamado “Portico da Maioridade” (hoje um dos portões da Fazenda) que em 1841 havia sido construido em Ipanema para comemorar o primeiro aniversario da sua maioridade.

DEPOIS DA BATALHA

Terminada a Guerra do Paraguai e continuando na direção da Fabrica o capitão engenheiro Joaquim de Sousa Mursa, esforçou-se este por dar um emprego pacifico à empresa. A passagem por Ipanema dos trilhos da Sorocabana em 1876 veio facilitar a obra do oficial. O ferro passou então — com possibilidade de ser enviado aos grandes centros — a jorrar de 8 em 8 horas dos antigos fornos. O minerio naquele fim do seculo chegou a ser vendido para obras no Ceará e no Rio Grande do Sul. Fabricavam-se em Ipanema, então, desde os trilhos até as moendas de cana, e os gradis e portões da nossa conhecida estação da Luz foram fundidos em Ipanema, tendo custado na epoca cerca de 22 contos de reis.Muito embora em 1886 a Fabrica tenha sido remodelada e novas instalações tenham sido inauguradas pelo imperador D. Pedro II, o seu fim já se prenunciava. Em 8 de novembro de 1890 o engenheiro Mursa deixou a direção da Fabrica e, pode-se dizer que aí, definitivamente, a Fabrica entrou em colapso.Já na Republica, todavia, o presidente marechal Hermes tentou um reerguimento da Fabrica. Um relatorio confidencial do ministro da Guerra Pandia Calogeras, entretanto, liquidou definitivamente com a Primeira Real Fabrica de Ferro, da qual hoje restam tombadas as ruinas, nas margens do riacho Ipanema, o que aos indios significa “rio infeliz”.Mas, no fundo, a primeira Real Fábrica de Ferro nasceu de uma lenda. O Morro de Ferro, às margens do Ipanema, foi descoberto em 1589 por Afonso Sardinha, quando em expedição a procura da Lagoa Dourada, “que num ponto qualquer da serra existia, nadando em suas águas peixes e patos de ouro”. Hoje, a quem quer que se pergunte em São João do Ipanema, sobre a tal Lagoa, não se houve resposta. Ninguém a viu, mas ninguém a contesta.

A Real Fábrica de Ferro não se pode afirmar que tenha sido um sucesso de empreendimento. Caso não fosse, não existiriam hoje dela apenas as ruínas. A instalação da Fábrica em 1800 pelo Capitão Manoel de Melo Castro e pelo químico João Manço marcou, sem dúvida, o início da exploração econômica das jazidas de ferro do Brasil. Mas, por outro lado, a criação da Fábrica assinalou um dos primeiros e mais rumorosos casos de incuria administrativa no Brasil.

"A primeira fonte de infelicidade desta Fábrica foi a Companhia Sueca que trouxe Hedberg, o qual em vez de trazer mestres fundidores, refinadores e moldadores, trouxe os mais que de manipulação de ferro nada sabiam", essas palavras são de José Bonifacio de Andrada e Silva que em 1820, com a fábrica já decadente deu o golpe mortal na empresa ao denunciar irregularidade da fundação da fábrica, num relatório onde sua assinatura vinha com a autoridade de Intendente Geral das Minas e Metais do Reino.

Já na República, todavia, o presidente marechal Hermes tentou um reerguimento da Fábrica. Um relatório confidencial do Ministro da Guerra Pandiá Calogeras, entretanto, liquidou definitivamente com a Primeira Real Fábrica de Ferro, da qual hoje restam tombadas as ruínas nas margens do riacho Ipanema o que aos nativos significa "rio infeliz". (“Nas margens do Rio Infeliz as ruínas centenárias do embrião de V. Redonda” Correio Paulistano/SP, 11/9/1960. p10)


"Essa serra é tão grande" - Limitam-se a divagar.

A História

A Real Fábrica de Ferro não se pode afirmar que tenha sido um sucesso de empreendimento. Caso não fosse, não existiriam hoje dela apenas as ruínas. A instalação da Fábrica em 1800 pelo Capitão Manoel de Melo Castro e pelo químico João Manso marcou, sem dúvida o início da exploração econômica das jazidas de ferro do Brasil. Mas, por outro lado, a criação da Fábrica assinalou também, a existência de um dos primeiros e mais rumorosos casos de incúria administrativa no Brasil.

O capitão Manoel de Melo Castro e o químico João Manso haviam sido autorizados a proceder estudos para a montagem da "fábrica de ferro" por uma Carta Régia, datada de 19 de agosto de 1799. Das pesquisas fizeram um relatório. Com base no relatório daqueles dois pioneiros técnicos, D. João VI ordenou, por volta de 1805, que se arregimentassem especialistas na Europa para organização da Fábrica. O encarregado de tal tarefa de contratação foi o cônsul Bayer em Estocolmo, Suécia. Esse funcionário diplomático português enviou então ao Brasil um seu credor de nome Carlos Gustavo Hedberg, que nunca fora especialista em siderúrgica. Junto a esse aventureiro vieram outros leigos e apenas um técnico em usinagem, o coronel Alemão Frederico Varnhagen.




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