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Afonso d´Escragnolle Taunay
Historia Geral das Bandeiras Paulistas Escripta á vista de avultada documentação inedita dos archivos brasileiros, hespanhoes e portuguezes Tomo Quarto - Cyclo de caça ao indio - Luctas com os hespanhoes e os Jesuitas - Invasao do Paraguay - Occupação do Sul de Matto Grosso - Expedições á Bahia - Desbravamento do Piauhy (1651 - 1683)
1928, domingo ver ano



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Além destas duas grandes entradas bahianas quinhentistas, citemos ainda no mesmo século as de Sebastião Alvares e João Coelho de Souza no São Francisco.
Morreu este no sertão e seu irmão Gabriel Soares de Souza, herdeiro de seus segredos, foi á Europa ver se a coroa lhe proporcionava os recursos necessários ás explorações enormes que pretendia encetar, em busca dos formidaveis tesouros que o irmão pretendera haver encontrado no interior do Brasil.

Obteve-os em larga escala, assim como patentes e promessas de toda a espécie, tudo isto após grandes delongas, aliás. Mas naufragou em 1590, ao voltar, á foz do Vasa-Varris, perdendo todo o seu material. Procurou valer-lhe D. Francisco de Souza, que então inaugurava o seu governo, e com estes novos elementos encetou Gabriel Soares, em 1592, a sua entrada.

É d. Francisco de Souza geralmente acusado de se haver apoderado dos seus papéis e roteiros, requerendo mais tarde e obtendo-os "os mesmos privilegios e concessóes outorgadas a Soares e ainda outras" no dizer de Varnhagen.
[Historia Geral das Bandeiras Paulistas, 1928. Gabriel Soares, cyclo espirito santense. Página 55]

Graças á carta e relatório, circunstanciados, do sargento mór Diez de Andino, ao rei, datados de Assunção e de 24 de maio de 1676, possuímos numerosos elementos para reconstituir a segunda parte da jornada de Francisco Pedro Xavier, o regresso ao Brasil.

Neles nos dá o chefe militar os mais curiosos pormenores. Assim, começa explicando que de Villa Rica a Assunção medeavam oitenta léguas, distando ela dez de São Pedro de Terecañe, a últimas das aldeias do seu distrito, e uma apenas de Ibirapariyara e Candelaria.

A explicar a causa de não resistência ao invasor, expõe quanto na região havia falta de armas e munições, achando-se o inimigo numero, perfeitamente apetrechado. E mais, surgira no momento em que se encontravam quase todos os homens espalhados pelas matas, ocupados no corte da herva mate.

De Maracajù, também apresada, haviam os paulistas tentado surpreender Ypané e Guarambaré, situadas muito mais ao sul. Malograra-se-lhe o intento pelo fato de se refugiarem os nativos destes pueblos, avisados em tempo, na capital paraguaya.

Saindo a 22 de fevereiro de Assunção, rumara Andino para o Norte, com 314 soldados brancos e 248 nativos apenas. A 4 de março, acampando em um lugar por nome Bogado, á espera de novos contingentes nativos, do sul, chegou-lhe ao quartel a notícia de que um trânsfuga, certo mulato Raphael, atingira as avançadas dos paulistas em Terecañe, avisando-os da aproximação do exército espanhol. E eles, imediatamente, trataram de acautela a rica presa efetuada, colocando-a ao abrigo das vicissitudes de uma campanha.

Longos comboios de nativos recém-cativos puseram-se logo em marcha, demandando o porto do Rio Amambahy, onde os esperava, sob forte guarda, a sua esquadrilha de batelões. [Historia Geral das Bandeiras Paulistas Escripta á vista de avultada documentação inedita dos archivos brasileiros, hespanhoes e portuguezes Tomo Quarto - Cyclo de caça ao indio - Luctas com os hespanhoes e os Jesuitas - Invasao do Paraguay - Occupação do Sul de Matto Grosso - Expedições á Bahia - Desbravamento do Piauhy (1651-1683), 1928. Afonso d´Escragnolle Taunay (1876-1958). Página 81]

Curioso e inesperado incidente ocorreu então: apresentou-se ao comandante castelhano certo licenciado d. Juan Mongel Garcez, dizendo-se espanhol, natural do bispado de Pamplona, reino de Navarra, e morador de São Paulo. Acompanhavam-no dois filhos e uns escravos. Contava este personagem, enigmático e estrambótico, que largo tempo vivera na vila brasileira, prisioneiro! Era médico, físico, e si ao Paraguay acompanhara a expedição, do caudilho paulista, fizera-o com o único fito de poder fugir ao cativeiro, e passar a viver com os seus compatriotas...

Achando estranho o caso e suspeitos estes acendramento e dedicação, nacionalistas, ordenou Andino que a tal licenciado e aos seus se pusesse guarda contínua, devendo eles acompanhar a marcha da expedição, isto apesar dos protestos do vigiado principal, que continuava a reiterar a sua lealdade.

Si se abalançara a tão perigosa deserção, apenas o incitava o desejo de servir á coroa católica, informando ao cabo de guerra da retirada e itinerário do inimigo. Mas Andino que não desejava ser destes capitães censurados por não cuidar, pôl-o em severa custódia á espera de novas provas de sincera amizade.

Era bem exato contudo o que este indivíduo relatava, a saber, que vivera em São Paulo. Nas ata da Câmara paulistana nós lhe vemos o nome diversas vezes como fiador e sócio de contratadores de impostos, os escrivães municipais lhe chamavam de "João de Mongelos", como na ata de 6 de junho de 1665 em que figura como procurador de uma mulher que demandava com os jesuítas. [Historia Geral das Bandeiras Paulistas Escripta á vista de avultada documentação inedita dos archivos brasileiros, hespanhoes e portuguezes Tomo Quarto - Cyclo de caça ao indio - Luctas com os hespanhoes e os Jesuitas - Invasao do Paraguay - Occupação do Sul de Matto Grosso - Expedições á Bahia - Desbravamento do Piauhy (1651-1683), 1928. Afonso d´Escragnolle Taunay (1876-1958). Páginas 82 e 83]

Mostrou-se, então, Don Juan Mongelos muito solicito e carinhoso para com os feridos a quem com grande dedicação e perícia de cirurgião pensou. Dos seus operados apenas perdeu três.Pela madrugada de 20 de março, de 1676, ordenou o chefe espanhol que os feridos fossem enviados á retaguarda da coluna. [Historia Geral das Bandeiras Paulistas Escripta á vista de avultada documentação inedita dos archivos brasileiros, hespanhoes e portuguezes Tomo Quarto - Cyclo de caça ao indio - Luctas com os hespanhoes e os Jesuitas - Invasao do Paraguay - Occupação do Sul de Matto Grosso - Expedições á Bahia - Desbravamento do Piauhy (1651-1683), 1928. Afonso d´Escragnolle Taunay (1876-1958). Página 86]

Na opinião do informante, estava sobremodo comprometida a posse castelhana dos territórios ao sul do Iguassù os "pueblos de las Provincias del Paraná", a começar por Itapùa. Três caminhos, abertos pelos paulistas, para ali se dirigiam. O Paranapanema "também llamado Pirapó", o Ivahy e o Pequiry, através do sertão "de los Pirianes y tierras de los infieles Guayanas", nativos já por eles exterminados e cativados. Entrada mais comoda realizavam, porém, pelo Tietê, "el rio Anambuy (sic) que corre por San Pablo, Pernaíba y Ituassù" e o Paraná. [Historia Geral das Bandeiras Paulistas Escripta á vista de avultada documentação inedita dos archivos brasileiros, hespanhoes e portuguezes Tomo Quarto - Cyclo de caça ao indio - Luctas com os hespanhoes e os Jesuitas - Invasao do Paraguay - Occupação do Sul de Matto Grosso - Expedições á Bahia - Desbravamento do Piauhy (1651-1683), 1928. Afonso d´Escragnolle Taunay (1876-1958). Página 90]

E para documentar a asserção, relatava o cabo castelhano que justamente fizera Pedro Xavier base de operações em um ponto do grande rio, perto das ruínas de Ciudad Real,ali deixando forte destacamento para se guardar a retaguarda.

E, além das vias fluviais, existia o caminho terrestre, muito conhecido, nos anos antigos, pois servira de comunicação entre Ciudad Real e as aldeias jesuíticas. Por ele, em quarenta dias se atingia a vila de Sorocaba, assim contavam Juan de Mongelos e os prisioneiros.

Quanto aos Payaguás, era indispensável trucida-los todos, e quanto antes, "asi por las atrocidades que tienen cometidas con ruyna de las ciudades de la nueva Jeres y la Concepción, la villa de Jujuy y muchos lugares de nativos como porque no quieren abraçar la fé".

Largamente conversara ele com d. Juan Monjelos sobre as coisas de São Paulo. Pelo trânsfuga da expedição paulista ficara sabendo que na Capitania havia 4600 brancos e 20000 nativos tupys, capazes de pegar em armas. Dos nativos informara que manejavam as espingarda com singular destreza, assim como "alfanges y machetas de más de las flechas, balientes y ossados como cualquier portugués". [Historia Geral das Bandeiras Paulistas Escripta á vista de avultada documentação inedita dos archivos brasileiros, hespanhoes e portuguezes Tomo Quarto - Cyclo de caça ao indio - Luctas com os hespanhoes e os Jesuitas - Invasao do Paraguay - Occupação do Sul de Matto Grosso - Expedições á Bahia - Desbravamento do Piauhy (1651-1683), 1928. Afonso d´Escragnolle Taunay (1876-1958). Páginas 91 e 92]

Nova prova de quanto eram hipócritas todas as disposições relativas á legislação de nativos temol-a no registro de 17 de novembro de 1682 em que o juiz de órfãos Salvador C. de Almeida pede aforamento de terras dos nativos por não as ter perto da vila "para acudir ás suas obrigações nem cercado para segurança de seus cavalhos". Prometia não prejudicar os nativos e pagar pataca e meia por ano. E assim obteve o que pretendia.

Não admira pois que numerosos outros particulares, homens e mulheres lhe seguissem os exemplos e passos pagando alguns vinténs por ano e promessa de não fazer mal aos nativos! Assim Isabel Pompeia, Manuel de Zouro e quantos mais. [p. 265]sar a comsesão de que se pudese hir ao sertão, por ser a Rais de q. brotão os escrupulos aos Moradores desta vila, com o pretesto de os trazer ao gremio da Igreja, e alimentalos com o leite da fé”.

Imagine-se o alvoroto causado por tão inesperado resultado, o mais favoravel possivel aos escravistas. Assim, pelo orgão do escrivão municipal estes se derreteram em agradecimentos que iam do Padre Provincial ao Papa.

“E por esse modo se poderia seguir sem remorso a possessão e venda do dito gentio emtre os mesmos moradores, testando deles, para o que pasasem procurasão para o dito Reverendo procurador geral enviado a Roma o poder fazer com S. Mgde. q. deus guarde e sendo necesario com sua santidade; e nesta forma agradeserão ao Rd.º padre provinsial o bom e liberal animo com q. fes esta offerta e pa. q. em todo o tempo conste o q. neste negosio se assentou Mandarão fazer este termo.”

Tambem tão satisfeita ficou a Camara que fez reunir logo o bom deste povo e este “a cada hum em particular diserão era mto. boa a rezolução determinada merecendo o Padre Provincial mil agradecimentos pelo seu bom zello e liberal animo”. E ao termo assignaram dezenas de homens do maior prestigio, como Pedro Taques de Almeida, Gaspar de Godoy Collaço, Braz de Arzão, José Ortiz de Camargo, Lourenço Castanho Taques, Salvador Jorge Velho Garcia Rodrigues Velho, Isidro Tinoco de Sá, Thomé de Lara de Almeida, Domingos da Silva Bueno, Manoel Lopes de Medeiros, etc.

Tanto se alegrou a Camara com o desfecho da grave questão que a 17 de março de 1685 jubilosissima, resolvia participar ao Goverador Geral do Brasil, Marquez das Minas que á vista da atitude da população e suas autoridades haviam os jesuitas resolvido ficar.

"Um movimento popular partido da desconfiança que ha na possesão do gentio da terra originou determinação deixarem os religiosos da Companhia este Collegio e como fosse o sentimento dos bons tão grande quanto mostra a muita alegria que hoje ha por tornarem a acceitar a petição de que não deixem esta terra nos pareceu bem .... muito para socego e medicina desta chaga velha para o que se offereceu zelosamente o padre provincial Alexandre de Gusmão esperamos que a muita validade de vossa excellencia ajude a grangear esta gloria a Deus”.

E arroubadamente dizia a Camara que S. Excia. seria eternamente abençoado em terras de S. Paulo como o grande D. Francisco de Souza “cujo patrocinio fora particular a esta terra” e cuja memoria vivia sempre entre os paulistas.

No mesmo dia se escreveu ao Geral da Companhia que então era o belga De Noyelle. Significava-lhe a Camara quanto lhe doera a noticia da extincção do Collegio de S. Paulo, uma casa mais que secular.

"Por bem todas as razões que a vossa reverendissima se representaram para tirar os padres da nossa terra duram ha mais de cem annos em todos elles as toleraram os padres antigos e ..... foi o veneravel padre José de Anchieta que fundou esta villa o padre João de Almeida e outros varões apostolicos desta santa religião que habitaram este Collegio” com muita gloria dos seus e fructo das almas.

E explicava (Regulamento Geral, III, 460): Esta villa é um povo mui dilatado com outras muitas villas circumvizinhas ha muita falta de pregadores e mestres que ensinem o caminho do céu e só de indios passam de mais de sessenta mil almas em que os reverendos padres podem empregar seu santo zelo com amiudadas missões por estar esta sorte de gentio muito falta de doutrina e porque conhecemos esta falta pedimos nos tempos passados ao muito reverendo padre provincial Gaspar Alves quizesse mandar alguns missionarios que soubessem lingua do Brasil para que continuadamente andassem doutrinando os indios pelo grande serviço que nisso fazia a Deus mas nunca até agora teve effeito esta nossa petição escusando-se os reverendos dos padres com a fa... com tudo no que agora pedimos a vossa reverendissima esperamos ter despacho certo...”

Haviam os paulistas recorrido á intervenção de seu bispo e do Padre Provincial Alexandre de Gusmão, contava-se ainda. Terminava a missiva por ardente supplica. “Este nobre senado em nome de todos estes povos prostrados diante de vossa reverenda paternidade lhe pedimos seja servido por. [p. 287, 288]





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01/01/1928, atualizado em 18/02/2026 00:57:36
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