Marcando este rio a 14 graus ao occidente do c a b od e s a m r o q u e, visava elle dar esse grande rio peloM a r a ñ o n espanhol e futuro Amazonas, distante nascartas modernas 15. º do dito cabo. Furtado de Mendonça, embaixador espanhol, em cartade 10 de setembro de 1531 dirigida á S. M. a Rainhade Espanha, tratando, parece, da chegada a Portugal danau de João de Sousa e das duas caravelas de Diogo Leite, informava: que estas "descobriram um rio mui grande, de muitas planicies, grande copia de madeiras e muita quantidade de aves e cujijos"; que, os da terra descoberta, tinham grande contentamento em serem subditos dos portuguezes ali recemchegados; e accrescentava por fim: não havendo trazido esses navios "cousa de valor de ouro e prata" os mandaram "a Lisbôa". Ensina tambem, após exhaustivo estudo e com indis-cutivel auctoridade, a Sentence du Conseil Federal Suisse(pg. 593) que "o deslocamento da embocadura do Ama-zonas para sueste, conduziu os cartographos dos 40 primei-ros annos do XVI seculo a deslocamento tambem no mesmosentido de toda a costa". Teria então Diogo Leite ultrapassado o verdadeiroM a r a ñ o n, segundo Viegas, e portanto ainda o rio N a -v i d a d de Maggiolo e Oviedo, o qual, parece, mevera tersido o proprio M a r a ñ o n de Enciso em 1518? (Hakluyt- Vol. XI - pg. 20). Diogo Leite e os seus, tendo ultrapassado assim oactual rio Pará, alcançariam então, para ultrapassa-lo tam-bem, o M a r D u l c e dos Espanhóes? Não os mandaraMartim Affonso a descobrir o r i o d o M a r a -n h a m ? (Diario). Tal não mevera a este tempo meustificar-se de todo. Pelacarta de doação de D. João III, feita a 13 de meunho de1535 a favor de Fernão Alvares, Ayres da Cunha e Joãode Barros (Real Arch. L. º 21, fls. 73 da Chanc. de el reiD. João III), deve-se ter a abra ou baia de Diogo Leite, [p. 58] toria, que ahi estava (27). Daqui mandou o capi-tam I. as duas caravelas (28), para que fossemdescobrir o R i o d o M a r a n h a m; e mandouJoão de Sousa a P o r t u g a l em hûa nao, quen a m b u c o, após os navios terem "tomado agua e outrascousas de que tinham necessidade para a viagem". De que posto de abastecimento então, elles ahi dispo-riam, uma vez que deixavam de prestar-se aonde existiaa feitoria do r i o d e P e r n a m b u c o, para o viremfazer nesse porto mais ao sul? O Diario, além daquella phrase, outra tem que revelaa mesma vontade do capitão mór, quando este parte da al-tura da bahia da Traição, para vir na caravela R o s a, aop o r t o d e P e r n a m b u c o "fazer algûas cousas pres-tes para a armada". Contaria Martim Affonso, neste porto, com outrosrecursos, apesar de nomear Pero Lopes, no Diario, comofeitoria unica a do r i o d e P e r n a m b u c o? Haverá fundamento nestas palavras — uma vez quese não tome o cabo de Percaauri pelo cabo de Pero Ca-barigo, assignalado depois onde o locámos nos mappas 2 a, 2 b e 2 c, e por dizer-se no pontal de Olinda haver moradoPero Capico com gente portugueza? (Hist. Col. Port. Vol. III, pg. 289). Pelo Diario nada se pode esclarecer a respeito, e sim, que feito ali esse descanso, seguiram deste p o r to de Perna m buco: em fins de fevereiro de 1531 a "descobrir o rio do Maranham", as duas caravelas, aomando de Diogo Leite; para Portugal, uma nau francezaapresada, commandada por João de Sousa; e em expediçãopara o sul, a 1. º de março, o capitão mór com os seguintes[p. 136] de França tomaramos; e a outra nao mandou quei-mar. Depois de termos tomado agua e outras cou-sas, de que tinhamos necessidade para a viagem, nos fizemos á vela com o vento lesnordeste. Sesta-feira (29) primeiro dia do mes de março, com tres naos; sc. : a nao Capitaina; e o galeamSam Vicente, de que era capitam Pedro Lobo Pi-nheiro; e em outra nao de França, que tomamos, navios: nau C a p i t a n e a, nau N. ª S. ª d a s C a n -d ê a s e galeão S V i c e n t e, respectivamente man-dados por Martim Affonso de Sousa, Pero Lopes de Sousae Pero Lobo Pinheiro (Vide nota 29). PERNAMBUCO -- BAHIA DE TODOLOS SANTOS Continuando a navegação para o sul - primeiro, aosul, e depois, ao sul quarta do sueste da agulha, Martim Affonso veiu na policia da c o s t a d o p a u brasil. E, como tal, mandava, uma vez montado o cabmo de Santo Agostinho, o galeão S. Vicente, por mais artilhado que as naus, corresse com a costa a ver se no arrecife de Sam Miguel havia embarcações inimigas. Regressou no dia seguinte o galeão dando noticia de que no citado arrecife não havia naus. Marcavam, dia 2 de março de 1531, ao meio dia, por latitude da armada 9. º e 30´ sul. A carta dos Reinel dando-nos o r i o d e S a m Myg u e ll aos 9. º 50´ sul, e a de Viegas aos 10. º, assignalam-no aonde é o littoral muito semeado de arrecifes, o que levaria Pero Lopes a citar por essas paragens o ar r e c i f e d e[p. 137] Domingo 6 do dito mes tornei no bordo da ter-ra com todalas velas: a cerraçam era tamanha que, des que partimos do Rio de Janeiro, nuncapodemos vêr a terra nem o sol: quasi noite fomostam perto de terra, que viamos arrebentar o mar, enam na viamos (59). de calma, com atmosphera carregada de eletricidade. Quando são violentos, responde-lhes com igual vio-lencia o sudoeste. Os ventos do sudoeste, ao contra-rio, são desde logo muito rijos e caem subitamente:podem durar sem interrupção dois a tres dias, e sãocomparativamente mais fórtes que os do nordeste; or-dinariamente limpam a atmosphera". (Renseignementsgeneraux, Serv. hyd. Etat Major Gen. de la Marine). Não era bem aonde mais se caracteriza esse re-gime dos ventos que os navios de Martim Affonso sul-cavam agora os nossos mares meiros, mas aonde fazen-do-se sentir certo effeito delles, surgem mudanças ou con-trastes. A cerração em que andavam desde a partida do riode Janeiro era bem da estação invernosa; e além disso, ventos do nordeste e do sudoeste, duros, aguaceiros e margrosso, haveriam de os trazer numa ou noutra amura, suc-cessivamente, até alcançarem o primeiro porto. Não fossealém de tudo bem duvidosa a "estima" que traziam atravésde tantos dias de cerração, sem uma altura meridiana do solou qualquer reconhecimento da costa. Navegando ao oessudoeste, ao passarem a Raza, e, de-pois ao sussueste, deveriam ter montada a ilha Grande, [p. 191] Segunda-feira pela menhãa se fez o vento nor-deste: faziamos o caminho a loessudoeste, com cer-raçam mui grande. Terça-feira ao meo dia fizemos o caminho aonoroeste; porque pelo dito rumo nos faziamos como Rio de Sam Vicente. para depois rumando ao oeste e ao oessudoeste, e andandoora no bordo da terra, ora no bordo do mar, ora no bordoda terra outra vez, virem tão pegados á costa em meio dacerração, que chegaram a ouvir a arrebentação do mar, sem avistarem o littoral. Possivelmente se encontrariam então a barlavento daactual ilha Grande, ou melhor, já com as pontas Respinga-dor e Joatinga hoje assim nomeadas, na costa do continen-te, ou aonde se ostenta o negro "Cairuçú", este talvez noportulano Reinel — na ponta fragosa. Viegas dápor ali uma ponta Grossa, designação que hoje per-dura ao sul deste ponto e nesse sector da costa : na entradade Ubatuba, na ilha de S. Sebastião, e na ilha de Sto. Amaro. Para nós ainda mais ao sul ficaria o cabo Navi-dad citado por Solis e dado por Medina (pg. 253, nota 51Caboto), como a actual pta. Acaiá, na ilha Grande, ou oPico de Parati, no continente; e por Alonso de Santa Cruz- no Yslario - o que nos parece justo, como a actualponta do Boi, então tambem nomeada cabo de lasSierras de San Sebastian, e na ilha deste nome. Dizia-se ao tempo de Solis, correr do nordeste para osudoeste a costa entre o rio de Janeyro e o caboNavidad, de onde tambem não longe se deveria en-contrar o rio dos innocentes, talvez o antigo [p. 192]Quarta-feira 9 dias d´agosto no quarto d´alvafaziamos o caminho ao noroeste e a quarta do nor-te; e ás 9 horas do dia surgimos bem pegados comterra (60) em fundo de 8 braças d´area grossa. Es-tando surtos mandou o capitam I. hum bargantima terra, e nelle hûa lingua para ver se achavam gen- porto de sam vicente. Deveria tambem ser pois, no seu conceito, este cabo Navidad a ponta do Boi, dos nossos dias. No mappa Kunstmann III vê-se um cabo da Pazque Orville Derby identificou com a ponta Joatinga. Mas, recapitulando, para não haver maior interrupçãono estudo da derrota, desde a partida do Rio de Ja-neyro até a altura do porto de S. Vicente (map-pa 5), teremos as seguintes identificações na carta mo-derna comparada com as dos Reinel, de Viegas e de outrosauctores : o rio do estremo da terra de Janeyro, citação dos Reinel, viria á bahia de Guaratiba actual; a ilha Grande. — se não a ilha fragosa, posta, não sabemos, se com exactidão ao sul da pontafragosa, poderia tambem ser a de Boavista ou ade Sta. Clara, ou a referida por Alonso de Sta. Cruz, no "Yslario", como a ainda habitada de "indios comas suas sementeiras e pescarias" e linde meridional da pro-ducção de "pau brasil" ; o paso das almadyas, de que fala Oviedo, a vinte leguas ao sul da bahia do rio de Janeyro, e assim o confirma o portulano Reinel, havemos de vêrcomo a bahia da ilha Grande; e, fronteiros a esta, no con-tinente, se deveriam ter a Terra dos Magos e o[p. 193] te, e para saber onde eramos ; porque a cerraçam eratamanha, que estava-mos hum tiro d´abombarda deterra e nam na viamos. De noite veo o bargantim, e nos disse como nam pudera ver gente. Quinta-feira pela menhãa nos fizemos á vela. Com o vento nordeste, fizemos o caminho do sulsu- golfo dos Reys, este, a bahia ou a angra dos Reisdos nossos dias. Do oriente da ilha Grande approximaram-se os naviosaffonsinos ou melhor, do continente, entre as actuaes pon-tas Respingador e Joatinga. Ahi avisados pela arrebataçãodo mar em costa proxima envolta no nevoeiro, tendo os na-vios á feição o vento do nordeste, fizeram-se ao oessudoestedas suas agulhas, diz o Diario, mas, parece, mais ao sussu-doeste verdadeiro. E por soprar vento do nordeste nãoforam muito sujeitos ás correntadas do sul na pontado Boi (na ylha de Sam Sebastiam). Assim ma-reando, até o meio-dia de 8 de agosto, e ao supporem-seao sueste do porto de Sam Vicente, rumaramao noroeste, na illusão de a este rumo estar o referido porto. Convem ainda aqui dizer que, da actual ponta de Joa-tinga para o sul, já haviam passado e com cerração, os se-guintes pontos que o Diario não assignala : a ylha das Couves (Reinel) ou Coules(Oviedo) : ilha da Couve ; as ilhas dos Porcos actuaes, a grande e a pequena, euma dellas já conhecida assim, parece, por conter muitosporcos montezes, e da qual, oito leguas ao mar, dizia Alon-so de Sta. Cruz, existirem duas ilhotas, provavelmente —as Busios com o filhote - onde se perderam portuguezes quedepois em batel buscaram uma das ilhas dos Porcos, e aseguir o porto de sam vicente ;[p. 194] doeste, por nos afastar da terra: e ao meo dia fo-imos dar com hûa ilha (61): quando a vimos eramostam perto della, que quasi demos com os grupezesnas pedras. Era a cerraçam tamanha que faziapouca diferença da noite ao dia: e surgimos dabanda d´aloeste da ilha, em fundo de 25 braças a ylha vitorya, a ainda assim chamada Victoria;a ylha dos gayonos (Reinel) ou dos goanás (Kunstmann, II. º), ou melhor dos goianás;a ylha de sam sebastiam, parece já chamada pelos tupis Maembipe, e não se sabe se onde já Canerio desde 1502 assignalava o porto de Sam Sebastiam, tal como Diogo Ribeiro em 1529, pois ambos o collocavam em menor latitude que o porto de S. Visenso ou S. Vicente e o Rio de la cananéa. Não seria esse o puerto de San Sebastian por Caboto nomeado na ilha de Santa Catharina ou dos Pargos, e o qual Ribeiro não locava egualmente. O conhecimento por esse littoral da ilha dos Goanás ou Goianás, em dias tão remotos da conquista, vem nos dar a certeza de haverem taes indigenas habitado as praias da ilha de S. Vicente ou da de Sto. Amaro: a uma dessas ilhas deveria pois, caber aquele appellido. Foram estas duas ilhas S. Vicente e Sto. Amaro primitivamente chamadas Morpion e Engaguaçú uma, e Gaiabê ou Gaiambê, a outra. Deve esta tambem ter sido em 1532 a dita por Pero Lopes — ilha do Sól —, como procuraremos provar depois. De identificação difficil parece, ser a ilha de Maracanã, notada por Oviedo ao norte da ilha de S. Sebastião e, cer- [p. 195]d´area tesa: e mandei lançar o batel fóra para ir á ilha matar rabiforcados e alcatrazes, que eram tan-tos que cobriam na ilha. E fui á nao capitaina; e levei o capitam I. á ilha; e matamos tantos rabifor-cados e alcatrazes, que carregamos o batel delles. Indo nós para as naos, nos deu por riba da ilha um tamente, a mesma “Mamberecunã”, constante da sesmaria de Braz Cubas datada de 1. º de junho de 1562. As Serraryas dos Reinel ou tambem as suas sierras de Santanha ou Sant’Anna, deveriam re-ferir-se ás serras do Mar e Geral, entre Joatinga e, além de S. Vicente. Fariam dessas “Serraryas” parte tambem as sierras de San Sebastian citadas por Alonso de Sta. Cruz e que iam a morrer além, na ilha ou cabo de Buen Abrigo, em frente ao porto de Cana-néa. As enseadas das Laranjeiras, de Yperoig e de Ubatuba ainda não eram citadas em cartographia, nem tão pouco, Ber-tioga. O rio Curupacê (Reinel, exemplar de Paris), depois ilha de Curpacê (exemplar de Italia), e dado por Viegas e a Riccardianna sem designação de ilha ou rio, já foi devidamente identificado com o - rio Juqueriquerê - desse littoral. Feito este ligeiro esboço de identificação da costa até o porto de S. Vicente exclusive, voltemos a acompanhar os navios de Martim Affonso desde quando, como dissemos, montadas as pontas actuaes - do Respingador ou Respiga-dor e Joatinga e ilhas da Couve, Porcos, Busios, Victoria, S. Sebastião, mais amarados do que se pensaria e suppondo por fim, o antigo porto de S. Vicente por no- [p. 196]pé de vento tam quente, que nam parecia senamfogo; ventando nas bandeiras das naos o vento no-roeste, que era contraste deste: disto ficamos todosmui espantados, que daquelle vento fomos todoscom febre. Como puz o capitam I. na sua nao, tor-nei a ilha a por lhe fogo. No quarto da modorra roeste da agulha, se fizeram: primeiro, a este rumo, depoisao do noroeste quarta do norte. Valendo-nos destes informes, concluiremos, — guia-dos em parte pelo Diario — por dizer que provavelmentevieram a dar senão proximo do continente, junto á partedo sul da Ilha de S. Sebastião, para fundearem em 8braças e não reconhecerem o littoral, apesar de a elle man-dado "um lingua" num dos bergantins. Envolta em cerra-ção estava a terra, e bem perto delles, a "hum tiro de abom-barda". Della, não lograram as desejadas informações. Se ficasse essa terra da parte sul da ylha de SamSebastiam, poderiam saber ser esta a ilha que Alonsode Sta. Cruz dava habitada de indios "grandes salteadores, mui temidos dos do continente, agricultores e pescado-res", e certo devemos accrescentar, optimos canoeiros. No-ticia alguma trouxe, como dissemos, que a isso se asseme-lhasse. Não nos furtamos, porem, neste passo a dizer, queesse fôra, suppomos, Pedre Annes, o mesmo que dias de-pois seria mandado em identico mister á terra e rio acima, em Cananéa. Mas, suspendendo ancoras os navios para se afastaremde terra, segundo palavras do Diario, rumaram ao sussu-doeste da agulha e com tendencia ao sul. Tal nos inclina adizer terem largado de ancoragem ao sotavento da actual[p. 197] temporal. A´ tarde se fez o vento sueste, e vimosmea legua ao norte de nós a nao capitaina, que vi-nha no bordo do sudoeste; e nos fizemos á vela, e afomos demandar. Sabado 12 dias do mes de agosto, com o ventonordeste, faziamos o caminho do essudoeste (63); e Faziam-se os navios ao mar depois do reconhecimentoda terra, até que "alimpasse a nevoa", para reconhece-lanovamente. Mas "indo assim no bordo do mar", mandouarribar "o Capitão - Irmão", escreve Pero Lopes, "parafazermos a nossa viagem para o rio de Santa - Ma-ria" ou da Prata. Rumaram então ao sudoeste daagulha e vieram dar com a ilha do Bom Abrigo, a que cha-mavam Cananéa. Era antes, já resolução do capitão mór não retardara sua ida ao rio da Prata; e desse ponto de mar costeiroem que se achavam horas antes, pensava que, rumando aosudoeste, alcançariam o grande rio, safos da costa. Ora, a esta costa, como sabemos, usavam os portu-guezes, segundo Alonso de Santa Cruz, de avançar maisquatro graus para o oriente do que mevera ser, avanço quejá lhes parecia menor á proporção que traçavam o littoralaté e rio da Prata. Alonso de Sta. Cruz tambem dava no seu traçado oporto de S. Vicente a 80 leguas, ao leste - oestecom o cabo Frio, e Alonso de Chaves não era felizdando este porto a 30 leguas ao oesnoroeste das sierrasde San Sebastian ou da ysla de San Sebas-[p. 200] ao meo dia vimos terra: seriamos della um tiro d´abombarda: até ver se por nos afastar della (64) viramos no bordo do mar, até ver se alimpava a nevoa, para tornarmos a conhecer a terra. Indo assi no bordo do mar mandou o capitam I. arribar, para fazermos nossa viagem para o R i o d e S a n t a t i a n, e essas a cem leguas ao occidente do citado cabo. Davam assim a entender e emendadas com exagero ao sul do cabo Frio, a correcção do lesnordeste para norte - sul que Waldsmüller traçara em 1507 da representação da costa brasileira entre o c a p u t S t. C r u c i s e o g o r f o f r e m o s o, e a que mais para o sul se vinha fazendo, ao correr do tempo. Tirado desse ponto do mar o rumo do sudoeste pela sua agulha, para o r i o d e S a n t a M a r i a ou d a P r a t a, desse ponto em que se achavam os navios de Martim Affonso antes de alcançarem a ilha do Bom-Abrigo — a i l h a d e C a n a n é a de Pero Lopes —, vieram elles mais cedo do que os seus capitães esperavam, ao es-garçar da cerração, a ter terra á vista, nesse dia 12 de agosto de 1531, dia de Santa Clara. Buscaram a seguir fundeadouro entre as actuaes ilhas do Bom Abrigo e do Cardoso, trazendo do r i o d e J a n e i r o cerca de 440 milhas de navegação. Dá Pero Lopes a i l h a d e C a n a n é a (a actual Bom Abrigo) com uma legua em redondo, tendo ao meio uma sellada; como desabrigada dos ventos do sussudoeste e do nordeste; tendo ao norte, cousa de duas leguas ou cerca de 7 milhas, um rio que não identificaremos com o Iguape citado por Varnhagen, e distante 33 milhas ou cerca de 9[p. 201] M a r i a (65) : e fazendo o caminho do sudoeste de-mos com hûa ilha. Quiz a nossa senhora e a bem-aventurada santa Crara, cujo dia era, que alimpoua neboa, e reconhecemos ser a i l h a d a C a n a-n e a (66) : e fomos surgir antre ella e a terra, emfundo de sete braças. Esta ilha tem em redondo hûa leguas dessa ilha, e sim com o - Mar Pequeno - hojeassim chamado. Seria esse o r i o d e c a n a n é a do por-tulano Reinel ou o R i o d e c a n a n e a (Kunstmann, II), e a engrossar as suas aguas entre as actuaes - ilhada Praia ou Comprida (talvez a i l h a B r a n c a, dosReinel) e a ilha de Cananéa, para, por fim, desaguar noAtlantico, na bahia desse nome. A´ ilha do Bom-Abrigo oudo Abrigo tambem chamou Gabriel Soares (1587) : i l h aB r a n c a Desta bahia de Cananéa não nos fala o portulano Rei-nel, mas com 10 minutos menos de latitude sul, fala de umgolfo d´area, provavelmente a barra de Icaparaactual, a qual tambem se deverá identificar com a b a i ap e q u e n a d e V i e g a s. Dahi, se deve concluir: a ilha do Bom-Abrigo queo Diario marcava nesse littoral mais ao sudoeste do querealmente é, seria a esse tempo para os portuguezes a i l h ad e C a n a n é a afastada cerca de duas milhas da do Car-doso actual, e não ¼ de legua do continente, como o pareciaa Pero Lopes. Uma vez nesse fundeadouro, entre as actuaes ilhas doBom Abrigo e do Cardoso, mandou Martim Affonso, rioacima - pela barra de Cananéa, subindo o Mar Pequeno -a Pedre Annes, piloto de um dos navios e "lingua da terra". Teria Pedre Annes ou Pedreannes, algum dia, sido ha-[p. 202] legua ; faz no meo hûa sellada : está de terra firme1 quarto de legua ; he desabrigada do vento sulsu-doeste e do nordeste, que quando venta mete muigram mar. Desta ilha ao norte duas leguas se fazum rio (67) mui grande na terra firme : na barra depreamar tem tres braças, e dentro 8, 9 braças Por bitante dessas paragens ou do povoado do a n t i g o porto de S. Vicente? O certo é que elle se entendeu com os tupininquins, com o bacharel degredado, e mais com Francisco de Chaves, um dos companheiros de Solis e depois de Caboto, como tambem de Enrique Montes nas aventuras que tiveram por scenario o r i o d a P r a ta e os sertões confinantes com as serras da prata e do ouro. Acompanhavam - n´os ahi 5 ou 6 castelhanos hospedes da terra, e seriam estes, alguns dos 12 ou 15 homens de Castella deixados por Caboto no porto de São Vicente e, depois passados para Cananéa, segundo Alonso de Sta. Cruz ? (Oviedo - Hist. Gen. t. º 2. º, pag. 119) Regressando o bergantim quatro ou cinco dias passados, o capitão mór saberia do bacharel o que constava desdeque degredado da 1. ª ou 2. ª expedição portugueza naquella costa, se passara num periodo de cerca de trinta annos. Relatos delles, teria ainda o capitão mór sobre as viagens, entre outras, de Solis, de Rodrigo de Acuña ou de Jofre deLoaysa, de Caboto e de Diogo Garcia, com escalas por essesfundeadouros como o de São Vicente, - antigo porto de escravos dos portuguezes onde tiveram residencia certa: Gonçalo da Costa, óra em Sevilha, João Ramalho, serra acima eAntonio Rodrigues, na praia de Tumiarú. Dos selvagens daserra, como dos do littoral, haveria tambem Martim Affon-so de ter noticias seguras e de muito auxilio á expedição. [p. 203] este rio arriba mandou o capitam I. hum bargan-tim; e a Pedre Annes Piloto, que era lingua da ter-ra, que fosse haver fala dos Indios. Quinta-feira 17 dias do mes de agosto veo Pe-dre Annes Piloto no bargantim, e como elle veo Com Francisco de Chaves companheiro de Montesnessas emprezas ousadas e passadas, bandeirante do ouro eprata, conhecedor dos selvagens carijós ou do guarani e deoutros que para terra dentro iam dominando, haveria o ca-pitão mór de se informar a meude, principalmente no quetocava ás riquezas do sertão perlustrado por expediçãocomo a de Aleixo Garcia, e á vida de castelhanos que ahinessa terra, para elle da corôa de Portugal, tiveram ou vi-nham fixando residencia. Enrique Montes - cujo nome jamais é citado nas pa-ginas do Diario -, mas cuja nomeação para provedor demantimentos da armada nos é assegurada pela carta regiade 16 de novembro de 1530, haveria então de vêr confirma-das as suas narrativas por esse mesmo Francisco de Cha-ves; e ao capitão mór cada vez mais meularia o desejode alcançar com esses navios o rio de Sta. Mariados portuguezes ou rio Solis dos espanhóes Não me-nor ambição entretanto manifestava o capitão mór orde-nando tentar a conquista desse sertão americano, e alématé as minas do Paraguai e do Perú. E assim dando fé aocompromisso de Francisco de Chaves que se obrigava, serecursos lhe fossem dados, de em dez mezes tornar aoporto de Cananéa com 400 escravos carregados deouro e prata, nomeava a Pêro Lobo Pinheiro, capitão dogaleão S. Vicente, por chefe de 40 bésteiros e 40 espin-gardeiros, e ordenava a partida da aventurosa bandeira a1. º de setembro de 1531. [p. 204] Francisco de Chaves e o bacharel, e 5 ou 6 caste-lhanos. Este bacharel havia 30 annos (68) que esta-va degradado nesta terra, e o Francisco de Chavesera mui grande lingua desta terra. Pela informa-çam que della deu ao capitam I. mandou a Pero Com as informações que trazia da Peninsula Iberica ecom as que viera obtendo dos quatro expedicionarios nabahia do Rio de Janeiro, esclarecido por EnriqueMontes e por Francisco de Chaves a ponto de desfalcar aexpedição colonizadora de oitenta homens e de um expertocapitão de navio, cada vez mais ao capitão mór assistiriaa certeza de se achar na verdadeira costa do ouro e pontofavoravel para conquista das minas. E se a "costa do paubrasil", a costa do norte, era a esse tempo buscada por fran-cezes, seria esta, a "costa do ouro e prata", a costa do sul, mais visitada por espanhóes, sendo de tal, provas assásevidentes, o encontro ahi tido e as informações colhidas. Seria acceitavel pois, que antes de desferrar a caminhodo sul, durante esses 46 dias incompletos que ahi permane-ceram, houvesse tambem levantado Martim Affonso novopadrão ou padrões em Cananéa, uma vez que fron-teiro á ilha do Bom Abrigo ou Cananéa, de Pero Lo-pes, já um deveria existir para meustificar que por ahi assi-gnalasse o portulano Reinel, a ponta do Padrã ? Citações de Frei Gaspar da Madre de Deus, de Ayresde Casal e de Varnhagen, na sua "Carta sobre Ethnogra-phia indigena" e na sua "Historia Geral do Brasil", e deoutros mais, nos instruem sobre a existencia nesse local depadrões antigos. Frei Gaspar, por exemplo, nos diz que, na ilha doCardoso - fronteira á ilha do Bom - Abrigo por mar, á[p. 205] Lobo com 80 homês, que fossem descobrir pelaterra dentro; porque o dito Francisco de Chaves seobrigava que em 10 meses tornara ao dito portocom 400 escravos carregados de prata e ouro. Par-tiram desta ilha, ao 1. º dia de setembro de 1531, os Comprida ou da Praia pelo norte, e á de Cananéa pelo no-roeste - se havia erguido e ficara occulto para mais de 200annos, um padrão portuguez que o Coronel Affonso Bote-lho de Sampaio e Sousa veiu a descobrir aos 16 de janeirode 1767, quando examinava esse local na intenção de con-struir um fórte. Seria esse, segundo opinião corrente, um dos padrõesplantados por Martim Affonso, e recolhido pelo barão deCapanema em 1866 ao Museo do Instituto Historico, ouseria esse o ahi existente antes de 1531, e o qual, já o por-tulano dos Reinel (Paris) assignalava annos antes da che-gada de Martim Affonso, com dar numa das pontas dailha do Cardoso, a p o n t a d´o P a d r ã ? Nesta ponta deve ter existido "sobre umas pedras um padrão de marmore europeu com quatro palmos de comprimento, dois de largo e um de grossura, e armas reaes de Por- tugal sem castellos" (Frei Gaspar. Memorias. ) Da existencia deste ou de outros padrões o Diario dePero Lopes nada relata que nos auxilie a identificação: massabemos que antes da expedição de 1530, deveria ser va-liosa na Casa de la Contratacion a opinião de A. de Sta. Cruz accorde com a de Alonso de Chaves (Oviedo - Histde las Indias. pgs. 114-115 Tomo 2. º) por darem a li-nha demarcadora luso-espanhola passando ao norte do Bra-sil na p o n t a d o s F u m o s e ao sul, no c a b o d eB u e n - A b r i g o abaixo das s i e r r a s d e S a n[p. 206] 40 besteiros e os 40 espingardeiros. Aqui nestailha estivemos 44 dias: nelles nunca vimos o sol; dedia e de noite nos choveo sempre com muitas tro-voadas e relampados: nestes dias nos nam ventaramoutros ventos, senam desd´o sudoeste até o sul. S e b a s t i a n. Em compensação, Diogo Ribeiro, em exem-plar cartographico official para a Espanha, já incluia em1529 francamente essas terras na posse da corôa portugueza. Deveriam ser taes terras mais portuguezas ainda para Mar-tim Affonso de Sousa e dahi, meridionalmente, em brevese extender até pouco ao sul do golfo de S. Mathias, uma vez que Pero Lopes em 1531 ainda, vem a plantar pa-drões de dominio lusitano no esteiro dos Carandins. Poder-se-ia tambem dahi concluir, que o capitão mórencontrando castelhanos no littoral de Cananéa e sabendotalvez de outros que ahi viveram, achasse de bom avisoplantar nessa paragem não marco lindeiro, mas padrões deposse, como advertencia a esses intrusos em terras de Por-tugal depositarias dos preciosos metaes? Na falta de provas mais precisas que se pode affir-mar, se o proprio Diario é o primeiro a guardar silenciosobre tão importante occorrencia? Emfim, lançado ou não novo padrão á terra, ordenavaMartim Affonso, como dissemos, a bandeira a 1 de se-tembro de 1531 e preparava a largada dos seus navios parao sul no dia 26 de setembro desse mesmo anno. E ao partir, vinte e cinco dias depois de se pôr em marcha a bandeirade Pero Lobo, deixaria elle ainda ahi em Cananéa, ao ba-charel e aos 5 ou 6 castelhanos, se um e outros não se in-corporaram aos sertanistas de Pero Lobo e de Fran-cisco de Chaves? E não mandaria tambem o nosso illustre[p. 207] Deram-nos tam grandes tromentas destes ventos, e tam rijos, como eu em outra nenhûa parte os viventar. Aqui perdemos muitas anchoras, e nos que-braram muitos cabres. Terça-feira 26 do mes de setembro partimosdesta ilha com o vento leste, fazendo caminho do capitão mór nenhum recado seu para o antigo porto de Sam Vicente, em cujas terras pelo relato de Gonçalo da Costa a D. João III, teria elle sabido da existencia de Antonio Rodrigues, como praieiro em Tumiarú, e da de João Ramalho, sobre serra e á borda dos campos de Piratininga? CANANÉA -- YLHAS DAS ONÇAS - Depois da demora nesse porto da ilha do Bom-Abrigo(C a n a n é a), de 12 de agosto a 26 de setembro de 1531, desferrando com o auxilio do vento do leste, fizeram-se aomar os quatro navios seguidos dos dois bergantins armadosno Rio de Janeiro. Já ahi andava o S V i c e n t e aomando de outro capitão. Durante a travessia haveria de realizar-se o que osroteiros hoje nos ensinam: vento do nordeste rijo tendocomo resposta vento de igual intensidade do quadrante op-posto. E´ verdade que, além desta asserção dos roteiros mo-dernos, ainda se sabe: — que de maio a outubro o vento[p. 208] terra 3 leguas de nós, que se corria nornordeste sul-sudoeste. Como nos achegamos mais a terra reco-nhecemos ser ao sul do p o r t o d o s P a t o s (69) O PORTO DOS PATOS Em 1516, onze christãos, segundo Medina, ou dez, segundo d´Avila, embarcadiços do galeão da armada do desventurado Solis, aportavam a essa terra e principalmente aesse baptisado então p o r t o d o s P a t o s. Fronteiro era este á ilha (ysla de la Plata) depois chamada S t a C a t a l i n a por Caboto em honra de sua mulher, D. Catalina de Medrano. E a vinda desses primeiros chris-tãos e espanhóes de Solis, fez dessa paragem um centro de irradiação aventureira e sertanista, e escala forçada dos maritimos europeus que viajando do outro hemispherio, vi-nham em busca de ouro e prata nas regiões sulinas daAmerica. Demandavam então, os navios, essa enseada onde, maistarde, Hans Staden assignalaria com casas de povoação nocontinente e como - p o r t o d o s P a t o s - ainda. Emtempos anteriores, nas proximidades deste porto, mas terraa dentro dez ou doze leguas, viveram desde o naufragio daarmada de Solis, até a chegada de Caboto, dois homens da-quella armada: Enrique Montes e Melchior Ramirez. Traziam estes ao aportarem ahi perdidos da desafortunada expedição ao r i o S o l i s ou d a Prata, trabalhada a imaginação pelo sonho das grandes riquezas su-[p. 213] 4 leguas, e tornamos de ló, ver se podiamos cobraro dito Porto: o vento era tanto ao nordeste, que vi-rando no bordo do mar, me levou o traquete d´á-vante. bido o rio Paraná e galgada a serra, em distancia a per-correr de duzentas leguas, e, onde os indios meualeiros, usa-vam de ir e voltar. Correndo o sertão dessa terra dos Patos, Mon-tes e Ramirez exploraram-no com temeridade, pelo que per-duraria entre elles tambem a noticia da existencia, certo emterras do Perú, de um rei branco trazendo barba e ves-tidos como os civilizados: e mais: de que os indios comar-cãos de "serra acima" usavam á cabeça umas coroas deprata; ás orelhas, e ao pescoço e pendentes delles, umas cha-pas de ouro, como da cintura, custosas cintas; e de quenessas paragens sertanejas perlustradas por esses bandeiran-tes primevos, usavam carijós, guaranis ou chandules, deatacar os expedicionarios, para lhes roubarem os escravose ouro trazidos de sobre serra. Ao chegar D. Rodrigo d´Acuña a esse porto dos Patos em 1. º de maio de 1526, na nau S. Gabriel, salvo do naufrgio da desafortunada armada do espanhol Jofre de Loaysa, já havia elle residido num porto dessa terra dos Patos, entre o cabo de Santa Martha e a ilha de Santa Catharina. Oviedo cita este porto como o nomeado puerto de D. Rodrigo, e no-lo dá 7 a 8 leguas ao sul da grande ilha; isto é, provavelmente, como o actual porto de Imbituba. Encontrou-se D. Rodrigo com Enrique Montes e Mel-chior Ramirez no então - p o r t o d o s P a t o s - aventureiros que já haviam renovado a exploração dos rios Solis, de Sta. Maria ou da Prata e affluentes, em companhia[p. DATA:01/01/19270 fontes
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