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*História do Brasil. Afrânio Peixoto (1876-1947)
1944, sábado



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alguns períodos dessa relação ou gazeta (que supomos haver sido escrita em Lisboa por um estrangeiro e publicada pela primeira vez em 1506”. (Varnhagen, op. cit. II, 4. ª ed. p. 98-9). Ora, o mss. da “Gazeta” foi achado, posteriormente, por Konrad Haebler, em 1895, no Arquivo dos Príncipes Fuegger, em Augsburgo, e traz a data de 1514. (cf. Clemente Brandenburger — A nova gazeta da Terra do Brasil, São Paulo — Rio, 1922). Portanto, Empoli, em 1504, e a Gazeta, em 1506, afastados.

|Chamei a atenção para o modo de Ramusio, ainda em1550-63, escrever na sua interpolação “Bresil”, distinguindoeste nome da terra, do nome da madeira, escrito adiante, emitaliano, “verzinio”. É que, aqui, tem cabida a hipótese queaquele nome é de origem francesa. Os nomes lusitanosVera-Cruz, Santa Cruz, não seriam mudados pela piedadeportuguesa: foram os piratas franceses, desde antes de 1504, (quando vieram, ao dizer de Anchieta, pela primeira vez) que designaram a terra pela riqueza conhecida, “terre du brésil”, depois daí “le Brésil”, como ainda hoje.

Nós tivemos, pela divulgação e aceitação do nome, de traduzi-lo: “Brasil”. Como quer que seja já em 1510 está em Gil Vicente, noAuto da Fama, “terra do Brasil”: mas será mesmo o Auto de1510?(14) De 1511, talvez: “Llyuro da naao bertoa que vaypara a terra do brasyll. que partiu deste porto de Lixª a 22 defevº de 511” é o título de um documento publicado por Varnhagen. A nau partiu em 11, mas o livro teria sido escritonessa data? Tudo leva a crer, mas não é certo.

Certa é a carta de Afonso de Albuquerque, de 1 de Abrilde 1512, da Índia, a el-Rei D. Manuel, “a qual (carta de umpiloto) tinha ho cabo de Bôoa Esperança, Portugal e a terra doBrasyll. ” (Alguns documentos. do Tombo, cit. p. 261). Porcerto é também de 1512 o mapa de Jerônimo Marini — OrbisTypus Universalis Tabula Hieronimi Marini fecit Venetia MDXII — cujo original possui o nosso Ministério do Exterior, na Biblioteca do Itamarati, onde se lê pela primeira vez, emplanta: “Brasil”. Um ano depois, e é interessantíssimo, é opróprio Dom Manuel que mudara Vera Cruz em Santa Cruz, segundo disse aos reis de Castela Fernando e Isabel e agora aum deles o diz, em 13 de Setembro de 1513: “na teerra. que hepegada com a nossa teerra do Brasyl” (Carta a el-Rei D. Fernando, de Castela, in Alguns documentos, p. 292). Mas é sempre “terra do Brasil”, como se dissesse, porabreviação, “terra do (pau) brasil”: o documento escrito em queprimeiro aparece Brasil só, como no mapa de Marini é o deDom Rodrigo de Acuña, de 15 de Junho de 27, ao bispo deOsma, dando conta da perda da armada que mandara Carlos Vàs Molucas e pedindo interceda junto de D. João III para lheobter a liberdade, preso que está na feitoria de Pernambuco (nosbaixios de D. Rodrigo, onde naufragara, e naufraga, mais tarde, o primeiro Bispo, comido pelos índios). Diz ele: “nos convinoarrybar al Brrasil”; (nesta carta há ainda “tyerra dei Brrasil” e“nao cargada de brrazil” (Alguns documentos. do Tombo, cit. p. 488-9). O nome Brasil vem de longe. Disse Humboldt, vem deSamatra, e levou quatro mil anos para nos chegar. É o nome deuma madeira tintorial, a Cesalpina ecchinata, especiaria trazidado Oriente à Europa, nome variamente escrito — braxile, bresillum, brisilium, bersi, verzi, verzino, como recentemente, há cinco séculos, o chamavam os Venezianos. Já dele falam ogeógrafo árabe Abuzeid El Hacen (IX século), Endrisi eChrestien de Troyes no século XII: este escreve mesmo Braisil, que dá, em francês, a pronúncia do nome atual nesse idioma. Teria vindo à Europa depois dos primeiros Cruzados, por voltade 1140. Tirava-se, do toro, a casca e o líber, e apenas o cernevermelho servia para tingir panos e fazer tinta, para iluminarmanuscritos, dando tons róseos às miniaturas. A madeira, dura ecorada, também aproveitava à marcenaria. [Páginas 40 e 41 do pdf] 13995§A geografia apoderar-se-ia do nome, e terras do Brasilhouve, antes da nossa: Krestchmer encontrou em mapasmedievais as seguintes variantes: Brazi, Bracier, Brasil, Brasiel, Brazil, Brazile, Braziele, Braziel, Bracil, Braçil, Braçill, Bersill, Braxil, Braxili, Braxiel, Braxyili, Brisilge. (15). É uma ou mais ilhas do Ocidente, no grupo dos Açores, ou naaltura da Bretanha, ou não longe da Irlanda. Ainda hoje há umapedra Brazil Rock, na Irlanda, e um monte Brasil, junto à cidadede Angra, na Ilha Terceira, dos Açores. Num mapa de 1351 jáaparece esta “ínsula do Brazil”, nesse Açores. Em 1480partiram de Bristol navios à procura da Ilha Brasil. Em 1497Ayala, legado de Espanha junto à Corte de Inglaterra, dizia quede sete anos àquela parte partiam de Bristol, anualmente, naviosà mesma pesquisa. Lá está, no mapa de Toscanelli, (1474) aonorte e oriente, a ilha Brasil. Até 1875 o Almirantado inglêsmanteve nas suas cartas essa “Brasil Rock”(16). Diz a erudição que os Árabes chamavam ao paubakkam, que traduziram em latim brasilium, procurando aanalogia da raiz semítica bakkham (ardente) com a arianabradsch, em português brasa, italiano brace, francês braise. Como se deu tal nome à geografia, é controvertido: Brasil, indicaria fenômenos vulcânicos notados no arquipélagoaçoreano; ou aí se teria encontrado senão o verdadeiro brasil, pelo menos algum sucedâneo, talvez a urzela. ContudoCapistrano de Abreu, reparando que nas formas gráficas egeográficas de Kretschmer não se vêem formas congêneres doverzi ou verzino, diz poder-se concluir que o Brasil, ilhaocidental, nada tem com o produto oriental. Conclui que naturalé proceda o nome do celta, e há quem o decomponha braza, grande, i: em todo o caso Brasil, ilha, aparece sempre noAtlântico e sempre a W de terras primitivamente habitadas porCeltas. Os índios chamavam à planta arabutan ou ibirapitanga. [Página 43 do pdf]

Os Portugueses conheciam o brasil: a 19 de outubro de 1470 Afonso V proibia aos traficantes da Guiné comerciarem que as tintas do brasil, protegendo talvez o produto das ilhas. Quando se começou o tráfico com os selvagens de Santa Cruz, a primeira matéria de exploração foi o brasil. No Esmeraldo, escrito em 1505, escreveu Duarte Pacheco da terra: “é achado nela muito e fino brasil com outras muitas cousas” — (cap. 2, do I livro).

Terre du brésil lhe chamaram os piratas franceses, e, depois, o menor esforço daria le Brésil, como ainda hoje. Esse menor esforço foi a causa da troca, que tanto indignou João de Barros: os políticos e sacerdotes, que batizam e dão nomes, não advertem que eles prevalecem na ordem da simplicidade. Em alguns anos apenas, a Terra de Vera Cruz já era pois, o Brasil. (17). E era — o que mais admira, na expressão do próprio Dom Manuel: “na teerra. que he pegado com a nossa teerra do Brasyl”. Piedosamente diríamos: nome mudado na crisma.

A palavra teve, no começo, várias acepções, que foiperdendo: Pau-brasil: “Cá ha assuquer e algodão, brasil eambre e resgates” (Cartas avulsas de Jesuítas, Rio, 1931, CartaXLVII). “Pera ali carregarem de brasil”. (Id. Carta XXVII). Aterra: “Todo o Brasil, que assim se pode dizer” (Id. Carta LVI). “Nestas partes do Brasil” (Id. Carta LXIII). A gente: “Paraestudantes — brasil fazem-no muito bem”. (Id. Carta LIV). “Osque tangiam eram meninos brasis” (Id. Carta LV). A língua:“Espera em pouco tempo falar tão bem brasil, como agoraitaliano; às vezes lhe falava homem português e ele respondiabrasil”. (Id. Carta XLVIII). “Brasileiro” foi, a princípio, o traficante ou o ocupadoem tirar o brasil, como de baleia “baleeiro” (Varnhagen). Adesinência “eiro” é profissional: ferreiro, carpinteiro. Aqui, deprofissional, passou a patronímico: os mineiros que trabalhavamnas minas gerais ficaram depois, os filhos de Minas Gerais. Contudo tentou-se “brasiliense”, “brasílico”, brasiliano“, sem [Página 44]

Antônio, Prior do Crato. A todos se adianta, sob a ameaça dainvasão, corrompendo a dinheiro e intimidando à força, aqueleFilipe II (1580). Manuel Telles Barreto (82-87) conclui a conquista daParaíba do Norte. Cristóvão de Barros conquista Sergipe, contraos índios e defende a Bahia. O fanático Filipe II é inimigo deInglaterra e dos hereges: em 85 embarga nos seus portos todosos navios ingleses, holandeses, zeelandeses, alemães ehanseáticos: Lisboa não será mais empório de especiaria. AInglaterra responde, embargando nos seus portos os naviosespanhóis e portugueses. Francis Drake pirateia Cabo Verde, osAçores, finalmente Faro. Será a vez das colônias. Irão às Índiasbuscar as especiarias diretamente e tomarão o gosto deconquistar estas colônias: o fanatismo levou-os até aí, pela mão. Entretanto, o Brasil sofre o assalto dos Ingleses: Edward Fentonveio, em 82, a S. Vicente; Robert Withrington à Bahia; ThomasCavendish escolheu Santos, em 91; James Lancaster, em 95, Pernambuco: desembarcam, pilham, escarnecem, e dão à vela, com algumas perdas. Ainda em vida de Filipe II aparecem nausflamengas nas Índias. Em 98, Olivier van Hood tenta o Rio eSão Vicente; em 99 é a esquadra de Leynssen; em 604 é Paulvan Carden, depois Spilbergen: é agora o sobressalto contínuo. Virá mais. Ganhamos os inimigos de Espanha e sofremosconseqüências do fanatismo dos Filipes. Com a sorte da“Invencível Armada”, destruída nos mares do norte, em 1588, acaba-se o respeito a Espanha e, o que pior, a Portugal, alémdisto conquistado e delapidado. Dom Francisco de Sousa foi governador de 591 a 602;chamam-no “Dom Francisco das Manhas”, pela muitaprudência com que executou o seu programa, que foi ocupar oRio Grande do Norte, fortificar a costa contra os corsários edescobrir as jazidas de ouro. Este século XVI não terá sido estudado, ainda a grandes [Página 123]

de 72, e parte com o título de capitão-mor das minas deesmeraldas: vai às cabeceiras do rio Doce, do rio de SãoFrancisco e, tendo como centro o Serro, faz excursões porquatro anos. Depois de incontáveis tormentos, rebeliões, morticínios, expira o aventureiro, às margens do rio das Velhas. Do genro Manuel Borba Gato e do filho Garcia Rodrigues Pais, fia a continuação do sonho, a descoberta do ouro e dasesmeraldas. As jazidas de Sabará aparecem. Antônio RodriguesArzão, de Taubaté, vai, em 93, ao Rio Doce descendo atéVitória, no Espírito Santo; seu cunhado Bartholomeu Bueno deCerqueira, que em 70 estivera no sertão de Goiaz, vai, em 94, àregião de Vila Rica, ou de Ouro Preto. O sonho do século XVI, com Gabriel Soares, RoberioDias, das minas de prata, realiza-se, passando das esmeraldas aoouro. Fora a previsão dessas minas que separara o Brasil emdois governos. O Governador do Sul, Dom Francisco de Sousa, já trazia o título de Governador e intendente das Minas. UmCódigo Mineiro elaborado em 1603, ficou nas Chancelarias doreino até 1619, quando foi expedido, e publicado no Brasil, em1652. Essas entradas e bandeiras, para descer índios escravos edevassar o sertão em busca de minas, dão endereços ao Brasilcolonial predador, agrário, criador e mineiro. Os objetivossaíram uns dos outros e misturaram-se. Eles trouxeram aconseqüência da integração do país, além do litoral possuído. Entravam as bandeiras para prear e descer índiosescravizados, devassavam o sertão, encontravam minas erecuavam a fronteira sem dificuldades pois que a posse eracomum hispano-portuguesa. diz o povo. O único benefício quenos trouxe a ocupação espanhola foi “abolir” a demarcação deTordesilhas, podendo o colono ir aos limites do Brasil atual, pois que tudo era da mesma coroa. Com a Restauração, o fatoconsumado do uti possidetis tornou portuguesa e brasileira aposse, graças às entradas e bandeiras, responsabilidadeentretanto contestada. (11)As entradas despovoadoras, captando o [Página 156 do

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1944, há 82 anos...
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