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“Não há mais fábrica de ferro!” - Jornal O Tempo (RJ)
1 de set. de 1846, terça-feira
   
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COMMUNICADO. As informações que ultimamente havemos obtido sobre o estado actual da fabrica de ferro de S. João de Ypanema, são de natureza á não confirmar, em grande parte, quanto a este respeito disse na camara alta o nobre senador, o Sr. Paula Souza, cujo zelo e sincero interesse por este estabelecimento, ou informações exaggeradas, talvez o levassem a enegrecer de mais o quadro que d´elle traçou.

— Sentimos com o nobre senador que não seja muito lisongeira e esperançosa a situação em que hoje está aquella fabrica; reconhecemos com S. Exc. a palpitante necessidade de promptas e acertadas providencias pela parte do governo, que a tirem quanto antes do estado em que se acha, e que tem inspirado talvez essas apprehensões, não diremos de um completo anniquilamento, mas de grande entorpecimento, tanto mais prejudicial e funesto, quanto fosse mais prolongado; concordamos mesmo até um certo ponto com o illustre parlamentar nos meios propostos para remediar tantos males. Em o que porém estamos de algum modo em desaccredo (e perdoe-nos S. Exc. a favor de nossas boas intenções, se nos apartamos de sua opinião), em o que não podemos convir, é no seu terrivel e alarmante corollario,

— Não´ ha mais fabrica de ferro!

— Pois deveras não existirá mais a fabrica de ferro? A comprehender-se uma tal asserção na sua rigorosaacepção, os fornos altos, as forjas pequenas, asmachinas de refino, os diques, os aqueductos, asmachinas de vapor, tudo, tudo está inteiramentearruinado, perdido, anniquilado!Que desgraça!Analizemos porém um pouco até que ponto pódeser exacto um semelhante corallario; poderemostalvez neste rapido exame desassombrar algumacouza o enlutado quadro que se apresenta daquelleutil estabelecimento.

— Como estamos certos de que o nobre senador não se referio senão ao estado do machinismo, das forjas grandes e pequenas, e das construcções hydraulicas, pois que pelo que interessa aos mineraes nenhum receio deve inspirar jamais a possibilidade de sua deficiencia, analizemos previa e imparcialmente o seu verdadeiro estado. Comecemos pelos fornos altos.

— Estas duas importantes construcções, as mais importantes da fabrica, pois que são ellas as que sós fornecem a fundição de grandes machinas, e peças de toda a natureza, a gusa para ser elaborada nas forjasde refundição e de refino, &c. estão por certolonge de ser inutilisadas. As suas paredes exter-nas conservão-se em perfeita solidez, e se algunsdesmanchos existem nas que constituem o que sechama a camisa interna, são estes de muito possivelreparação, como já precedentemente se tem ob-servado.

— As forjas de refundição e de refino nãose achão em tal degradação, que sejão incompativeis os concertos de que por ventura possão carecer.

— É´ verdade que as machinas que servem de pulverisar os mineraes, são as mesmas que ao principio forão construidas, que muitos defeitos apresentão, tanto pelo que respeita ao systema de sua construcção, como pelo que interessa ao seu máu estado material; mas será o seu melhoramento inexequivel? O cazo é que nesse mesmo máu estado ellas continuão a servir e a servir utilmente. Melhorem-se ellas, pois que não ha nisso impossibilidade reconhecida. Os aqueductos nãoestão certamente em uma situação risonha; nãopouca quantidade é distrahida das machinas deque são motôres, pelas fendas praticadas pela acção lenta mas constante do tempo.

— As machinas de vento, os martinetes ou pequenos malhos precisão ser convenientemente reparados. Tudoisto porém pode fazer-se, mas fazer-se parcial enão simultaneamente, afim de não interromper-seo andamento regular da fabrica. Com perseveran-ça e trabalho se conseguirá. Não sabemos o n. eestado dos animaes que na fabrica são empregadosno transporte dos materiaes; talvez que poucoshajão, e que meados pela idade e frequencia deserviço, os que effectivamente existirem se mechemquasi inutilizados; mas porque não poderião sersubstituidos? O pessoal destinado aos diversosserviços da fabrica não nos parece hoje tanto emdesaccordo com as suas necessidades respectivas;e bem que se note maior n. de mulheres, o quepor certo não é bom, são ellas todavia empregadas utilmente no trabalho da carbonisação e emoutros affazeres que as suas forças podem comportar. Emfim, nada vemos em tudo isto que possa inspirar a desacoroçoação manifestada pelo senador, pois que as causas de seus receios não sãotão grandes como se figurou, e quando mesmo fossem, o remedio não seria impraticavel. Ha só umaunica circumstancia digna de excitar serias apprehenções para o futuro, e é a possibilidade ou antes certeza de vir a faltar a combustivel.

— Esta circumstancia fatal é a nosso ver a que estabelece a precariedade do estabelecimento. As matas de suas immediações estão quazi inteiramente destruidas, e as que ainda existem proprias para aquelle fim, ou estão situadas em esses terrenos incompativeis com a carbonisação das madeiras, ou em sitios cuja distancia torna assáz difficil e oneroso um semelhante trabalho, accrescentando mais á estas considerações, a de que nem todas as madeiras estão no cazo de prestar-se aos empregos de carbonisação, roletes ou cavacos, que não tendo a idade e vigor exigidos, que não sendo mesmo de uma certa natureza, podem occasionar muitas vezes, como tem succedido, a interrupção de fundições, e perda do que ali chamão campanhas.

—Ora, sendo incontestavelmente esta a circumstancia mais assustadora, e a que offerece a perspectiva do futuro anniquilamento da fabrica, por que por uma inqualificavel imprevidencia não se tem predisposto muito de ante-mão o remedio que poderia conjurar esta desgraça? Por que se não tem promovido a plantação de matas, que por sua natureza offerecessem a garantia de uma menos longa vegetação? Por que, a pretexto de obterem prados artificiaes, se tem destruido as matas mais proximas da fabrica? Por que, emfim, se tem acintosa e culpavelmente desprezado o exame das minas de carvão de pedra, cuja existencia quazi se póde affirmar, á vista de tantas probabilidades reconhecidas em alguns ligeiros e precedentes exames? Qual seria a razão plausivel e determinante de um semelhante desprezo? Somos informados que em varios pontos, mais ou menos distantes da fabrica, e particularmente em um lugar cortado pelo rio Teêté, pouco abaixo do ponto de confluencia do Rio Sorocaba, se tem achado substancias de uma natureza, que não offerece duvida alguma de uma grande saturação bituminosa. Estas substancias obtidas das camadas mais superficiaes, constitutivas por certo do tucto ou ganga da mina, são caracterisadas por muitas circunstancias que induzem á credulidade de que as camadas inferiores e mais centralisadas serão compostas de optimo carvão. A presença dos destruimentos de corpos organisados, pertencentes ao reino animal e mesmo vegetal, é observada nesses schistos bituminosos obtidos mais superficialmente; conchas e outros objectos fosseis ali se tem encontrado.

— Sabe-se mui bem que os depositos de carvão de pedra não se achão unicamente nos terrenos primitivos, mas tambem entre as rochas calcareas. Segundo as conjecturas da pessôa que nos fornece estes esclarecimentos, a extensão, largura, &c. destas formações são incalculaveis. Devem ter o seu principio junto á serra denominada de S. Francisco, atravessa na direcção de Sul ao Norte, tal vez muito perto da fabrica de ferro, e perde-se nas vastas matas cortadas pelo Teêté. Por que se não examinão profundamente estes lugares? Pois a couza em si será tão trivial, de tão pouca transcendencia, que legitime o indifferentismo com que tem sido tratada? A natureza que reunio com profusão nos terrenos da fabrica o metal, os fundentes, as materias precisas á construcção dos fornos, etc. por que lhe recusaria unicamente o combustivel?

E se este combustivel for efectivamente descuberto, como receár jámais a ruina futura do Estabelecimento? Não fornecerá elle a mais solida garantia de sua progressiva prosperidade? Medite o governo seriamente sobre estas considerações, e obre em consequencia, mas obre energica e promptamente

— Algumas observações, ainda, acerca do homem cruelmente celebre que o nobre senador tanto insistio em apresentar como o regenerador da fabrica, como o unico capaz de ressucital-a; do homem, que parece achado com o auxilio da lanterna de Diogenes, do Sr. Blóhem em fim. Vejamos se o nobre senador não foi algum tanto parcial para com o Sr. Blóhem, se não foi talvez bastante injusto para com outras pessoas que o meccederão na direcção daquelle estabelecimento

— E´ incontestavel a actividade do Sr. Blóhem e certamente poderia elle justificar o conceito em que é tido pelo illustre senador, se á ella reunisse outras qualidades indispensaveis para um bom administrador. Deploramos que o amor da verdade nos fórce a dizer alguma cousa que menos lisongeira seja á administração do Sr. Blóhem. Pelo que respeita aos seus conhecimentos professionaes, não existe na fabrica um só tratado, uma só construcção que prove a favor delles. As machinas são as mesmas, imperfeitas e degradadas que servem desde o principio da fabrica, e apenas uma tal ou qual peça substituida, mais sem melhoramento de seu mau systema constitutivo; apenas alguma ligeira camada de tinta oleada para occultar as desvastações do tempo nas madeiras das rodas, forão praticadas pelo Sr. Blóhem, pois que o engenho de serrar, que merece um concerto em maior escala, ficou em um estado muito peior do que precedentemente se achava. O Sr. Blóhem construio em sua volta da Europa alguns edificios, e são ainda estes os monumentos que mais energicamente depoem contra as suas pretenções de habil architecto. Lá estão elles offerecendo o mais triste espectaculo, tanto pelo que respeita a solidez de suas construcções, como pelo que interessa á symetria, ordem e capacidade dos compartimentos. Nem mesmo as estribarias, objecto especial dos cuidados do Sr. Blóhem, se resentem de um melhor gosto e segurança. O Sr. Blóhem quando foi investido da direcção da fabrica em substituição ao Sr. coronel Peréa, encontrou elementos bastantes para encetar os trabalhos respectivos sob os melhores auspicios. O governo tinha authorisado a acquisição de uma tropa de bestas muares para o transporte dos materiaes, antes fornecidos morosa e fraudulosamente por empreiteiros sem fé. Uma não pequena porção de escravos remettidos da capital do Imperio tinhaõ consideravelmente augmentado a somma dos braços destinados a confecção desses materiaes. O preço do ferro fundido e batido foi augmentado

— Uma gratificação supplementar foi estabelecida, além da importancia do peso dos cylindros ou peças dos engenhos de assucar. Em presença destas cousas forçoso era que a receita avultasse, embora com prejuizo dos particulares onerados com esta augmentação de preços sobre os objectos de que tinhaõ necessidade, o que não parece muito regular. Eis-aqui pelo que respeita ao melhoramento apparente da fabrica.

Vejamos agora os males reaes provenientes da administração deshumanamente famosa do Sr. Blóhem.

Os máos tratamentos de toda a natureza por elle dados aos miseraveis escravos produzirão o que em taes casas sempre acontece. A fuga de alguns dos melhores mestres de officio e de muitos outros, as enfermidades resultantes de trabalhos que sobrepejavaõ as forças humanas, a mortalidade que não podia deixar de seguir-se, e a ausencia de todo o auxilio medico, e ainda mesmo destes mais comesinhos reclamados pela miseria e pelo infortunio, imprimirão á esta administração um cunho de indelevel e nunca vista ferocidade. Não havia hospital propriamente dito; era uma caza incommoda onde jazião algumas victimas da deshumanidade, em a metade de uma velha esteira, algumas diremos, porque muitas morrião inanidas no trajecto que lhes era forçoso fazer para o pretendido hospital. Passemos adiante deste medonho e horrivel quadro, deixemos os ferros, os diuturnos açoutes e as torturas; vamos adiante.

O Sr. Blóhem ignorante dos meios theoricos e praticos para obter nas fundicções ferro de boa qualidade, e não querendo por isso a interferencia do unico escravo pratico em tal sorte de trabalho, acha sempre ferro branco e muitas vezes teve de interromper suas fundições com notavel prejuizo do estabelecimento; e quando isto succedia, não faltava elle de attribuir semelhante contratempo á má vontade dos escravos, ao plano de seus inimigos, e, o que é verdadeiramente admiravel ás mandingas e feitiçarias!Um official do Genie, um homem com pretenções á illustração crer em feitiços!D zel-o a quem o queria escutar!Isto transpõe a credulidade humana!Outras entremezadas curiosas occorrerão a semelhante respeito que não são ignoradas se não pelo nobre senador; outras scenas eminentemente comicas tiverão lugar quando ia visitar o estabelecimento algum presidente da provincia, ou alguns personagens importantes. Julgamos comtudo dever abster-nos de as referir, posto que muito contribuissem para fazer desapparecer a auréola brilhante com que tão generosamente o decorou o illustre senador; tanto mais que estas cousas são bem sabidas por alguns nobres membros da camara em que tem assento S. Ex. e por outros da camara dos Srs. deputados, para cuja consciencia appellamos.

Destes desaguisados resultou que muitas fundições de ferro branco forão fraudulosamente empregadas na formação de cylindros, que custavão ao pobre lavrador de 300U a 400U rs. cylindros, que se fracturavão logo ao começo da safra, occasionando assim a sua perda quando não podião ser promptamente substituidos. O ferro batido, oh!o ferro batido pela sua má elaboração era perfeitamente crú e immaleavel e só servio para desacreditar a fabrica. Appellamos ainda para o testemunho dos negociantes e logistas de Sorocaba; elles ahi estão, não recuzamos um desmentilo. De que servio neste caso a abundancia delle, se quasi ninguem o comprava? Este ferro era vendido, quando vendido, pelo preço de 2560 á arroba, preço quasi igual ao do ferro sueco ou inglez, que na concurrencia era sempre preferido. Ora aqui estão os altos feitos do Sr. Blóhem, feitos que merecerão uma especialidade a seu favor de um mui distincto parlamentar!Nada exageramos na sua exposição, tudo que dissemos é exacto. Durante a ausencia do Sr. Blóhem para a Europa, onde fora buscar novas machinas, novos artistas, e aprendizes estrangeiros (. )

ResumoO artigo do jornal O Tempo, de 1º de setembro de 1846, discute a situação da Fábrica de Ferro de São João de Ipanema, contestando a afirmação do senador Paula Souza de que a fábrica estaria praticamente destruída. O texto reconhece que a fábrica enfrentava sérios problemas, mas afirma que não estava arruinada. Os altos-fornos ainda poderiam ser recuperados; as forjas, máquinas, aquedutos, martinetes e demais instalações necessitavam de reparos, porém esses consertos seriam considerados possíveis e poderiam ser realizados gradualmente, sem interromper completamente a produção. A principal preocupação apontada pelo jornal era, entretanto, a falta futura de combustível. As matas próximas à fábrica estavam quase totalmente destruídas, dificultando a produção de carvão vegetal. O artigo critica o governo por não ter promovido antecipadamente o reflorestamento e, principalmente, por não investigar adequadamente possíveis jazidas de carvão mineral. O texto menciona indícios de carvão nas proximidades do rio Tietê, abaixo da confluência com o rio Sorocaba, onde teriam sido encontrados xistos betuminosos, fósseis, conchas e outros vestígios considerados promissores. Defende-se uma investigação mais profunda dessas formações, que poderiam garantir o futuro da fábrica. Na segunda parte, o artigo critica fortemente a imagem positiva atribuída pelo senador Paula Souza ao administrador Sr. Blóhem, apresentado como alguém capaz de regenerar a fábrica. O jornal reconhece sua atividade, mas questiona seus conhecimentos técnicos e administrativos, afirmando que as máquinas continuavam antigas e deficientes e que suas construções apresentavam problemas de qualidade. A crítica mais severa, porém, refere-se ao tratamento dado aos escravizados. O artigo acusa a administração de Blóhem de maus-tratos, excesso de trabalho, falta de assistência médica, fugas, doenças e mortes. Também relata condições precárias para os enfermos e menciona castigos físicos. O texto ainda acusa Blóhem de não dominar adequadamente os processos de produção do ferro, resultando em ferro branco de baixa qualidade e interrupções das fundições. Segundo o jornal, cilindros fabricados com esse ferro quebravam durante as safras, causando prejuízos aos agricultores. O ferro batido também seria de qualidade tão ruim que os comerciantes de Sorocaba preferiam comprar ferro sueco ou inglês, apesar de o produto de Ipanema ser vendido por preço semelhante. Em síntese: o artigo defende que a Fábrica de Ipanema ainda era recuperável, mas precisava de investimentos, manutenção e principalmente de uma solução para o problema do combustível. Ao mesmo tempo, faz uma crítica contundente à administração de Blóhem, tanto por suas supostas deficiências técnicas quanto, sobretudo, pelo tratamento dado aos escravizados e pela baixa qualidade do ferro produzido.
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Cassius Marcellus Clay Jr.
1942-2016
Cássius Clay é nome de escravo, não o escolhi, não o quero. Sou Muhammad Ali, um nome livre.

Fonte: ERRO!

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Dúvidas, críticas ou sugestões: Adriano César Koboyama