Figuras paulistas que povoam as crônicas do passado; Jornal “Diário da Noite”/SP 25 de jan. de 1964, sábado Por esta Janela multissecul. QUANDO se fala na fundação de São Paulo e nos primeiros anos de sua existencia dificil os historiadores ocupam-se sobretudo das suas figuras exponenciais. Ramalho, Nobrega, Anchieta, Tibiriçá são indefectiveis e inesqueciveis. Mas acontece que a historia de São Paulo é rica em figuras secundarias que, em qualquer pais, assumiriam proporções de gigantes. Foram de fato excepcionais. Sustentam com vantagem qualquer comparação. A um Tarquinio que manda mejustiçar o proprio filho, por desobedecer as suas ordens e foi lutar e vencer um adversario, pode comparar-se à figura austera de Fernão Dias, mais sereno, mais severo e mais justo. Informado da rebelião do filho determina que seja julgado. A pena é de enforcamento. Fernão Dias ordena que seja cumprida. Por se tratar de um filho seu não admite que a lei sofra desrespeito. Não diz: "Ora a lei". Como um varão do passado repete "Dura lex, sed lex". O que equivale a repetir: "Embora dura a lei é para ser cumprida". Cornelia, que ao ouvir falar sobre joias, manda chamar seus filhos e os apresenta como suas maiores riquezas e adornos, empalidece ao confronto com Suzana Dias. E há ainda outras e numerosas matronas paulistas que nada ficam devendo às personagens dos tempos heroicos de Roma. Até no erro e na violencia os paulistas do seculo XVI e XVII eram extremados e singulares, de que é exemplo o celebre "Tigre". Mas tambem a Justiça é rapida e implacavel no castigo, do que serve de exem-A casa do Anhanguera, ne. em museu do Bandeirante. plo o caso dos irmãos Leme, descendentes de poderosa gente mas que descambaram para a transgressão do direito comum e fizeram da violencia a propria lei. Nas cronicas brotam, continuamente, narrações que põem em relevo figuras excepcionais, profundamente humanas mas de excepcional visão e correção. Quando chega o momento culminante de suas vidas sabem decidir com acerto impecavel e generosidade. As mães paulistasO orgulho pelos feitos dos bandeirantes tem cometido a grande injustiça de esquecer as suas mulheres e, sobretudo, suas mães. No entanto, nos primordios de Piratininga existiu, de fato, um fecundo matriarcado, muito discreto mas na realidade ferreo, revelando a energia excepcio-A NOITE — 410 anos —. espreita o passado. nal das mulheres. E que mulheres!Não tinham os primores de educação de suas contemporâneas européias, mas estavam à altura da missão de mães e esposas. Disso são provas Suzana Dias, filha de Lopo Dias, e Beatriz Dias, que tinha por pai Tibiriçá. Suzana era pois, neta do grande cacique. Lopo Dias acompanhara Martim Afonso e pertencia à nobreza lusa. Suzana Dias casou com Manuel Fernandes Ramos e dele teve treze filhos, dando origem à famosa família dos chamados Fernandes povoadores. Era seu filho André Fernandes que os espanhóis chamavam de "el corsario del sertan". Era de extrema valentia. Santana de Parnaíba Suzana Dias ajuda seu esposo na fundação de Santana de Parnaíba. Um dia acusam Manuel Fernandes Ramos, de estar conluiado com os índios, com bigorna e forja no sertão. Ora, se os silvícolas já eram tão temíveis com suas flechas de ponta de osso ou de madeira endurecida ao fogo, o que não seriam com armas de ponta de aço? A denúncia ganha vulto. Suzana Dias não pode vir, pois está ausente. Não pode comparecer para defender-se. Ela surge na Câmara e declara com digna serenidade: "Meu marido não pode vir, pois está ausente, no sertão, cuidando dos interesses da família. Não tem fundamento a acusação. A bigorna e malho aqui estão. O fole encontra-se emprestado a um amigo". E a um gesto seu, dois servos atiram ao chão a bigorna e o malho. E com a mesma discreta e altiva dignidade com que entrou, de Susana Dias foi transformadanão espera ouvir palavras de desculpas e retira-se. Vai para Santana de Parnaíba, onde passa a viver cercada de respeito. Dizem que seus filhos lhe ofereceram, quando idosa, um divã com pés de ouro. Em Parnaíba, até há alguns anos ainda era mostrada a casa que lhe pertenceu, às margens do Tietê. Desapareceu com a elevação da barragem do represamento ali efetuado. A ilustre InêsPela excepcional projeção na vida paulista, destaca-se no século XVI, d. Inês Monteiro de Alvarenga, a matrona. Casada com Salvador Pires de Medeiros, tinha por filho Alberto Pires, que desencadeou a guerra entre Pires e Camargos. Ela contava entre seus parentes "gente do maior peso na vila". Entre eles, seu tio, o velho JoãoSuzana Dias ajuda seu esposo na fundação de Santa Ana de Parnaíba. Um dia acusam Manuel Fernandes Ramos, de estar conluiado com os nativos, com bigorna e forja no sertão. Ora, se os silvícolas já eram tão temíveis com suas flechas de ponta de osso ou de madeira endurecida ao fogo, o que não seriam com armas de ponta de aço? A denúncia ganha vulto, Suzana Dias não pode vir, pois está ausente. Não pode comparecer para defender-se. Ela surge na Câmara e declara com digna serenidade: "Meu marido não pode vir, pois está ausente, no sertão, cuidando dos interesses da família. Não tem fundamento a acusação. A bigorna e o malho aqui estão. O fole encontra-se emprestado a um amigo. " E a um gesto seu, dois servos atiram ao chão a bigorna e o malho. E com a mesma discreta e altiva dignidade com que entrou, não espera ouvir palavras de desculpas e retira-se. Vai para Santa Ana de Parnaíba, onde passa a viver cercada de respeito. Dizem que seus filhos lhe ofereceram, quando idosa, um divã com pés de ouro. (Jornal “Diário da Noite”/SP, 25. 01. 1964. Página DATA:25/01/1964 https://brasilbook.com.br/imagensx/VERAS
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