*Historia Geral das Bandeiras Paulistas Escripta á vista de avultada documentação inedita dos archivos brasileiros, hespanhoes e portuguezes Tomo Quarto - Cyclo de caça ao indio - Luctas com os hespanhoes e os Jesuitas - Invasao do Paraguay - Occupação do Sul de Matto Grosso - Expedições á Bahia - Desbravamento do Piauhy (1651 - 1683) 1928, domingo
Jeronymo da VeigaNada sabemos sobre as suas entradas nem tão pouco podemos localizá-las geograficamente. O mais velho dos filhos de João Pedroso de Moraes, chamado simplesmente João Pedroso, sabe-se por um inventário antigo do Cartório Primeiro de Órfãos de São Paulo que faleceu no sertão em 1651. Aventa Ellis a hipótese de que acompanhasse a bandeira de Domingos Barbosa Calheiros; o segundo foi o ilustre bandeirante Francisco Pedroso Xavier, de quem muito teremos que falar a propósito de suas façanhas na invasão do Paraguai em 1676 e assalto a Villa Rica del Spiritu Santo. De Jerônimo da Veiga sabe-se que teve grande escravatura de índios domesticados, tendo feito diversas entradas ao sertão, onde “conquistou várias tribos que todas trouxe a povoado, estabelecendo fazendas de cultura em grande escala” (cf. Azevedo Marques, Apontamentos, II, 9). Possuindo grande fortuna, chegou a ser dos cidadãos mais prestigiosos de São Paulo, onde faleceu a 2 de dezembro de 1660. Deve ter sido português, afirmando Pedro Taques que já em 1609 eram ele e o irmão, Belchior, moradores de São Paulo. Casou-se Jerônimo com Maria da Cunha que, por seus pais João Gago da Cunha e Catharina do Prado, descendia de um dos primeiros e mais conhecidos casais de povoadores: Henrique da Cunha Gago e Isabel Fernandes, e João do Prado e Filippa Vicente. Quais teriam sido estas entradas de Jerônimo da Veiga é o que não se sabe e dificilmente se poderá esclarecer, mais que provavelmente. Bandeira notável de descoberta e preia de índios, em meados do século XVII, foi a de Manuel Corrêa, que na opinião dos autores devassou enormes tratos de terras. Assim, nas suas preciosas Memórias, diz o cônego Silva e Souza, sem contudo citar apontamento cronológico algum acerca desta entrada:“Assim como mais ou menos abundantes os rebanhos de gado, que deu nome à primeira moeda, foram a primitiva riqueza do Universo, desde o descobrimento do Brasil e sua riqueza se considerou consistir no maior número de escravos, pois só com estes é que se faziam ainda hoje todos os serviços úteis. ”[p. 21] MANUEL CORRÊA — 23“Manuel Correia, homem da plebe, foi o primeiro que no anno de 1719, vendo-se em S. Paulo, sua patria, opprimido da indigencia, penetrou o sertão em demanda de gentios, que, aterrados com o estrondo das armas, compravam a vida a preço da liberdade. A ignorancia de Correia não nos deixou uma ideia perfeita da sua jornada; porque, sem embargo de que appareceram alguns papeis escriptos de sua mão, que eram como o seu roteiro, estes estavam tão desarranjados e confusos, que nada se pôde bem conhecer delles. Sabe-se, porém, que foi grande a preza que fez daquelles gentios que vendeu na cidade de S. Paulo e suas vizinhanças, com lucro não pequeno. Quando, porém, todos esperavam que trouxesse uma grande porção de ouro, appareceu com 10 oitavas, que naquelle tempo valiam 1$500. Esta pequena porção foi consagrada a N. S. do Pilar da villa de Sorocaba, da comarca de S. Paulo, do qual ouro, unido a maior quantidade, se fez uma corôa para a mesma Senhora, a quem com razão se deviam offerecer as primeiras descobertas de tão precioso metal. Esta noticia inflammou o animo daquelles habitantes, e, indagando de que lugar o havia extrahido, para terem igualmente parte nos lucros e nos trabalhos, affirmou que o extrahiu do rio dos Araêz com um prato de estanho, e que para ir a este rio passara outro muito grande. Estas palavras, que são as formaes de Correia, mostram bem o seu talento, pois, sem marcar o rio e altura em que o tirára, se recolheu tão ignorante como sahiu da sua patria. Esta foi a primeira noticia que vagou de haver ouro no sertão de Goyaz. Extr. da Hist. da cap. de Goyaz, por J. M. Antunes da Frota: O Patriota, tomo 3. º, n. º 2 de 1814, pag. 27 e 28”. “Mas si a entrada de Manuel Correia por esses lugares, verificou-se em 1719, commenta Alencastre, já nessa epoca outros bandeirantes tinham perecido ás margens do Araguaya e as do rio das Mortes, um de seus tributarios”. Inclina-se Cunha Mattos a esta versão:“A sêde do ouro suscitou no coração dos paulistas e mineiros intrepidos, o desejo de se entranharem pelos vastos sertões do Brasil e irem procurar lugares abundantes deste. ”[p. 23] Aqui está o texto redigido sem formatação especial:54 HISTORIA GERAL DAS BANDEIRAS PAULISTASse depois de 1616, com a fundação de Belém por Francisco Caldeira de Castello Branco. Quatro grupos regionaes distinctos de entradas destinadas á pesquiza de metaes nobres e das pedras preciosas distingue Basilio de Magalhães, a que dá os nomes de cyclos bahiano, sergipano, espirito santense e cearense. Dos episodios do cyclo bahiano sobresahem alguns, documentados pelos velhos chronistas e os papeis officiaes. Segundo Philippe Guilhem, desde 1538 partiam exploradores de Porto Seguro para o sertão andando lá cinco e seis mezes, a cata de esmeraldas. Incitado pelos boatos numerosos que sobre a presença de pedras verdes corriam, mandou Thomé de Souza duas expedições pelo sertão bahiano a dentro. Miguel Henriques, partido em novembro de 1550 naufragou á foz do S. Francisco e mallogrou-se-lhe a jornada. A segunda leva, a do hespanhol Francisco Bruza de Espinosa, em 1554, esta percorreu milhares de kilometros, entendendo Calogeras, pelo estudo dos documentos que, entrando pelo rio das Caravellas, foi ter ás cercanias da actual Diamantina. Em 1561, attinge Vasco Rodrigues Caldas a Chapada Diamantina e as nascentes do Paraguassú onde o desbarataram os tupinaés obrigando-o a voltar. Em 1567 ou 68, como quer Calogeras, partiu Martim Carvalho, de Porto Seguro para sudoeste, attingindo quiçá a serra de Itacambira, fazendo o percurso total de 1300 kilometros de que fala o seu roteiro (220 leguas). Pouco depois, em 1572 ou 1573, realisou-se a entrada muito conhecida de Sebastião Fernandes Tourinho cujo roteiro divulgou Gabriel Soares. A´ testa de 400 homens e tentando descobrir esmeraldas percorreu Tourinho larga área da zona dos Aymorés, entre o Doce e o Jequitinhonha. Enthusiasmado com o que de tal viagem ouvira, fez partir o Governador Geral Luiz de Brito e Almeida segunda expedição, a de Antonio Dias Adorno. Chefiava este 150 portuguezes e 400 indios e voltou a percorrer a região devassada por Tourinho. Não descobriu minas e apenas vestigios de mineraes preciosos e voltou á costa trazendo sete mil indios captivos. [p. 54] Além destas duas grandes entradas bahianas quinhentistas, citemos ainda no mesmo século as de Sebastião Alvares e João Coelho de Souza no São Francisco. Morreu este no sertão e seu irmão Gabriel Soares de Souza, herdeiro de seus segredos, foi á Europa ver se a coroa lhe proporcionava os recursos necessários ás explorações enormes que pretendia encetar, em busca dos formidaveis tesouros que o irmão pretendera haver encontrado no interior do Brasil. Obteve-os em larga escala, assim como patentes e promessas de toda a espécie, tudo isto após grandes delongas, aliás. Mas naufragou em 1590, ao voltar, á foz do Vasa-Varris, perdendo todo o seu material. Procurou valer-lhe D. Francisco de Souza, que então inaugurava o seu governo, e com estes novos elementos encetou Gabriel Soares, em 1592, a sua entrada. É d. Francisco de Souza geralmente acusado de se haver apoderado dos seus papéis e roteiros, requerendo mais tarde e obtendo-os "os mesmos privilegios e concessóes outorgadas a Soares e ainda outras" no dizer de Varnhagen. [p. 55] Além destas duas grandes entradas bahianas quinhentistas, citemos ainda no mesmo seculo as de Sebastião Alvares e João Coelho de Souza no S. Francisco. Morreu este no sertão e seu irmão Gabriel Soares de Souza, herdeiro de seus segredos, foi á Europa ver se a corôa lhe proporcionava os recursos necessarios ás explorações enormes que pretendia encetar, em busca dos formidaveis thesouros que o irmão pretendera haver encontrado no interior do Brasil. Obteve-os em larga escala, assim como patentes e promessas de toda a especie, tudo isto após grandes delongas, aliás. Mas naufragou, em 1590, ao voltar, á foz do Vasa-Barris, perdendo todo o seu material. Procurou valer-lhe D. Francisco de Souza, que então inaugurava o seu governo, e com estes novos elementos encetou Gabriel Soares, em 1592, a sua entrada. Attingiu as cabeceiras do Paraguassú e lá veio a morrer de impaludismo, assim como o indio Aracy, guia da expedição. É D. Francisco de Souza geralmente accusado de se haver apoderado dos seus papeis e roteiros, requerendo mais tarde e obtendo-os “os mesmos privilegios e concessões outhorgadas a Soares e ainda outras mais”, no dizer de Varnhagen. No “cyclo sergipano”, aliás muito restricto, ha a notar a longa expedição de Belchior Dias Moreya, neto de Caramurú e, segundo Jaboatão, primo de Gabriel Soares. Era um rico criador de gado do Rio Real, e foi sob a instigação de companheiros de Gabriel que se internou para Oeste, em busca de terras mineraes. Oito annos esteve no sertão, a ponto de lhe suppor a familia houvesse fallecido. Segundo Calogeras deve ter attingido a Chapada Diamantina. As entradas do “cyclo espirito santense” orientam-se, como bem pondera Calogeras, pelas de Tourinho e Adorno. Nas do seculo XVI citemos as de Diogo Martins Cão, talvez em 1596, auxiliado por paulistas, pois obtivera de Antonio de Proença que lhe enviasse o filho, Paulo de Proença, com uma leva de escravos armados. Mandara D. Francisco de Souza Martins Cão á serra das Esmeraldas e este sertanista, alcunhado “matante negro”, segundo Pedro Taques, nada havendo descoberto, voltou, em 1598, á Bahia, de onde regressou Paulo de Proença a S. Paulo, trazendo em sua. [p. 55]Aqui está o texto redigido sem formatação especial:Bandeiras Semi-ignotas 55nho, quando, na verdade, esta a precedeu de quatro annos no sertão, sendo que, quando Fernão sahiu de São Paulo, já era morto Castanho. A unica explicação, clara e logica para o desvio na verdade historica do relato do linhagista, está na evidente confusão por elle feita entre Lourenço Castanho o velho e seu filho homonymo (avô de Pedro Taques, que, de facto, em principios de 1676 foi ao sertão em bandeira levando seu irmão José de Lara, como se vê do proprio inventario de Lourenço Castanho o velho. (Invent. e test. vol. XVIII, 146). Assim, fica, pela força dos documentos publicados pelos governos do Estado e da Cidade rectificado mais um ponto da historia do bandeirismo paulista e das explorações e descobertas auriferas dos territorios de além Mantiqueira. "As Actas da Camara de S. Paulo — formidavel manancial de informes para a historia paulista, como tanto temos assignalado — com as suas allusões a vereadores ausentes desvendam-nos a existencia de numerosas bandeiras. Assim na decada de 1650 a 1660 citam-se; Manuel Roiz Gomes em 1659; no decennio immediato Manuel Roiz Arzão e Estevam Ribeiro Bayão Parente (1662), Paulo da Fonseca (1664), fallecido no sertão e assignalados por Ellis como já vimos; Francisco Martins Bonilha (1666). De 1670 a 1680 mencionam-se Manuel de Lemos (1670), Cornelio de Arzão (1671), Ignacio Moreira (1676). Nos primeiros annos da decada seguinte: Balthazar da Costa da Veiga e Lucas de Camargo (1681), Salvador de Pontes (1681), Innocencio Preto (1681-1682). De quantas destas expedições, uma vez internadas no Matto Grosso de Jundiahy e outras selvas jamais se ouviu uma só noticia?Ao evocar a memoria destes ignotos tombados na obra da conquista e do desbravamento do Brasil, occorrem-nos as grandiloquas vozes do estro hugoano. Quanto se applicam ao horizonte sombrio da mysteriosa selva brasileira a paraphrase do que o poeta disse naquelle admiravel Oceano nox?Combien de routiers, combien de capitainesQui sont partis joyeux pour leurs courses lointainesDans ce sombre horizon se sont évanouis?[p. 55] Graças á carta e relatório, circunstanciados, do sargento mór Diez de Andino, ao rei, datados de Assunção e de 24 de maio de 1676, possuímos numerosos elementos para reconstituir a segunda parte da jornada de Francisco Pedro Xavier, o regresso ao Brasil. Neles nos dá o chefe militar os mais curiosos pormenores. Assim, começa explicando que de Villa Rica a Assunção medeavam oitenta léguas, distando ela dez de São Pedro de Terecañe, a últimas das aldeias do seu distrito, e uma apenas de Ibirapariyara e Candelaria. A explicar a causa de não resistência ao invasor, expõe quanto na região havia falta de armas e munições, achando-se o inimigo numero, perfeitamente apetrechado. E mais, surgira no momento em que se encontravam quase todos os homens espalhados pelas matas, ocupados no corte da herva mate. De Maracajù, também apresada, haviam os paulistas tentado surpreender Ypané e Guarambaré, situadas muito mais ao sul. Malograra-se-lhe o intento pelo fato de se refugiarem os nativos destes pueblos, avisados em tempo, na capital paraguaya. Saindo a 22 de fevereiro de Assunção, rumara Andino para o Norte, com 314 soldados brancos e 248 nativos apenas. A 4 de março, acampando em um lugar por nome Bogado, á espera de novos contingentes nativos, do sul, chegou-lhe ao quartel a notícia de que um trânsfuga, certo mulato Raphael, atingira as avançadas dos paulistas em Terecañe, avisando-os da aproximação do exército espanhol. E eles, imediatamente, trataram de acautela a rica presa efetuada, colocando-a ao abrigo das vicissitudes de uma campanha. Longos comboios de nativos recém-cativos puseram-se logo em marcha, demandando o porto do Rio Amambahy, onde os esperava, sob forte guarda, a sua esquadrilha de batelões. [Historia Geral das Bandeiras Paulistas Escripta á vista de avultada documentação inedita dos archivos brasileiros, hespanhoes e portuguezes Tomo Quarto - Cyclo de caça ao indio - Luctas com os hespanhoes e os Jesuitas - Invasao do Paraguay - Occupação do Sul de Matto Grosso - Expedições á Bahia - Desbravamento do Piauhy (1651-1683), 1928. Afonso d´Escragnolle Taunay (1876-1958). Página 81] Curioso e inesperado incidente ocorreu então: apresentou-se ao comandante castelhano certo licenciado d. Juan Mongel Garcez, dizendo-se espanhol, natural do bispado de Pamplona, reino de Navarra, e morador de São Paulo. Acompanhavam-no dois filhos e uns escravos. Contava este personagem, enigmático e estrambótico, que largo tempo vivera na vila brasileira, prisioneiro!Era médico, físico, e si ao Paraguay acompanhara a expedição, do caudilho paulista, fizera-o com o único fito de poder fugir ao cativeiro, e passar a viver com os seus compatriotas. Achando estranho o caso e suspeitos estes acendramento e dedicação, nacionalistas, ordenou Andino que a tal licenciado e aos seus se pusesse guarda contínua, devendo eles acompanhar a marcha da expedição, isto apesar dos protestos do vigiado principal, que continuava a reiterar a sua lealdade. Si se abalançara a tão perigosa deserção, apenas o incitava o desejo de servir á coroa católica, informando ao cabo de guerra da retirada e itinerário do inimigo. Mas Andino que não desejava ser destes capitães censurados por não cuidar, pôl-o em severa custódia á espera de novas provas de sincera amizade. Era bem exato contudo o que este indivíduo relatava, a saber, que vivera em São Paulo. Nas ata da Câmara paulistana nós lhe vemos o nome diversas vezes como fiador e sócio de contratadores de impostos, os escrivães municipais lhe chamavam de "João de Mongelos", como na ata de 6 de junho de 1665 em que figura como procurador de uma mulher que demandava com os jesuítas. [Historia Geral das Bandeiras Paulistas Escripta á vista de avultada documentação inedita dos archivos brasileiros, hespanhoes e portuguezes Tomo Quarto - Cyclo de caça ao indio - Luctas com os hespanhoes e os Jesuitas - Invasao do Paraguay - Occupação do Sul de Matto Grosso - Expedições á Bahia - Desbravamento do Piauhy (1651-1683), 1928. Afonso d´Escragnolle Taunay (1876-1958). Páginas 82 e 83] Mostrou-se, então, Don Juan Mongelos muito solicito e carinhoso para com os feridos a quem com grande dedicação e perícia de cirurgião pensou. Dos seus operados apenas perdeu três. Pela madrugada de 20 de março, de 1676, ordenou o chefe espanhol que os feridos fossem enviados á retaguarda da coluna. [Historia Geral das Bandeiras Paulistas Escripta á vista de avultada documentação inedita dos archivos brasileiros, hespanhoes e portuguezes Tomo Quarto - Cyclo de caça ao indio - Luctas com os hespanhoes e os Jesuitas - Invasao do Paraguay - Occupação do Sul de Matto Grosso - Expedições á Bahia - Desbravamento do Piauhy (1651-1683), 1928. Afonso d´Escragnolle Taunay (1876-1958). Página 86] Na opinião do informante, estava sobremodo comprometida a posse castelhana dos territórios ao sul do Iguassù os "pueblos de las Provincias del Paraná", a começar por Itapùa. Três caminhos, abertos pelos paulistas, para ali se dirigiam. O Paranapanema "também llamado Pirapó", o Ivahy e o Pequiry, através do sertão "de los Pirianes y tierras de los infieles Guayanas", nativos já por eles exterminados e cativados. Entrada mais comoda realizavam, porém, pelo Tietê, "el rio Anambuy (sic) que corre por San Pablo, Pernaíba y Ituassù" e o Paraná. [p. 90] INFORMAÇÕES SOBRE OS PAULISTAS 91E para documentar a asserção, relatava o cabo castelhano que justamente fizera Pedroso Xavier base de operações em um ponto do grande rio, perto das ruinas de Ciudad Real, ali deixando forte destacamento para lhe guardar a retaguarda. E, além das vias fluviaes, existia o caminho terrestre, muito conhecido, nos annos antigos, pois servira de communicação entre Ciudad Real e as aldeias jesuiticas. Por elle, em quarenta dias se attingia a villa de Sorocaba, assim o contavam don Juan Mongelos e os prisioneiros. Afinal, ainda podiam descer o Tietê e o Paraná e construir a jusante do Salto das Sete Quedas canôas que os levassem ás reducções. E estas não havia como soccorrel-as. Pessima pois a situação do Paraguay, frisava Andino. Tal a audacia dos indomitos "Guayucurùs y Bayás y otros infieles fronteiriços que estan de guerra, ambas naciones poderosas, que los unos por tierra e los otros por el rio, dominan otras muchas de su sequito, todos enemigos comunes de la Religion Catolica, traidores y aleibosos, sin fé nin palabra, crueles y carniceros, sin dar jamás cuartel en las ocasiones ni á sangre fria". Quanto aos Payaguás, era indispensavel trucidal-os todos, e quanto antes, "asi por las atrocidades que tienen cometidas con ruyna de las ciudades de la nueva Jeres y la Concepción, la villa de Jujuy y muchos lugares de indios como porque no quieren abraçar la fé". Fortificados nas ilhas de uma das grandes lagôas formadas pelo Paraguay, ao norte do Apa, dali desciam os terriveis canoeiros a assolar as terras hespanholes. De toda a colonização antiga do Norte, nada restava, nada mais!"no a quedado pueblo alguno y está yermo todo lo que está Provincia tenia este Rio Paraguay arriba!"Ah!não foram a presteza e a dedicação da columna de soccorro, jamais teriam os paulistas abandonado o districto de Villa Rica!Pois não alardeavam "con tanto arrojo que benian a tomar posesion de ella?"Largamente conversara elle com don Juan Monjelos sobre as cousas de São Paulo. Pelo transfuga da expedição paulista ficara sabendo que na Capitania havia 4. 600 brancos e 20. 200 indios tupys, capazes de pegar em armas. Dos indios informara que manejavam as espingardas com singular destreza, assim. [p. 91] E para documentar a asserção, relatava o cabo castelhano que justamente fizera Pedro Xavier base de operações em um ponto do grande rio, perto das ruínas de Ciudad Real, ali deixando forte destacamento para se guardar a retaguarda. E, além das vias fluviais, existia o caminho terrestre, muito conhecido, nos anos antigos, pois servira de comunicação entre Ciudad Real e as aldeias jesuíticas. Por ele, em quarenta dias se atingia a vila de Sorocaba, assim contavam Juan de Mongelos e os prisioneiros. Quanto aos Payaguás, era indispensável trucida-los todos, e quanto antes, "asi por las atrocidades que tienen cometidas con ruyna de las ciudades de la nueva Jeres y la Concepción, la villa de Jujuy y muchos lugares de nativos como porque no quieren abraçar la fé". Largamente conversara ele com d. Juan Monjelos sobre as coisas de São Paulo. Pelo trânsfuga da expedição paulista ficara sabendo que na Capitania havia 4600 brancos e 20000 nativos tupys, capazes de pegar em armas. Dos nativos informara que manejavam as espingarda com singular destreza, assim como "alfanges y machetas de más de las flechas, balientes y ossados como cualquier portugués". [Historia Geral das Bandeiras Paulistas Escripta á vista de avultada documentação inedita dos archivos brasileiros, hespanhoes e portuguezes Tomo Quarto - Cyclo de caça ao indio - Luctas com os hespanhoes e os Jesuitas - Invasao do Paraguay - Occupação do Sul de Matto Grosso - Expedições á Bahia - Desbravamento do Piauhy (1651-1683), 1928. Afonso d´Escragnolle Taunay (1876-1958). Páginas 91 e 92] 257ENTRADA DE DIOGO DE QUADROSPeres Canhamares abrir severa devassa «provendo de urgencia". Estava-se então, em S. Paulo á espera do governador geral do Sul, d. Francisco de Sousa. Surgiu neste interim seria duvida entre a Camara e o provedor das minas, Diogo de Quadros accusado de vender o ferro por preço exhorbitante. Explicando o caso á camara, na sessão de 15 de fevereiro de 1609, dizia elle que havia quatro annos trabalhava desesperadamente nas suas forjas sempre sem auxilio e sem resultado. Apenas conseguira uma ajuda de oito indios marmenys (sic) que só lhe tinham feito tres arroubas de carvão. Havia quatro mezes estavam os seus trabalhos parados «sem força nem jemte para erger o dito engenho». Si s. mcês o não soccorressem, abandonaria a mineração de ferro. Indignado com a desfaçatez do requerimento e da attitude, asperamente lhe verberou o juiz Antonio Pinto a hypocrisia. Dissésse sua mercê a verdade: si tinha os trabalhos parados é que mandara ao sertão buscar escravos, quarenta ou cincoenta brancos com numerosos indios da villa; dois annos decorriam de sua partida e ainda não tinham regressado todos. Os que haviam voltado trouxeram muita gente destinada á mineração e no emtanto desencaminhada pelas casas dos seus apresadores. Não estava ahi o mandato do capitão-môr loco-tenente, Gaspar Conqueiro, ordenando a restituição das peças vindas com Belchior Carneiro e a gente de Quadros, e entre este lote de escravos não tomára elle, Quadros, o quinto para si?Quanto á recusa de serviço das aldeias outra mentira calva. Veio o capitão dos indios Antonio Roiz attestar que só negara enviar-lhe os seus subordinados a trabalhar, quando Quadros recusára pagar aos bugres adeantadamente o jornal, improbo como era. Quantos moradores não lhe haviam emprestado escravos para carregar a cal vinda de Santos? Só para servirem a sua majestade? Immenso o auxilio que Affonso Sardinha lhe dera. Convidado a assignar a acta, negou-se o esperto minerador a fazel-o, «foi pela porta á fora». Mandaram os vereadores ao escrivão constatasse que assim procedia por se tratar do desserviço por elle prestado a sua majestade. Mentindo que houvesse enviado uma expedição ao sertão á busca de metaes, quando[p. 257] Nova prova de quanto eram hipócritas todas as disposições relativas á legislação de nativos temol-a no registro de 17 de novembro de 1682 em que o juiz de órfãos Salvador C. de Almeida pede aforamento de terras dos nativos por não as ter perto da vila "para acudir ás suas obrigações nem cercado para segurança de seus cavalhos". Prometia não prejudicar os nativos e pagar pataca e meia por ano. E assim obteve o que pretendia. Não admira pois que numerosos outros particulares, homens e mulheres lhe seguissem os exemplos e passos pagando alguns vinténs por ano e promessa de não fazer mal aos nativos!Assim Isabel Pompeia, Manuel de Zouro e quantos mais. [p. 265]sar a comsesão de que se pudese hir ao sertão, por ser a Rais de q. brotão os escrupulos aos Moradores desta vila, com o pretesto de os trazer ao gremio da Igreja, e alimentalos com o leite da fé”. Imagine-se o alvoroto causado por tão inesperado resultado, o mais favoravel possivel aos escravistas. Assim, pelo orgão do escrivão municipal estes se derreteram em agradecimentos que iam do Padre Provincial ao Papa. “E por esse modo se poderia seguir sem remorso a possessão e venda do dito gentio emtre os mesmos moradores, testando deles, para o que pasasem procurasão para o dito Reverendo procurador geral enviado a Roma o poder fazer com S. Mgde. q. deus guarde e sendo necesario com sua santidade; e nesta forma agradeserão ao Rd. º padre provinsial o bom e liberal animo com q. fes esta offerta e pa. q. em todo o tempo conste o q. neste negosio se assentou Mandarão fazer este termo. ” Tambem tão satisfeita ficou a Camara que fez reunir logo o bom deste povo e este “a cada hum em particular diserão era mto. boa a rezolução determinada merecendo o Padre Provincial mil agradecimentos pelo seu bom zello e liberal animo”. E ao termo assignaram dezenas de homens do maior prestigio, como Pedro Taques de Almeida, Gaspar de Godoy Collaço, Braz de Arzão, José Ortiz de Camargo, Lourenço Castanho Taques, Salvador Jorge Velho Garcia Rodrigues Velho, Isidro Tinoco de Sá, Thomé de Lara de Almeida, Domingos da Silva Bueno, Manoel Lopes de Medeiros, etc. Tanto se alegrou a Camara com o desfecho da grave questão que a 17 de março de 1685 jubilosissima, resolvia participar ao Goverador Geral do Brasil, Marquez das Minas que á vista da atitude da população e suas autoridades haviam os jesuitas resolvido ficar. "Um movimento popular partido da desconfiança que ha na possesão do gentio da terra originou determinação deixarem os religiosos da Companhia este Collegio e como fosse o sentimento dos bons tão grande quanto mostra a muita alegria que hoje ha por tornarem a acceitar a petição de que não deixem esta terra nos pareceu bem muito para socego e medicina desta chaga velha para o que se offereceu zelosamente o padre provincial Alexandre de Gusmão esperamos que a muita validade de vossa excellencia ajude a grangear esta gloria a Deus”. E arroubadamente dizia a Camara que S. Excia. seria eternamente abençoado em terras de S. Paulo como o grande D. Francisco de Souza “cujo patrocinio fora particular a esta terra” e cuja memoria vivia sempre entre os paulistas. No mesmo dia se escreveu ao Geral da Companhia que então era o belga De Noyelle. Significava-lhe a Camara quanto lhe doera a noticia da extincção do Collegio de S. Paulo, uma casa mais que secular. "Por bem todas as razões que a vossa reverendissima se representaram para tirar os padres da nossa terra duram ha mais de cem annos em todos elles as toleraram os padres antigos e foi o veneravel padre José de Anchieta que fundou esta villa o padre João de Almeida e outros varões apostolicos desta santa religião que habitaram este Collegio” com muita gloria dos seus e fructo das almas. E explicava (Regulamento Geral, III, 460): Esta villa é um povo mui dilatado com outras muitas villas circumvizinhas ha muita falta de pregadores e mestres que ensinem o caminho do céu e só de indios passam de mais de sessenta mil almas em que os reverendos padres podem empregar seu santo zelo com amiudadas missões por estar esta sorte de gentio muito falta de doutrina e porque conhecemos esta falta pedimos nos tempos passados ao muito reverendo padre provincial Gaspar Alves quizesse mandar alguns missionarios que soubessem lingua do Brasil para que continuadamente andassem doutrinando os indios pelo grande serviço que nisso fazia a Deus mas nunca até agora teve effeito esta nossa petição escusando-se os reverendos dos padres com a fa. com tudo no que agora pedimos a vossa reverendissima esperamos ter despacho certo. ” Haviam os paulistas recorrido á intervenção de seu bispo e do Padre Provincial Alexandre de Gusmão, contava-se ainda. Terminava a missiva por ardente supplica. “Este nobre senado em nome de todos estes povos prostrados diante de vossa reverenda paternidade lhe pedimos seja servido por. [p. 287,
|