trajeron mucho bastimento, así de abatí, calabazas, como raíces de mandioca, patatas y panes hechos de harina de las dichas raíces de mandioca muy buenos”310. De acordo com Felix de Azara, o local chamado de Santana era a “la isla de Apipé, que tiene treinta leguas de largo […] se formó después el actual pueblo de Ytati […]”311. Para Rodolfo Shuller, citando Pedro Lozano, este local era chamado na língua da terra de Appupén. Segundo este autor, Appupen e Apipe não são vozes na língua guarani. Para comprovar sua hipótese, o autor identifica um número considerável de topônimos e nomes de caciques, estes últimos na Relação de Garay, que terminam em pen, significando que são vozes de povos pampianos e chaquenhos312. Em sua narrativa, Luis Ramírez comenta que seis léguas acima do local onde estavam, havia outra aldeia da mesma geração do cacique Yaguarón, que estavam em constante conflito. Ambos os povos são identificados como Chandule e usavam adereços de ouro e prata. Conforme o autor313, para conseguir tal material os Chandule se deslocavam a outra aldeia, também de Chandule, que ficava sessenta ou setenta léguas da foz do rio Paraguai, acima, local onde realizavam comércio. Ramírez observa que “estos indios comen carne humana y son parientes é de la misma generación de los questán en la fortaleza de Santis spiritus con nosotros”. Na passagem que citamos mais acima, quando Luis Ramírez comenta dos guarini ou chandis que estavam com eles no forte às margens do rio São Salvador, observamos que o referio cronista não havia descrito com maior propriedade a organização econômica e as casas daqueles indígenas, conforme ele havia feito em descrições anteriores. No caso atual, sobre esses Chandule de Santana, ele também não realiza uma descrição mais pormenorizada, no entanto, ao longo de sua narrativa podemos perceber que se tratava de grandes aldeias muito bem organizadas e com grande fartura de alimentos. “(…) llegábamos a las caserías las cuales 310 RAMÍREZ, L. Carta do Rio da Prata em 10 de julho de 1528, p. 32. 311 AZARA, F. Geografía Física y Esférica de las Provincias del Paraguay y Misiones Guaraníes, p. 5. 312 SCHULLER, R. R. (prologo). Geografía Física y Esférica de las Provincias del Paraguay y Misiones Guaraníes, p. 91. 313 RAMÍREZ, L. Carta do Rio da Prata em 10 de julho de 1528, p. 29. [p. 90]eran de un indio principal que se llamaba Yaguaron capitán ques de todas estas caserías que en esta comarca. (…)314”. Além de Yaguaron “los otros mayorales de la tierra nos trajeron mucho bastimento así de abatí calabazas como raíces de mandioca e patatas e panes hechos de harina de las raíces de mandioca muy Buenos”315. O cronista nos induz a pensar que além de existirem muitas casas, as chácaras eram amplas, pois alimentaram por muitos dias um número considerável de espanhóis famintos, além dos próprios indígenas e abasteceram as embarcações de Caboto para retorno ao forte Espírito Santo316. Durante sua estadia junto a esse povo nativo, Sebastião Caboto aumentou seu interesse pela terra devido ao fato desses Chandule estarem enfeitados com “muchas orejeras y planchas de muy buen oro y plata”317. Para Branislava Susnik, esses índios das ilhas são os mesmos Chandule do delta do Paraná, povo que ela interpretou como estando sob a influência do cacique Yaguaron. Segundo a autora, com a divisão dos 14 cacicados que compunham essa população por Garay, por ocasião da fundação da segunda Buenos Aires, “los Chandules desaparecieron como un grupo étnico”318. No entanto, ao analisarmos o repartimiento de los indios319 organizado por Juan de Garay de 1580, identificamos os 14 cacicados, mas não é possível identificarmos em 12 deles, quais seriam os Guarani repartidos e onde estariam localizados, pois, apenas os primeiros dois cacicados da relação de Garay identificam dois caciques e suas parcialidades320 como Guarani das ilhas. Seguindo as informações do cronista Luis Ramírez, Caboto, zarpou da aldeia do cacique Yaguaron no dia 28 de março de 1528, retornando ao rio Paraguai para subir o mesmo até umas casas de índios que também seriam Chandule. Conforme informações do lengua Francisco del Puerto que havia contatado os mesmos a pedido de Caboto, esses 314 RAMÍREZ, L. Carta de a su padre desde el Brasil (1528): Orígenes de lo ‘real maravilloso’ en el Cono Sur, p. 35. 315 Ibidem. 316 Cf. RAMÍREZ, L. Carta de a su padre desde el Brasil (1528): Orígenes de lo ‘real maravilloso’ en el Cono Sur, p. 35. 317 Ibidem, p. 35. 318 SUSNIK, B. Las Características Etno-Socio-Culturales de los Aborígenes Del Paraguay en el Siglo XVI, p. 84. 319 Cf. GARAY, J. Fundación de la ciudad de Buenos Aires por Juan de Garay. 320 O termo parcialidade presente em determinados documentos coloniais se refere a parentes ou de maneira geral aos seguidores de determinada liderança indígena. [p. 91] Abrimos um pequeno parêntese para comentar o final desta passagem. A mesma é interessante porque nos remete ao que discutimos no início do capítulo. Ou seja, sobre as sutilezas na escrita para cativar os leitores, pois, antes de chegarem na aldeia do cacique Yaguaron, Ramírez narrava a terrível fome que eles e seus companheiros passaram em suas embarcações enquanto subiam o rio Paraná. Situação que os levou a se comportarem “como lobos hambrientos”, pois, entravam nas matas em busca de qualquer coisa que os pudesse alimentar. Quando nada encontravam “si topábamos que alguno había hallado alguna dar tras el tuero y a trozos llevarlo a la galera y picarlo poco a poco con un cuchillo grande o con un hacha muy menudo y comerlo que de aserraduras de tablas a ello había poca diferencia”325. A dificuldade em encontrar alimentos, da fase inicial, se transformou na fartura de peixes que o rio oferecia. Tal era esta fartura que a principal atividade de subsistência dos indígenas, conforme o autor, era a pesca. Acreditamos que com certeza não faltavam anzóis aos espanhóis para pescar, pelo fato desses serem objetos de troca junto aos nativos326. O que parece contradição na escrita, nada mais é do que a intenção do autor em realçar alguns aspectos da experiencia vivida. Neste sentido, comer os talos de plantas exóticas para sanar a fome, estar diante de homens com pernas semelhantes às de avestruz ou viver junto a canibais, era uma artimanha utilizada pelo cronista para cativar e envolver o leitor na sua narrativa. Desta maneira, quando o cronista observa que os Chandule do cacique Yaguaron comiam carne humana, ele esta apenas incrementando sua escrita, pois, não da maior relevância ao tema, como se não houvesse o que evidenciar. Neste caso, acreditamos que ele simplesmente reproduziu uma voz comum. Ao comentar que estes nativos do cacique Yaguaron “son parientes é de la misma generación de los questán en la fortaleza de Santispritus”, da mesma geração dos que estavam no forte do rio São Salvador e também da mesma geração daqueles assentados próximos ao rio Bermejo, ele fortalece a ideia da presença destes indivíduos em diferentes locais, mas deixa dúvidas na forma de assentamento em São Salvador e no Espírito Santo, pois ele não nos dá maiores detalhes desses locais. Desta forma, assim como já observamos anteriormente, ao não ser muito específico na descrição desses Chandule, Ramírez nos permite manter a 325 Ibidem, p. 34. 326 Cf. MEDINA, J. T. El Veneciano Sebastián Caboto al servicio de España y especialmente de su proyectado viaje a las Molucas por el Estrecho de Magallanes y al reconocimiento de la costa del Continente hasta la gobernación de Pedrarias Dávila, p. 438. [p. 93]interpretação de que estes não habitavam aqueles locais de forma permanente, assim como era a aldeia do cacique Yaguaron. Não narrar ou descrever minimamente como fez com os Chandule de outros espaços ou mesmo com outros grupos humanos, provavelmente é sinal de que naquele momento não havia nada para ele perceber e descrever. Em nosso entendimento, a carta escrita por Luis Ramírez em algum porto do rio da Prata e, enviada para seu pai no ano de 1528, possuí um caráter simbólico por ser o primeiro documento que faz uma referência aos Guarani327; por analogia a carta de Pero Vaz de Caminha, ser a “certidão de nascimento” das terras banhadas pelo rio da Prata e, principalmente, por ser a gênese das narrativas que trazem implícita a ideia de guaranização, que é foco de nossas analises. Algumas de suas observações tornaram-se premissas históricas que ajudaram a conceituar o Guarani. “[…] andan derramados por esta tierra y por otras muchas […] á causa de ser enemigos de todas (naciones) éstos señorean gran parte de esta India y confinan con los que habitan en la sierra328. Os três tópicos em destaque, entre outros, figuram em estudos posteriores, somando-se a outros olhares, para caracterizar a ideia de ampla dispersão espacial, de estarem constantemente em movimento, se impondo a outros povos pela via guerreira, conquistando e assenhoreando. Ou seja, em outras palavras, impondo sua cultura e guaranizando. 2. 3 O Guarani em Diego García de Moguer: relatório de viagemSob as ordens de Carlos V, rei da Espanha, Diego Garcia partiu do porto de La Coruñano dia 15 de janeiro de 1526 rumo à região banhada pelo rio da Prata e seus afluentes maiores com a finalidade de tomar posse das novas terras, explorá-las e resgatar alguns náufragos. Mas, a viagem de García teve tantos imprevistos que ele ancorou apenas em janeiro de 1527 no porto de São Vicente, onde permaneceu por um ano junto a uns portugueses que ali 327 Cf. MELIÀ, B. ; SAUL, M. V. ; MURARO, V. F. O Guarani: uma bibliografia etnológica, p. 21. 328 RAMÍREZ, L. Carta do Rio da Prata em 10 de julho de 1528, p. 27. [p. 94]liderados por dois caciques, em local anterior haviam realizado um comércio de trocas com os espanhóis que lhes foi pouco vantajoso. Insatisfeitos, voltaram para suas casas, proferindo, conforme Ramírez, algumas ameaças e tentando flechar os índios lenguaraces que acompanhavam a expedição. Temendo que esses indígenas atacassem o forte Espírito Santo que ficava mais abaixo do rio, Caboto os atacou logo ao amanhecer. “(…) matamos muchos delos y otros se prendieron y les tomamos todo el millo que en la casa tenían é cargamos el bergantín y quemámosles las casas”305. Os nativos capturados, na condição de escravos foram enviados ao forte Espírito Santo306. Sobre esses indígenas, o autor nos fala que “las mujeres destos Timbús tienen por costumbre de cada vez que se les muere algún hijo ó pariente cercano se cortan una coyuntura de un dedo307”. Essa pauta cultural dos Timbú é interessante porque ela é percebida em outros atores sociais do contexto. A mulher Charrua da mesma forma que a Yaró, tinha o costume de cortar as juntas dos dedos quando morria algum parente308. Mesmo sendo um olhar do presente lançado ao passado, acreditamos que uma pauta cultural desta natureza, não nos parece ser algo que os povos optassem por imitar de outro grupo com facilidade. Isso nos leva a crer que Timbú, Charrua e Yaró pudessem compor um mesmo povo. Eram canoeiros, pescadores, caçadores, coletores e, além dos campos, habitavam as ilhas. Diferentemente dos Guarani, eles habitavam uma grande extensão de um espaço geográfico contínuo, muito semelhante no clima, no relevo e na cobertura vegetal. Seguindo a narrativa, içaram âncora novamente e navegaram em direção ao norte, passando, conforme Ramírez, por uma infinidade de ilhas, provavelmente todas desabitadas, pois, o autor comenta que no trajeto até a foz do rio Paraguai com o rio Paraná encontraram somente um povo identificado como Mepene. Várias léguas após o encontro dos dois rios, navegando no Paraná acima, Caboto ancorou em um local que eles batizaram de Santana309. Nesse local havia uma aldeia sob a liderança de um cacique chamado Yaguarón. “(…) nos 305 RAMÍREZ, L. Carta do Rio da Prata em 10 de julho de [p. 189] que com as bandeiras criou-se um “vazio demográfico (dos Guarani), que só aos poucosvoltou a ser ocupado, mas então já por outros indígenas, os Kaingáng (da família linguísticaJê)”493. Com isso queremos observar que os grupos que hoje se atribui ser de língua Jê, podem estar presentes em relatos históricos do passado como sendo Guarani. Talvez, devemos pensar que o oleiro que produziu a cerâmica guarani, tenha sido outro que não o próprio Guarani, ou que a presença de falantes de guarani em determinados locais não se deva ao fato de serem nativos falando sua língua materna, mas sim indivíduos fazendo uso de uma língua geral que diferentes povos dominavam. Acreditamos que o exemplo logo abaixo possa ilustrar esta última situação. Como el P. Francisco Díaz estaba tan versado en los varios idiomas con que se diferencian unas naciones de otras en la lengua Guaraní, á todos universal, pareció le que hablaban con más expedición y propiedad que los camperos; hízoles varias preguntas, pero constantes negaban su nación 494. Quem narra é o jesuíta Francisco Jarque. Ele fala sobre uma missão do jesuíta Diaz Tano no Guairá na redução de São Francisco Xavier entre os anos 1626 e 1630. Quando Diaz Tano lá estava, o cacique Guarani chamado Tayaoba, que tinha a intenção de receber os missionários em sua aldeia, enviou seu filho a São Francisco Xavier para investigar a forma como os padres trabalhavam. O filho de Tayaoba vestiu-se ao modo dos Campero para se passar por um integrante do povo do Guarayrú. Conforme a passagem a cima, Diaz Tano percebeu que não se tratava de um índio Campero pelo fato do mesmo dominar o idioma guarani com mais precisão e propriedade do que falaria um Campero. Ou seja, a língua guarani era uma língua geral e neste caso os Campero que não eram Guarani, faziam uso da mesma para falar com outros grupos ou com os próprios indígenas que tinham a mesma como primeira língua ou língua materna. Da mesma forma que nós, falantes da língua portuguesa, utilizamos a língua inglesa para falar com indivíduos de outros povos ou para falar com indivíduos que têm na língua materna o inglês, que necessariamente podem não ser ingleses, mas americanos dos EUA. Será que Cabeza de Vaca e alguns lenguas europeus teriam a precisão de diferenciar pela [Página
![]() Fonte: ERRO!
|