mente, a multa do TAC foi destinada a construção do novo prédio do MAE/USP, a mesmainstituição na qual a Arqueologia Histórica nãoé, e nunca foi, muito prezada. A partir do final dos anos
1980 e ao longoda década de
1990, Margarida, ainda escavandosítios com ruínas ou edificações, engloba a seustrabalhos a Arqueologia Industrial, área queengatinhava na cidade, realizada em terrenostombados. Entre
1983 e
1989 dá andamento àspesquisas no sítio arqueológico Afonso Sardinha, em Iperó, relacionado à fabricação de ferro nomorro de Araçoiaba entre os séculos XVI e XVIIIe à Real Fábrica de Ferro de Ipanema, mais tardealvo do estudo de sua aluna de doutorado Anicleide Zequini (2002-2006), do Museu Republicano de Itú. Junto das escavações no Engenho dosErasmos, é exemplo da influência da Carta deVeneza na configuração do Patrimônio Industrialdo estado que, a partir do final dos anos
1970, e, sobretudo, com os anos
1980, começa a ganharnova roupagem (Rodrigues 2010). Em
1988 e
1990, Margarida leva a cabo asprimeiras intervenções arqueológicas associadasa uma Operação Urbana (pela EMURB), acompanhando as obras no Vale do Anhangabaú. Localizou o antigo córrego e as obras do fim doséculo XIX, bolsões de lixo, trilhos de bonde, traçados de antigas ruas e as fundações do antigo Viaduto do Chá, a partir de obras abertaspelo empreendedor (Juliani 1996). As pesquisastinham como objetivo registrar as evidênciasexpostas pela obra e compreender a evoluçãourbana da cidade (Juliani e Campos, 1988). Oprograma enfrentou inúmeros desafios, como ofato da primeira etapa permitir o acesso de doistécnicos, acompanhados, por apenas uma horaaos canteiros de obra (Juliani e Campos 1990). Esta foi a primeira tentativa de desenvolvimento de uma metodologia de ArqueologiaUrbana em São Paulo, indicando a potencialidade e alta densidade de vestígios no solo urbanoe a necessidade inerente de critérios para umagestão arqueológica das obras de infraestruturana cidade (Juliani 1996; Juliani et al 1988). Aexperiência conduziu a elaboração e inclusão dedispositivo de proteção ao patrimônio arqueológico na cidade de São Paulo na nova LeiOrgânica do Município de
1990, pelo Artigo197 (Zanettini e Cazzetta 1993).
[Página 16 do pdf]to sobre o processo construtivo na virada doséculo” (Jornal USP, 1998). Em
1995, coordenadora do NAUBC acerca de 12 anos, inicia as pesquisas em Mogidas Cruzes com o Projeto de Arqueologia daRegião da Serra do Itapety, que localiza cerca de15 sítios, com escavações em superfície ampla eetnográficas, “ataques horizontais” e leituras estratigráficas realizadas por trincheiras de 1, 10mx 2m x1m; foram utilizados setores, organizadosa cada 10m, nomeados por letras do alfabeto(Tomiyama 2002). Junto de Vivan Fernandes, Nair Tomiyama e Davi Chermann, seus orientandos no MAE/USP, escava outros sítios dovale do Paraíba, sempre com metodologias eperguntas semelhantes. Com o projeto retoma atemática industrial com o sítio Lago do Parque, em Mogi, relacionado ao serviço de captação deágua no XIX. Entre 1997-1999, através de termo decooperação técnica e administrativa da USPcom a Prefeitura de Santos, Margarida coordena escavações no Engenho dos Erasmos, dasquais participa a arqueóloga Eliete Pythágoras. A escavação possibilitaria a evidenciaçãodo material arqueológico, através de ataquehorizontal, enfatizando a representatividade dos“referencias socioespaciais do passado” (Andreatta 1999). Margarida buscava, assim como nasCasas Bandeiristas, auxiliar no entendimentodo modelo construtivo do engenho, subsidiando trabalhos para a revitalização do conjunto, edelinear as linhas essenciais de suas condiçõessocioeconômicas. O sítio também foi dividido em setoresidentificados por letras do alfabeto, cuja metodologia abarcou cortes de verificação, sondagenspara delimitação dos limites e trincheiras “paraevidenciar estruturas e diferentes horizontes desolo” (Andreatta 1999; Anjos 1998). As escavações foram feitas a partir do quadriculamentodos setores e aplicação do método de superfieampla para compreender locais de residência, capela e estabelecer a circulação interna doaçúcar, identificando as atividades econômicase sociais do engenho (Andreatta 1999). Os“testemunhos arqueológicos”, classificadoscomo “cerâmica”, “louça branca”, “porcelana” e “faiança” (sob as prerrogativas de TâniaAndrade Lima para as faianças finas). O usodestas categorias artefatuais estaria presente notrabalho de diversos de seus orientandos, assimcomo a ausência ou parcimônia na utilização de“cerâmica neobrasileira” delineada por Ondemar Dias.
O uso destas categorias, associada à metodologia e técnicas que a própria Margaridautilizou a partir da Arqueologia Pré-Histórica, como ela mesma afirma em diversos momentos(Andreatta 1981/1982; 1999), marcou a formação de muitos pesquisadores, seja pela nãoutilização de categorias da “tradição neobrasileira” seja pelo uso de metodologias específicas. Poucos de seus alunos utilizam o termo, semprecom ressalvas. O trabalho com fábricas e em contextos associados ao século XX indica, igualmente, umapostura bastante aberta em relação ao significado da cultura material, que possibilitou minhaprópria orientação sobre um sítio industrial, o cotidiano operário e a produção de faiançafina brasileira na primeira metade do século XX(Souza 2010). Para Andreatta, em postura rara, o século XX é passível de leitura arqueológica. Em
1999, realiza prospecções no sítioLavras de Afonso Sardinha, no Pico do Jaraguá, expoente das primeiras minerações portuguesasna América do século XVI. Mais tarde, junto dePaulo Zanettini e Érika Gonzalez, entre
2001 e2003, pelo projeto do Rodoanel, volta às cavasde ouro coloniais.
[Página 18 do