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O Engenheiro Eusébio Stevaux e a Arquitetura Oficial Paulista, 1877-1885
1 de jan. de 1995, domingo
   
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engenheiros estavam mais interessados nas variedades de engenharia que então começavam a prosperar no Brasil: a ferroviária, a hidráulica, a sanitária, a civil, etc. Diante desses campos promissores e pouco explorados a arquitetura e a construção civil não ofereciam desafios. Contudo, na capital paulista, essa situação já começa a se alterar no segundo lustro daquela década: Glette vem da corte e Puttkammer projeta para ele a sede de um luxuoso hotel (1876-1878), fato inédito que denuncia claramente que a vida e a mentalidade da cidade toma nova configuração, em conseqüência da cada vez mais próspera economia do café. São Paulo ingressa naquele instante no mundo capitalista; expande-se tanto economico quanto fisicamente, tornando-se enfim o centro financeiro da província. Os fazendeiros transferem-se em levas para a capital e uma vez estabelecidos aí engajam-se em empreendimentos das mais variadas naturezas. No decênio seguinte tudo evolui rapidamente. A sociedade burguesa, que se constituía, logo toma consciência do papel do arquiteto na nova conjuntura. Com o enriquecimento geral, as autoridades passam a se preocupar com a modernização da cidade de São Paulo. É necessário elevá-la à altura da florescente província da qual é capital. Deve-se im plementar, portanto, o calçamento de ruas a paralelepípedo, o ajardinamento de praças, e, sobretudo, a reforma e a reconstrução de edifícios públicos, todos eles velhíssimas construções de taipa. Para alcançar este último objetivo, o governo da província dispunha de engenheiros a seu serviço na Diretoria de Obras Públicas: o engenheiro militar Azevedo Marques, à testa do 12 distrito de Obras Públicas, que incluía a capital, e, a serviço da Câmara Municipal, o dr. Fernando de Albuquerque. Não recorreu a nenhum deles porém, preferiu convocar no Vale do Paraíba, em Guaratinguetá, um engenheiro francês, que sem dúvida já havia demonstrado suficientemente sua capacidade profissional: Eusébio Stevaux. Dados Biográficos BásicosMarie François Eusèbe Stevaux nasceu em 14 de agosto de 1826, na cidade francesa de Allègre (Flaute Loire), filho de Jules Modeste Stevaux e Marie Magdalaine Julie Stevaux1Fez seus estudos superiores na Ecole des Ponts et Chaussées, em Paris, começando a trabalhar na estrada de ferro de Paris a Estrasburgo. Contratado para serviços de engenharia na Califórnia, partiu da França pelo Porto do Havre, embarcando com a mulher na galera Elisa. Depois de uma longa viagem, o navio chegou ao Rio de Janeiro, um dos portos de reabastecimento e reparos. Enquanto o casal se achava em terra, a galera que os transportava sofreu uma explosão e sossobrou (8 de fevereiro de 1851). Perdendo toda a sua bagagem e completamente desprovido de meios, Stevaux conseguiu ser contratado para trabalhar na abertura de um canal em Campos. Mais tarde voltou à cidade do Rio de Janeiro e participou da construção da estrada de ferro D. Pedro II. Depois prosseguiu carreira nas províncias do Rio, de Minas Gerais e de São Paulo, adotando a cidadania brasileira em 18 de maio de 1870.

No ano seguinte, em São Paulo, assumiu os estudos preliminares da linha Sorocabana, no trecho de São Roque a Sorocaba. Nessa mesma ocasião adquiriu a fazenda de Pantojo, onde fundou um estabelecimento industrial e agrícola de grande valor. Dali passou a extrair cal hidráulica para a construção civil e, mais tarde, mármores de diferentes cores, que se tornaram muito apreciados. [p. 51, 3 do pdf]Em 1876, ou início de 1877, Stevaux passa a prestar serviços para a província. A nosso ver, inicia-se aí a fase mais relevante de sua carreira, pois, como procuraremos demonstrar adiante, graças ao prestígio que granjeou, teve oportunidade de renovar vários edifícios governamentais, numa época de grandes transformações na capital. Após 9 anos de trabalhos públicos, mais ou menos, durante os quais desenvolveu projetos ligados à arquitetura oficial e a diversos ramos da engenharia, foi exonerado a pedido em 1885, retirando-se então para São Roque, onde se tornaria muito querido. Aí participou do Conselho de Intendência no período 1890-1892; eleito vereador chegou a ocupar o cargo de vice-presidente da Câmara Municipal. Projetou gratuitamente a rede de abastecimento de água daquela cidade entre 1891 e 1893 e recebeu justa homenagem dos cidadãos sanroquenses em 1894, quando na oportunidade lhe foi oferecido um retrato executado por Almeida Junior, que hoje faz parte do acervo da Pinacoteca do Estado. (Fig. 1)Faleceu em 21 de fevereiro de 1904, na casa da família localizada no largo de Guaianazes (hoje praça Princesa Isabel), em São Paulo. Sua fazenda do Pantojo foi então posta a leilão por se achar hipotecada. Por volta de 1940, constatou-se que as renomadas jazidas de mármore se encontravam completamente inutilizadas, por terem sido tratadas de longa data à dinamite. Principais Obras e Atividades ComprovadasDurante os anos que passou noserviço público da província de São Paulo, ocupou sucessivamente o cargo de engenheiro responsável pelo 2S distrito (Vale do Paraíba), pelo 5Q distrito (região de Itu e Sorocaba), e pelo 1Q distrito de Obras Públicas (capital e região circundante). Após a extinção dos distritos por ato governamental de 1884 continuou como engenheiro até o pedido de exoneração. Mediante a consulta à documentação oficial, tanto manuscrita quanto impressa, foi-nos possível identificar seus principais trabalhos executados para a província - de natureza variada, refletem a versatilidade profissional dos engenheiros da chamada fase enciclopédica da engenharia: obras de abastecimento de água para a penitenciária e o jardim público (1879); relatório sobre o traçado do prolongamento da Paulista, passando pelo morro do Pelado (1879); plano de reconhecimento de um traçado para a estrada de Pindamonhangaba a Campos do Jordão (1881), trabalho em que auxiliou o inspetor geral de Obras Públicas; traçado de uma via pública unindo o Monumento do Ipiranga à capital (1885), projeto depois substituído por outro de autoria de Luís Pucci. Na área da arquitetura oficial recuperamos comprovadamente o relevante projeto de reforma da Casa de Câmara e Cadeia da capital, transformando-a em Congresso Provincial (1877), o projeto da sede da Tesouraria de Fazenda (1881), construção iniciada e logo interrompida, e dois projetos de melhoramentos a serem introduzidos no edifício da Hospedaria dos Imigrantes, localizada no Bom Retiro (1882 a 1884).

Paralelamente à essa atividade de servidor público, realizou outros trabalhos, tais como o projeto da estrada de ferro de São Paulo a Mato Grosso, juntam ente com o engenheiro França Leite (1879); os planos do boulevard do Chá, para o empresário e litógrafo Jules Martin (1880); o levantamento do terreno e o cálculo da força motriz da cachoeira Votorantim para estabelecimento de uma fábrica de [p. 52, 4 do pdf]tecidos (1883) e a carta da província de São Paulo, publicada por ele mesmo (1883). Foi professor do Liceu de Artes e Ofícios de 1882 a 1900, sócio-fundador do Instituto Politécnico de São Paulo (1876) e ainda vice-presidente do Clube Paulista de Engenharia e Indústria (1883). Nos anos 80 possuía um escritório de engenharia na capital e é possível que tenha sido um dos primeiros profissionais a projetar e construir edifícios particulares na cidade, a partir de sua intervenção na Casa de Câmara e Cadeia realizada em 1877, ocasião em que deve ter chamado a atenção da elite paulistana. Infelizmente de toda a produção dedicada à arquitetura privada, só um exemplar sobreviveu na memória das gerações posteriores - trata-se da casa de chácara de Augusto de Sousa Queirós, já existente em 1881 e demolida na década de 30 para a construção do edifício Esther, situado na praça da República. Obras AtribuídasHá ainda obras de maior importância executadas ao longo dos anos de 1880 que, em nossa opinião, devem ser imputadas a Stevaux. De fato, atribuímos a ele todas as intervenções em edifícios oficiais situados na capital, ocorridas entre os anos de 1877 e 1885. É impossível não reparar nas semelhanças de determinadas soluções arquitetônicas existentes no paço do Congresso Provincial (1877- 1879), no Palácio do Governo (reconstruído entre 1881 e 1886), e na Faculdade de Direito (reformada externamente entre 1884e 1885). Todas essas construções ostentam uma linguagem formal já francamente eclética, fundamentada em repertório de índole classicista, e são esteticamente, é forçoso confessá-lo, um tanto medíocres. No Congresso Provincial, comprovadamente de Stevaux, observamos uma imitação desagradável dos hôtels de ville do Segundo Império Francês, mais precisamente, das mairies parisienses erguidas ao tempo de Haussmann, de acordo com a ordonância do Louvre de Lefuel, paradigma desde então internacionalmente aceito para edifícios públicos com fins administrativos e burocráticos. A cobertura tronco-piramidal recoberta de ardósia, que coroava o corpo central do congresso, conflitava estilisticamente com os rígidos frontões triangulares que rematavam os simulados pavilhões terminais, cujos tímpanos achavam-se decorados com arabescos de inspiração rococó. Esculturas alegóricas desproporcionalmente grandes, representando segundo Alfredo Moreira Pinto, a lei, a justiça, o comércio e a agricultura, assombravam as platibandas do edifício2 Essas falhas evidentes na concepção dos alçados, entretanto, não causaram aversão nos contemporâneos. Muito pelo contrário, o palácio parece ter sido entusiasticamente recebido como a primeira manifestação de legítima arquitetura em terras paulistanas (Fig. 2). Junius, de gosto arquitetônico apurado na corte onde já triunfava o ecletismo, alonga-se sobre esse prédio, atribuindo erroneamente a autoria do projeto ao engenheiro E. F (Elias Fausto Pacheco Jordão, então inspetor geral de Obras Públicas), superior hierárquico do verdadeiro projetista3. As circunstâncias que envolveram a reconstrução do palácio da Presidência da província nos induzem igualmente a atribuir sua idealização a Eusébio Stevaux. Quando o presidente da província Laurindo Abelardo de Brito procurou reparar os estragos que as goteiras haviam provocado no Palácio do Governo, foi convencido pelo inspetor geral de Obras Públicas a não fazer maiores consertos. Não valia a pena. Aquela antiga construção jesuítica era indigna de figurar numa [p. 53]

pequeno frontão curvo do tabernáculo havia sido substituído por uma cornija que acompanhava a forma circular do mostrador. Nos três casos, porém, os pares de pilastras estavam ladeados por volutas e as composições eriçadas de pináculos. Esse tipo de arranjo ornamental seria corriqueiro nos tempos mais avançados do ecletismo, mas na São Paulo dos anos de 1880 constituíam exemplares únicos. Acreditamos que o início atabalhoado da sede da Tesouraria da Fazenda tenha sido o motivo que levou Stevaux a se transferir do 5Q para o 12 distrito de Obras Públicas, pois nessa últim a posição poderia encarregar-se diretam en-te da execução de ambos os projetos, o do Palácio do Governo e o da Tesoura-ria. A partir de então (início de 1882 ao que se supõe) até 1885 ficaria respon-sável por todas as construções e reformas de edifícios provinciais na capital. Diante disso, nada mais lógico do que ver na reforma do decrépito conven-to franciscano, onde se alojava a Faculdade de Direito, mais uma vez o dedo de Eusébio Stevaux. (Fig. 4)Outra característica do engenheiro francês presente nas obras governamentais executadas na capital é o emprego de mármores originários de sua fazenda do Pantojo (os mais notáveis eram o de cor preta, drap mortuaire, o verde, semelhante ao "verde antigo" ou ofiólito, e o preto com veios brancos, dito de Santana). Não só certas partes externas do Palácio da Presidência deveriam ter sido revestidas de mármore verde, como também a escadaria e o vestíbulo desse edifício eram valorizados com material do Pantojo. Tem-se conhecimento ainda, pela documentação oficial hoje conservada no Arquivo do Estado, de que havia trabalhos de mármore nas obras da Tesouraria de Fazenda e, por antigas fotos, sabemos que a entrada principal do prédio da Faculdade de Direito estava ladeada por duas colunas jônicas cujos fustes, aparentemente, haviam sido executados em mármore, talvez do Pantojo. Seguramente encontramos mais uma obra de Stevaux no fecho do jardim público, construído entre 1881 e 1883. Embora desconheçamos documentação iconográfica relativa à essa construção, temos dela descrição sumária: consistia num gradil de 166 metros de comprimento, dividido em lances por pilares de mármore verde do Pantojo. O acesso dava-se através de um suntuoso portão [p. 56, 8 do
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Cassius Marcellus Clay Jr.
1942-2016
Cássius Clay é nome de escravo, não o escolhi, não o quero. Sou Muhammad Ali, um nome livre.

Fonte: ERRO!

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