Sorocaba em 1918: Primeira Guerra Mundial, greves e gripe espanhola
Autor: Nilza Alencar
Terça-feira, 1 de Janeiro de 1918
Última atualização: 14/01/2021 08:51:04



O primeiro contato de brasileiros com a gripe espanhola, teria se dado por intermédio dos integrantes da missão médico-militar que atuou nos últimos meses da Primeira Guerra Mundial.

O futuro prefeito de Sorocaba, Eugênio Salerno, estava participando dessa guerra. Como médico, lutando pela Itália, o que motivou protestos quando retornou à Sorocaba.



Protestos pela chegada de Eugênio Salerno
Data: 2 de Dezembro de 1919
Acervo/Fonte: Correio Paulistano
Por ter lutado pela Itália durante a Primeira Guerra

Enquanto isso, no dia 18 de janeiro tem início uma greve envolvendo 1200 operários em Votorantim, ainda "bairro" de Sorocaba, que durou até o dia 4 de fevereiro, com resultados negativos para os operários.

Foram demitidos 40 tecelões efetivos e 40 substitutos. O jornal Cruzeiro do Sul traz com destaque a notícia: “Greve no Votorantim: um mestre de secção é ferido a tiros de revolver”.



Operários da fábrica de tecidos Votorantim (1920)
Acervo/Fonte: Gazeta de Votorantim

Segundo o jornal, um contra-mestre da fábrica Votorantim desentendera-se com alguns operários e estes passaram a agredí-lo com pedaços de ferros, culminando com um tiro de revólver partindo dos operários, ferindo-lhe a perna.

Como de outras vezes, foi solicitado reforço policial da capital e efetuada várias prisões de operários envolvidos.

De início, cerca de 800 operários em solidariedade aos companheiros se declararam em greve. No dia seguinte, a paralisação já atingira todas as secções da fábrica.



Fábricas Votorantim (1916)
Acervo/Fonte: O Malho

Após a apuração do ocorrido ficou constatado que o incidente que dera origem agreve foi insignificante, mas seus desdobramentos é que levaram ao agravamento dasituação.

Tudo começou quando a operária, Rosa Barberini, chegara de madrugadapara trabalhar toda molhada devido a forte chuva que caía.

Solicitou então ao mestre Pedro Fornoni que lhe desse um passe para que pudesse voltar para casa e trocar de roupa.

No dia 21 de setembro o navio mercante S. S. Demerara, que zarpou de Liverpool no dia 15 de agosto, chega ao Recife, dando início de epidemia de gripe espanhola no Brasil. Ele também desembarca doentes também em Salvador e Rio de Janeiro.



Transatlântico Demerara (1918)
Acervo/Fonte: Yahoo
De bandeira inglesa

Um mês depois, no dia 24 de outubro são noticiados os primeiros casos de Gripe Espanhola em Sorocaba e até o dia 6 de novembro haviam sido registrados 671 casos da gripe espanhola e 12 mortos.

Segundo o jornal “A Influenza” de 10 de novembro os presos foram obrigados à cavar as sepulturas para os mortos pela epidemia.

Segundo o jornal, a contagem subiu para 7 a 8 mortes diárias e a estimativa era de que havia 3 mil gripados na cidade — quantidade próxima a 10% da população.



Segunda Câmara Municipal e Cadeia (1914)
Acervo/Fonte: Pedro Neves dos Santos / MHS
Rua São Bento. Esquina c/ a Padre Luís. Foto colorida digitalmente

Foi adiada a posse do presidente-eleito Rodrigues Alves, que acabou contraindo a Gripe Espanhola, marcada para o dia 15 de Novembro.



Rodrigues Alves (1902)
Acervo/Fonte: Domínio público

No dia 17 de novembro, um domingo, o Prefeito Augusto Cesar Nascimento Filho se reúne com os proprietários das Fábricas.

Após a exposição do cenário epidêmico, o prefeito pediu ao médico Álvaro Soares que redigisse um parecer sobre a situação.

Esse médico, que 18 anos antes desempenhara papel central no combate à febre amarela, afirmou em seu parecer que os gripados recém-curados e convalescentes não deveriam se expor a qualquer “intempérie sem gravame para si e para a população.”



Augusto César do Nascimento Filho
Data: 9 de Agosto de 1938
Acervo/Fonte: Hemeroteca
Prefeito de 5 de janeiro de 1914 a 4 de janeiro de 1921 e de 29 de julho de 1938 a 1° de julho de 1943

O risco tinha relação com o convívio de pessoas em ambientes fechados e por isso Álvaro Soares determinou a interrupção do trabalho nas fábricas por prazo mínimo de 15 dias.

Uma comissão de médicos assinou o parecer: João de Almeida Tavares, Odilon Goulart, Gentil Fontes, Eduardo Augusto Pirajá, Ribeiro Neto e Luiz de Almeida. Todos os industriais presentes acataram o documento de Álvaro Soares com respaldo da comissão de médicos:

“Pela fábrica Votorantim, Pieri Roggieri; pela Companhia Nacional de Estamparia, Jorge Kenworthy; pela Companhia Fiação e Tecidos N.S. da Ponte, Italo Romano; pela Companhia Fiação e Tecidos Santa Maria, Eugenio Mariz”.



Vila Fonseca (1960)
Acervo/Fonte: Gal Moreira Dini II / Lembranças Sorocabanas
Ffábrica Fonseca e Fábrica Santo Antônio

O estudo acrescenta que o industrial Frank Speers, coproprietário da fábrica Santa Rosália, não compareceu à reunião.

Procurado pela prefeitura, o industrial declarou “não concordar com a resolução tomada pelos seus colegas, baseando-se na opinião que adrede lhe dera o médico da fábrica Sr. Dr. E. Pirajá”.



Diretores da Fábrica Santa Rosália (1940)
Acervo/Fonte: Associação Comercial de Sorocaba
Foto colorida digitalmente

Esse médico assinara o parecer de Álvaro Soares. E, com essa recusa de Frank Speers em acatar a decisão de seus “colegas” industriais, o prefeito decidiu que comunicaria todas as resoluções ao secretário do Interior e à diretoria do Serviço Sanitário.

Frank Speers contrariando os médicos, se negou a fechar Fábrica Santa Rosália.


José Carlos de Aguirre, Frank Speers e Rosária Oetterer (1929)
Acervo/Fonte: Museu Histórico Sorocabano
Foto colorida digitalmente

No dia 19 de novembro o Jornal Cruzeiro do Sul divulgou informações sobre a reunião do prefeito com os proprietários das fábricas. Cerca de 900 pessoas haviam contraído a gripe espanhola, 20 na Fábrica Santa Rosália.

No dia 22 de novembro, Ermelino Matarazzo paralisa o funcionamento das Industrias Reunidas Matarazzo.



Hermelino Matarazzo (1910)
Acervo/Fonte: Desconhecida

E no dia seguinte, 23 de novembro, a Cruz Vermelha pede que as industrias de Sorocaba paralisem as operações devido às mortes. E no dia seguinte, um artigo intitulado “A situação dos operários” descreve o seguinte:

Nos grandes balanços das empresas industriais o ônus duma quinzena de vencimentos pode ser suportado sem perigo de sua consistência financeira, em benefício de famílias inteiras de operários às quais a falta duma quinzena de salários quer dizer miséria, fome e mesmo, às vezes, expulsão da casa em que habita.



Jardim Santa Rosália (1943)
Acervo/Fonte: Revista "O Cruzeiro"
Bangalows construídos por Severino Pereira da Silva

O fato de o artigo mencionar a possível expulsão dos operários de suas casaspela falta ao trabalho, é sintomático, pela razão de que o texto poderia estar fazendo alusão ao caso da vila operária da fábrica Santa Rosália, em que as moradias dos trabalhadores pertenciam à empresa.

A Villa, anexa a fábrica Santa Rosália, era composta de 270 casas, escolas publicas, consultório medico, armazém, casa de diversões, etc, sendo magnífica a sua iluminação elétrica e perfeito o serviço de encanamento de água.

No dia 30 de novembro, o Cruzeiro do Sul noticiou a reabertura das fábricas de tecidos da cidade para o dia seguinte, 1º de dezembro.

Os óbitos, que em novembro eram em média de oito por dia, continuaram em dezembro com número aproximado de 1 por dia e foi registrado o fim do quadro de epidemia.



Chácara / Fábrica Santa Maria (1917)
Acervo/Fonte: Museu Histórico Sorocabano

No dia 1 de dezembro houve a reabertura das fábricas de tecidos. No dia 10 de dezembro, o Cruzeiro do Sul organizou uma “Comissão de socorros” para angariar donativos para os “gripados pobres”.

Planejavam encerrar suas atividades “com chave de ouro” no dia1° de janeiro de 1919 em uma missa campal “em ação de graças pela terminação da epidemiade gripe”.

No dia 1 de janeiro de 1919, muitas pessoas com trajes escuros, em sinal de luto, participaram da procissão. Segundo o jornal Cruzeiro do Sul:

A epidemia da ‘espanhola’ produziu mais de trezentas mortes nesta cidade e município. Foi uma rajada de amargura que soprou impiedosa sobre nós durante quarenta dias.

Um por cento dos habitantes a morte arrastou ao túmulo. Quinze por cento pelo menos dos sobreviventes deveria ter-se coberto de luto, materialmente que fosse, envergandoternos pretos os homens e vestidos negros as mulheres.


No dia 15 o vice Delfim Moreira torna-se o décimo presidente da República no lugar de Rodrigues Alves, morto pela gripe espanhola.

Nesse mesmo dia o prefeito registrau que teriam ocorrido 8.213 casos de gripe e 142 óbitos, em uma cidade com aproximadamente 39 mil habitantes.

Referências bibliograficas

Jornal Cruzeiro do Sul
Jornal da Tarde
Bourdieu (2000)
Anais da Câmara dos Deputados, 17.10.1918, p. 613-23
Jornal A Influenza
Gripe Espanhola em Sorocaba em 1918. João Paulo Dávila

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