Embriagado, australiano, soldado na primeira guerra, elucidou maior mistério da década
Fonte: Arquivo Vermelho/RJ
Terça-feira, 25 de Maio de 1920
Última atualização: 04/12/2020 01:52:57

O corpo de um homem havia sido encontrado desfigurado em um local conhecido como Espraiado, na divisa entre Cravinhos e Ribeirão Preto. A vítima tivera o rosto descarnado, as orelhas e as línguas cortadas e mutilações no crânio. Apresentava ainda inúmeros ferimentos nas costas e uma perfuração no ventre.

Não só em Ribeirão Preto e Cravinhos que o crime repercutiu, abalou profundamente o espírito público de todo o estado, a ponto de se formarem em frente das cadeia grupos de curiosos à espera de novas informações.

Várias circunstâncias faziam com que o crime fosse divulgado: a barbárie com que foi praticado o delito, o destaque e a popularidade das várias pessoas nele envolvidas, o motivo do crime e o profundo, impenetrável mistério que paira sobre a identidade da vítima.

Poucos crimes do gênero haviam custado às nossas autoridades tantos dias de esforço. Os melhores investigadores, aguçados pela recompensa de 250:000$000, quebravam a cabeça.

A polícia recebeu várias cartas anônimas, perseguiu várias pistas, mas não chegou à conclusão alguma.

A verdade vem de um bêbado, ex-soldado na Primeira Guerra Mundial, engenheiro em Sorocaba/SP

Na noite de 17 de Janeiro de 1920, em um "bar" da capital paulista, em companhia dos srs. Boucher Filho e dr. Edmundo Burle, cavalheiros muito conhecidos, bebia o engenheiro australiano Carlos Leman, que trabalhava nas obras da Light, em Sorocaba.

Completamente alcoolizado, Leman começou a fazer curiosas declarações sobre a identidade do cadáver encontrado em Ribeião Preto, o Crime de Cravinhos, dando a perceber que conhecia a vitima.

Extraordinariamente surpresos, os dois companheiros não perderam tempo e nem permitiram que Leman continuasse a beber. Conduziram-no a Chefia da Polícia onde estava o Dr. Bandeira de Mello e ali declararam abruptamente que Leman conhecia a identidade misteriosa da vitima de Pão Alto.

Foi um reboliço enorme. Passado o primeiro momento, os telefones trabalharam, mobilizando pessoal, sendo chamado, em primeiro lugar, o dr. Accacio Nogueira, diretor do Gabinete de Investigações e Capturas.

Duas horas de ansiedade

Carlos Leman, porém, estava completamente alcoolizado e o mistério foi, primeiro como cura-lo da bebedeira.

Cerca de duas horas decorreram antes que o australiano pudesse responder coerentemente ás indagações. Dissipados, porém os efeitos do álcool, enfim falou:

Declarou chamar-se Carlos Leman, australiano e engenheiro. Durante a Primeira Guerra Mundial havia servido no exército inglês. Foi onde conheceu oficial francês Affonso Deport, de quem se tornou amigo.

Certa vez, Deport lhe dissera ter se casado, em Paris, com uma brasileira, da qual, mais tarde, se separou. Ambos falavam em vir ao Brasil.

Terminada a guerra, Carlos veio para São Paulo, empregando-se na Companhia Armour, como engenheiro. Pouco tempo depois, mudou dali, indo trabalhar em Sorocaba, nas obras da Light, onde ainda residia.

No final de outubro de 1919, Carlos recebeu uma carta do seu amigo. Pedia-lhe informações a respeito de uma família Alves Ferreira, desde estado, suas condições de fortuna, etc. ao mesmo tempo que anunciava a sua vinda ao Brasil.

De fato, registros comprovam, que no início de 1920, pouco antes de ser encontrado o cadáver, o oficial francês chegou em São Paulo e procurou o seu amigo em Sorocaba.

Chegou no Brasil já de posse das informações que pedira e que lhe haviam sido dadas por carta, sobre a família de d. Iria Alves Ferreira. Deport, sem explicar o motivo de sua viagem, convidou Carlos a acompanha-lo a Villa Bonfim, no município de Ribeirão Preto.

Com as notícias da tragédia de Palo Alto, o australiano começou a estabelecer ligações entre os fatos. Guardou, desde os primeiros dias, os jornais e revistas que trataram o caso. E a medida que as hipóteses, sucessivamente inventadas, ia sendo postas de lado, ia-se formando em seu espirito a convicção de que a vítima é Afonso Deport.

Ele disse que demorou a estabelecer ligações entre os fatos. Mas adotando o processo da exclusão, ficou de pé a sua hipótese. Como o intuito de revelar as suas suspeitas a polícia, e aos jornais, saiu de Sorocaba e foi para São Paulo, onde hospedou-se numa pensão Alemã, na Rua José Bonifácio. Ali , nas condições que citadas atrás, falou a respeito com os senhores Bouchere Burle.

As mais diversas reações surgiram entre as pessoas na Delegacia, algumas perplexas. No dia seguinte, completamente sóbrio, Leman confirmou cada detalhe da história, dando provas incontestáveis de sua identidade e de todas as suas informações.

Estranhamente as autoridades paulistas mantiveram o caso em absoluto segredo. Um trabalho intenso visando desacreditar as declarações do engenheiro tivessem como base receber a recompensa. Um jornal, porém, conseguiu apurar o fato, tornando o fato público e histórico.

A Rainha do Café

Todas as informações apontavam para uma pessoa: A Rainha do Café, Iria Alves Junqueira, mãe de Sinhazinha Junqueira, a quem, todos sabiam, havia se casado na França, porém, ninguém sabia com quem.



Dn. Iria Alves Ferreira Junqueira (1902)
A Rainha do Café


Descrita como “mulher empreendedora e incansável, que nobilita seu coração sensível a todas as dores, a todas as necessidades”.

A notícia foi amplamente divulgada pelo jornal “O Estado de S. Paulo”, que mantinha um correspondente na cidade. A reportagem dizia que D. Iria pertencia à numerosa e conhecida família Diniz Junqueira, que possuía inúmeras fazendas em Ribeirão Preto e que seu codinome era “Rainha do Café”.

Iria e o administrador da fazenda Pau Alto, Alexandre Silva, foram presos acusados de serem os mandantes do assassinato de

O crime foi descrito em pormenores, mas a identidade da vítima nunca foi confirmada. Uma das suspeitas é que se tratasse de um ex-genro francês de Iria que tinha chegado a Ribeirão para cobrar sua parte na herança da filha dela, que morrera.

Durante o processo, os executores do crime, funcionários da fazenda de Iria que tinham confessado a participação dela e de Alexandre, voltaram atrás e disseram terem sidos torturados para confessar o que as autoridades queriam ouvir.

O fato é que a prisão de Iria e a divulgação de seu suposto envolvimento com o crime representou a primeira derrocada dos coronéis do café da região. Na época, o mais importante deles, Joaquim da Cunha Junqueira, chefe político do PRP, era justamente o cunhado de Iria.

Presa, ela tinha contra si boa parte dos órgãos de imprensa e a repulsa da sociedade que via no caso uma forma de revide contra o despotismo dos fazendeiros, que usavam a violência como meio eficaz para obter tudo o que queriam.

O início da derrocada do coronelismo, em Ribeirão Preto, deu-se por meio de uma figura feminina, demonstrando que as mulheres até poderiam romper com o seu lugar social, mas muitas vezes eram lembradas ou relembradas de sua representação social.

Em setembro de 1920, depois de permanecer quase um mês em silêncio, os advogados de Iria iniciaram intensa campanha pela sua inocência nos jornais. Fábio Barreto, Camillo de Moraes Mattos e Meira Júnior, todos pertencentes à elite ribeirão-pretana, assumiram a defesa da fazendeira (Os três advogados viriam a ser importantes políticos em Ribeirão Preto).

Uma das teses da defesa era que Iria estava sendo acusada justamente por ser rica, para ser exibida como um exemplo da imparcialidade da polícia e das autoridades do Judiciário.

E isso era alardeado em matérias pagas nos jornais. Os capitalistas, os homens endinheirados que tiveram o prestígio do ouro, ficaram por essa forma expostos doravante, mais do que os pobres diabos sem eira nem beira às suspeitas da polícia.

A “Rainha do Café” nunca mais voltou a morar em Ribeirão Preto, após o processo. Em 21 de novembro de 1927, na cidade mineira de Vespasiano, ditou uma carta a um padre pouco antes de morrer.

Na carta se dizia inocente e atirava contra seus detratores. "Não quero deixar este mundo sem deixar para meus filhos e meus netos as minhas mais puras e santas bênçãos e sem dizer-lhes que não há nada no mundo que se compare à consciência pura, à tranqüilidade da alma [...]

Juro diante de Deus e Maria Santíssima que vão receber minha alma inocente e pura de todas as calúnias que nunca matei ninguém. Nunca nem em pensamento, mal ou pequeno ou grande fiz ao meu próximo e nem pensei em faze-lo. [...]

Por que me caluniaram e por que me difamaram e me perseguiram, eu, inocente, sem compreender o que estava acontecendo? Não sei. Devem sabê-lo as autoridades que deram mão forte aos meus ocultos inimigos, os quais não pensava tê-los, pois nunca fiz mal a ninguém.
"

Pesquisa: Amora G, fonte: Fonte: Arquivo Vermelho (RJ)


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