A lenda dos palhaços da kombi branca traficantes de órgãos
Autor: Nilza Alencar
Segunda-feira, 5 de Junho de 1995
Última atualização: 12/12/2020 01:42:39

Em 1995 o jornal "Notícias Populares" acompanhou a investigação sobre um suposto bando que apavorou São Paulo. A ação do grupo consistia em atrair crianças com balas e doces e depois as jogarem numa Kombi branca, sumindo em seguida. Passados alguns dias, a criança raptada era encontrada sem os órgãos.

As reportagens sobre o caso, que ficou conhecido como o Bando do Palhaço, foram publicadas no "Notícias Populares" entre os dias 20 de maio e 5 de junho de 1995. Ainda que o jornal tenha deixado claro que em suas páginas que o assunto se tratava de boato, o caso teve grande repercussão.

Tudo começou com Aline, uma menina de 11 anos, da cidade de Carapicuíba (Grande São Paulo), que estava desaparecida desde o dia 31 de março daquele ano. A partir daí o boato de que ela teria sido vítima do Bando do Palhaço se espalhou pelo Estado.

Moradores de Cidade Tiradentes, na zona leste da capital, do Capão Redondo, na zona sul, e do município de Osasco, por exemplo, já não deixavam mais seus filhos irem sozinhos à escola.

Em maio de 95, NP publicou retrato falado do palhaço. A polícia, entretanto, sempre afirmou que a gangue nunca havia existido, pois não fora registrado nenhum caso ou queixa comprovada sobre o assunto. O delegado titular de Carapicuíba, onde começou a boataria, afirmava: "A gangue é fruto da imaginação de alguém. Se eu descobrir quem começou com isso, prendo".

Mesmo diante das negativas da polícia e de o "NP" publicar que tudo não passava de boato, algumas pessoas juravam ter visto os assassinos de crianças. A dona de casa N. E., moradora do Tucuruvi (zona norte), afirmou que o bando havia tentado raptar seus filhos no começo de 1995.

Em outros bairros da zona norte da capital paulista, a população também ficou amedrontada. Cleide Tavares, 40, afirmou que "eles tentaram atacar uma criança em frente a uma creche". O mecânico Carlos Adônis, de Perus, contou que sua filha não queria mais ir à escola.

Por causa da boataria, palhaços profissionais começaram a perder seus empregos, como revelou reportagem do "NP" publicada em 23 de maio de 1995. Edmilson José da Silva, que trabalhava em Carapicuíba como o palhaço Vuku-Vuku, estava sem emprego havia um mês. "Só de olhar um pôster com meu retrato na rua, eu já vi criança morrendo de medo", afirmava.

Vanderlei Costa, o palhaço Mamadeira, que à época era um dos sócios do sindicato dos palhaços, disse que a história iria "afastar as crianças dos palhaços".

Além do problema de desemprego, uma palhaça chegou a ser ameaçada de morte, conforme noticiou o jornal em 30 de maio.

Os palhaços Solange e Benedito, que encenavam Maria Pipoca e Tatupim, respectivamente, tiveram a vida em risco em ameaças feitas pela população. O casal era xingado cada vez que saía de casa. Em uma ocasião, os dois foram denunciados à Rota por um taxista e acabaram na delegacia. "Outro dia usei um batom 24 horas e saí na rua. Muita gente me olhou torto, e nunca senti tanto medo na minha vida", contou Solange.

Robson Martins, da companhia Tulim-pim-pim, voltava com sua Kombi pela rodovia dos Bandeirantes, acompanhado de Ricardo Galdeano, vestido de palhaço, e Sílvia Martins, fantasiada de bailarina, e relatou que foi ameaçado: "Na saída para a marginal Pinheiros, um cara que estava num Corcel branco e se dizia policial nos obrigou a parar e nos ameaçou com uma arma".

O medo de ataques do Bando do Palhaço fez com que escolas de Carapicuíba contratassem seguranças para proteger as crianças, como informou o "Notícias Populares" em 25 de maio.

No dia 27, o jornal publicou que o boato da gangue estava apavorando o interior e o litoral do Estado. Moradores de São Roque (SP) sentiam-se amedrontados com o bando que sequestrava crianças para tirar os órgãos.

O pânico chegou também chegou a Peruíbe (litoral sul de SP). A população das duas cidades dizia que um médico grisalho teria se juntado à gangue. Vera Lúcia Rodrigues, de São Roque (SP), jurou ter visto os três com a perua em frente de uma padaria. "O palhaço tentou atrair minhas filhas, mas eu fugi."

À medida que os boatos sobre a gangue se multiplicavam, a polícia tinha mais trabalho. A delegacia de Carapicuíba recebia mais de 20 ligações por dia de pessoas apavoradas com o bando. "Ninguém aguenta mais", dizia o delegado da cidade, Brasílio Machado.

"Bando do palhaço não existe" foi a manchete da última reportagem da série, publicada no dia 5 de junho. O "NP", a polícia e o repórter Gil Gomes investigaram o caso por dois meses e chegaram à mesma conclusão: tudo não passava de boato.

Desde que as notícias começaram a ser veiculadas, Gil Gomes começou sua investigação, entrevistando os pais das crianças desaparecidas e a polícia. "Tudo não passa de boato. Até hoje, nenhuma criança foi encontrada morta sem os órgãos", garantia ele.

O delegado-geral da polícia Antônio Carlos Machado também afirmou que a gangue não existia. "Fizemos uma investigação no Estado todo. Nunca um caso desse tipo foi registrado", afirmou.

O caso do "Bando do Palhaço", guardadas as devidas proporções, lembrou o episódio em que o então desconhecido Orson Welles (diretor de "Cidadão Kane"), em 1938, entrou no ar da rede de rádio CBS para informar uma suposta invasão de marcianos à cidade de Grovers Mill, no Estado de Nova Jersey (EUA). Welles apenas dramatizou trechos do livro de ficção científica "A Guerra dos Mundos", do escritor inglês Herbert George Wells.

No dia seguinte o jornal "Daily News" resumiu o episódio com a manchete "Guerra falsa no rádio espalha terror pelos Estados Unidos". No Brasil, mesmo com os constantes informes do "Notícias Populares" de que tudo não passava de boato, a história mostrou como pode ser perigoso um boato, a ponto de causar desemprego, despertar violência e colocar vidas em risco.

Fonte: Folha de São Paulo

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