Tiros disparados do Recreativo quase acertaram presidente do Brasil
Quinta-feira, 6 de Novembro de 1947
Última atualização: 14/11/2020 03:29:26



Duas armas de fogo apontavam para a sede do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), situada na rua São Bento, em Sorocaba. Era 6 de novembro de 1947, três dias antes da primeira eleição para prefeito através do voto popular. Na sacada do prédio era aguardada a presença do então senador Getúlio Vargas - cuja morte completa hoje 60 anos -, convidado para impulsionar a campanha do candidato Gualberto Moreira.

Bastou um homem com as mesmas características físicas do ex-presidente aparecer na varanda para uma sequência de projeteis atingir a fachada do imóvel. O objetivo dos atiradores não era alvejar o gaúcho de São Borja, mas sim dispersar o público e evitar que o clima de euforia refletisse no pleito municipal.

Getúlio Vargas não estava na sede do partido no momento dos tiros. A chegada do senador sofreu um atraso, pois um dos veículos da comitiva capotou na região de São Roque e deixou duas pessoas feridas.

Os disparos partiram da sede do Clube União Recreativo, distante cerca de 50 metros da sede do PTB. Os autores foram localizados logo na sequência, no forro do imóvel, e detidos pela polícia.

O homem baixo e barrigudo que saiu na sacada do prédio, momentos antes dos tiros, foi o capitão Carlos Franco Pinto. Ele era secretário geral do PTB no estado de São Paulo, presidente do diretório local, homem forte da polícia militar em Sorocaba e amigo pessoal de Getúlio Vargas. Partiu dele o convite para o senador discursar na cidade em favor de Gualberto Moreira.

Havia um clima de insegurança no ar. Getúlio tinha sido deposto do cargo de presidente dois anos antes, depois de longos 15 anos de governo, e colecionava inimigos. A sua presença também incomodava os adversários, pois o seu discurso era capaz de atrair as massas e cativar os eleitores.

Durante a série de comícios pelo interior do Estado, Getúlio Vargas foi severamente atacado antes de desembarcar em Sorocaba. Estudantes fizeram um enterro simbólico do ex-presidente em Ribeirão Preto.

Em Cravinhos, ele teria recebido um tapa no rosto, segundo o jornal O Dia. Já O Estado de S. Paulo publicou que o senador cancelou a visita em Sertãozinho e precisou da ajuda policial para não ser agredido em São Simão.

Para o filho do capitão, o delegado aposentado Álvaro Luz Franco Pinto, 78 anos, esse retrato da história mostra que Getúlio Vargas não estava literalmente na mira das armas em Sorocaba. "Os autores dos disparos eram excelentes atiradores e poderiam ter acertado o meu pai, o Gualberto Moreira e as outras pessoas presentes naquela sacada. A intenção não era matar, mas dissolver a multidão", diz.

Álvaro levantou mais uma hipótese de os projeteis terem sido disparados em Sorocaba sem um alvo definido. Após o incidente, o delegado regional Francisco Franco do Amaral teria prendido os atiradores, mas o capitão Franco Filho foi ouvido como testemunha e declarou o caso como um simples distúrbio.

"Com isso, os atiradores pegaram um processo pequeno e, depois, até o governador Ademar de Barros ligou agradecendo o meu pai por não ter exigido a tentativa de homicídio", lembra. O curioso é que, na ocasião, o chefe do executivo estadual era adversário político de Vargas.

De acordo com Álvaro, o público foi convocado a retornar à praça por meio do sistema de som após o tiroteio. A plateia viu Getúlio Vargas desembarcar em Sorocaba e discursar na sacada do PTB. Em seguida, o senador almoçou na residência de Franco Pinto, na chácara Vergueiro, e seguiu para Itapetininga. Nove dias depois, Gualberto Moreira seria anunciado o novo prefeito da cidade com 6.975 votos.

Testemunhas

Duas pessoas presenciaram o tiroteio ocorrido na praça central de Sorocaba. O escritor e jornalista Otto Wey Netto, 87, estava na sacada do prédio e narrava ao vivo pela rádio PRD-7 o evento político quando começaram os disparos.

Netto pensou que o conflito estava restrito à praça. "Comecei a narrar o tiroteio, mas uma pessoa se arrastou até a sacada, pegou na minha calça e falou para eu sair porque os tiros eram contra nós", lembra.

De acordo com Netto, a fachada do prédio ao redor da sacada ficou toda marcada pelos projeteis. "Até uma aparelhagem de som que estava por lá foi perfurada", conta. O jornalista não viu Getúlio Vargas.

Já o professor Milton Marinho Martins, 92, estava na praça para assistir ao comício. Ele era candidato ao cargo de vereador Partido Democrata Cristão (PDC), ouviu os tiros e depois viu a chegada de Getúlio Vargas. "Na hora do tiroteio foi uma correria e falaram que os disparos partiram do Recreativo, mas isso era suposição."

O escritor e historiador Juremir Machado da Silva, autor do livro Getúlio, ouviu de duas fontes o caso ocorrido em Sorocaba naquele ano de 1947. "Segundo as minhas fontes, ele [Getúlio] não teria estado em Sorocaba, mas isso eu não posso garantir", diz.

Um entrevistado ligado à guarda pessoal de Getúlio confirmou o tiroteio em Sorocaba, mas ressaltou que o senador não estava no local. "Outra vez, eu perguntei isso a um homem que conheceu bem o Getúlio, que era o Guilherme Arinos. Ele foi secretário pessoal do Getúlio e falou que isso não aconteceu. Disse que isso era uma lenda urbana."

Fonte: Jornal Cruzeiro do Sul



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