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Trabalhar é preciso, viver não é preciso. Povos e lugares no mundo ibero-americano séculos XVI-XX, 2021. Isnara Pereira Ivo, Maria Lemke e Cristina de Cássia Pereira Moraes
202105/04/2024 00:22:09

Tibiriçá.8 Bartira recebeu o nome de batismo cristão de Isabel, e sua irmã, o de Maria Grã, mas não abandonaram nomes indígenas. Invariável e geracionalmente, os ascendentes de Francisco Ramalho Tamarutaca mesclavam nomes cristãos e indígenas e/ou eram reconhecidos por apelidos indígenas. Além desse aprendizado e esse costume na vila índia mestiça de São Paulo (ZEQUINI, 2004), que outras orientações valorativas moldaram as ações de Tamarutaca a partir do legado de seus ancestrais? João Ramalho teve oito filhos de Bartira, a saber: André, Joana, Margarida, Vitorio ou Vitorino, Marcos, Jordão ou João, estes com sobrenome Ramalho, e, ainda, Antônio de Macedo e Antônia Quaresma (LEME, 1905, Vol. 9, p. 67.). Segundo Washington Luís (2004, p. 167), João Ramalho deixou “numerosa descendência mestiça, aparentada por casamentos com as principais pessoas da Capitania”. Não dispomos de informações sobre todos os herdeiros do casal. Sabemos apenas que Vitorino, ou Vitório, era frequentador dos sertões, preador de índios. Em 1575 combateu tamoios em Cabo Frio e 20 anos depois, em 1595, foi assassinado por índios tupiniquins (FRANCO, 1989, p. 331). A par de parcas informações, os homens desta família eram, como o pai de Tamarutaca, Antônio de Macedo, preadores de índios. Ele e Tamarutaca viveram experiências diferentes das de Tibiriçá e de João Ramalho. Antônio de Macedo adentrou na bandeira de Domingos Luiz Grou, entre 1590 a 1593, “na conquista dos índios de Mogi […] com cinquenta homens brancos, muitos mamelucos e índios tupinaens” (FRANCO, 1989, p. 230). Como o tio falecido de Tamarutaca, o seu pai era parte de uma rede de parentesco de apresamento de indígenas. Uma ata da câmara, de 1593, ajuda a compor trajetórias de descendentes de Tibiriçá e de João Ramalho em seus apresamentos. Os camaristas das vilas de Santos e Itanhaém enviaram cartas à vila de São Paulo nas quais alegaram que “o povo de cada uma das vilas” não devia fazer guerra contra os índios que não lhes oprimia. Assim, os oficiais camaristas de São Paulo chamaram em sua presença a “Belchior Carneiro [tio de Tamarutaca], aqui morador, e assim Gregório Ramalho [bisneto de Tibiriçá, neto de João Ramalho e de Bartira, primo de Tamarutaca] mancebo solteiro, filho de Vitorio Ramalho [que era filho de João Ramalho, logo, tio de Tamarutaca]”, acompanhados de “Manoel, índio cristão de São Miguel, irmão de Fernão de Sousa”. Todos eles juraram perante os Santos Evangelhos para declarar “o que passava acerca do gentio na viagem que traziam desta entrada de Antônio de Macedo [pai de Tamarutaca] e de Domingos Luiz Grou, em cuja companhia eles todos vinham para esta capitania”. ¹ Aqui, cabe ressaltar que a entrada era,segundo os camaristas da vila de São Paulo, não apenas de Domingos Luís Grou, o moço, como comumente se supõe (FRANCO, 1954, p. 230), mas também do próprio pai de Tamarutaca. Isto significa que a capacidade de arregimentar gente para empreitadas bélicas foi reatualizada pelo pai de Tamarutaca, seguindo os passos do avô paterno e do bisavô materno. Mas a empreitada não foi tão bem sucedida, ao menos em algum momento. Os parentes de Tamarutaca afirmaram ser “verdade” que os gentios “de Mogi, pelo rio abaixo de Anhambi, junto de outro rio de Jaguari, esperaram a toda a gente que vinha branca e índios cristãos, nossos amigos, e Topinães, da companhia de Antônio de Macedo e de Domingos Luís Grou, e mais irmãos, e que, por há pouco, no dito rio, foram dando neles, matando e desbaratando a uns e a outros como tem feito”. ¹¹ Novamente, o empreendimento parental da entrada foi salientado e igualmente deve-se atentar para a expressão “gente … branca” e “índios cristãos”, que denotam, respectivamente, súditos mestiços moradores de São Paulo ou um ou outro português reinol e índios aliados (GODOY; GUEDES, 2017; 2020). Neste ataque dos contrários, faleceram alguns homens, “afora Tamarutaca, que não aparece, e outras pessoas”. Os índios contrários ainda levaram “cativa muita gente Topiaens da que eles traziam em sua companhia e de seu serviço”. Assim, as testemunhas juramentadas argumentaram que os inimigos “apregoaram guerra contra nós dizendo que haviam de fazer caminhos novos para virem a dar em nós e fazerem quanto dano pudessem”. Por isso, contrariando a perspectiva dos camaristas santistas e de Itanhaém, havia “razão” e “brevidade” para “daremlhes guerra e antes que eles se movessem”. Os depoentes parentes de Tamarutaca assim “entendiam por serem homens que andam entre o gentio e o conhecerem, e suas vontades e más intenções”. Tudo foi assinado por Belchior Carneiro, Gregório Ramalho e Gonçalo Camacho.¹² O fato de a entrada também ser reconhecida como de Antônio de Macedo significa que vigorava ainda um sistema de aliança em que parentes descendentes de um indígena comum, precisamente a ancestralidade que remontava a Tibiriçá, pelejavam juntos, e ainda juntos se atavam politicamente a outros índios cristãos, no caso, os Tupioaem. Isto significa que as políticas via alianças, matrimoniais e/ou de uniões sexuais, se perpetuaram com outros índios também nas gerações de Antônio de Macedo e de Tamarutaca. Da mesma forma que João Ramalho arregimentava gente guerreira com base no parentesco, o preamento funcionou alicerçado no parentesco. Na bandeira de 1590- 1593 estavam atados na investida Antônio Macedo, filho de João Ramalho com Bartira e pai deTamarutaca, o próprio Tamarutaca, Gregório Macedo, que era sobrinho de Antônio Macedo e primo de Tamarutaca porque era filho de Vitório Ramalho (neto de Tibiriçá, também filho de João Ramalho com Bartira). Além desse tronco que provinha de João Ramalho e Bartira, chegando a Tibiriçá, outros descendentes do principal dos principais estavam presentes, a exemplo de Belchior Carneiro, filho de Beatriz Dias, irmã de Bartira esposa de João Ramalho. Logo, Belchior Carneiro era primo de Antônio Macedo e tio materno de Tamarutaca. A extensão do parentesco não parava aí porque o outro dono da bandeira, Domingos Luís Grou, era sogro de Belchior Carneiro, e o integrante Gonçalo Camacho, que também assinara o juramento, era casado com uma neta de João Ramalho.¹³ Mas todos foram surpreendidos pelos índios contrários Mogi. Dos mortos e feridos, entre os moradores da vila, apenas Tamarutaca foi referido pelo nome indígena, mas a prestação de serviços bélicos e o preamento de índios foram obras de parentes mestiços e seus índios amigos aliados. Ainda sabemos um pouco mais sobre Tamarutaca e seu pai. Sendo o filho senhor de uma aldeia, dera continuidade à liderança de indígenas, assim como procederam seu pai, seu avô degredado e seu bisavô Tibiriçá. Observamos que seu pai Antônio de Macedo também recebera uma sesmaria junto com seu avô João Ramalho, em terras vizinhas à aldeia Ururai. Pode ser, portanto, que a sesmaria concedida ao pai de Tamarutaca também fosse em uma aldeia indígena, o que, como veremos no caso de Tamarutaca, tinha implicações importantes, pois era uma garantia jurídica de terra aos índios. Especificamente, a aldeia de Ururai pertencera a um dos irmãos de Tibiriçá, Piquerobi, vencido na guerra entre parentes indígenas em 1560-1563. Assim, pode ser que a localização da sesmaria concedida a João Ramalho/Antônio Macedo fosse vizinha às terras do derrotado Piquerobi por razões políticas. Quem sabe se apoderaram de partes da aldeia do índio derrotado?! Se foi o caso, os descendentes, neto (Antônio de Macedo) e bisneto (Tamarutaca) de Tibiriçá, ganharam terras alheias. João Ramalho, segundo Washington Luís (2004, p. 162), “morou num lugar chamado Jaguaporecuba, próximo a Ururai”. No âmbito jurisdicional da monarquia católica portuguesa, o mameluco filho de mameluco Tamarutaca não apenas se valeu dos recursos jurídicos da sesmaria para conquistar terras. Ele se casou três vezes em face da Igreja. Não há informação sobre o nome da primeira esposa, a segunda se chamava Francisca, e a última, Justina, índia forra. Sesmeiro e casado, adentrou no sistema de herança português, mas mantendo as prerrogativas indígenas, igualmente. Vejamos.O seu inventário post-mortem¹4 apresenta a cópia de um título de sesmaria, na qual o capitão-mor da capitania de São Vicente, Roque Barreto, informa que, em 25 de maio de 1601, em nome do governador Lopo de Sousa, atendeu ao pedido de Tamarutaca por sesmarias, já que o considerava merecedor da mercê. Afirmou que ele era morador na vila de São Paulo, casado, com mulher e filhos:e nas guerras e sucessos passados com sua pessoa, escravos e fazenda à sua custa sempre ajudou no que pôde, obedecendo a mim e aos capitães passados. É filho de morador antigo e honrado sem até agora ser dado terras de sesmaria para fazer suas benfeitorias e trazer criações como os mais moradores. Pedindo-me lhe desse de sesmaria em nome do dito Senhor Governador Lopo de Sousa pelos poderes que dele tenho um pedaço de terra de matos maninhos, que estão devolutos, que estão pelo longo do rio que se chama Anhembi, rio arriba nas cabeceiras de Estevão Raposo, pelo rio abaixo, digo, arriba da banda d’além do rio, uma légua em quadra. E se for dada que corra por diante em quadra, segundo que tudo isso melhor e mais compridamente em sua petição, consta que por mim vista, pus nela por meu despacho seguinte – Dou de sesmaria uma légua de terras ao suplicante aonde pede, e sendo dada corra por diante em São Paulo aos [25/05/1601] a qual terra que lhe eu assim dou e lhe dei por dada de sesmaria de hoje para todo o sempre para [que] ele dito Francisco Ramalho [Tamarutaca], e sua mulher e filhos herdeiros ascendentes, e descendentes que após ele vierem, forras livres isentas de todo o tributo, salvo dízimo a Deus dos frutos e novidades que nelas houver […] E, portanto, mando a todos os oficiais e ministros da Justiça de toda esta Capitania lhe façam dar e deem posse das ditas terras na forma que se requerem e lhe deixem lavrar, lograr e aproveitar e nelas fazer suas benfeitorias e trazer suas criações, sem dúvida nem embargo algum que lhe mandei passar a presente por mim assinada, a qual será registrada no livro donde se costumam registrar as ditas dadas. Antônio Rodrigues, escrivão das dadas o fez por meu mandado. Ano do Nosso Senhor [13/06/1601] […]”.¹5 [grifos nossos].
*Trabalhar é preciso, viver não é preciso. Povos e lugares no mundo ibero-americano séculos XVI-XX, 2021. Isnara Pereira Ivo, Maria Lemke e Cristina de Cássia Pereira Moraes

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