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Aninha Martins
AUoR:Aninha Martins02/08/2026 18:20:49
De onde vieram as línguas que falamos hoje?
2 de jan. de 2026, sex.

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Imagem gerada por IA Recebi uma pergunta de uma amiga por whatsapp: “Fabrício, por que existem tantas línguas? E de onde elas vieram?” Infelizmente, a fala não deixa fóssil. Ossos e ferramentas de pedra sobrevivem dezenas de milhares de anos, sons não. Por isso a origem da linguagem humana continua sem resposta definitiva, apesar de mais de um século de tentativas sérias para a encontrar. A Société de Linguistique de Paris proibiu, em 1866, comunicações sobre o tema nas suas sessões. A desconfiança durou décadas e ainda hoje pesa sobre o campo. O que existe são pistas indiretas, cruzando paleontologia, genética e primatologia comparada, nenhuma delas conclusiva sozinha. O osso hioide encontrado em Atapuerca, atribuído ao homo heidelbergensis e datado em cerca de 530 mil anos, tem forma próxima à humana atual, o que sugere aparelho vocal já capaz de sons articulados muito antes do homo sapiens. O gene FOXP2, ligado a déficits de linguagem quando sofre mutação, aparece também em neandertais. Não onde, mas sobre como a linguagem terá surgido, há duas correntes em disputa há décadas. Uma, herdeira de Darwin, defende evolução gradual a partir de vocalizações e gestos de primatas. Outra, associada ao linguista Noam Chomsky e a Bickerton, propõe que uma mutação isolada teria instalado a capacidade de recursão sintática de forma relativamente súbita, entre 100 e 200 mil anos atrás. Dentro dessa disputa convivem hipóteses específicas sobre qual teria sido o gatilho. Talvez origem gestual, origem musical e holística, defendida por Steven Mithen. Ou uma origem social, ligada por Robin Dunbar ao crescimento dos grupos humanos além do que a catação física conseguia manter coesos. O nosso ancestral indo-europeu O caso do ramo indo-europeu é mais bem documentado, porque parte dele deixou rastro escrito. Em 1786, o jurista britânico William Jones notou, num discurso em Calcutá, semelhanças entre o sânscrito, o grego e o latim demasiado sistemáticas para serem coincidência. Bopp e Grimm sistematizaram depois correspondências fonéticas regulares entre línguas germânicas e as demais, e desse trabalho nasceu o proto-indo-europeu reconstruído, o PIE. Nenhum texto nessa língua PIE existe. É reconstrução, e não um achado. A confirmação mais espantosa do método veio em 1915, quando Bedřich Hrozný decifrou o hitita em tabuinhas anatólias do 2º milénio a.C. e provou que também pertencia à família. Falta saber onde ficava a pátria original, o Urheimat. Duas hipóteses concorrem. A dos Kurgans, de Marija Gimbutas e depois David Anthony, situa a origem nas estepes pônticas, entre o Mar Negro e o Cáspio, por volta de 4000 a.C., ligada a pastores da cultura Yamnaya que dominavam o cavalo. A anatólia, de Colin Renfrew, propõe origem mais antiga, por volta de 7000 a.C., ligada à difusão da agricultura, não a migrações militares. O sequenciamento de ADN/DNA antigo feito no laboratório de David Reich, em Harvard, a partir de 2015, mostrou migração maciça de populações Yamnaya para a Europa central por volta de 3000 a.C., com substituição genética considerável ao norte. O achado deu apoio à hipótese da estepe, sem fechar o caso. Dessa raiz indo-europeia nasceram cerca de 10 ramos. Os grandes, ainda vivos: indo-iranico (hindi, persa, curdo, sânscrito), românico (português, espanhol, francês, italiano, romeno), germânico (inglês, alemão, sueco), eslavo (russo, polaco, sérvio). Os menores, também vivos: celta, grego, albanês, arménio, báltico. Os extintos: anatólico, com o hitita, tocário, achado em manuscritos da bacia do Tarim, na China ocidental, e o itálico não românico, com o osco e o úmbrio. E as semelhanças com línguas asiáticas? Aqui é preciso separar três fenômenos que se confundem com facilidade: parentesco genealógico, convergência tipológica e contato. Entre o urálico (Rússia), fino-úgrico (Finlândia e Hungria) e samoiedo (norte da Escandinávia), há vocabulário básico e paradigmas casuais suficientemente próximos para sustentar a hipótese Indo-Urálica, levada a sério por parte da linguística histórica. Com o altaico, turcomano e mongólico, a hipótese de parentesco caiu por terra porque as semelhanças observadas explicam-se melhor por línguas em contato prolongado do que por ancestralidade comum. Com o dravídico, no sul da Índia, o fenômeno é outro. Sânscrito e línguas dravídicas convergiram estruturalmente ao longo de milênios de coabitação, a ponto de Murray Emeneau cunhar, em 1956, o conceito de área linguística indiana. Não há parentesco genético aí, somente contato. A tentativa mais ambiciosa de unir tudo isto, a hipótese Nostrática, de Illich-Svitych, depois expandida por Joseph Greenberg como Eurasiático, é rejeitada pela linguística histórica dominante, pois além de 8 a 10 mil anos, o método comparativo perde poder discriminatório. O mesmo Greenberg propôs, em 1987, algo parecido para as Américas. Segundo ele, há um macro-tronco único, chamado de Ameríndio, reunindo quase todas as línguas nativas do continente. A proposta é hoje rejeitada pela maioria dos especialistas em línguas amazônicas, incluindo Lyle Campbell e Aryon Rodrigues, porque o método usado, de comparação lexical em massa sem correspondências fonéticas regulares, produz falsos positivos em escala. As línguas indígenas do Brasil dividem-se, na realidade, em dezenas de famílias sem parentesco comprovado entre si: tupi, macro-jê, aruak, karib, pano, maku, além de isolados como o tikúna. Estima-se que existiam a imensa riqueza de mais de 150 famílias distintas antes da colonização, contra as 10 ou 11 subfamílias que compõem o indo-europeu inteiro. Não há parentesco linguístico demonstrado entre essas famílias ameríndias e qualquer língua asiática. O que há é vínculo populacional porque os povos que chegaram às Américas atravessaram a Beríngia, ponte terrestre entre Sibéria e Alasca, há cerca de 20 e 15 mil anos, partindo de populações do nordeste asiático. É consenso na genética populacional. A única hipótese linguística séria que liga um ramo ameríndio à Ásia é a Dené-Yeniseiana, de Edward Vajda, de 2008, relacionando o Na-Dené norte-americano ao ieniseiano siberiano. Aplica-se ao norte do continente, mas não chega ao Brasil. Ficamos, portanto, com um mapa de certezas parciais sobre a Torre de Babel. Sabemos quando e onde certas famílias se separaram. Não sabemos com o mesmo rigor, porém, quando e como a própria capacidade de falar e estruturar línguas e linguagens surgiu na nossa espécie. Enquanto isso, fico com Fernando Pessoa: “Minha pátria é a língua portuguesa“, filha mais nobre e culta do latim, neta do indo-europeu.
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