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José de Anchieta em Sorocaba
26/05/2022

Em 1570 o padre jesuíta José de Anchieta veio a região de Sorocaba conceder “o perdão da justiça ao régulo Mestre Bartholomeu Fernandes que a Vila de São Paulo desejava ter dentro de seus muros para ajudar na defesa” [4]. Mestre Bartholomeu e sua família vieram para a região de Sorocaba após ele e um de seus genros cometerem homicídio na região chamada Ybyrpuera.

Mestre

Autores o apresentam com, no mínimo, cinco nomes. Deveria ser um sujeito um tanto irascível, visto que Anchieta chegou a avisar ao capitão-mor Jerônimo Leitão que “ele estava acabando a Igreja, mas que os índios se achavam meio amotinados, pois o temiam”.

Afonse Taunay o chamou “Tubalcaim paulistano”, em alusão ao primeiro ferreiro da História, mencionado na Bíblia. Disse ele: “Asselvajar-se tanto este homem, genro de um cacique, que vivia no meio dos nativos como um nativo (...) Em 1588 houveram problemas com esse ferreiro. Este foi intimado para que mandasse seus aprendizes à vila, sob pena de mil réis de multa.

Em 1586 o procurador Francisco Sanches soube que Domingos Fernandes forjava no sertão. Os demais vereadores o teriam tranquilizado, alegando que “os Fernandes eram os primeiros ferreiros de São Paulo e que este havia partido para a selva em companhia do governador Jerônimo Leitão, razão pela qual nada se poderia fazer”. [8]

Assassinato

1 - Um ano antes, 1569, Anchieta está em Ybyrpuera [2]. Em 20 de março ele batiza e nomeia Clemente Alvarez, futuro genro de Afonso Sardinha [4].

2 - Neste ano testemunhas, entre elas João Gomes Sardinha viram admoestar o dito padre a um homem, por nome Baltazar Fernandes, que andava mal encaminhado com uma mulher casada. Mandou Anchieta que saísse desse mau estado e visse o estado de enfermidade em que se encontrava, tão disforme que só se viam olhos e dentes no rosto. Ao que o homem respondeu: “Padre, morra gato, morra farto”.

“Pois, desenganai-vos”, lhe disse o Padre, “que daqui a cinco dias vos hão de matar”. E assim foi que, dentro do dito tempo, o mataram com a própria mulher com quem estava amancebado, com escândalo público”. “Encontrando ele testemunha com o Padre José de Anchieta na Guarativa, em cuja busca ele testemunha ia e João Gomes Sardinha e o Padre Manoel da Costa e Gregório Ferreira, todos já defuntos, que vinha de São Vicente, estava aí, na fazenda de Jorge Ferreira, uma negra, que havia dois anos que não falava e somente lhe palpitava o coração. E tanto que o dito padre se foi chegando para a dita negra, ela falou”...


3 - Até a fundação oficial de Sorocaba em 1661, registram-se apenas duas pessoas chamadas Balthazar Fernandes: o fundador oficial de Sorocaba, cuja vida “surpreende pela falta de informações documentadas sobre os locais e datas de nascimento e morte (...) as informações divergem de autor para autor e são sempre imprecisas. Teria nascido no Ibirapuera ou em Parnaíba (...) sua lápide, fria e muda, não fala em morte. Nem se sabe quando ele nasceu. E se nasceu... quando morreu.”(...) [5]

E um padre jesuíta. Este, até 22 de abril de 1568, estava nas proximidades do ocorrido [2]. Seria ele? Quais seriam os motivos? E as consequências?

A História...

Em 1672 escreveu o padre jesuíta Simão de Vasconcelos dois moradores de S. Paulo:

um deles nobre e conhecido por Domingos Luís Grou, ambos casados e ambos com família” tendo cometido um assassinato fugiram com os seus para o sertão, metendo-se de companhia com os bárbaros, que estavam com os nossos em guerra, estimulando-os a que acometessem e pondo em assombro e medo toda a capitania”.

João Antônio Cabral Camelo, negociante, português, quase que evidentemente, saiu de Sorocaba em começos de 1727:

Deste rio, chamado Sorocaba, não darei notícia alguma, porque não embarquei nele, e só por informação de alguns mineiros, que nele se embarcaram, sei que tem várias cachoeiras, e algumas perigosas, e entre elas um salto Abaremanduaba, por cair nele o venerável Padre José de Anchieta, e ser achado por índios debaixo da água rezando o Breviário”.

D. Antonio Rolim em 1754:

(...) Cachoeira aonde se afogou um Clérigo, e tem muitas pedras, embucamos em terra a passar a Trapa, saímos pelas 3 horas, e sendo 4 horas pouso mato embaraçado.7 de agosto, saída do pouso as oito horas e um quarto, sendo três horas passamos a Cachoeira chamada a do "Gracia", por se afogar um homem deste nome, e é Cachoeira pequena dez horas a de "Peres" Cachoeira pequena, também se afogou sendo meio dia Capibari Rio á direita, uma hora Serocaba rio á esquerda fizemos parada a ajuntar as canoas (...)”

Américo de Moura em 1942:

“Como o pai, que em 1563 fora por Pedro Colaço investido nas funções de capitão dos índios, também ele se tornou delegado de confiança de Jerônimo Leitão, na fronteira entre os nativos cristãos de Piratininga e os tupiniquins levantados, que em 1570 entre o Salto de Itu e a embocadura do Capivari, haviam acolhido não somente o velho Grou e seus companheiros, fugitivos de São Paulo, como a expedição de paz do Padre Anchieta, assinalada por um dos milagres da vida do santo”.

Washington Luiz, 13º presidente da República, em 1957:

“Nessa ocasião Anchieta resolveu intervir conjurando o perigo. Obteve dos camaristas “salvo-conduto e perdão daqueles delinqüentes” e em companhia do Pe. Salvador Rodrigues e do secular Manuel Veloso e de alguns índios desceu o Anhembi. A canoa em que iam, naufragou e o Pe. Anchieta foi salvo por um índio, e o lugar, que era encachoeirado, ficou a chamar-se Abaremanduava que quer dizer achoeira do Padre.

Em 1992, consta na Revista do Instituto Histórico e Geográfico de SP. Vol. LXXXVII, “A função desbravadora do Tietê”:

Sabemos da ida do padre Anchieta em 1568 em missão muito simpática. Foi levar, em mãos, como exigia o favorecido, o perdão da justiça ao régulo Domingos Luiz Grou que a vila de São Paulo desejava ter dentro de seus muros para ajudar na sua defesa. Somente voltaria se o padre Anchieta fosse buscá-lo.

Como se vê, já naquele tempo, poderosos usufruindo de prestígio gozavam de fortes regalias! Mas impõe-se-nos uma pergunta: se Grou fora homiziar-se naquelas paragens o fizera porque já, por ali, se navegava e morava
.

Hernâni Donato em 1993:

“A suas ordens, tinha o condenado numerosos brancos e índios, de forte espírito combativo e, sabendo-se necessário à defesa paulistana, condicionou a aceitação do perdão e seu subseqüente regresso a que o apóstolo do Brasil fosse buscá-lo. Narrando o episódio (...) Se Grou fora homisiar-se naquelas paragens, o fizera porque já, por ali, se navegava e morava?”.

Em "Indígenas do planalto paulista", do ano 2000:

Quanto aos indígenas distantes, é possível que tenham vindo grupos do médio Tietê, com os quais os moradores de Piratininga estavam articulados.

E foram estes que reclamaram dos portugueses, pois “se escandalizaram e começarão a falar mal contra os christãos que de tão longe os faziam vir”, enquanto que os cristãos de perto, isto é, os portugueses do litoral, se mostravam “fracos e medrosos”. Foi nestas aldeias do médio Tietê, talvez no rio Sorocaba, que Domingos Luís Grou foi se refugiar, depois de cometer um homicídio.


O sorocabano Geraldo Bonadio em "Sorocaba: Cidade Industrial” de 2004:

Apenas catorze anos passados da fundação de São Paulo, em 1554 - marco de decisiva importância para a ocupação do interior paulista pelo homem branco - vamos encontrar o padre José de Anchieta navegando o Rio Tietê, em direção a um ponto situado além da atual cidade de Porto Feliz, para cumprir uma singular missão: levar, em mãos, “o perdão da justiça ao régulo Domingos Luís Grou que a Vila de São Paulo desejava ter dentro de seus muros para ajudar na defesa”.

Benedito A. G. Prezia em "Os Tupi de Piratiinga. Acolhida, resitência e colaboração", de 2008:

"Elas tornaram-se também locais de refúgio para os que praticavam assassinatos ou outros delitos graves, como se viu num episódio, ocorrido por volta de 1570, envolvendo a Domingos Grou, o primeiro capitão de Índios.

Ao praticar o crime, fugiu com sua família para junto de uma comunidade indígena do médio Tietê, na região do rio Sorocaba. Como estes indígenas estavam em conflito com os moradores de Piratininga, Anchieta decidiu buscá-lo, aproveitando para tentar fazer as pazes com este povo. A viagem foi acidentada, tendo o barco virado numa cachoeira, quando afundou parte a carga, juntamente com o missionário.

Não sabendo nadar, Anchieta foi socorrido pelo jovem Tupi Araguaçu. Por este motivo, o salto passou a ser chamado Abaremanduaba, isto é, “local que recorda o padre”. Chegando à aldeia, conseguiu a paz e o retorno de Grou e sua família. Voltaram para São Paulo, tendo obtido perdão do Conselho
."

Alem Souza em “Os pais de Carapicuiba”, 18.09.2011.com:

Em 1570, fugiu da vila de Piratininga com toda a família, pois havia cometido o crime de morte e veio morar em Carapicuíba no meio dos aparentados da esposa, só voltando a São Paulo por interferência de José de Anchieta.

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística:

Em 1570, como relatam as crônicas do Padre José Anchieta, ocorreu entre Porto Feliz e Tietê um naufrágio. Este relato indica a presença de colonizadores desde o início do descobrimento. Durante as monções, no final de século XVIII, Pirapora do Curuçá foi o primeiro e mais importante proto de reabastecimento e descanso para os bandeirantes que saiam de Araritaguaba (Porto Feliz). (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Consultado em 15.03.2022)


Haviam ameaçado os cachões de uma corredeira de tragar a Anchieta. Seu nome dai em diante para sempre relembraria o caso: Abarémanduaba, persistente na toponímia paulista. Explica o bom Juzarte: Em outro tempo navegou por esta cachoeira um religioso da Companhia de Jesus, de virtude, chamado Padre José de Anchieta (sic) o qual andava catequizando aos nativos, pregando-lhes missão, os quais vindo com ele em uma canoinha virara a embarcação no meio desta cachoeira largando o Padre no fundo da mesma. Passa muito tempo, vendo que o Padre não surgia acima, cuidando estaria já morto, mergulhou um dos nativos ao fundo e achou-o vivo, sentado em uma pedra, rezando no seu Breviário e por isso ficou o nome a esta cachoeira de Abaremanduaba". [Relatos Monçoeiros, 1953. Afonso de E. Taunay. Página 81] [10]

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Fontes/Referências:

[1] Washington Luís p.180 / "O Caso da Granja Carolina" José Carlos da Silva UNESP (Rio Claro) p. 48 / Washington Luís p.180

[2] BANDEIRAS E BANDEIRANTES DE S. PAULO· 31

[3] https://brasilbook.com.br/r.asp?r=15936

[4] https://brasilbook.com.br/r.asp?r=20216

[5] Na Capitania de São Vicente p.180 - Processos Anchietanos - carapicuibaconectada.blogspot.com / "Os Tupi de Piratininga. Acolhida, ressitência e colaboração" Benedito A. G. Prezia (2008) / Washington Luís p.180

[6] “Os pais de Carapicuiba”, 18.09.2011. Carapicuiba Online, carapicuibaconectada.blogspot.com

[7] "Baltazar Fernandes: Culpado ou Inocente?" pág. 19,23 / Frei Agostinho de Jesus e as tradições da imaginária Colonial / Azev. Marques. Apont. cit. I, 43/44

[8] Entre a memória coletiva e a história “cola e tesoura”: as intrigas e os malogros nos relatos sobre a fábrica de ferro de São João de Ipanema, 2012. Eduardo Tomasevicius Filho. Página 40

[9] Revista da ASBRAP nº 3, páginas 40 e 41.

[10] José Custódio de Sá e Faria e o mapa de sua viagem ao Iguatemi

[11] “Os pais de Carapicuiba”, 18.09.2011. Alex Souza. Carapicuiba Online, carapicuibaconectada.blogspot.com




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