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Ubaldino do Amaral e os escravizados
30/05/2022

Lendo um relatório sobre a situação dos escravizados na fábrica em Ipanema, elaborado em 1864, lembrei de Ubaldino do Amaral Fontoura, uma das pessoas que mais admiro, e também uma das mais importantes da História, sorocabana e brasileira.

Antes do relatório sobre a fábrica, um pouco de Ubaldino! Do jovem, não do experiente homem que participou da eleição presidencial vencida por Campos Sales em 1898. [5]

Em 13 de maio de 1888, após assinatura da Lei Áurea, o Barão de Cotejipe disse a Isabel: “A senhora acabou de redimir uma raça e perder o trono”. [4]

75 anos depois, em 25 de agosto de 1963, um manifesto foi divulgado em Sorocaba:

Como Comandante Chefe da Coluna Senador Vergueiro, Coluna esta, integrada por descendentes diretos ou indiretos, parentes, afins e cultuadores da memória do grande Estadista que integrou a Regência Provisória, Nicolau Pereira de Campos Vergueiro, venho à público, declarar o seguinte:

Que me dite bem o Governo, antes de pretender retalhar a propriedade rural dos paulistas, lembrando-se de que foi também um assalto ao patrimônio privado, que deitou por terra a Monarquia.

Com a patriótica e espontânea colaboração dos valorosos Sargentos de nossa briosa Força Pública, a Coluna Senador Vergueiro não vacilará em sair (sic) à rua para defender o patrimônio privado que, através de quatro séculos, foram acumulados pelos intrépidos Bandeirantes que bradaram bem alto "No duco, ducor"
. [6]

Origem da ideia

Onde, quando ou de quem surgiu a ideia e consequentemente leis em favor dos escravizados? Confesso que ainda estou procurando-os. Poderia ter "nascido" em Sorocaba?

Anos antes da abolição existiu em Sorocaba um grupo de homens, cujos integrantes deixaram suas heranças aos escravizados que os serviram.

Liderando este grupo estava o jovem advogado Ubaldino do Amaral Fontoura. Com apenas 26 anos, em 7 de agosto de 1869, 24 dos homens mais poderosos de Sorocaba se reuniram na atual Rua da Penha e ouviram dele uma proposta, redigida por ele e Antonio Leite Penteado:

Libertar e educar os filhos dos escravizados”, na qual destacam-se os seguintes itens:

- Banquetes, ceias e copos d´água estão absolutamente proibidos. Devemos destinar o dinheiro à Caixa de Emancipação. Assim como o valor da iniciação e da mensalidade.

- O valor acumulado nessa "caixa" será exclusivamente destinado à libertação de crianças do sexo feminino de 2 a 5 anos de idade.

- As crianças assim libertadas ficarão sob nossa proteção. Serão criadas escolas para adultos e menores. As escolas serão noturnas; mantidas pela oficina para o ensino gratuito das primeiras letras
.

A proposta foi aprovada por unanimidade! [3]

Me esforcei para entender Ubaldino do Amaral! Sei que já na faculdade ele escolhia defender casos "escravizados x proprietário", como quando conseguiu absolver o escravizado Antonio por ter ferido gravemente seu dono em 10 de maio de 1867. [2]

Faz pouco tempo que me interessei pela História de Sorocaba. De imediato senti a necessidade de organizar ou catalogar os registros.

Minha área de estudos sempre foi relacionada á Informática, então criei um software (aplicativo) com a finalidade principal de organizar os registros.

Por exemplo, comecei cadastrando os nomes dos personagens, por exemplo, "Ubaldino do Amaral", e cada um deles recebe automaticamente número. Até o momento foram 3593 nomes catalogados. Afonso Sardinha, por exemplo, recebeu o número 340, Balthazar Fernandes 1127, etc.

Essa a ordem numérica (1, 2, 3..) é aleatória, na verdade sigo meu coração. Quando vejo algo que me interessa, vou as pesquisas e insiro as informações no sistema.

Eu não me lembrava, mas o n° 1 se refere a Ubaldino (https://brasilbook.com.br/b.asp?b=1). Assim, talvez foi em Ubaldino que nasceu minha paixão pela História!

Os escravizados na fazenda Ipanema

Voltando as páginas do relatório que lembrou Ubaldino...“O estado dos escravizados que hoje existem na fábrica não é dos mais lisonjeiros. São em número de 63, destes 27 são maiores de 60 anos, 17 menores de 12 anos, e 3 inválidos, aí vão 47 ou 74% do total inutilizados para o serviço.

Africanos livres existem 15, dos quais 3 inválidos e uma de 69 anos.Temos portanto, sobre 68 escravizados e africanos, 27 capazes de serviço; neste número estão incluídos 3 meninos de 12 e 13 anos, que servem para campear gado. E o único oficial de ofício, o pedreiro, é ele aleijado de ambas as pernas.

Ocupa-se toda a gente aproveitável na roça em cultivar mantimentos para sua subsistência. É claro que a fábrica de Ypanema, com suas riquezas tão preciosas, em vez de cuidar da produção de matas durante a sua inação, para então em remoto futuro levantar de novo a cabeça com recursos que se deveriam tornar perpétuos, é hoje um triste asilo de inválidos.

E, ainda mais, um asilo pouco digno do Estado, porque é lastimosa a condição dos negros, muitos dos quais já serviram a nação para cima de 60 anos. Dá-se-lhes uma ração, que é insuficiente para o sustento de um homem robusto, e consta do seguinte:

Toucinho, meia libra
Feijão, dois décimo de quarta
Fubá de milho, seis décimos de quarta


Um boi ou novilho, tenha ele 5 ou 10 arrobas, para todos os 78, tudo isto é por semana; e note-se que o fubá é como sai do moinho com farelo, o que reduz a matéria alimentícia á menos de meia quarta; feijão não chega a um selamim. O arroz, farinha, canjica e algum fumo é coisa que só aos doentes de concede.

Quando sobra dinheiro da consignação, compra-se roupa para os escravizados; porém, parece não chegar para todos, porque alguns andam literalmente nus, cobertos com andrajos que não os protegem, nem ao menos contra o frio; parece que de longa data se dava isso, pois pela cópia de um ofício dirigido ao governo pelo atual administrador, vejo que pelo espaço de seis anos não receberam roupa esses entes, dos quais alguns trabalham para o Estado, mal nutridos e sem um real de gratificação!

Ainda não é tudo! Para esses 78 homens, mulheres e crianças, não ha um capelão, e não há um médico! Queixa-se o administrador de que a tesouraria lhe recambiara a conta de um médico chamado para tratar de alguns doentes, por não haver verba no orçamento para se salvar a vida de um homem!

Antigamente se pagava uma gratificação mensal a um médico de Sorocaba, que tinha de acudir aos chamados, e na fábrica havia enfermeiro e botica; haver-se cortado essa despesa foi falta prejudicial ao estabelecimento.

Quanto á botica, tenho a lembrar a conveniência de ser ela sortida com drogas enviadas d´aqui, porque um boticário, Rosa, de Sorocaba, excede de muito os limites do que o decoro permite levar em contas exageradas; como exemplo citarei o clorofórmio, do qual me vendeu, impuro, a onça por 8$000 rs., quando em qualquer parte da Europa custa 2$000 rs. a libra! E a fábrica hoje está sujeita á estes preços exorbitantes.

É pois, medida urgente cuidar do melhoramento do estado moral e físico de toda essa gente que representa o resíduo de 303 escravizados e africanos, cujo assentamento existe na fábrica...” [1]

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Fontes/Referências:

[1] Relatório apresentado á Assembléia Geral Legislativa na segunda sessão da décima-segunda legislatura, pelo Ministro e Secretário de Estado dos Negócios da Guerra, José Mariano de Matos

[2] Correio Paulistano

[3] Ivanilson Bezerra da Silva

[4] João de Camargo, o “Papa Negro de Sorocaba” (10/03/2020) Revista Brasil Drummond

[5] "Aconteceu em um fim de século" José Murilo de Carvalho 21/2/1999

[6] Ultima Hora (PE) 25/09




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Compilado por Adriano Cesar Koboyama
Colaboradores:
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Amora G. Mendes, Matheus Carmine