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Organizando a História

Séculos



Francisco Adolfo de Varnhagen
1816-1878
“Sumé: Lenda mito-religiosa americana. Recolhida em outras era por um índio moranduçara, agora traduzida e dada luz com algumas notas por um paulista de Sorocaba”
15 de mar. de 1856, sábado ver ano



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Periódico Universal “A Abelha” Página 11-16Ambidit brumi……Jerem cap. 31.

I.

Posteros! Não duvideis do que ides ler.Porque estas linhas só verão a luz, quando aera a justiça reinar na terra do cruzeiro, ehaja n’ella quem entenda e quem creia as pa-lavras proferidas em nome do Senhor.

Então a verdade triumphará e radiará como a luz do sol. Por que o sol é a imagem da verdade, como o trovão é o echo de Tupã (Divindade ou cousa semelhante para os indios Tupis) terrivel e omnipotente.

E a mesma verdade, terá um dia adeptos inspirados, que bendirão ao Senhor, entoando cantos e canticos ao seu apostolo.

II.

N’aquelle tempo achando-me no cimo da serra entre nevoeiros, o céo ribombava medonho.

E ouvi uma voz que dizia: "Levanta-te!Que és o escolhido para contar aos vindourosos prodigios que passarás á presença.

Por que a sciencia prefere desposar-secom os pobres e modestos, que tem a conscien-cia pura e sã.

E Jehovah te infundirá o conhecimento da lingua dos profetas, para que leias o que está escripto, e para que possas escrever."


E em sobresalto e alvoroço apenas me occorreu responder: "A minha alma se engrandece, e o meu espirito se alegra de servir a Deus meu creador! Gloria ao Senhor nas alturas, e paz na terra entre os homensque o adorão."

III.

E no dia immediato eu me vi transportadoá foiz do maximo rio (Amazonas).

E á meio lado estava um rolo com o textodas Escripturas Santas.

Porém ahi as aguas crescião e crescião:e por fim rebentarão com medonho estampido.

E os ondas galgando como ameaçavãoinvadir toda a terra… O ruido que fazião seme-lhava ao de mil gigantes entoando juntosno… ro… ca…! E depois do estampidotudo serenava. Logo se me elevavão os ouvidos com a melodia de vozes que não parecia da mortaes, e com o som de instrumentos que nunca tinha ouvido.

Eis que divisei a Sumé, que parecia vestido de graça.

A pelle de seu rosto resplandecia, e o seuolhar era sereno, e os seus cabellos erão comoos raios do sol, e as barbas que lhe ornavão afrente parecião de brilho e esplendor.

E deixára outras terras do septentriao, ondepercorrera um por uma as ilhas invadidaspelos Caribes canibaes.

E em todas havia os povos sido surdos ásua voz, incorrendo por isso na maldição doSenhor.

Deus eterno! Vós que me haveis inspiradoardente zelo para escrever estas linhas, al-luminai-me com a unção de vossa divina graça,e não deixeis da infundir em nossos leitores afé divina, sem a qual nada na terra é bom,nem de grande.

Será Sumé o mesmo apostolo Thomé, a quem coube tambem em partilha o annunciar o verbo no oriente?

Perdoae, Senhor, se um indio manduccara (Os indios tinhão morducaras ou meio similes narradores de cantos; e xehangaras que erãoos seus cantores, ou poetas-musicos) se arroja a querer penetrar os vossos mysteriosos arcanos.

Porém vós ordenastes aos doze escolhidos que fossem por toda a terra… e elles por certo vos obedecerão; como antes elles vos obedecerão, annunciando igualmente no occidentecomo no oriente, o sol e a lua, que creastes no quarto dia.

IV.

E a turba immensa de gentios deixava assuas tabas, (Aldeias) construidas sobre troncos dearvores em meio das aguas do maximo rio, ou vogavam em velozes e ornadas canoas lavradas de um só madeiro; e movida da curiosidade vinha juntar-se em redor do enviado do Senhor Deus.

E todos uns aos outros dizião: Quem éo que nos pede? E a que vem por aqui?

E como ninguem soubesse explicar, Sumé lhes respondeu: "Chamou-me Sumé: sou o enviado do Senhor, e venho a ensinar vossas almas do captivero."

Olhavão os barbaros uns para os outros emar de quem nada havia entendido.

Conheceo Sumé, e ergueu de novo avoz proseguio:

"Venho ensinar-vos a conhecer o verdadeiro Tupã, e a amal-o, amando a virtude."

E os povos o ouvião, e se rião com desenfado gargalhadas.

"Malditos os que escarnecem dos ministros do Senhor." Exclamou uma voz nas alturas.

"Ouvi-me!" proseguio Sumé, "que venho ensinar-vos o modo de vos regerdes pelas leis da sociedade civil, e de fazerdes productiva a madre terra, mais fecunda que mil devossas mulheres."

E as turbas vozerão e tratarão de injupostar. E elle continuava:

"Para que tanto afan e tanta incerteza,buscando unicamente na caça o sustento?Para que tanto trabalho com os vossos arcos?"

Eis que em meio de um prolongado urrogeral partia contra Sumé um chuveiro de set-tas disparadas de todos os arcos.

Porém nenhuma o feria, e uma a uma cabiãotodas a seus pés, e algumas voltavão a ferir osproprios que as havião disparado.

Então os homens aterrorizados, fugiãotodos, uns para a banda do occidente, e outrospara as do meio-dia.

Entretanto ficavão com Sumé as mulheres,e todas ellas disserão como acreditavão nopoder do novo Tupã.

E Sumé lhes pregou a palavra do Senhor.

E por fim lhes disse: "Ide, que em quantoestiverdes de dominar-vos vossos maridos, e ven-cereis ainda a arte todos os que não acre-ditarem em quanto vos recellei."



E essas matronas das margens do Ther-modonte, da outra banda dos mares d’ondeprocedei, sereis vós mais fortes do que osvossos descendentes.

E como formão fecunda, como nós, amadre terra? Atalhou Xingú, de todas asvossas Amazonas a mais bella.

Então quebrou Sumé o ramo de uma arbus-to, e enterrou parte d’elle.

E tomou tres sementes, e as cobriu de terra.

E disse: "Quando passarem tres luas colhereiso resultado."

E ensinando depois como dos fructos se prepararião os alimentos, desappareceu.

V.

Ao cabo das tres luas foi Xingú ao sitio; evio as tres plantas nascidas das tres sementes,todas carregadas de sendos fructos.

E de uma pé de milho recolheo muitas ma-rocas; e de certo legume as vagens meio-seccas, e de uma planta reptante de folhasgrandes os girimús, e as cambuquycas.

E não vendo fructos no arbusto que resultá-ra do ramo plantado, tratou-o de resto.

Nem que duvidasse da promessa de Sumé,da mesma fórma que Moyses tocando no ro-chedo hesitára se brotaria d’elle o manancial.E n’esse mesmo sitio fez Xingú novas se-menteiras, e colheo os fructos dentro domesmo prazo n’aquella terra da promissão.E repetio as colheitas; e n’uma d’ellas, pro-fundando um pouco, junto ao pé-do-arbustoplantado por Sumé, encontrou uma raiz bran-da, e notou que as folhas parecião representara mão e os dedos do proprio Sumé.

Então caio Xingú em si, e conheceu a suaculpa.

Era o arbusto um pé de maniba ou daplanta da mandioca.

E esta planta, em virtude da culpa de Xin-gú, se viciou; não só avessando-se a ser muidemorada e tardia em crescer e em formar-se,como sendo venenosa, antes de ser de pro-veito.

VI.

Entretanto Sumé passára á ilha (Maranhão) que remata a peninsula banhada pelas aguas do Meary e do Itapicurú.

E n’esta ilha patenteava aos povos entre salvas e estampidos de uma nova pororoca.

E ali estavam já muitos dos que se havião retirado da foz do maximo rio.

E todos sabião o que se passára; e se juntárão em conselho para resolverem que fim dariam áquelle capivara, (Espirito-máo; menos que nhanga) que por tal o qualificarão.

Apesar d’isto Sumé não deixava de lhesbradar:

"O espirito do Senhor fallará por mim, e o seu verbo será proferido pela minha bocca."Vinde, filhos meus, e escutae-me. Ensinar-vos-hei a temer a Deus. Correi: em quantovos dura a luz da vida, antes que com a mortese vos faça noite.

"Venho annunciar-vos da miseria do pecca-do, trazendo-vos a agua do baptismo, e im-pondo-vos a instituição do matrimonio..."

Porém Sumé não pôde proseguir. Porqueas turbas de voz em grita o cercárão, e re-solverão sacrificá-lo.

E crescião as roncas, e o numero dos docirculo se augmentava.

E todos querião ser os sacrificadores, masnenhum tinha força, nem tino para acertar ogolpe.

Porque o espirito do Senhor estava em Sumé.

Porém n’um repente conhecerão como oestranho havia desapparecido.

E julgarão falta de vigilância, e descuido oque era só obra de Jehovah.

E Sumé seguio para o occidente pela bordado mar.

E ao longo da costa lhe preparava o Senhor um arrecife por caminho; e lhe ordenava que não passasse ao sertão, sem ter primeiro em favor da sua doutrina o litoral.

Porque o mar é na terra como a imagemda divindade, e o symbolo do infinito, que éo proprio Deus.

E o Senhor, criando o mar, fez d’elle comouma grande praça irregular, em redor da qualestão as nações, que a atravessão em todos ossentidos, por meio de barcos e gondolas ecanoas.

E Deus quando ordenou ao mar que separas-se as terras vio que isso era bom.

E dispôs que das fachadas dos edificios dasnações cuidassem primeiro os homens.

Porque depois a verdadeira vida e seguran-ça e alimento de cada familia não está nas fa-chadas das casas, senão no amago d’estas.

VII.

E Sumé seguia ao longo da costa do mar.Mas essas praias e lençóes de areia extensos e aridos estavão desertos, e os povos occupados em cruentas guerras civis pelos sertões.

Tambem umas as outras se guerreavão as cabildas, que senhoreavão então as ferteis vertentes e margens dos rios Poting e Parahiba.

E seguindo a pé enxuto pelo arrecife que se ia prolongando com a costa chegou Sumé ao districto de Mão ou Braço de mar (Paraná-mirim) que separa o continente da ilha (Ilha de Itamaracá) que imita na figura um refrigerante anacardio.

Mas era então por ahi o tempo da madurez d’esta fructa, que é fructa duas vezes; e em todas as tabas não se cuidava em mais do que em preparar do seu sumo os vinhos, ou cajuins (Caju-y, licor de caju) fermentados.

E a gente cahia ebria pelas praias, e pelosmattos, e não attendia a nenhuma convocação.

E passou diante das barras de alguns rios,e admirou a situação de certos morros distinctos,e com especialidade um notavel promontorio (Cabo de Santo Agostinho) que parecia buscar o nascente, e ficava proximo de um porto.

Outrosim admirou Sumé duas grandes alagoas (As Alagoas) que desde o mar se engolfavão pelaterra dentro.

E em todo este tranzito se extasiava ao ad-mirar na propria natureza os prodigios doCreador.

O duro jequitibá ostentava sua florida grim-pa no cimo de um verdadeiro masto de na-vio. Os coqueiros e palmeiras adejavão seosleques de folhas verdes á mercê da viração datarde.

As frágeis e esguias cecropias ou embaúbasparecião entristecer as scenas mudas dos bosques com os seos ramos em candelabro, com as suas umbreladas copas de folhas pallidas, alimento dos tristes animaes tardigrados.

Quebrava apenas a mudez d’estas scenasprodigiosas da vegetação o terrífico tenrir, dequando em quando, da cauda da cobra casca-vel, ou o grito horrendo do faminto jaguar,interrompidos pelas agudas notas de som me-tallico do passaro (Allude-se ao passaro que cantando imita o som do bater do martello na bigorna, pelo que se chamaferreiro) que em nossos bosquesmais longe se faz ouvir...

E tambem Sumé atravessou um grande rio (Rio de S. Francisco) que se despenhava de mui alto em uma formidavel cachoeira, e cujas aguas sotantas, que corão e adoração por muitas leguasas ondas do mar.

VIII.

E ahi perto o povo, mandado por um gran-de capitão, chamado Sirigy, se preparava paraguerrear e castigar outros seos parentes dabanda do meio-dia, que se havião rebellado.

E Sumé, vendo que estes povos castigavão arebellião, julgou-os respeitadores das institu-ções da sociedade civil, e pensou que o ou-virião.

Porque a sociedade civil não póde subsistirsem a ideia do castigo.

Pois as multidões que não temem se des-ordem, e se fazem barbaramente arrogantes.

E ás vezes o predominio da recta razão,que é a suprema lei, constante, immutavel eeterna para os homens, só póde alcançar-sepor meio da força.

Porque embora chamem alguns ao homem animal racional é certo que é elle antes um animal susceptivel de razão; e só raciocina bem quando cultiva com esmero suas faculdadesmentaes.

Assim o castigo, e por consequinte a guerra,muitas vezes servem a melhorar e purificar asalmas; e são os factores da ordem e do predo-minio da razão.

Os homens na essencia vaidosos, invejosose egoistas, quando não sujeitos pelas leis esuas penas, são para os outros homens maiscrueis do que as bestas feras.

Pois só por meio da sociedade pódem osmesmos homens chegar a apreciar como virtu-des a caridade e a piedade que tanto agradãoao Senhor.

E não duvideis que as leis forão feitas paraproveito e segurança dos homens e para suafelicidade.

Porém tudo o que se liga em sociedade, a par dos gosos e direitos, contrahe obrigações e deveres para com os outros associados.

"Ajuda-me, lhes diz, e eu vos ajudarei com todas as minhas forças; prestae-me o vosso soccorro, e contae com o meu prestimo.

E a sociedade lhe responde: Exercita as tuas faculdades e terás o nosso auxilio. E te guardaremos de todos os inimigos, aliviaremos tuas penas, e te estimularemos nos teos trabalhos, e recompensaremos as tuas lides."


A providencia que sujeitara ao homem osanimaes, fez os homens sujeitos uns aos outros,desde que os creou desiguaes physica e intellectualmente.

E esta desigualdade, longe de ser nociva ao genero humano, é um predicado indispensavel á vida e conservação do corpo social.

E a igualdade entre os homens, como alguns a querem entender sem maduro exame, é uma verdadeira chimera, que apenas en-contrareis no silencio dos sepulcros.

E o Senhor, dispondo que houvesse naterra homens mais fortes, mais valentes, maisdestros, e mais sabios e prudentes que outros,desde logo estabeleceu a sujeição d’estes aosprimeiros.

E dotando o homem do instincto de admirar a memoria, os monumentos, e quasi a sombra dos heroes, incutio em seo animo a tendencia de respeitar mais a sua geração que outra sem passado algum, e nos legou a instituição da nobreza, e com mais razão a da realeza.

E em verdade vos digo que nunca bendirão tanto quanto devem ao Senhor os povos, a quem elle brindar com um soberano benefico e justo; e com magistrados rectos e integros,que afugentem da patria a desorganisação e o chaos.

IX.

Entretanto os subditos de Sirigy forão á guerra e vencerão.

E chegarão de victoria em victoria, á uma grande bahia, e perto se alojarão.

E Sumé tambem ahi se alojou em uma choçaou tapyr, que construiu á borda d’agua,perto de Paripe.

Porém infelizmente, acabada que foi aguerra, o exercito de Sirigy se fraccionou empequenas tribus e bandeiras.E cada uma d’estas construiu sua taba.E todos se entregavão de novo aos antigosvicios e barbarie.

E acreditavão nos falsos pagés e rendiãoculto aos seos biocos e trejeitos, e não faziãocaso de Sumé.

E vivião os homens com varias mulheres, em seos grandes ranchos.

E outros se entregavão á molicie, e não descuravão os vicios nefandos das cidades malditas.

E as rixas e envenenamentos não tinhão fim.E tudo isto dava triste idéa da infancia dasociedade, ou acaso da sua caducidade, que éuma segunda infancia.

Em verdade todos os homens devião bemconhecer e meditar em tal estado, para humi-lhar-se em sua stulta vaidade.

E os barbaros esfuracavão a cara para fazer-se mais bizarros.

E acreditavão na virtude e santidade dos seos maracás; quando brandidos em meio de danças, bebendo os vinhos dos fructos da terra, e fumando a petima ou folha do tabacco.

E nas festas matavão e comião os prisionei-ros inimigos, depois de lhes haver proporciona-do para seo regalo uma das mais lindasmocellas da taba.

E se esta ficava pejada do sentenciado,tambem depois lhe matavão o filho de suas en-tranhas, e o comião não por gula, mas portomar vingança no sangue do inimigo até a ul-tima geração.

Porque devorados pelos novos buitres oscadaveres dos inimigos ficarião elles insepultos,e a vingança dos que se dizião offendidos iaainda alem dos umbraes da eternidade.

Sumé pregava contra todos estes usos, e re-commendava a piedade com os mortos; e osbarbaros se riao, e escarnecião d’elle e lhecuspião no rosto.

Até que repentinamente uma nuvem de fogo o arrebatou do meio da impia multidão, e foi arrojal-o em Cabo-Frio.

E fez o Senhor que em Paripe ficassem as marcas das suas plantas, para deixar á posteridade um signal de que n’aquelle tempo a sua misericordia não faltou no intento de salvar estes povos, cuja existencia estava entãoocculta aos de mais mortaes habitantes dosoutros continentes.

X.


Porém em Cabo-Frio Sumé não foi mais afortunado do que antes.

Era na força do inverno, e o povo soffria do rigor da estação, pois n’essa paragem sente-se effectivamente o frio.

E vindo todos saudar a Sumé com o seo conhecido Ereiupe, o escolhido do Senhor se compadeceo d’elles, e lhes ensinou a produzir o fogo pelo attrito aturado de dous páos.

E os barbaros fizerão fogueiras, e se aque-cerão, e acharão-se melhor.

E logo começarão a assar em covas, ou a mo-quear as suas viandas.

E encontrando-as mais saborosas quizerãotambem moquear a carne dos inimigos queaprezionavão.

Intentava Sumé cohibir este uso brutal,quando os ingratos hospedes projectarão as-sassinál-o, em recompensa do beneficio d’ellerecebido.

Então ordenou o Senhor a Sumé que se-guisse para diante, deixando tambem ali ves-tigios de suas plantas.

Apenas porém souberão os canibaes queSumé partira, se juntarão todos em concilia-bulos e corrilhos; e logo forão largando fogoaos mattos, afim de que Sumé n’elles se nãoescondesse.

Mas ordenou o Senhor que chovesse tantoque as frias aguas do novo diluvio cobrissemem lagoas e lagamares os bosques incen-diados.

E junto ao maior d’elles em que estava Sumé,entre fogos subterraneos, fez erguer das en-tranhas da terra um gigante que salvasse oprofeta, tomando-o sobre os seos hombros.

E ordenou a Sumé que seguisse; dispôz que o gigante fingindo-se dormido, não só guardasse a Sumé para que pudesse seguir sua peregrinação; como d’ali em diante atalhasse a barra do grande lagamar (Bahia do Rio de Janeiro) que em virtude da frialdade de suas aguas se ficou chamando Y-teroríg (Y-agua; teroríg fria) ou de Nhy-teroy.

E mandou que no Cabo-Frio encontrassem guarida as bestas feras; e que as cobras entrassem pelas tabas e itaocas (Ita-oca, casas de pedra ou cavernas) e os jacarés e os jaguares tragassem os incredulos ingratos.

XI.

E Sumé lamentava a sorte d’aquelle povosobre o qual ia recahir a justiça do Senhor.

Os trovões com relampagos parecião quereracabar para os homens a idéa do silencio.

Logo os povos corrião como loucos, e astribus se disseminavão nomades, e faziãoumas ás outras guerra, e não tinhão territoriopor patria; e as fronteiras de suas nações nãose estendião além do alcance dos tiros deseos arcos; e se exterminavão umas ás outras,ou pelo menos todas se enfraquecião.

E Sumé sentado sobre uma pedra de grani-to chorava a sorte do povo condemnado, quedeveria perecer ou fundir-se em outro povopela presença de algum conquistador maisforte de espirito e coração, e bemquistodo Senhor.

E o affligião os trabalhos, e as fomes, e os grilhões e as mortes, que terião lugar de uma outra parte para conseguir-se a regeneração que elle agora offerecia pacifica.

Por que uma tal regeneração só haveria deconseguir-se com a lei do Senhor, na qualunicamente podem os homens estar unidos epor conseguinte fortes.

E os miseros que a não seguem, debilitando-se de dia para dia, tem de ceder e de suc-cumbir ante a simples presença dos maisfortes.

XII.

E a noticia do castigo tremendo do Senhor se espalhou de boca em boca por aquellas gerações que vivião para as bandas da constellação das estrellas brilhantes em fôrma de cruz.E todas fugião da beira do mar, imaginando que só a marinha poderia ser alagada em virtude da ira do Senhor.

E levavão comsigo provisões de marisco deixando na costa montes de ostras, nos quaes derão sepultura aos cadaveres dos que então fallecerão.

E o Senhor fazia que novos signaes de pegadas do seo profeta se gravassem em outros ugares por essas bandas.

. . . . . . . . . . . . . . . .

E eu começava a sentir como um pezadello. E via que a mente se me offuscava, e que eu nada mais sabia de Sumé.Por fim ouvi uma voz que dizia: "Contenta-te de seres moranduçara do que sabes, que é quanto tens de transmittir á prosteridade. Sumé irá para outras terras; por que aos surdos não é possivel fazer que oução as palavras do Senhor."

E uma lingua de fogo se vio no mais alto cimo do morro de Biraçoyaba, que parecia como a chamma de um vulcão.

E o monte se derretia em lavas de ferro.

E ahi se formava uma especia de cratera ou algar (1) cujas cinzas quentes, depois se apagavão com as aguas de uma lagoa (Lagoa dourada, onde o povo do Ipanema, ainda não ha muito, julgava que apparecião phantasmas, que guardavão thesouros escondidos).

E ouvi a mesma voz de antes dizer-me:

"Ali esconderás o legado que deveis deixar ás gerações vindouras, para que os homens tenhão mais uma prova da misericordia divina, que é de toda a eternidade, e durará até o dia de juizo." — Amen.

F. A. V.

(1) O valle das Furnas.(2)




A Abelha. Períodico Universal
15/03/1856
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15/03/1856
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LUCIA15/03/1856
ANO:59
  


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