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Correio Paulistano - CARLOS DA SILVEIRA (Do Instituto Historico e Geographico de São Paulo)
28 de mar. de 1941, sexta-feira ver ano

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(Para o "Correio Paulistano")O professor João Lourenço Rodrigues, hoje residente em Campinas, formou-se na antiga Escola Normal de São Paulo, em 1890, e pertence, por linha paterna, filho que é de Manuel Vieira Rodrigues e neto de José Vieira de Moraes Branco, a antigos e conhecidos troncos paulistas, que os cognomes indicados revelam. Essa linhagem do venerando e illustre educador já foi devidamente estudada pelo dr. Americo Brasiliense Antunes de Moura, que della fez uma arvore de costado.

Andei pesquisando a linha materna do professor João Lourenço Rodrigues, em attenção a delicado pedido que me fez e que eu muito desejava cumprir, pois tenho gosto em declarar que devo a esse amigo obsequios, entre os quaes uma primeira promoção, em 1907, de professor da escola isolada da freguezia de Nossa Senhora do Ó, para director das Escolas Reunidas da Avenida Paulista.

D. Barbara, mãe do professor João Lourenço Rodrigues, nasceu em 1853, no bairro do Congonhal, municipio de Tatuhy e casou em 1867. Tinha nove irmãos: Pedro, Claudino, Joaquim, Salvador, Luis, Agostinho, José, André e Antonio. Eram os dez filhos de José dos Santos (1812-1886), o qual contava tres irmãos: João, Antonio e Jesuino, sendo que um destes occupa o lugar de bisavô de dom Norberto Antunes, benedictino da Abbadia de São Paulo.

José dos Santos contrahiu matrimonio, por 1830, com Maria Francisca da Conceição, filha de Pedro Nunes (Machado?), residente no municipio de Tatuhy, talvez no mesmo bairro do Congonhal. Nesse bairro tambem assistiam Francisco dos Santos Sobrinho, casado com Maria Rodrigues e são os paes de José dos Santos. Estes dados foram-me fornecidos pelo proprio professor João Lourenço Rodrigues, ainda com accrescimo da informação de que Francisco dos Santos Sobrinho nascera de Salvador dos Santos e de sua mulher Antonia da Fonseca, casal que morava para as bandas da Cangoéra (Campo Largo de Sorocaba). Havia a tradição, na familia, de que Salvador dos Santos viera dos lados do Prata e tinha origem castelhana. Outra tradição, relativa a dois irmãos de Salvador — Francisco e Theodoro: o primeiro, levado preso para Sorocaba, por haver dado asylo a um insubmisso, cujo paradeiro depois não soube indicar; e o segundo, um destemido, tomando a resolução de ir ao Rio, o que realizou, afim de obter do Principe Regente o alvará de soltura.

Andei sondando, para elucidar essa linhagem, alguns velhos papeis de Sorocaba e Itapetininga, visto como Tatuhy surgiu na categoria de villa em 1844, data do seu desmembramento da segunda localidade referida. Em Sorocaba achei, no recenseamento das Ordenanças de 1798, terceira companhia, sob numero 82 (Iperó) — Salvador dos Santos, de 48 annos, casado com Anna Pereira, de 40, e com os filhos: Francisco, de 12 annos; Anna, de 15; Maria, de 13; e Gertrudes, de 6. Esse grupo me pareceu ser o do interesse do professor João Lourenço Rodrigues.

No mesmo Iperó, em 1781, encontrei Theodosio dos Santos, de 41 annos, casado com Anna, de 43, e com os filhos: Francisco, de 20; Maria, de 17; Angela, de 11; e Domitilla, de 8. Será o Theodore, supra e retro indicado?Em Itapetininga, na segunda companhia de Ordenanças, 1811, sob numero 138, deparou-se-me Pedro Nunes, "natural desta", de 35 annos, casado com Rosa Maria, da mesma edade, agricultores, com os filhos: Francisco, de 15 annos; Maria, de 12; Miguel, de 5; Antonio, de 3; e Vicente, de 2. Em 1822, na quinta companhia de Itapetininga, sob numero 19, apparece o cabo Pedro Nunes de 48 annos, casado com Maria Rosa Ferreira, do Paranapanema, de 44 annos, e os filhos: Maria, de 20 annos; Miguel, de 13; Antonio, de 11; Vicente, de 9; e Clemencia, de 7. Apesar da gymnastica feita com as edades, para fins que presuppomos, trata-se do mesmo Pedro Nunes e da mesma Maria Rosa Ferreira, a qual, vê-se sem maior exame, descende de Luis Ferreira Botelho e de Maria Diniz de Jesus, de quem já tenho tratado, diversas vezes, como, por exemplo, no subsidio oitenta e cinco, desta série.

Gostaria que Pedro Nunes, avô materno da mãe do professor João Lourenço Rodrigues, fosse esse que acima indiquei, pois isso levaria o dito meu amigo á familia religiosissima dos Ferreiras, do Paranapanema, á qual egualmente me ligo pela minha trisavó Anna Theresa de Jesus, nascida na Villa das Minas do Paranapanema em 1774 e fallecida em Guaratinguetá, no bairro dos Mottas, aos 4 de setembro de 1853. Na lista de religiosas que publiquei na pagina 46 da "Revista do Archivo", volume onze de abril de 1935, ha duas que são Nunes: Theresa de Jesus, filha de Joaquim Nunes Maciel e de Rosa Maria Ferreira; e Anna de São Francisco, filha de Francisco José Nunes Ferreira e de Maria Victorina.Pretendo dar mais um impulso a essa pesquisa, logo que me desoccupe de umas tantas obrigações que ora me absorvem. E andava cogitando disso, quando tive a surpreza de receber, dadiva do autor, o interessante trabalho do professor João Lourenço Rodrigues, sob o titulo "Um educador de outrora", edição do Seminario Menor São Carlos Borromeu, Sorocaba, sahido este anno das officinas das Escolas Profissionaes Salesianas. Os socios do Instituto Historico e Geographico de São Paulo estão trabalhando, não ha duvida. Estava começando a ler a "Odysséa", da valiosissima traducção do dr. Carlos Alberto da Costa Nunes, socio effectivo, o poeta notavel dos "Brasilidas", (1.ª edição 1932; 2.ª, 1938), que tão bem sabe combinar a sua afanosa vida de medico legista, com o trato diuturno das bellas letras classicas (não fosse, o distincto amigo, filho da Athenas brasileira, vivendo no dynamismo de São Paulo!); e já outro consocio, da classe dos honorarios, apresenta um livro de contribuição historica, em cujas paginas resumbra muita coisa que bem se catalogará como poesia. Sympathico esforço!O professor João Lourenço Rodrigues estuda a figura do professor Francisco de Paula Xavier de Toledo, nascido aqui, em 1825, e fallecido em Sorocaba, em 1903, filho do notavel paulista que foi o coronel Joaquim Floriano de Toledo (1794-1875) e primeira mulher d. Luisa Engracia, filha esta de Luis Antonio da Silva Freire e de Josepha Jesuina de Andrade. Tenho muita admiração pelo coronel Joaquim Floriano de Toledo (avô, pelo filho Manuel Joaquim, do dr. Pedro de Toledo) e gostaria de ver um trabalho desenvolvido sobre elle, sobre a familia que fundou e sobre suas origens mais remotas. E´ pouco o que está publicado relativamente ao prestante cidadão. Não satisfaz.José Jacintho Ribeiro, na sua "Chronologia Paulista", volume primeiro, paginas 612-613, traz a lista completa dos dezeseis filhos do prolifico paulista. Essa lista o professor João Lourenço Rodrigues a reproduz no seu trabalho. O dr. Luis Gonzaga da Silva Leme, na "Genealogia Paulistana", volume quarto, titulo "Taques Pompeus", paginas 280-281, dá apenas os seis filhos de d. Anna Margarida da Graça Martins, a segunda esposa do coronel Joaquim Floriano de Toledo.O livro "Um educador de outrora" não é, em absoluto, um estudo de genealogia, mas presta auxilio a qualquer genealogista, dando, como dá, informes precisos sobre familias. Apreciei muito o exemplar que me veio e daqui o agradeço. Quanta coisa desse genero não teria de apparecer, se o exemplo de João Lourenço Rodrigues fosse seguido nas localidades paulistas mais antigas, tão cheias de factos historicos curiosos, de tradições de valor e de linhagens, esquecidas estas sobretudo, no lamentavel abandono em que vivem...





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