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Hernâni Donato
“Peabiru” de Hernâni Donato (1922-2012) do IHGSP
1 de outubro de 1971, sexta-feira ver ano



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Nos dois primeiros séculos de Brasil, a crença em uma anterior estada física de São Tomé, estava acima de dúvidas. Fizera um intervalo em suas tarefas na Índia para vir falar de Cristo aos nossos nativos. Na crônica daqueles anos não há voz discordante.

Em 1515, a "Nova Gazeta da Terra do Brasil", refere-se a "lembrança que os nativos tinham de São Tomé, cujas pegadas quiseram mostrar aos portugueses". [Página 5]

Manoel da Nóbrega, contra quem não cabe o rótulo de fantasioso, noticiou em carta de 1549:

"Dizem eles que São Tomé, a quem eles chamam Zamé, passou por aqui, e isto lhes ficou por dito de seus antepassados, e que suas pisadas estão assinaladas junto de um rio, as quais eu fui ver por mais certeza da verdade, e vi com meus próprios olhos quatro pisadas mui sinaladas com seus dedos, as quais cobre o rio quando enche; dizem também que, quando deixou estas pisadas, ia fugindo dos índios que o queriam flechar, e chegando ali, se lhe abrira o rio e passara por meio dele à outra parte, sem se molhar, e dali fôra para a Índia." [p. 6]

Portugueses e espanhóis conviviam em São Vicente lucrando no apresamento de nativos e no fornecimento de navios. Aquele bom porto existia e era conhecido antes da chegada lusa. Chamava-se Upanema, Morpion, Maraipion, Tumiaru ou Tumaiaru. Logo depois da Descoberta ganhou outro nome: Porto dos Escravos. [Página 9]

De São Vicente, via Piaçaguera e Cubatão, o caminho subia a serra para ir aquietar-se lá no outro oceano.

“Com seus oito palmos de largo não era nisso inferior a algumas ruas principais da Lisboa quinhentista”.

Quanto aos largos lances do traçado, vigora uma quase unanimidade. Taunay teve em mãos mapas que teriam pertencido a D. Luís Antônio de Sousa, graças aos quais pode esmiuçais o caminho:

“Saindo de São Paulo, passando por Sorocaba, pela fazenda de Botucatu que foi dos Padres da Companhia, dirigindo-se a São Miguel, junto ao Paranapanema, e costeando êsse rio pela esquerda, tocando em Encarnación, Santo Xavier e Santo Inácio, onde em canoa descia o Paranapanema e subia o Ivinheima até quase à suas nascenças (...)”

O roteiro traçado por Batista Pereira: “uma picada de 200 léguas que, com duas varas de largura, ia do litoral até Assunção do Paraguai, passando por São Paulo. Passava na várzea da cidade, bifurcando-se no rumo das futuras Itu e Sorocaba”. [Página 10]

O Caminho pode ser perigoso

Segue a transcrição do texto da imagem:O caminho pode ser perigosoEssa dimensão continental e as possibilidades de penetração, ecumenismo, talvez, e certamente conquistas, já haviam sido claras, apesar de ingenuamente expostas pelo curioso e piedoso aventureiro irmão Antônio Rodrigues (*). Ao cabo de dezoito anos entre castelhanos, em carta datada em 31 de maio de 1553, depôs: “assim vim aqui, que são perto de 300 léguas, por uns gentios chamados Topinaquins. (...) Já o caminho está feito daqui ao Peru, e há gente muito aparelhada para receber a nossa santa fé...”

A valia estratégica do Peabiru no referente ao domínio político, econômico e militar da América do Sul pode ser medida no texto de Alfredo Romário Martins (*): “Este caminho tornou-se o ponto de junção de portugueses e espanhóis, fluindo do interior para a costa. A sua posse chegou a ser a chave da conquista, num sentido ou no outro, e estas lutas tiveram repercussão na ida dos jesuítas ao Paraguai...” “Unia povos da mediterrânea guarani com o litoral paulista e catarinense”, ajunta Augusto Pinto. E Serafim Leite dilata horizontes: “caminho por onde os povos indígenas se comunicavam com o mar e com as regiões mais distantes do Ocidente”.

Discutia-se ainda a definição tordesilhana. Nóbrega supunha Assunção em território português. Queria ir lá e pelo caminho. Os espanhóis iam e vinham, tranquila e assiduamente. Tomé de Sousa alarma-se com o elevado rendimento da alfândega vicentina, fruto da presença e do comércio espanhol na praia, junto ao porto. O espanhol é rival na Europa como na América. O Peabiru é a única artéria viável do mar à cordilheira. Deixá-la aberta ao trânsito castelhano é pôr em risco a estabilidade portuguesa. Foi o que disse, mais ou menos, o viajante e entradista Diogo Nunes ao rei D. João III na carta que lhe endereçou em 1539. E, com ela, alarmou Lisboa.

Jaime Cortesão oferece um exemplo da rapidez das comunicações via Peabiru. O galo, que informa ter descido em 1502 em Cananéia, já em 1513 cocoricava na corte Inca, assombrando de tal modo o reinante e o povo, que o futuro e último soberano fez-se chamar Ataualpa, palavra que significa o galo. “Esta rapidez na disseminação dum elemento cultural — assinala Cortesão — prova quanto eram rápidas e ativas as comunicações através do continente...”.

Mas terá sido um episódio de espionagem econômica o fato que especialmente indispôs Lisboa contra o Peabiru. Martin de Arue (**), que observava a corte portuguesa por conta da Espanha, informou a seus superiores que, em setembro de 1553, um homem de São Vicente, Adão Gonçalves, exibira amostras colhidas nas vizinhas de Assunção e que os exames revelaram tratar-se de prata de boa qualidade. Madri tomou providências para defender Assunção. Com isto, Lisboa alarmou-se e irritou-se.

De seu lado, os vicentinos, acostumados a verem espanhóis e índios, carijós e guaranis, em seu porto, quiseram garantir para si as minas de prata. E Felipe Adorno e João Van Hiest requereram ao governador e ao rei que o caminho fosse fechado.

Havia precedentes proibitivos. Martim Afonso mandara fundar o povoado de Piratininga e, não o querendo tão pequeno que se tornasse frágil demais, nem tão grande que se fizesse polo de atração, simplesmente proibiu o trânsito entre São Vicente e a aldeia.

Tomé de Sousa estaria propenso a atender ao propósito dos vicentinos. Incomodava-o o trânsito espanhol, a tendência crescente entre os portugueses para mergulharem no sertão, as notícias das minas e de regiões mirabolantes. Mas, sobretudo, perturbou-se com notícia trazida por João de Salazar: a apenas trezentas léguas acima da barra do Rio da Prata, os espanhóis (***) haviam erigido a cidade de Assunção. Cálculos foram feitos. Assunção assentava-se sobre o rio mas também junto à risca do Peabiru. “Cem léguas de São Vicente!” — bradou. Atraía tanto, que o padre() Historiador paranaense, autor da “História do Paraná” e “Caminhos históricos do Paraná”.() Diplomata, foi acusado pelo governo de Lisboa de ter desenvolvido na corte lisboeta atividades de espionagem em favor de Madri.() O fortim inicial do qual surgiu Assunção foi construído por Juan de Ayolas em 1536.Martim Afonso de SousaSe quiser, posso modernizar a ortografia ou explicar o conteúdo histórico desse trecho. [p. 11]

Nóbrega não se cansava de pedir licençapara ir lá a fim de evangelizar. Se ospadres queriam angariar catecúmenos,bem poderiam os espanhóis vir, arma-dos, contestar a presença portuguêsa,ocupar o pórto e as vilas. Pois, emtêrmos militares e de preocupações polí-tico-estratégicas da época, Assunção eSão Vicente eram vizinhas.

A êste ponto, Tomé de Sousa nãohesitou. Nada de arriscar-se. Preferiu in-dispor-se com os jesuítas a deixar vulnerá-vel os domínios do seu rei. Ao qualescreveu a 1 de junho de 1553: “... acheyque os de Sam Vicente se comunicavãomuyto com os castellanos e tanto que naAlfandega rendeu este ano passado cemcruzados de direitos de cousas que oscastellanos trazem a vender. E por sercom esta gente que parece que por cas-tellanos não se pode V.A. desapeguardelles em nenhiãa parte, hordeney comgrandes penas que este caminho se evi-tasse, ate ho fazer saber a V.A. e por nis-to grandes guardas e foy a causa por hon-de folguey de fazer as povoações quetanto dito no campo de Sam Vicente demaneira que me parece que o caminhoestará vedado...”

Proibiu o caminho e para tê-lo cer-rado mandou fixar, serra acima, postosque impedissem os movimentos « de tudolhe dessem notícias. Nos fins de 1553, omesmo Nóbrega que tanto insistia emjornadear o caminho e tanto lamentariao seu fechamento, enviou padres e irmãosque se juntassem aos índios e erguessemcolégio que logo seria povoação. Emjaneiro o aglomerado recebeu o batis-mo — São Paulo — e, de fato, clau-surou o Peabiru, reservando-se para utili-zá-lo quando os tempos estivessem pron-tos para a festa das bandeiras.

A proibição foi travo amargo para Nóbrega. O Paraguai era seu objetivo. Acreditava-se em terras portuguêsas. E lá estava o núcleo maior de nativos, a junção de grandes rios, a abertura para o coração do continente.

É seu amigo Tomé de Souza que o impede de partir. A 15 de junho de 1553, relata ao padre Luís Gonçalves da Câmara porque não seguira ainda:

"... a principal causa de todas para atrapalhar foi fechar o caminho por causa de os castelhanos, que estão a pouco mais de 100 léguas desta capitania. E tem-se por certo haver muita prata nessa terra, e tanto que dizem haver serras delas, e muita notícia de ouro, cujo serro está neste caminho..." [p. 11]

Um jovem irmão, José de Anchieta, que calejara as mãos ajudando a erguer a capela de São Paulo, olhando o sertão e a ponta do Peabiru, meditou: “aqui a porta de inúmeras gerações do gentio”. Anos mais tarde, as bandeiras partiram do pátio do colégio, rumo dopoente. Éllis Júnior” queria referir-se ao Peabiru ao escrever: “... grande êrro, do qual não têm escapado 1 nem mesmo muitos historiadores de certo renome, consiste na suposição de que o movimento expansionista das bandeiras se deu pelas vias fluviais. O Tietê, o velho Anhembi, à primeira vista parece ter sido o grandecaudal que dete1rminou o bandeirismo, mas foi desconhecido de grande parte do movimento”.

Batista Pereira= diria bem do pro-videncial que foi a junção de São Paulo edo Peabiru. “São Paulo foi localizadaonde devia ser. Passava-lhe pela várzea oPeabiru, o caminho de Sumé. (...) Gover-nando do alto da sua acrópole a estradanacional dos índios, São Paulo tinha nasmãos a chave dos sertões e uma barreiraintransponível contra o avanço atlânticode Castela”.

A proibição foi cumprida. Para nativos, plebeus e nobres, portugueses e castelhanos. Mesmo gente como João de Salazar, Melgarejo e filhos de Luís Góis, querendo ir ao Paraguai e não vendo outro roteiro senão aqueles vedado, não obtiveram a necessária licença. E uma vez conhecida a sua intenção, passaram a ser vigiados. Os tupis eram ótimos para o serviço de observação. Tão ciosos, que da vigilância passaram à perseguição. Lá se foram os fidalgos espanhóis, às escondidas, até encontrar o rio, onde lhes foi possível embarcar.

Anos mais tarde, um grupo de gente paraguaia aproximou-se de São Paulo. A indiada tupi, afeita ao controle do caminho, caiu-lhe em cima e todos teriam morrido, não fosse a decidida intervenção dos jesuítas. Mesmo para os soldados ludos estava vetado o Peabiru. Em 1584, para a guerra contra os carijós, as forças velejaram pelo litoral, alongando o caminho, a fim de não romper a proibição.

Teria sido também para mantê-lo (o Caminho do Peabiru), além da ameaça do tupiniquim que de amigo se tornara inimigo, que em 1560, abriu-se o áspero caminho do Cubatão, ligando São Paulo ao lagamar vicentino. É bem pode ter ocorrido que, para seguir à risca a ordenança, deixou-se parecer a fundação de Maniçoba (proximidade da atual cidade de Itu), o primeiro aldeamento no sul do Brasil). Houve longo silêncio sobre o Peabiru.

"Perdeu-se de tal modo a tradição desse caminho - lamenta-se Batista Pereira em sua carta a Paulo Duarte - que, apesar de saber quanto Santo André lhe estava à orla, a localização da vila à borda do campo era até há pouco um problema".

De poucas violações se tem notícias. Assis de Moura revela algumas. De São Paulo tocou-se para o sertão gente como "Diogo Nunes, na sua viagem ao Paraguai e ao Peru; o nativo Miguel, cristão convertido de São Vicente, que regressava do Paraguai à sua redução; Bras Cubas e Luís Martins que, em 1562, se internaram pelo país em distância de 300 léguas". Estes já não seguiam caminho chamado Peabiru mas, dizia-se, de São Tomé.

Do outro lado, do rio Paraná não houve proibição e sim desejo de retomar contato, chegar por terra ao Atlântico sem as dificuldades e as latitudes do Prata. Em novembro de 1603, quatro soldados de Vila Rica do Espírito Santo romperam em São Paulo. Viagem tranquila, calçada nos antigos roteiros e um século atrás. Causaram assombro. Tal como vieram os quatro, poderiam vir quatrocentos, caravanas de mercadores ou magotes de assaltantes. Mas também os de São Paulo poderiam surpreender os de lá. Havia lembranças e crônicas do caminho das selvas - da "estrada nacional dos nativos".

São Paulo festejou os quatro exploradores. Promessas foram feitas. Pensar-se-ia no reatamento de relações, iriam os daqui e receberiam bem os que aparecessem. No fim da visita, o pretexto de cordialidade e despedidas, doze (outros documentos dizem quinze) paulistanos acompanharam os visitantes. Teriam levado a missão secreta de "conhecer e levantar novamente o roteiro do Peabiru".

A partir daí, o caminho retomou por algum tempo a sua importância. Em muitos pontos, o longo traçado já não seria mais que referências, sinais, memórias. Tinham-se acabado a imponência e os cuidados viários que lhe haviam imprimido seus construtores. [“Peabiru” de Hernâni Donato do IHGSP, 10.1971. Páginas 12, 13 e 14]

Em 1628, quando Raposo Tavares levou ao Guairá uma das maiores e principais bandeiras saídas de Piratininga, seguiu o roteiro que Alfredo Ellis Júnior retraçou assim: "Saindo de São Paulo, foi pela crista planaltina bordejante da Serra do Mar. Pinheiros, Apotribu, Quitaúna, Maruí, etc., foram deixados para trás, como marcos de uma caminhada em direção de Guairá. Por fim, eis Araçoiaba..." (“Peabiru” de Hernâni Donato do IHGSP, 10/1971. Página 14)





“Peabiru” de Hernâni Donato do IHGSP
01/10/1971, atualizado em 18/02/2026 01:35:54
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