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Revista Marítima Brasileira/RJ
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1955, sábado ver ano



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GUERRA DA CISPLATINA 311CAPÍTULO IVA França Antártica. — Os castelhanos em ação. — Primeiras relações comerciais. — Fundação de S. Paulo e a caça de escravos. — Nasce o Rio de Janeiro. — Os castelhanos fundam Guaíra. — A primeira bandeira. — Desdobra-se o governo do Brasil. — A torrente escravagista.I — «A 1º de outubro de 1550, — escreve Charles de La Roncière — a casa real de França, com seu séquito de embaixadores, almirantes e capitães, visitava a cidade de Ruão, à beira do Sena, na Normandia, para assistir uma estranha representação das cenas da vida selvicola brasileira."Êsse espetáculo, confessa o historiador acima, tinha um fito: ferir a imaginação em alto grau e provocar com isso uma reviravolta na política d’ei-rei Henrique II, que havia três anos tinha proibido a navegação para o Brasil.«Êsses brasileiros, senhor, — dizia um poeta do tempo apontando para os aborígenes do Brasil ali presentes:«Vós os vereis, com coragem à nossa igual,Pôr em fuga o inimigo: — PORTUGAL!... Êste não alcança até os Canibais,Ilhas p’ra todos, menos p’ra nós, desleais,Onde não estivermos em boa segurança.«A demonstração foi tão clara — continua La Roncière — que um dos melhores hidrógrafos da Marinha real, Guilherme Le Testu, foi enviado ao Brasil para levantar-lhe a carta, com vistas a futuras expedições. Havia necessidade disso. As noções que possuíamos (os franceses) sôbre a América do Sul, entre outras um roteiro de Pernambuco ao Rio da Prata, traçado por um Pilôto que havia realizado dezoito vêzes a dita viagem, faltava exatidão e concordância."Testu embarcou em junho de 1551 para o Brasil a fim de fazer o levantamento do seu litoral. Começou o serviço do cabo de Santo Agostinho e, em dezembro, pelos 26° de latitude austral, os franceses entravam num rio de que tomaram posse. De volta foram atacados por dois navios portugueses na altura da ilha da Trindade. O hidrógrafo francês transladou a grande Mêsse de observações colhidas para o magnífico atlas que ofereceu ao Almirante Gaspar de Coligny.Henrique II resolvera, afinal, auxiliar a fundação de um estabelecimento nos domínios portugueses do Brasil. Abriu um crédito de dez mil libras e confiou as robergas (certo tipo de navios) de Brest e Saint-Malo ao Vice-Almirante Nicolau Durand de Villegagnon para que levasse a cabo a audaciosa empresa. Seiscentos homens, operários, trabalhadores, mas não proscritos como se escreveu mais tarde, se embarcaram para o Brasil. A 10 de novembro de 1555 entrava a flotilha francesa na baía de Guanabara; e fazendo da ilha de Serigy, chamada dos Franceses e depois de Villegagnon, o Almirante francês a sede do govêrno colonial e centro de irradiação de sua política, fundava a França Antártica cujos destinos seriam bem precários.[p. 311]

Isso acontecia no governo de Duarte da Costa que, entretido com lamentáveis dissídios internos e à falta de elementos reclamados da metrópole, não procurou como devia hostilizar o empreendimento francês.II — Os castelhanos, por sua vez, não perdiam a esperança de, à custa dos seus vizinhos, estabelecer à orla do Atlântico uma base de refresco e refazimento às suas expedições encaminhadas ao estuário do Prata. Devido às queixas procedentes do Paraguai, o príncipe-regente d’Espanha, depois Felipe II, resolveu substituir-lhe o governador pelo nobre cavaleiro Juan de Sanabria que havia firmado uma capitulação comprometendo-se a levar 100 famílias, 8 frades e 250 soldados para fundar uma povoação em o pôrto de S. Francisco, na costa catarinense. Falecendo Sanabria, seu filho Diego tomou aos ombros a empresa, fazendo partir, em 1549, dois navios para aquêle destino, seguidos logo de um outro, que se perdeu na travessia. Aportaram ao pôrto de Santa Catarina, onde encontraram um biscainho, chamado Juan Hernández, comissionado pelo governo do Paraguai, havia três anos, para o avituallhamento dos navios castelhanos.Em consequência de desavenças havidas entre o Tesoureiro nomeado para entabolar aliança com os índios Carijós e estabelecer culturas para a colônia, Juan de Salazar y Espinosa, e o piloto Fernando Trejo, cunhado de Diego de Sanabria, uma parte dos espanhóis passou a estabelecer-se em S. Francisco, enquanto a outra, depois de passar toda a sorte de privações, foi mandada socorrer e recolher a Santos pelo governador geral do Brasil.Essa medida filantrópica do governador-geral, diz com muito acêrto um cronista, talvez também encobrisse um propósito político, qual o da afastar daquela zona ribeirinha um futuro núcleo castelhano.Existia já, nessa época (1553), apreciável intercâmbio comercial entre os nossos portos costeiros e o de Assunção.III — Por esse tempo o governador-geral do Brasil, Thomé de Souza, estivera em visita às Capitanias do sul e suas florescentes vilas de S. Vicente e de Santos, em companhia do Padre Manuel da Nóbrega, vice-provincial da Companhia de Jesus. Depois de reconhecer o planalto, passou a dar tôdas as providências relativas à segurança e ao desenvolvimento da região. Em S. Vicente muito se admirou da corrente comercial estabelecida pelo sertão entre os lusos do litoral e os espanhóis do Paraguai. Entrando naquelas paragens de serra acima, os mais afoitos embrenhavam-se pelo interior, indo até Assunção a negociar. O movimento comercial chegara a tal ponto que no ano anterior a Alfândega de Santos havia rendido 100 cruzados a mais de coisas que ali levavam os castelhanos a vender. Por motivo de ordem política, entretanto, proibiu êle expressamente tal negócio e bem assim o ingresso de estrangeiros principalmente pelo interior. Em carta ao rei, dizia com indignação: «parece, por constelação, não se poderem os portugueses em nenhuma parte desapegar dos castelhanos..."Do mesmo modo dissuadiu o governador-geral o Padre Nóbrega do propósito de fazer uma entrada aos sertões do Paraguai. Permitiu, no entanto, o cativeiro dos índios e, ao que parece, ordenou incursões contra êles ao centro do sertão e às margens do Paraná.Diz Varnhagen que «sua reclamação levou a côrte de Lisboa a prevenir em Castela ao seu representante, João Rodrigues Corrêa, que se reclamou contra os castelhanos de Assunção, que entravam nas... [p. 312]

A GUERRA DA CISPLATINA 313terras do Brasil, com morte de muita gente; ao passo que, pouco depois, escrevia a côrte de Castela à de Lisboa representando contra o mau tratamento e opressões que o Governador e outras justiças da costa do Brasil faziam a seus súditos, que iam e vinham do Rio da Prata".Durante sua estadia em S. Vicente deu ainda o Governador-geral — escreve Rocha Pombo — alguns passos no sentido de se ir estendendo o povoamento do litoral para o sul, melhorando-se as condições dos pequenos núcleos, que desde algum tempo se formavam em Itanhaem, em Cananéia e em Superaguy, baía de Paranaguá.O povoado estabelecido pelos espanhóis em S. Francisco do Sul, em razão do ataque dos selvicolas e dos próprios portugueses interessados em sua extinção, foi abandonado em 1555, resolvendo-se o piloto Trejo transportar-se com a sua gente para Assunção. Seguiu para isso o caminho existente e aproveitado por Cabeza de Vaca.IV — A 25 de janeiro de 1554 fundava os missionários da Companhia de Jesus, no planalto, a residência e colégio de São Paulo de Piratininga, «pauperrima e estreitíssima casinha", centro das missões meridionais e quiçá futura capital de um novo império ignaciano, em contraposição à aldeia de Santo André da Borda do Campo cujos alicerces haviam sido plantados pelo valoroso João Ramalho.Com a fixação dos primeiros colonos ao solo nasceu a precisão do cultivo da terra. Eram escassos ainda os braços europeus e africanos e, por isso, houve necessidade de aliá-los aos dos aborígenes.«Os paulistas — anota o grande e inolvidável Rio Branco — que foram os operários diligentes da civilização do Brasil, no centro e no sul... atacados pelos selvagens, a princípio limitaram-se à defensiva, depois tomaram a resolução de se desembaraçar dos seus inimigos". Daí a caça de escravos índios «a qual levaria no bojo simultâneamente, a conquista do território e a esperança, depois de realizada, do descobrimento das riquezas minerais".Os aborígenes, por sua vez, perseguidos a ferro e a fogo pelos descalços conquistadores, rebelaram-se e iniciaram novos e continuados assaltos aos núcleos coloniais, destruindo plantações, exterminando os animais, trucidando a gente invasora.«O que mais espanta os índios e os faz fugir dos portugueses — mostrava José de Anchieta — são as tiranias que com êles usam obrigando-os a servir tôda a vida como escravos, afastando-os de pais, mulheres e filhos, ferrando-os e vendendo-os".Diante dessa ignominiosa situação as tribus litorâneas, desde Cabo Frio até S. Vicente, formaram uma confederação, chamada dos Tamoyos, sob a chefia do temeroso morubixaba Cunhambéba, espantoso canibal que segundo a fama havia saboreado a carne de 5.000 inimigos.V — "Reuniam-se os índios — escreve Handelmann — nas suas leves pirogas, formando verdadeiras esquadras e punham-se à esquerda dos navios mercantes europeus, que passavam à vista; até das naus armadas em guerra não mais retraiam-se, desde que pouco a pouco se haviam habituado ao ribombo dos canhões".[p. 313]

Levavam de surpresa, principalmente à noite, formidáveis abordagens aos vasos contrários, saqueando-os ou destruindo-os exterminando suas equipagens, quando não eram levadas prisioneiras para sofrer a morte nas suas cerimônias festivas.«A região do sul — segundo Theodoro Sampaio — reunia as condições geográficas capazes de um dia assegurar na partilha da América, para o domínio lusitano, quasi metade do continente austral. Região favorecida pela benignidade do clima, onde não há secas, nem jamais o deserto petrifica sob a inclemência do clima".De Itanhaem para o sul até Santa Catharina e pelos «sertões do sudoeste, para além das montanhas, que descambam para o lado do mar, surgiam arrogantes os Carijós, envoltos em suas peles mosqueadas de jaguar, e derramavam-se pelas planícies, levando a destruição e a morte. De tratáveis e humanos que haviam sido nos primeiros contatos com o europeu, tornaram-se, ante as irritantes e hostis investidas dos brancos, temidos e vingativos. Contra eles, por se encontrarem mais próximos, arremeteram reinóis e paulistas cúmplices. De 1554 em diante, o preamento dos ameríndios havia limpado dêles a zona costeira. Investem então os desabusados e insaciáveis bugreiros o sertão, que se escancelava para oeste.Em 1555 alguns caciques da região de Guayra, vasto território situado à margem esquerda do Alto-Paraná e ao norte do Iguaçu, apresentaram-se a Domingos Irala, governador do Paraguai, pedindo-lhe proteção contra as correrias dos Tupis procedentes do Brasil e auxiliados pelos portugueses. Irala, com a férrea energia e a notável atividade que lhe eram peculiares, bateu os tupis e obrigou-os a fazer a paz, segundo as melhores fontes castelhanas. E como um anteparo a essas correrias, enviou então o capitão Garcia de Vergara, à frente de 60 homens, fundar um povoado, que denominou Ontiveros, no território de Canindéyu a uma légua da famosa catarata de Guayra, na confluência do Paraná e Iguaçu.No ano seguinte, encarregou ao capitão Chavez da fundação de dois novos povoados, um em Guayra e outro no território de Jarayes. Desta maneira, segundo Calógeras — antecipava Irala o ponto de contato com a expansão portuguesa vinda de S. Paulo.No entanto, as expedições do sul, conforme o mesmo autor, «é que iam firmar os termos do problema a ser controvertido entre as duas coroas" da península Ibérica.Os jesuítas espanhóis, por sua vez, penetrando no sertão e formando núcleos de selvicolas em número bem apreciável, iam com isso aguçando a fúria escravagista dos paulistas.Ao contacto dos rústicos portugueses com as mulheres indígenas abrolhava e «crescia — segundo Southey — uma raça de homens, ferozes, sim, e intratáveis, mas que, graças à mistura do sangue indígena, adquiriria uma atividade constitucional e incansável".Era a raça dos bandeirantes, que os historiadores nossos e amigos do Rio da Prata tanto malsinam. Para exemplo, transcrevo aqui o que disse um a respeito dêles: «A colônia portuguesa de S. Paulo, no Brasil, gozou durante muito tempo de péssimo renome. Formada, por 1554, por um grupo de deportados com que Portugal empreendeu o povoamento do Brasil, serviu logo de refúgio a criminosos de todas as nações". «De sua união com mulheres indígenas e com os negros escravos (oh! manes de Rivadavia e de Falucho! importados da África, resultou uma geração de mestiços zambos e mulatos que constituíram essa raça de bandidos chamados mamelucos, quasi nômade, de instintos bárbaros e incansáveis em suas correrias". [p. 314]

VI — Aos 11 de junho de 1557 faleceu em Lisboa o fanático fradesco introdutor da Inquisição em Portugal, el-rei D. João III, o Piedoso, a quem deve o Brasil o seu povoamento, sucedendo-lhe no trono seu neto D. Sebastião.Nesse mesmo ano viera governar o Brasil o prestante cidadão Mem de Sá que, «após atalhar muitas demandas, o jogo e os abusos que encontrou na colônia; dominar os gentios rebeldes pela força e aos mansos convertê-los e agrupá-los em aldeias dirigidas pelos


1955, sábado (Há 71 anos)

, logrou, com reforços vindos do Reino e ajuda das capitanias do sul, desalojar os franceses e arrasar sua principal fortificação, situada na ilha de Villegagnon e os expulsar definitivamente da baía de Guanabara.«A vitória dos portugueses seguiu-se a transferência da cidade para o morro de S. Januário (depois Castelo, hoje arrasado). Aí foi fundada, com as cerimônias usuais à época, a capital da nova Capitania e traçada na ondulosa esplanada do morro a praça onde ficariam a Casa do governo e um forte. Mais tarde, ao correr do tempo, derramou-se a cidade pela encosta abaixo até a planície paludosa.Estava fundada a cidade do Rio de Janeiro, dentro em pouco elevada a capital do Brasil.VII — Como temos visto, sempre e continuamente hostilizados pelos ferozes ameríndios das margens do estuário do Prata, querandis, charruas e guenás, não haviam os espanhóis alcançado enraizar naquelas inóspitas paragens, durante quase três quartos de século, um estabelecimento definitivo, duradouro.Remontando o Paraná, conseguiram como vimos com áspera luta, fundar Assunção que, desde logo, passou a ser a sede política, administrativa e militar da Espanha no centro-sul do continente.Não encontrando às margens do tormentoso e naufragoso estuário (ao norte, com as abras de Maldonado, Montevidéu e o pôrto da Colônia, ainda litigiosos) as condições desejáveis à implantação de uma situação intermédia entre o referido centro e a longínqua metrópole, não perdiam de vista os castelhanos nem a esperança de se estabelecerem definitivamente no trato da costa atlântica, compreendido entre Itanhaém (no momento, o último povoado português ao sul) e a embocadura do rio da Prata, trecho êste dotado de bons surgidouros para seus navios e alguns dêles já em comunicação terrestre com o Paraguai.Certo Jaime Rasquin firmara um contrato com o governo de Madrid para o estabelecimento de dois povoados no Rio da Prata e outros dois no litoral brasileiro (sendo um em S. Francisco do Sul), além da implantação, em pontos adequados, de vários engenhos de açúcar. Tendo partido da Espanha, em 1559, seus navios se dispersaram, não alcançando Rasquin seu objetivo.Essas pretensões espanholas de se firmar à borda do Atlântico não se repetiram, ao que parece, em consequência das reiteradas reclamações diplomáticas de Portugal.VIII — Com as vistas voltadas para as riquezas do Peru, os castelhanos, nos primeiros tempos da conquista, deixaram quase deserto o território que hoje constitui a República Argentina. Os pampas patagônicos, estes então, ficaram em total abandono.Nessa época o território do Uruguai — como comenta O. de Araujo — permanecia sem ser colonizado, e as tribus que em tratos o povoavam eram tão livres e independentes como antes da chegada de Solís: só interrompiam sua tranquilidade alguns navios portugueses. [p. 315]

316REVISTA MARÍTIMA BRASILEIRAque costumavam penetrar no grande estuário com o fito de reconhecer seus portos e enseadas, uma vez que os povoadores de S. Vicente, portugueses também, recorriam impunemente as terras da atual República Oriental, entabolando com astúcia e habilidade relações amistosas com os naturais".Tendo falecido Martínez de Irala (1556), dois genros seus (Gonzalo de Mendoza, que pouco viveu, e Ortiz de Vergara) o substituíram na governação do Paraguay. Agitações e motins encheram seus períodos de governo, até que nomeado foi (1564) novo adiantado na pessoa de Juan Ortiz de Zárate, abastado fazendeiro de Charcas, que fôra à Espanha alcançar do Rei a confirmação do cargo. Na sua ausência ficou à testa da administração Felipe de Cáceres; mas êste, sendo preso, foi substituído por Juárez de Toledo.Em outubro de 1572, Ortiz de Zárate fazia-se de vela da Espanha. Vinha à frente de cinco navios com 600 homens entre colonos, soldados e frades. Desfalcados e famintos arribaram os expedicionários à ilha de Santa Catarina. Após sete meses das maiores privações e misérias, entre os selvicolas hostis e uma força alcada para conter aquela gente alucinada pelo sofrimento, Zárate, abandonando enfermos, mulheres e crianças, zarpou para o Rio da Prata. Em consequência do naufrágio da capitânia, viu-se obrigado a demandar a ilha de São Gabriel, onde estabeleceu um arraial militar. Os naturais da região, que em princípio se haviam mostrado tratáveis, passaram a hostilizar os espanhóis. Assim constrangidos, suspenderam acampamento, indo estabelecer-se na ilha de Martín García, onde suas condições se agravaram ainda mais com a perda dos últimos navios varridos por fortíssimo temporal.Ali veio juntar-se com os abandonados em Santa Catarina o Capitão Rui Diaz de Melgarejo que, ao passar naquele pôrto, «sepulturas cavadas de fresco e a fôrca erguida contavam com sua muda linguagem a história dos horrores que ali se haviam passado", consequência do gênio tirânico e descaroável de Zárate.Face à situação desesperadora de seus compatriotas, Melgarejo resolveu remontar o rio a fim de pedir socorros ao enérgico e decidido fidalgo vascongado, capitão Juan de Garay, que acabava de lançar os fundamentos da póvoa de Santa-Fé à margem do rio Paraná (1573).IX — Em 1561 fazia-se a primeira incursão paulista contra os desgraçados ameríndios, figurando, então, na bandeira para tal fim organizada, como intérprete, o jesuíta José de Anchieta, hoje chamado pelos seus irmãos de hábito o «Apóstolo do Brasil". No ano seguinte, o velho João Ramalho, patriarca dos mamelucos, punha-se também à testa de nova expedição belicosa e predadora. Foi nesse tempo, assim parece, que se descobriram as minas de ouro de Jaraguá.«Em 1565, — informa-nos P. Prado — os camaristas (de São Paulo) dirigem longa representação a Estacio de Sá, capitão-mór da Armada real destinada ao povoamento do Rio de Janeiro, reclamando em termos enérgicos, providências contra os assaltos dos tamoios e tupiniquins, que matam e roubam impunemente em todo o território da capitania, «não lhe fazendo a gente desta capitania mal nenhum" (!!!). Essa representação envolvia também a ameaça, caso não viessem auxílios imediatos, abandonarem os moradores a vila de Piratininga, «para irmos todos — diziam — a caminho das vilas do mar". Mais tarde, em 1585, a situação exige a organização de verdadeira campanha, sob o mando do capitão-mór Jerônimo Leitão, loco-tenente do donatário, contra as tribos dos carijós, tupinaés e outras que infestavam diversas regiões da capitania.[Página 316]

Depois das expedições escravizados do litoral, foi talvez a primeira guerra de caça ao nativo, requerida a aconselhada pelos camaristas da vila de São Paulo. "Estava iniciada e organizada, em larga escala, a escravidão do nativo. Com esse ardimento e afã, que sempre foram característicos da raça, os bandos paulistas se atiraram à expedição de resgate".

Enquanto isso, os castelhanos, no sul, iam,semeando pequenos povoados como Mendoza, San Juan, San Luis e Tucumán, na vasta província do Rio da Prata, e os inacianos, procedentes do Brasil e do Peru, penetravam no Paraguai, dando início à catequese dos ameríndios de Guaíra, Vila Rica, etc.

X - Enquanto ocorriam os fatos acima, era despachado de Lisboa Dom Luís de Brito e Almeida a fim de render no governo do Brasil a Mem de Sá que, infelizmente, falecera dois meses antes da chegada do seu substituto (1572). A administração deste ilustre militar for, segundo Varnhagen, tolerante e uma das mais profícuas para o Brasil, salvando-o, principalmente, das invasões francesas e dos nativos. Pode-se dizer que ao seus esforços deveu o Brasil começar a viver independente de socorros.

Mostrara, como bom psicólogo, como se devia governar nosso povo. "Esta terra - dizia - não se pode nem deve regular pelas leis e estilos do reino. Se V. A. não for muito fácil em perdoar, não terá gente no Brasil; e por que ganhei de novo, desejo que ele se conserve".

Por essa mesma ocasião a governação do Brasil foi desdobrada em duas, indo Luis de Brito para a do norte, tendo por sede a cidade do Salvador da Bahia, e o Dr. Antonio de Salema para a do sul, sendo designada para capital de sua circunscrição administrativa a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Cingiram-se os dois administradores a fazer crua guerra aos exploradores ameríndios, sem entretanto, delinearem qualquer obra ou serviço de relevância. Afirma o padre Galanti que o governo do Sr. Salema distinguiu-se pela expulsão definitiva dos franceses, que apoiados pelos tamoios seus aliados sempre fiéis, ainda traficavam em Cabo Rio.

"Marchou Salema contra eles à testa de 400 portugueses e 700 nativos. Defendiam-se com denodo os bárbaros, e a vitória parecia duvidosa, quando o governador separou deles os franceses, prometendo-lhes as vidas salvas. Estes então se submeteram a se retirarem. A vitória foi completa; a matança horrível e o número de prisioneiros subiu a diversos milhares. Os tamoios ficaram aniquilados, e os tupinambás internaram-se para o sertão indo parar no vale do Amazonas".

XI - Como deixamos dito, o ano de 1585 marca o início, pelo que se sabe, do terrível movimento escravista rumo ao sul, a caminho de Paranaguá e mais além, com a expedição chefiada pelo capitão-mór de São Vicente. Varejou ela uma vasta zona evidentemente já reconhecida pelos vicentistas. É bem possível que chegassem os expedicionários até as raias atuais de Santa Catarina. [Página 317]




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