Falta de registros históricos alimenta o mistério em torno da construção, que foi alvo de lendas e atraiu curiosos até ser totalmente demolida nos anos 2000. Mas historiadores e pessoas que tiveram a infância ligada ao local ajudam a recontar essas memórias.Durante décadas, uma construção abandonada assombrou gerações em um morro na divisa entre Sorocaba e Votorantim, no interior de São Paulo. Conhecido como Casa dos Padres (ou Chácara dos Padres), o local é alvo de lendas e atraiu curiosos por sua fama de mal-assombrado — até ter sua estrutura principal demolida, em meados dos anos 2000. Até hoje, pouco se sabe sobre o que realmente ocorria na chácara na época em que pertencia à Igreja Católica. A falta de registros históricos sobre o passado da propriedade pode explicar o porquê de tanto mistério.Se você morou em Votorantim por volta dos anos 90 provavelmente já ouviu os mais velhos contarem que, no tempo em que ainda havia a escravidão, muitos negros escravizados foram maltratados pelos padres que viveram no local. Algumas histórias, daquelas que vão passando de geração em geração até ninguém mais saber de onde surgiram, dão conta que os escravos eram submetidos a castigos cruéis pelos sacerdotes. Os que tentavam fugir, reza o dito popular, eram colocados na escadaria do casarão e obrigados a rezar antes de serem mortos.As lendas citam ainda dois incêndios que teriam ocorrido na chácara ao longo de sua existência. No primeiro, a construção ainda era de madeira e o fogo teria matado todos os escravos que viviam lá. A casa teria sido reconstruída, dessa vez com rochas, mas foi novamente alvo das chamas no começo do século 20, segundo o folclore votorantinense. Só que, dessa vez, as vítimas foram os padres. Foi um prato cheio para o imaginário popular, que passou a enxergar o lugar como mal-assombrado, azarado, perto do qual nenhum empreendimento teria sucesso.Há também a versão de que os padres, na verdade, ajudavam escravos a fugirem. Essa história é reforçada pela suposta existência de um túnel na propriedade. Em 2014, Edson Correa, tataraneto do escravo José Joaquim de Camargo, deu entrevista ao jornal Cruzeiro do Sul e citou relatos de seus antepassados. Segundo ele, os escravos chegavam a passar um tempo com os sacerdotes, mas quando o capitão do mato se aproximava, eles usavam esse túnel para a fuga. A saída, disse, dava do outro lado da avenida, perto do rio Sorocaba, onde na época existia uma cachoeira.Linha entre a história e as lendas é tênueMas com tantas informações passadas de boca em boca durante séculos, seria possível cravar o que é verdade e o que é mito sobre a Casa dos Padres? É difícil dizer. Durante um mês, o Trópico buscou, sem sucesso, documentos que tivessem registros do local. Uma instituição que poderia revelar um pouco sobre a história dos sacerdotes que passaram por lá é o Mosteiro do São Bento, no Centro de Sorocaba. Porém, o local está passando por reformas e a reportagem foi informada que os livros sobre os beneditinos da cidade estão encaixotados e, portanto, inacessíveis.O historiador e escritor sorocabano Carlos Carvalho Cavalheiro, estudioso da história da cidade, disse saber pouco sobre a Casa dos Padres. Mas ele conta que, durante sua pesquisa sobre a escravidão negra em Sorocaba, que resultou na publicação de um livro, não encontrou indícios nem da exploração do trabalho escravo pelos monges e nem da inserção dos beneditinos no movimento abolicionista. “Não quero dizer com isso que o fato não ocorreu. O que afirmo é que não encontrei elementos, ainda, que corroborassem essas informações”, ressalta.Outro conhecedor da história sorocabana, o jornalista e pesquisador Sérgio Coelho de Oliveira também afirma não ter conhecimento de nenhum fato historicamente relevante que tenha ocorrido na Chácara dos Padres. “Até onde sei, eles nem moravam lá”, fala. A respeito do túnel pelo qual supostamente ocorriam fugas de escravos, ele observa que a maioria das histórias envolvendo essas passagens são “aumentadas”. “Temos lendas sobre túneis no Mosteiro de São Bento e na Casa da Baronesa, mas a finalidade deles costumava ser só prática mesmo”, finaliza.Sorocabana frequentava local na época dos padresAs memórias da confeiteira Dulce Noronha, 65 anos, trazem alguma luz à história dos padres. Moradora de Sorocaba, a idosa lembra que fazia visitas frequentes ao local quando tinha sete anos, já que os avós eram caseiros na chácara. Isso foi entre 1960 e 1961. “Meu avô cuidava da porteira que ficava onde hoje é o shopping [Iguatemi] Esplanada e também de uma plantação de uva. Já minha avó cultivava verduras para os padres”, lembra. Uma tia dela, que tinha menos de 20 anos na ocasião, também trabalhava no casarão como cozinheira dos sacerdotes.Dona Dulce confirma que, apesar do nome pelo qual a construção ficou conhecida, os padres, mesmo, não moravam na chácara, ao menos nessa época. “Eles iam e voltavam, não passavam a noite lá. Eram homens mais velhos e usavam um carro preto”, destaca. Já os noviços (padres em formação) eram reclusos e viviam no convento, uma residência específica para eles. “Esses eu só sabia que moravam lá, mas eles não saíam da casa. No tempo que frequentei a chácara não cheguei a ver nenhum deles, nem mesmo ouvir as vozes. Acho que ficavam só rezando”, conta.Nesse tempo o convento levava pintura amarela, lembra a confeiteira, mas as características internas são desconhecidas, já que ela nunca entrou no local. “Em frente ficava o casarão dos padres, onde havia a cozinha, que tinha azulejos brancos e um piso avermelhado. Tinha também uma escadaria na qual eu passava muito tempo brincando”. Outro local que ela lembra de frequentar na chácara é uma pedra que ficava na área do Campolim. “Levava minha boneca de pano e passava o tempo lá. Era uma época muito boa, de liberdade e contato com a natureza”, finaliza.Área foi comprada nos anos 60A área que foi ocupada pela Casa dos Padres pertenceu à Igreja Católica provavelmente desde a época da fundação de Sorocaba, por volta de 1660, quando o bandeirante Baltazar Fernandes doou parte da terra invadida aos monges beneditinos.
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