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1951, há 75 anos...
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"O Litoral Paulista”, Nelson Werneck Sodré. O Observador Econômico e financeiro*
mai. de 1951 ver ano
   

O OBSERVADOR ECONÔMICO E FINANCEIRO tem dedicado especial interêsse ao estudo de importantes regiões do país. Para isto tem contado com a colaboração do conhecido escritor Nelson Werneck Sodré, além da de outros estudiosos. Esta iniciativa vem alcançando a maior repercussão, chegando de várias partes do território nacional, já que são muitas as de iniludível valor econômico, pedidos para estudos especiais. Infelizmente nem sempre é possível a O OBSERVADOR atender a tais pedidos, não só por fôrça de dificuldades várias, como em atenção ao programa que a revista se traçou.

Esperando que os leitores compreendam bem a importância da iniciativa, e a ordem dos motivos que a orientam, oferecemos nesta edição à sua apreciação, a primeira parte do estudo de Nelson Werneck Sodré sôbre o litoral paulista.

Desde os albores da História do Brasil, o litoral paulista se tem projetado como uma zona de alta influência econômica, tanto pelos portos naturais que representam escoadouros para a produção dos altiplanos, como pela capacidade de acolhimento dos exploradores humanos em face da caprichosa apresentação geográfica. Na foto de cima podemos ver um dos recortes mais destacados do litoral paulista, notando-se as encostas da Serra do Mar na região de Caraguatatuba. O mapa, embaixo, organizado pelo autor, nos dá um idéia nítida das barreiras de montanhas cercando o litoral paulista, e a sua divisão em zonas. [p. 36]

Ao penetrar o território paulista, a Serra do Mar dista do oceano cerca de cento e cinqüenta quilômetros. Não apresenta vales profundos nem altitudes demasiadas. Desce dos 1.200 metros, com que penetra em São Paulo, para as máximas de 800 metros. Do lado do interior, prolonga-se em vales suaves e abertos, com as cabeceiras dos formadores do Taquari e do Apiaí. Das grandes altitudes, superiores a 1.200 metros, onde nascem as primeiras águas do rio Itararé, descai para os 1.000 dos movimentos de Apiaí e da Serra da Dúvida e, mais adiante, para os 800 das Serras de Jabaquara e do Monos, para só erguer-se novamente, ao sul de Piedade, quando retorna aos 1.000 metros.

No seu caminho, dos limites paranaenses ao coração paulista, vai-se aproximando, lentamente, do oceano, até que, nas alturas de Piedade, numa brusca inflexão, busca a baixada santista. De sua linha de cumiada para o interior, apresenta-se o planalto, — altiplano que se desenvolve largamente, com os movimentos secundários vincados pelos grandes contribuintes do Paraná, cujos longos vales repartem o território paulista, no sentido de sua maior dimensão, em faixas mais ou menos idênticas. Ao longo de seu desenvolvimento, buscando as terras mais altas, enfileiram-se os centros urbanos e as comunicações, deixando os vales, procuram os espigões, para a penetração no sentido do interior.

Do lado oceânico, a Serra do Mar descai muito mais bruscamente. Nada se aparenta, entretanto, nesse longo trecho, que vai do sul de Itararé ao sul de Piedade, com as características rudes e tão bem conhecidas do paredão santista. Sua queda é mais viva, em comparação com a vertente interior, mas não se processa de um só lance. As primeiras águas dessa vertente, contribuintes do largo sistema oceânico do Ribeira-Juquiá, cavam fundamente as suas encostas e deixam vales agrestes, úmidos, sombrios e profundos. Mas não descem longamente, no sentido do mar, antes precipitam-se, rápida e curtas, até encontrar o largo vale transversal em que se reúnem. Sendo assim, a vertente atlântica da linha de cumiada, a linde do planalto paulista, não descamba sùbitamente, mas proporciona duas zonas de transição. A primeira destas é a que se limita, do lado do mar, pelo grande vale transversal do Ribeira-Juquiá, zona montanhosa, recortada, coberta de vegetação. A segunda, além daquele vale, é a que separa as suas águas da orla oceânica. Embora destituída da importância orográfica da primeira, porque lhe falta continuidade, interrompida que é, em meio, pela junção do Juquiá ao Ribeira e pela fôrça das águas que buscam o litoral, deixando uma seção ao sul, a das serras do Descanço, Jaguari e Votupoca, e outra ao norte, a da serra dos Itatins, — é incontestável que o seu traçado dá as linhas mestras da região sulina de São Paulo, de vez que, nos Itatins, há altitudes superiores a 1.200 metros, e a vinte quilômetros do litoral.De Piedade ao Cubatão, desde a inflexão após a qual se lança para o oceano, a Serra do Mar muda de aspecto. Começam, novamente, a avultar as suas cotas e, mais do que isso, ela aos poucos se estreita. Não é mais aquêle largo movimento, em que a linha de cumiada se perdia em curvas e se diluía em sucessivos colos. Aqui, a crista se aguça e se alteia. A vertente interna é suave, ainda, e se reparte em movimentos sucessivos, entre os quais as águas se encaixam, guardando altitudes quase imutáveis, em vasta extensão, sô- [“O Litoral Paulista”, Nelson Werneck Sodré. O Observador Econômico e financeiro, 05.1951. Página 37]

39conhecida como norte de São Paulo, consiste na existência e na função de seus vales transversais. O lance sul da Serra do Mar, entre as lindes paranaenses e a região de Piedade, conforme descrevemos, onde a linha de cristas é oblíqua em relação ao oceano, aproximando-se dêle na proporção que se adentra em território paulista, até colar-se a êle, esporàdicamente na zona do canal da Bertioga, e continuamente, depois do canal de São Sebastião, — o lance sul da Serra, cuja distância do litoral é da ordem de cem quilômetros, assinala um vale paralelo à costa, o do sistema fluvial do Ribeira-Juquiá. Trata-se, entretanto, de um vale de baixada, cujo trecho superior é cavado e correntoso de águas e que só se torna largo, baixo e francamente indeciso, na confusão de seus cursos e na imprecisão dos mangues palustres, depois que os dois formadores se reúnem e que as águas buscam o litoral.

A baixada sulina, realmente, ainda indecisa em sua formação e na estrutura e definição de suas linhas, densamente trabalhada pelas águas, e que acaba por derivar para um sistema ilhado, desde a barra de Ararapirã do Ribeira, [p. 39]

com a esconsa restinga da ilha Comprida, — nada oferece de extraordinário. É uma ampla porta da entrada para o interior e, històricamente, já foi essa a sua função desde que em Cananéia começava o caminho do Paraguai.

Os vales transversais do lance norte da Serra do Mar, ao contrário, são perfeitamente estruturados. Trata-se de uma faixa territorial definida, acabada, com tôdas as suas linhas, salvo o leito do rio Paraíba, mas o leito em si, sòmente, bem precisadas e firmes. São vales de planalto, fortemente recortados, com perfil nìtidamente marcado.

O primeiro dêles, o do rio Paraibuna, surge da vizinhança entre a Serra do Mar e o litoral, nesse lance de seu desenvolvimento. Margeia a costa, do lado interno da serra, até o paralelo de Ubatuba e Guararema, quando inflete para o interior. O divisor entre o seu vale e o do segundo rio, com cotas superiores a 1.000 metros, na Serra de Paraíbuna ou de Cunha, vai da junção do rio daquele nome até o nó da Bocaina, em linha ascendenem Ubatuba.índios. Note-se a desolação atual.

O segundo vale é assinalado pelo leito do rio Paraitinga, que nasce próximo ao nó da Bocaina e é mais longo, mais volumoso e mais fundo do que o anterior. Trata-se de extenso vale transversal, sempre paralelo à costa, em tôrno do qual se polarizou grande parte da vida da gente da região. Próximo à cidade de Paraíbuna, juntam-se os dois rios, o Paraíbuna e o Paraitinga, e surge daí o Paraíba, que se orienta de este para oeste, até as alturas de Guararema, onde faz a acentuada curva que inverte extraordinàriamente o seu curso, passando a marcá-lo de sudoeste para nordeste.

Assinala o curso do rio Paraíba o terceiro vale transversal do planalto, nesse seu lance. Separa-o do vale anterior, do Paraitinga, o largo movimento das serras de Jambeiro e de Quebra-Cangalha, originado na região de Guararema e que se entronca, em linha ascendente, no nó de Bocaina.

A particularidade do vale do Paraíba consiste precisamente na sua origem: aí vemos, ao lado da singularidade dos riosAqui o jesuita consertou a paz com osque nascem próximos à costa e buscam o interior, em amplíssimos cursos, favorecendo as penetrações, a outra singularidade, de um curso dágua volumoso que opera uma reversão sem igual na hidrografia brasileira. Essa reversão é estabelecida pela oblíqua orográfica do planalto, configurada na serra de Guararema. Esta, que se desprende da Serra do Mar, na altura do paralelo de Caraguatatuba, separa as águas do rio Lourenço Velho, contribuinte do Paraíbuna, já no trecho em que êste busca o Paraitinga, do alto Tietê, e vai entroncar-se com os primeiros movimentos da Mantiqueira, na região conhecida como serra de Itapeti, além da cidade de Guararema e ao norte de Mogi das Cruzes. Sua resistência é que quebrou, no passado, o ímpeto da orientação do Paraíba, forçando-o à singular reversão que produziu o terceiro vale transversal a que nos referimos.

Velho caminho de civilização e antiquíssimo polarizador de riqueza e de movimentos humanos, o vale transversal do Paraíba, o mais [p. 40]




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