do negro se assinalava, na época, pela presença do português: onde estivesse o português estaria o negro. Que mal havia nisso, afinal? No tráfico de negros tanto brilharam portugueses, como ingleses, holandeses, franceses, dinamarqueses. Não se trata, pois, de uma invenção portuguesa, mas de um comércio que deu muito lucro aos homens civilizados de muitos países civilizados. O certo é que já em 1538 vinham negros para a terra mal descoberta ainda. Pero de Góis fazia ao sócio aquele petitório que todos conhecem: que lhe mandasse sessenta negros, sob pena de dar em água de barrela a sua tentativa de indústria açucareira. Nóbrega pediu que se reservasse meia dúzia deles para o serviço dos padres. Fundados os primeiros engenhos, não era possível funcionassem estes sem o braço africano. Sem “os braços e os pés” do africano, como diria o pitoresco Antonil. Iniciado o regime das capitanias hereditárias, Pernambuco e Bahia pretejaram a olhos vistos. O choro dos primeiros sacrificados negros teria rimado bem com as lágrimas das primeiras canas postas na moenda. Contam estudiosos do assunto que os negros mais inteligentes ficavam nos primeiros arraiais. O grosso da tropa seguia para as fazendas do interior. Vinda da Madeira, a cana medrava que era uma boniteza nas propriedades “situadas à margem dos rios navegáveis”.Houve certos momentos em que a África dominou e sobrepujou a América, causando verdadeiro pânico a certos cientistas ambulantes que chegaram a ver, no Brasil, um novo e imenso S. Domingos. O carvão humano chegava em cargueiros, para a oficina das raças. Adubos pretos para a fecundação de nossa democracia biológica. Plantas negras cujas raízes quentes mergulhariam bem fundo, no fundo da raça cósmica. Seis milhões de trabalhadores, é o cálculo de Calmon, que se deslocaram pelas três zonas de fixação — a do açúcar, a do ouro e a do café.Porém, ainda quando se deu (2-A) a fundação de São Paulo havia poucos pretos da África no Brasil. A capitania de S. Vicente estava em terceiro lugar, na escala Olinda, Recôncavo e sul do país.E tanto é assim que Anchieta, cujas observações primam por exatas, apontou 14 mil em 1583; dez mil em Pernambuco, três mil na Bahia e apenas mil no Rio de Janeiro.Para um cálculo numérico, essas informações são bastante elucidativas. Pra determinar, entretanto, a ordem cronológica em que chegaram os primeiros elementos da raça(Notas de rodapé no fim da página)(2) JORGE LOPES BIXORDA, arrendatário do pau de tinta, já trazia negros para o serviço, em 1538. MARTIM AFONSO também traz alguns deles e assim começa a história.(2-A) FREI GASPAR, p. 235.76 [p. 76]
Não podia, pois, ele faltar, como não faltou, no primeiro capítulo das entradas. Realmente, quem foi a primeira figura dessas entradas, no quinhentismo? Afonso Sardinha, a quem se dá o apelido de "patriarca do ouro". Os dois Afonso Sardinha, pai e filho, foram mestres "curçados" do bandeirantismo, no sentido legítimo desta palavra.
Pois bem, entre os primeiros negros trazidos para o Brasil estão os de Afonso Sardinha, governador do Jaraguá. Em princípios do seiscentismo, começaram a figurar "percas pretas" nos róis dos inventários. Mas já nos últimos anos quinhentistas "a alguns importava Afonso Sardinha", que os mandou buscar por intermédio de Gregório Francisco, chegando ao gosto de possuir um navio de carreira de Angola para São Vicente.
Já estava então muito em voga, informa Teodoro Sampaio (1855-1937), adquirir escravizados na África. Os fazendeiros faziam sacrifícios, emprenhando-se por dívidas para equiparem navios que iam às feitorias portuguesas do Congo buscar negros que na lavoura da colônia provaram melhor que o próprio nativo.
Cada qual fazia as suas contas para quando chegasse o seu navio de Angola ou recebesse o seu quinhão no carregamento de africanos. O testamento de Afonso Sardinha, em 1597, é um documento que traz muita luz em tal sentido.
Conclusão lógica é que os primeiros negros de serra acima, que tomaram parte no bandeirismo, foram os de Afonso Sardinha. Embora não tivesse chegado a realizar grandes correrias heroicas.
Embora não tivesse chegado a realizar grandes correrias heroicas, (não podia começar pelo fim) o "patriarca de de ouro" foi um bandeirante com raio de ação bem desenvolvido.
Seu nome é apontado pelos historiadores em vários assaltos ao sertão bruto. Sua presença no mataréo já é assinalada em 1590, através de numerosas entradas. Em 1599 estava ele bandeirando no rio Jeticahy, hoje Rio Grande.
Como admitir que o importador de negros de Angola não se tivesse utilizado deles nas suas proezas sertanistas? E estas suas proezas sertanistas, que forma o prelúdio das grandes façanhas, poderiam ser omitidas como secundárias?
Acredito que não e por muitos motivos. Por exemplo: a repercussão que tiveram os seus achados de ouro no espirito daquele encantador d. Francisco de Souza, a quem se apelidou de "eldoradomaniaco", redunda logo em mais duas bandeiras, muito importantes, que foram as de André de Leão e Nicolau Barreto.
Desde o início da mineração do Jaraguá, levas de nativos e de negros africanos, que começaram a ser introduzidos na Capitania, eram conduzidos pelos seus donos ao sopé do morro, a fim de intensificarem esse trabalho, que prometia lucros fabulosos. [Revista Brasileira, 1976. Páginas 77 e 78]