Os municípios envolvidos passaram por ciclos históricos, desde a caça eapresamento de índios nos séculos XVI e XVII, de onde os paulistas adentravam o sertão aprocura de remédios e pedras preciosas na época, até 1640 quando se estabeleceram algumasfazendas nas paragens a oeste de São Paulo.O próprio Raposo Tavares, apesar de regressar ao sertão muitas vezes mais,estabeleceu uma próspera fazenda na paragem de Quitaúna, ao longo do rioTietê, entre as vilas de São Paulo e Parnaíba, que contava, em 1632, com umplantel de 117 índios (inventário de Beatriz Bicudo, 1632 apud MONTEIRO,1994, p. 79).Hoje estas cidades se transformaram no mais recente alvo da especulaçãoimobiliária, o que tem causado grandes perturbações nas comunidades que se encontram nolocal, uma vez que “Contrapõe-se aos preceitos preservacionistas, a pressão exercida pelaexpansão urbana, através do aumento da população e da especulação imobiliária” (ROSS,2004, v. 2, p.197).Carlos (2008, p. 136) fez a discussão desse processo especulativo e de segregaçãoquando aponta que “[...] o que está em jogo é o processo de apropriação do espaço paradeterminado uso, representado na propriedade privada da terra, como expressão da segregaçãoeconômica, social e jurídica”.Nossa preocupação nesse estudo foram as questões culturais e ambientais tomadas como elementos indissociáveis, uma vez que (SILVA e ACHEL, 2010; SILVA, 2013) o processo histórico de segregação sócio espacial da população local ocorre desde os tempos das Sesmarias até o tempo das grandes fazendas, sítios e antigos bairros rurais que permearam a história da região, transformações estas que se deram através do Antigo Caminho de Itu.Ao longo do trabalho apontamos registros sobre a cultura local, por base da relação direta com a formação histórica e geográfica constituídas dialeticamente, destacando nesta perspectiva, os elementos simbólicos atrelados à religião, materializados por ritos em torno de espaços determinados, como capelas e cruzes localizadas ao longo do antigo caminho para Itu, sobretudo na comunidade Quatro Encruzilhadas. Nesta etapa do trabalho elencamos a associação das cartas temáticas ao conteúdo de dados históricos, perfazendo por imagens de fotografias obtidas em campo, num primeiro momento o conjunto do patrimônio cultural material pertencente a esta área. 28 [Página 28]CAPÍTULO 2 – CARACTERIZAÇÃO HISTÓRICA DA ÁREA DE ESTUDO2.1 A CIDADE DE COTIAA história de Cotia tem início por volta de 1700, quando os viajantes que iam para o interior dos estados, paravam na vila para descansar e alimentar-se por ser um antigo pouso de tropeiros onde circulavam cargas e mantimentos. Provavelmente esses tropeiros vinham pelo antigo caminho de Itu, um dos principais caminhos de penetração para o interior nos tempos coloniais (SILVA e ACHEL, 2010).O local onde se insere a cidade de Cotia hoje apresentava uma rede de caminhos exploratórios constituídos no pretérito período colonial, perpassando a fase inicial de assentamento por indígenas, de agricultura rudimentar (roçado), expansão com a descoberta do ouro, fornecimento de insumos a capital e, por fim, urbanização/industrialização.Nessa época a região era repleta de caminhos e trilhas utilizadas pelos índios eposteriormente pelos tropeiros que por ali passavam e permaneciam o tempo necessário paradescansar, reabastecer ou trocar mercadorias, seguindo viagem para outras paragens doterritório paulista ou até mesmo para outras províncias como Goiás, Paraná e Rio Grande doSul.A origem do nome da cidade é indígena e se deve ao fato de seus caminhos seremsinuosos como o trajeto feito pelos animais do mesmo nome (Cutia). Sendo apenas um pontode passagem, Cotia ganhou alguns nomes como Acoty (assim chamada pelos indígenas daépoca), Cuty, depois Acutia e por fim Cotia.Apesar das várias denominações que lhe foram dadas pelos jesuítas e pelosprimeiros habitantes do local, como Capela do Monte Serrat de Cotia e o caminho de SãoTomé, os indígenas continuavam a chamá-la de Acoty. O primeiro registro em que alocalidade é referida como Acutia foi feito pelo marujo alemão Hans Staden, no século XVI,quando publicou um livro sobre o Brasil. [Página 30]Acutia foi se consolidando junto à Capela de Nossa Senhora de Monte Serrat, no ano de 1713, na região hoje conhecida como São Fernando. Em 1723, a capela foi elevada à categoria de freguesia. Nessa época a capela foi transferida para a atual Praça da Matriz onde hoje funciona a poucos metros, a Câmara Municipal de Cotia.Ao longo dos anos, Cotia foi se transformando até atingir um importante período de sua história quando a agricultura se desenvolveu de forma relevante ao surgir no município algumas organizações agrícolas, inclusive a Cooperativa agrícola de Cotia (figura 5). [Página 31]Por fim, se o viajante estivesse na Estrada do Pau Furado2 (figura 7), vindo da região da Represa da Graça no Morro Grande, onde se localiza o sítio do Padre Inácio e desejasse ir ao Sítio de Fernão Paes de Barros3 ou para as minas de ouro em Araçariguama, só precisaria seguir em frente.As Quatro Encruzilhadas é mais que um lugar de assombração, é o último vestígio do que eram os bairros rurais da época da colônia no entorno de São Paulo. A denominação aparece oficialmente pela primeira vez no mapa da Comissão Geográfica e Cartográfica de 1914, antes desta data a região aparecia como São João no mapa de Oliver Derby (figura 8).A procura de respostas do topônimo curioso pode ser penetrada por mapas de José Custódio de Sá e Faria de 1774, que corresponde ao traçado da Antiga Estrada de Itu. Outras fontes cartográficas revelam que a região das Quatro Encruzilhadas fica entre dois caminhos importantes de penetração da época colonial: o antigo Caminho de Itu e a antiga Estrada de Cotia.Sendo que o antigo caminho de Itu se constitui num dos principais e mais persistentes caminhos de penetração para o oeste em toda cartografia colonial (Marília, 2007; Calangos da Mata, 2007); (SILVA e ACHEL, 2010); (SILVA, 2013). O Sítio Santo Antônio em São Roque - Fernão Paes de Barros – (figura 9), Caminho por onde passaram índios, homens brancos, escravos da terra, escravos negros elibertos é o Caminho que conta a história dos bandeirantes antes das descobertas do ouro naúltima década do século XVII, nos sertões dos Cataguases.É certo que os bandeirantes nas suas andanças pelo interior do continente em bandeiras de apresamento de índios na direção oeste puderam contar com a criação do sistema de aldeamento que oferecia uma reserva de trabalhadores, disponíveis para a economia colonial.2. Lembrando que a Rodovia Raposo Tavares foi construída na década de 60 no século XX.3. Sítio Santo Antônio – patrimônio tombado pelo IPHAN. [Página 39]2.4. A IMPORTÂNCIA DOS ALDEAMENTOS NA REGIÃOOs aldeamentos jesuítas foram uma tentativa de garantir mão de obra barata e abundante para que os colonos contratassem os serviços dos índios ali aldeados (MONTEIRO, 1994), servindo como alternativa logística no sistema colonial após a Guerra dos Tamoios.“A revolta dos Tamoios entre as décadas de 1540 e 1560 tornou a escravização dos Tupinambás um negócio arriscado e caro. Diante disto, os portugueses voltaram sua atenção a outro inimigo dos aliados tupiniquim, os carijós, que em muito sentido forneciam o motivo principal para a presença tanto dos jesuítas quanto de colonos no Brasil meridional. Cabe ressaltar que existia, antes mesmo da fundação de São Paulo, um modesto tráfico de escravos no litoral sul, encontrando-se, no meio do século, muitos escravos carijós nos engenhos de Santos e São Vicente. De fato, a consolidação da ocupação europeia na região de São Paulo a partir de 1553 estabeleceu uma espécie de porta de entrada para o vasto sertão, o qual proporcionava uma atraente fonte de riquezas, sobretudo na forma de índios (MONTEIRO, 1994, p. 37)”Neste ambiente de insegurança que os portugueses no ano de 1554 fundam o Colégio de São Paulo de Piratininga em local que permitisse acesso ao interior oeste da capitania.“O colégio além de abrigar os padres que trabalhariam junto à população local, também serviria de base a partir da qual os jesuítas poderiam projetar a fé para os sertões. Porém, ao orientarem suas energias para os Carijós do interior, acabaram entrando em conflito direto com os colonos, que procuravam nestes mesmos Carijós a base de seu sistema de trabalho (MONTEIRO, 2005, p. 38)”.O conflito de interesses, no entanto, foi se configurando aos poucos e momentaneamente a paz gerada pelo término da revolta dos Tamoios criou uma perspectiva de desenvolvimento econômico com a força da mão de obra indígena que envolvia delicadas questões éticas em torno da liberdade dos índios. O fato é que a partir da fundação da vila de São Paulo foram fundados aldeamentos, sobretudo no planalto. [Página 43]Um dos primeiros aldeamentos (MONTEIRO, 1994) foram São Miguel e Pinheiros, no ano de 1580, “ocasião na qual o capitão-mor em São Vicente, concedeu seis léguas em quadra – aproximadamente 1.100km2”. As primeiras descobertas das minas paulistas datam de 1590 no Jaraguá e 1605 em Araçariguama por Afonso Sardinha, momento que deve ter coincidido com o aumento de derrubadas e intensificado a formação de capoeiras. [Página 44]No período de 1540 a 1611 a colônia portuguesa foi governada por D. Franciscode Souza. Ele governou a colônia por dois períodos e no segundo teve a promessa de ser oMarquês das Minas por conta das recentes descobertas. Foi neste período que se inicia o aumento da população, atraída pelas minas, pressiona a necessidade de aumento da produção de alimentos, onde o sistema de produção agrícola rudimentar, extensivo e coletivo, precisou evoluir ao mesmo tempo em que valorizava a terra, forçando os colonos a iniciarem uma apropriação privada da terra. [Página 45]Durante sua vida, o governador D. Francisco de Souza visitou S. Paulo. Sobre isto comenta o Dr. Francisco de Assis Carvalho Franco:"O pequeno cyclo das minas também alli vinha se desdobrando desde as achadas de Luiz Martins, accrescidas pelas do mameluco Affonso Sardinha, o moço, com o mineiro pratico Clemente Alvares, que, além do ouro encontrado em vários sítios ao entorno da Villa de São Paulo, haviam constatado ferro no Araçoiaba, i que lhes valera a construcçao alli de dois fornos catalães para o seu preparo.Assim, D. Francisco de Souza, resolvida a sua viagem, enviou para a Capitania de São Vicente, como administrador das minas e capitão da Villa de S. Paulo a Diogo Gonçalves Laço, o velho, que trouxe consigo dois mineiros e um fundidor. Para capitão-mor da donataria; nomeou a Diogo Arias de Aguirre, que, com trezentos índios e tendo o transporte custeado pelo almoxarifado de Santos, não demorou visitar as minas do Jaraguá e do Araçoiaba.D. Francisco de Souza, por sua vez, chegou a Villa de S. Paulo em Maio de 1599, seguido de considerável comitiva. Jornadeou logo para as minas do Araçoiaba, onde Affonso Sardinha, o moço, lhe fez doação dum dos fornos Catallães para o preparo do ferro, passando depois a visitar as minas de Bacaetava, S. Roque e Jaraguá.
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