Sob a epígrafe "Revisão crítica das opiniões divergentes emitidas sôbre a data da fundação da Cidade do Salvador em publicações dedicadas ao seu quarto centenário", segunda parte :do opúsculo em análise, estende-se o Sr. Edelweiss em contestar TeodoroSampaio, Pedro Calmon e minha modesta pessoa.No que tange ao magistral autor da "Iistória da Fundação daCidade do Salvador", comete o tupinólogo-historiador incrível êrrode perspectiva no tempo: tomando por base a data da publicaçãopóstuma daquela obra, atribui ao escritor falecido em 1937 o papelde divergir do parecer dêle, Edelweiss, emitido oito anos depois daquele desenlace, ou seja em 1945. Como poderia Teodoro Sampaiodiscordar duma coisa que ainda não existia enquanto êle viveu?Só mesmo do bestunto do Sr. Edelweiss.
Quando à refutação a mim endereçada, gira unicamente em torno da figura de Rodrigo de Arguelho, que o meu lácteo antagonista teima em definir como sendo Provedor da Capitania da Bahia e não da cidade do Salvador. Convido os que me bem leem a compulsar as páginas 39 e 40 do meu livro "Contestações", onde está textualmente consignado:
"O título de provedor da Bahia de Todos os Santos, coube, em 1549, a Antônio Cardoso de Barros, provedor-mor, segundo se lê às páginas 8-9 do Vol. XXXV dos Documentos Históricos", a saber:
"A quantos esta minha Carta virem faço saber, que confiando eu de Antonio Cardoso de Barros Cavaleiro-Fidalgo da minha casa, que nisto me servirá bem, e verdadeiramente com aquele recado, e fidelidade, que a meu Serviço cumpre; e querendo-lhe fazer mercê do Ofício de Provedor-mor de Minha Fazenda da Bahia de todolos Santos, e de todolas terras do Brasil por tempo de três anos com duzentos mil réis de ordenado em cada um ano, o qual cargo servirá assim, e da maneira, que se contém em meu Regimento, que para isso lhe será dado: Notifico-o assim e mando a Thomé de Souza Capitão da dita Bahia, e Governador das ditas Terras do Brasil, que meta em posse do dito Ofício ao dito Antonio Cardoso e lho deixe servir pela dita maneira..."
A autoridade de Rodrigo de Arguelho circunscrevia-se apenas à Fortaleza de Salvador e seu termo, conforme está meridianamente consignado à página 27 do mesmo volume citado:
"A quantos esta minha Carta virem Faço saber, que confiando eu de Rodrigo de Arguello Porteiro da Câmara da Rainha minha sobre todos muito amada, e presada mulher, que a meu serviço cumpre. Hei por bem e me paz de lhe fazer mercê do Ofício de Provedor de Minha Fazenda da Fortaleza do Salvador da Capitania da Bahia de todolos Santos nas terras do Brasil por tempo de cinco anos e com trinta mil réis de ordenado em cada um ano".
Não seria possível haver, ao mesmo tempo, dois provedores da Bahia de Todos os Santos. Cai, deste modo, por terra a principal objeção oposta pelo Sr. Edelweiss ao meu arrazoado.
Minha demonstração é muito mais complexa do que apregoa depreciativamente o Sr. Edelweiss. Remeto o leitor, outrossim às páginas 40-41 do volume retro-citado, onde destruí lealmente o insubsistente parecer contrário à minha comunicação apresentada ao IV Congresso de História Nacional. Lê-se aí:
"Funda-se meu raciocínio na ilação lógica depreendida da leitura das cartas de nomeação dos diferentes elementos integrantes do corpo expedicionário de Tomé de Sousa. Ao fim de cada uma delas, vem anotada a data do início do pagamento dos ordenados ao respectivo servidor. Observa-se, assim, que três datas assinalam, precisamente, o princípio de funções públicas em três setores: 1o. de fevereiro, 1o. de abril e 1o. de maio de 1549. A 1o. de fevereiro, começa a ganhar o escrivão da armada, Nuno Alves; esse dia marca, por sua vez, a partida do Tejo da frota de Tomé de Sousa. De 1o. de abril em diante passam a receber vencimentos todos os servidores graduados do Governo Geral (Antonio Cardoso de Barros, provedor-mor da Fazenda, Pero de Góis, capitão-mor do Mar da Costa do Brasil, Gonçalo Ferreira, tesoureiro das Rendas de todas as terras do Brasil, João de Araújo, escrivão do Tesouro de todas as Rendas das terras do Brasil, Gaspar Lamego, contador da Bahia de Todos os Santos e das terras do Brasil, Brás Fernandes, escrivão do Ouvidor Geral, Luís Dias, mestre de obras, etc.), inaugurando-se, de fato, em tal ocasião, o período administrativo sob a direção suprema daquele capitão-general. Somente a 1o. de maio, contudo, é que entram a servir e receber estipêndios os funcionários expressamente designados para exercer ofícios no recinto da Fortaleza do Salvador e seu termo: o provedor Rodrigo de Arguello e o físico Jorge de Valadares. Que dedução se deve tirar disso, sabendo-se, além do mais, que Tomé de Sousa, havendo concluído, ao cabo do mês de abril, a paliçada protetora do futuro perímetro urbano, para dentro dela se trasladou em tal momento? A única compatível com o bom-sendo: que a vida oficial da Cidade do Salvador se encetou a 1o. de maio de 1549. Daí a minha proposta para se considerar esse o verdadeiro dia natalício da primitiva capital brasileira.
Ao pingar o ponto final nestas linhas, delego aos futuros historiadores da Bahia a tarefa de apreciar, com imparcialidade e isenção de ânimo, o mérito da minha contribuição. E certo estou de que hão de concordar com o juízo já emitido a meu favor por muitos estudiosos e instituições, entre outros o Serviço de Documentação da Marinha, cujo ofício-depoimento, reproduzido em fac-simile como documento n.o 5, constitui a minha chave de ouro.