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1923, há 103 anos...
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*História da colonização portuguesa no Brasil
1923, segunda-feira ver ano


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HISTÓRIA DA COLONIZAÇÃO PORTUGUESA DO BRASILmanuscritos, ao ciclo de viagens iniciais, tornou possível o ascendente de Vespúcio nesta página obscura dos descobrimentos do litoral da América do Sul.De Aires do Casal não eram ignorados nenhuns dos textos impressos em que há referências às primeiras expedições, desde Gabriel Soares de Sousa (Tratado descriptivo do Brasil) até Frei Gaspar da Madre de Deus (Memorias para a Historia da Capitania de S. Vicente).

O primeiro historiador do Brasil, Pero de Magalhães Gandavo, nada nos diz de útil àcêrca dêstes primeiros navegadores dos litorais brasileiros. Perdidos até hoje os manuscritos da Provincia de Santa Cruz, de João de Barros; da America Portuguesa, de Manuel de Faria; do Roteiro da Costa do Brasil, de Diogo de Castro; sumidos os relatórios dos capitães das armadas; desconhecido o destino que levaram as pesadas arcas atochadas de documentos, que correu terem sido transportadas da Tôrre do Tombo para Castela no reinado de Filipe II,—Vespúcio reina, solitário e glorioso, nos domínios dêste período histórico.

Gabriel Soares de Sousa, em 1587, parece desconhecer a expedição de 1501, ou confunde-a com a de 1503. É êle o mais antigo dos depoentes neste processo, depois de Damião de Góis. Aires do Casal prestou-lhe, por isso mesmo, especial atenção. Ora, o autor do Tratado descriptivo, citando a expedição de Gonçalo Coelho, diz que ela foi composta de três navios (148): precisamente o número de velas da flotilha de 1501. Dêste facto deduz Aires do Casal que Gonçalo foi, realmente, o seu comandante (149). Esta sanção abrange a versão de Gabriel Soares sôbre a segunda expedição, que o Tratado informa haver sido capitaneada por Cristóvão Jacques, o qual só anos depois navegou nos mares americanos.

Pedro de Mariz, nos Dialogos de Varia Historia, consigna apenas a armada de seis navios, sob o comando de Gonçalo Coelho, no que está de acôrdo com Damião de Góis.Jaboatão, no Novo Orbe Serafico, e o padre Simão de Vasconcelos, na Chronica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil (150), entregaram discricionàriamente a Vespúcio a vara do comando da expedição de 1501 e reconheceram em Gonçalo Coelho o capitão da armada trágica de 1503—mas invertem os itinerários, atribuíndo à segunda frota exploração mais extensa que à de 1501: versão que melhor se ajusta à prova cartográfica do planisfério de Cantino.

Foi d´Avezac o primeiro historiador que lançou a candidatura de D. Nuno Manuel ao comando da expedição de 1501 (151).

Porque D. Nuno Manuel? O filho de D. João, Bispo da Guarda, e de Justa Rodrigues, irmão de leite do rei D. Manuel e irmão consanguíneo de D. João Manuel, camareiro-mór do soberano, exercia na côrte os altos cargos de guarda-mór e almotacé-mór. Uma personagem desta proeminência não comandaria uma expedição sem que a memória dela ficasse celebrada, nem se atreveria a petulância de Vespúcio a referir-se ao valido do monarca, se fôra êle o seu comandante, em têrmos que pudessem parecer de menos respeito. Com D. Nuno Manuel no comando, a scena canibalesca de 24 de Agosto teria sido provàvelmente vingada.

Só o imperfeito conhecimento dos homens e da época explica a indicação do irmão colaço do soberano para comandante de expedição em que tam pouco podia luzir um cavaleiro daquela jerarquia, quando não faltavam outros palcos, na África e na Ásia, onde a nobreza melhor pudesse ornar os nobiliários com novas proezas.D. Nuno Manuel cooperou na epopeia marítima armando navios por sua conta, como D. Álvaro de Bragança, Fernão de Loronha, o conde de Pôrto Alegre (D. Diogo da Silva de Menezes) e Fernão Lourenço, feitor da Casa da Mina, "hum dos magnificos homens daquelle tempo" no dizer de Damião de Góis, e cuja opulência se infere de ter sido êle o edificador dos paços de Santos o velho,

(148) "A estas partes foi depois mandado por S. A. Gonçalo Coelho com tres caravellas de armada, para que descobrisse esta costa, com as quaes andou por ella muitos meses buscando-lhe os portos e rios, em muitos dos quaes entrou, e assentou marcos dos quaes para este descobrimento levara; no que passou grandes trabalhos pela pouca experiencia e informação que se até então tinha de como a costa corria, e do curso dos ventos com que se navegava..." Cap. I do Roteiro Geral, a pág. 4 da 2.ª edição de 1879 do Tratado Descriptivo do Brasil (1587).

(149) "Sendo Gonçalo Coelho o Almirante da primeira esquadra espedida a continuar o Descobrimento de Pedralvez; e indubitavel que a primeira Armada, que sahiu de Lisboa com este intuito, foi a de tres caravellas em quinhentos e um, segue-se ter elle sido o seu Commandante, e não o das seis, que sahiram em quinhentos e tres". Corografia Brasilica. Introdução, a pág. 44, nota.

(150) Novo Orbe Serafico Brasilico, ou Chronica dos Frades Menores da Provincia do Brasil, por frei António de Santa Maria Jaboatão, Estância II, pág. 6 da 2.ª edição de 1858. Rio de Janeiro.Chronica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil, pelo padre Simão de Vasconcelos. Introdução do Livro Primeiro, pág. 14 e seg. da 2.ª edição de 1867. Rio de Janeiro.(151) Considerations sur l´histoire géographique du Brésil, a págs. 17, 81, 174 e seg.214




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