“Quando um manuscrito torna-se fonte histórica: As marcas de verdade no relato de Gabriel Soares de Sousa (1587)”. Ensaio sobre uma operação historiográfica, Temístocles Cezar
2022 Atualizado em 13/02/2025 06:42:31
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Peri existiu. O personagem principal de O Guarani é, segundo seu autor, um índio que representa verdadeiramente sua raça. Um texto do século XVI, que freqüentemente é identificado ao gênero dos relatos de viagem, auxilia José de Alencar na descrição do nativo:
«preferi guiar-me por Gabriel Soares que escreveu em 1580, e que nesse tempo devia conhecer a raça indígena em todo o seu vigor, e não degenerada como se tornou depois»2.
O referente da ficção é construído a partir de um elemento exterior ao relato: um texto cuja credibilidade repousa na certeza de que aquilo que foi visto pelo narrador é confiável. O romance de Alencar baseia-se em um tipo de documento que passou a ser definido, em um dado momento, como uma fonte histórica; neste caso, em um relato que reenvia o leitor a um tempo onde era possível ver a raça indígena tal como ela deveria ter sido na sua plenitude. Através dos olhos de Gabriel S. de Sousa, José de Alencar vê o índio em seu estado puro e não o índio corrompido pelo tempo, espécie de simulacro que impede uma ficção real3. A visão do outro no século XVI é, portanto, percebida como uma imagem verdadeira no século XIX.
Francisco Adolfo de Varnhagen, da mesma forma que José de Alencar, utiliza-se do relato de Gabriel S. de Sousa como uma possibilidade de acesso à realidade do Brasil do século XVI. Em 1851, em carta remetida ao Instituto Histórico Geográfico Brasileiro, Varnhagen apresenta o livro de Gabriel Soares como a obra “talvez a mais admirável de quantas em português produziu o século quinhentista, prestou valiosos auxílios aos escritos do padre Cazal e dos contemporâneos Southey, Martius e Denis, que dela fazem menção com elogios não equívocos”.
O padre Cazal, o poeta e historiador Robert Southey, o viajante naturalista Karl vonMartius e o viajante e literato francês Ferdinand Denis, alargam de uma maneira significativa as redes de recepção de um texto que, curiosamente, circulou quase dois séculos não somente sob um pseudônimo, mas com títulos e datas de publicações divergentes. Acrescente-se às circunstâncias de criação, produção e circulação do relato, o fato de o original ter sido perdido. [Quando um manuscrito torna-se fonte histórica: As marcas de verdade no relato de Gabriel Soares de Sousa (1587). Ensaio sobre uma operação historiográfica, Temístocles Cezar. Página 1]
Foi o próprio Varnhagen quem, após ter consultado e confrontado várias edições, restaurou o relato e atribuiu sua redação definitiva a Gabriel S. de Sousa. Para Varnhagen este texto seria "tão correcto quanto se poderia esperar sem o original, enquanto o trabalho de outros e a discussão não o aperfeiçoarem ainda mais, como terá de suceder".Após sua recomposição Varnhagen institui o texto como fonte legítima para o saberhistórico. Os procedimentos de reconstituição que tornaram válida esta fonte inscrevem-se em um conjunto de regras aceitas por esta protocomunidade acadêmica, os quais se revelam bem menos ortodoxos do que se poderia esperar das ciências positivas do século XIX. Varnhagen, por exemplo, esclarece os limites da fonte: na ausência do original é o texto possível, aberto ao debate.
O trabalho do historiador que valida a representação textual de uma experiência vividapor um indivíduo europeu nas terras do Novo Mundo, tem por pressuposto a possibilidade de a fonte exprimir enunciados verdadeiros. Recurso fundamental à conversão de um texto em fonte fidedigna do passado, as "marcas de verdade" dos relatos quinhentistas são efeitos, em proporção não negligenciável, do olhar, ou sobretudo da autópsia, ou seja "o olho como marca de enunciação, de um eu vi como intervenção do narrador no seu relato, para provar".
Princípio teórico-metodológico que rege a produção do relato e que estabelece seus limites, aautópsia é também, em grande medida, a condição que justifica o texto nos séculos que seseguem: é somente porque o autor realmente viu o que se passou que seu texto torna-se umafonte histórica (ou literária).O objetivo deste artigo é o de analisar como foram produzidas algumas destas marcasde verdade na obra de Gabriel Soares de Sousa. Para tanto, será necessário remontar certospassos da operação historiográfica7, que a transformou em documento histórico no decorrer doséculo XIX.***Gabriel S. de Sousa é, hoje, o nome mais citado pela historiografia brasileira entre osautores que se enquadram, de uma forma ou de outra, na chamada literatura de viagens doséculo XVI. Seu relato foi apresentado em 1587, havendo dele várias cópias manuscritas, nasua maior parte anônimas8. Esta ausência de identificação autoral permite, no entanto, que seacompanhe um pouco mais de perto a evolução do manuscrito do século XVI até a obraidentificada como de Gabriel S. de Sousa no século XIX. Os exemplos de Robert Southey,Manoel Ayres de Cazal, Karl von Martius, Ferdinand Denis e de F. A. de Varnhagen sãosignificativos para se seguir o rastro do relato.Robert Southey, na sua obra History of Brazil, publicada na Inglaterra entre 1810 e1819, utiliza um exemplar anônimo do manuscrito, ao qual faz referência constante ao longo dosegundo capítulo do primeiro volume, onde descreve os índios do século XVI. É em uma notaexplicativa que o historiador inglês define a importância do relato que ele está seguindo:
When Jan de Laet wrote, the Tupiniquins were ad summum paucitatemredacti. He says, the had been of all the Savages the most irreligious, the mostobstinate, and the most vindictive. This is indirect contradiction to the character giventhem by the Author of the Noticias, who is better, as well as elder authority, becausehe wrote from what he had seen and learnt in the country.
Quando Jan de Laet escreveu, os tupiniquins eram ad summum paucitatemredigir. Ele diz que tinha sido de todos os selvagens o mais irreligioso, o maisobstinado e o mais vingativo. Esta é uma contradição indireta ao caráter dadoeles pelo Autor das Noticias, que é melhor, bem como autoridade mais velha, porqueescreveu a partir do que viu e aprendeu no país.[Página 2]
Para Southey, o princípio que rege, diferencia e valida um relato cujo autor édesconhecido é, paradoxalmente, a autópsia. O fato de considerar o texto como sendo umescrito anônimo esta amplamente compensado pelo nível das informações e pela objetividadedo sujeito que narra. O anonimato não impede o autor de ter realmente existido.O padre Cazal, ao contrário, tem dúvidas sobre o autor do manuscrito. Em umcomentário crítico sobre o relato, que mais tarde foi atribuido a G. Soares de Sousa, Cazal,também em uma nota de pé de página, afirma que:Francisco da Cunha, ou qualquer que he o Author do MS. intitulado :Descripção Geografica d’America Portugueza, escrita em quinhentos oitenta e sete,diz que Gonçalo Coelho fôra o primeiro explorador da Costa Brazilica (depois deCabral, e Lemos); mas não nos declara em que anno10.E na nota seguinte conclui:A razão, porque cuido ser o mencionado MS. de Francisco da Cunha, he pordizer o Author da Justificação referida, que aquelle fizera um Roteiro da CostaBrazilica por ordem de Dom Christovam de Moura : e uma das duas copias, que vi, eque não passa da primeira parte, (e não me lembro se toda) traz uma Dedicatoriaàquele Fidalgo, datada em Corte de Madrid, no principio de Março de quinhentosoitenta e sete. Esta Dedicatoria falta na copia do que existe na Real Biblioteca, e quehe muito maior11.Os comentários de Cazal não somente atribuem a qualidade de autor do manuscrito aFrancisco da Cunha, a partir, é verdade, de uma conjunção de fatores um pouco exagerados,mas também demonstram que ele exerceu uma certa influência sobre outros autores, mesmose para o padre o exemplo tenha sido negativo. O texto, hoje de Gabriel S. de Sousa, ficouquase três séculos entre o anonimato ou a ignorância de seu verdadeiro autor, entretanto, eleproduziu efeitos: tinha, portanto, conteúdo.Nesta mesma perspectiva, o testemunho de Martius é significativo. O viajantenaturalista cita o manuscrito na introdução de sua obra Herbarium Florae Brasiliensis, impressoem Munique em 1837, e o coloca entre aqueles que se ocuparam da flora brasileira. Na suaopinião, o autor poderia ser Francisco da Cunha. Em um outro trabalho, Martius refere-se aorelato dizendo que: «Num dos mais antigos documentos portugueses do século XVI, nãoexistem enumerados mais do que três povos, entre os quais, os tupis são divididos em novetribos». E ainda em uma nota explicativa sobre a própria natureza da fonte deste dado eleacrescenta: «Noticia do Brasil, descrição verdadeira da costa daquele Estado, que pertence àCoroa do reino de Portugal, feita por seu autor desconhecido, mas que depois foi verificado serGaspar Soares de Lisboa»12. Enfim, as divergências acerca da identificação do autor sãoinsuficientes para desqualificar as informações que o manuscrito contém. Martius teve aoportunidade, no entanto, de fazer uma última e definitiva correção:Neste agrupamento de nomes das plantas, em língua tupi, era necessárioreportar-se às primitivas fontes históricas. Entre as acessíveis para mim, está emprimeiro lugar a Notícia do Brasil, escrita nos últimos decênios do século XVI, porGabriel S. de Sousa, conforme demonstrou Adolfo Varnhagen. Bem que os escritosde Léry e Thevet sejam mais antigos do que aquele documento, não se podemcomparar, na abundância e clareza das informações, com a Notícias do Brasil .13Neste livro, que data da primeira metade do século XIX, não somente não há maisdúvida sobre o autor do manuscrito, como ele já apresenta um estatuto no campohistoriográfico: ele é uma fonte histórica importante. E quem fala possui a autoridade de umcientista, de um viajante naturalista que, entre outras coisas, havia redigido a monografia [Página 3]
foi publicada a segunda edição na língua inglesa. Pouco depois, em 1848, o relato foi publicado em língua alemã em Dresden e Leipzig, atual Alemanha.A edição em português ocorreu em 1942, na Coleção Brasiliana, intitulada Viagens no Brasil: principalmente nas províncias do norte e nos distritos de ouro e do diamante durante anos 1836-1841, da Companhia Editora Nacional.No ano de 1856 foi publicado o relato Life in Brazil; or, a journal of a visit to the land of the cocoa and the palm de Thomas Ewbank ela Harper & Brothers, Nova York, sendo lançada também na Inglaterra. Nos Estados Unidos houve uma edição em 2005.No Brasil, o relato em português foi publicado com o título A vida no Brasil: ou Diário de uma visita ao país do cacau e das palmeiras, em 1973, pela editora carioca Conquista, em dois volumes.O relato de Henry Walter Bates foi publicado em 1863, em dois volumes, com o título The naturalist on the River Amazons, a record of adventures, habits of animals, sketches of Brazilian and Indian life, and aspects of nature under the Equator, during eleven years of travel by Henry Walter Bates, em Londres pela John Murray. A segunda edição ocorreu um ano depois, com supressão de algumas partes pelo autor, seguida por mais de dez edições na língua inglesa em Londres e nos Estados Unidos. No Brasil O naturalista no Rio Amazonas foi editadoem 1944 pela Editora Nacional.
Em 1869, Richard Burton publicou a primeira edição de Explorations of the Highlands of the Brazil; with a full account of the gold and diamond mines. Also, canoeing down 1500 miles of the great River São Francisco, from Sabará to the Sea by Captain Richard F. Burton, F.R.G.S., etc., em Londres por Tinsley Brothers, em dois volumes. A obra recebeu destaque em finais do ano passado e foi publicada em Nova York no centenário da primeira edição, e nos últimos dezesseis anos teve três edições nos Estados Unidos.
No Brasil, a primeira edição de Viagens aos planaltos do Brasil: 1868, em três volumes,ocorreu no ano de 1941 pela Companhia Editora Nacional, que publicou a segunda edição em 1983. Houve uma edição em 2001 pelo Senado Federal intitulada Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho, volume único.
Em São Paulo, a Tip. Allemã de H. Schroeder publicou Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gaston e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba de John James Aubertin no ano de 1866.
Nesse mesmo ano foi traduzido para o inglês pelo autor e publicado em Londres pela Bates, Hendy & Co. com o título Eleven day’s journey in the Province of Sao Paulo, with the [p. 10]
Outro ponto, o parâmetro comparativo do algodão brasileiro e do norte-americano. A produção dos Estados Unidos figura como indicadora de qualidade e produtividade, em vista do país ter sido o maior fornecedor do mundo, e é trazida pelos viajantes quando desejam estimular a produção no Brasil, em especial, utilizando dados fornecidos por conhecedores do ramo.Nesse sentido, Richard Burton traz as considerações de um renomado pesquisador da cultura algodoeira, Major R. Trevor Clarke96 para quem “Aqui [no Brasil] o algodão tem mais penugem que o habitual; 600 quilos darão 250 de fibra limpa, ao passo que no Alabama são necessários 750 quilos. Em geral, o replantio do arbusto é feito em seu quarto ano”.97 E J. J. Aubertin traz a experiência dos americanos sulistas Dr. Gaston, Dr. Shaw e Major Mereweather, a quem ele acompanhou durante a passagem deles pela Província de São Paulo:Eramos cinco pessoas. Tres Americano sulistas, dr. Gaston, dr. Shaw e o major Mereweather, que ião fazer sua viagem prolongada, na exploração de districtos um pouco remotos, sob a direcção do sr. Engenheiro Bennaton, para esse fim nomeado; e, sendo informado dos seus preparativos, logo me aggreguei a elles, não menos por sympatia para com a antecipada immigração americana, como tambem pelo desejo de visitar em sua companhia algumas plantações de algodão, e tirar algumas instrucções de sua experiencia pratica, a respeito de uma cultura que, sendo hoje estabelecida na província, não póde deixar de influil-os cabalmente na resolução que definitivamente tenhão que tomar.98Durante a permanência na província paulista, o grupo visitou a região de Itu, Salto, Porto Feliz e Sorocaba, daí J. J. Aubertin seguiu para a capital paulista e eles continuaram viagem com destino à Itapetininga. As observações de diferentes aspectos da lavoura algodoeira e o processamento do algodão fizeram os norte-americanos considerarem o clima paulista adequado à produção e benéfico o fato de não haver mudanças bruscas na temperatura, como a ocorrência de geadas, possibilitando maior tempo de conservação do algodoeiro.99Esses dados são agregados por J. J. Aubertin àqueles fornecidos por produtores paulistas de que “emquanto o alqueire norte-americano, dando bem, produz de cem até cento e dez ou talvez 96 Richard Trevor Clarke (1813-1897) – “Army officer and horticulturalist. Major in the Northampton and Rutland Infantry Militia, 1862. Bred nearly thirty new varieties of begonias and many new strains of cotton. Awarded a gold medal by the Cotton Supply Association of Manchester. Member of the Royal Horticultural Society; served on the council and scientific committee for many year; awarded the society’s Veitchian medal, 1894”. BURKHARDT, Frederick et al (Ed.). Charles Darwin. The Correspondence of Charles Darwin (1866). Cambridge: Cambridge University, 2004, p. 502, vol. 14.97 BURTON, Richard Francis. Viagem de canoa de Sabará ao Oceano Atlântico..., op. cit., p. 29. [nota 3]98 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gastón e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba. São Paulo: Typ. Allem[p. 159]
Os esforços de J. J. Aubertin devem ser compreendidos dentro desse contexto, em que ele se coloca como defensor da produção algodoeira paulista e atua em diferentes direções. No Brasil, escreveu para diversos periódicos nacionais e correspondeu-se com diferentes figuras da política brasileira para lhes solicitar o envolvimento com a lavoura algodoeira capaz de colocar São Paulo em posição favorável no mercado inglês, tal como fez o inglês em carta ao Comendador Fideles Prates:
Usai, vos peço, nesta vespera de uma nova semeadura, a vossa bem conhecida influencia entre os vossos amigos, e dizei aos cultivadores do algodão que redobrem os seus esforços na nova plantação, porque pela colheita futura é que se diciderá definitivamente a importante questão se a provincia de S. Paulo pode ou não pode occupar uma posição positiva nos mercados de Manchester.104
Aos agricultores interessados, ele também procurou difundir noções sobre a técnica de cultivar o algodão herbáceo e publicou folhetos sobre a cultura do algodão.105 Essa política de difundir informações sobre o cultivo foi uma atividade constante da associação inglesa, mesmo após o fim da guerra norte-americana.
No plano internacional, empenhou-se em apresentar os algodões paulistas de boa qualidade na Exposição Internacional de Londres, de 1862, com o objetivo de mostrar os atributos do produto. Também foi intermediador entre Manchester Cotton Supply Association e órgãos brasileiros; em duas ocasiões, nos anos de 1862 e 1865, J. J. Aubertin solicitou à associação britânica que enviasse algodão herbáceo ao Ministério da Agricultura e à Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional.106 Em diferentes momentos enviou para a Inglaterra amostras do algodão paulista, em geral, com boas avaliações dos correspondentes.J. J. Aubertin arquitetou ações no Brasil ligadas aos interesses ingleses baseadas em informações colhidas por ele na província ou com base na experiência de nacionais e, principalmente, de norte-americanos, com o propósito de deixar claro as potencialidades de São Paulo e convencer os potenciais produtores paulistas. Para aqueles que mesmo assim estivessem em dúvida, ele escreve:
Deveras, já é tarde demais para duvidar do algodão de São Paulo; mas se ainda ha descrentes, apenas apello para os dous srs. Cultivadores que acompanhei, major Mereweather e dr. Shaw. Ambos elles me repetirão muitas vezes, que melhor algodão que aquelle que nos vimos não desejavão ver; que nas suas proprias plantações e com todos os seus meios perfeitos não costumavãoproduzir melhor. 107
Seus esforços renderam-lhe o reconhecimento da associação inglesa, que o condecorou com uma medalha de ouro, e o governo brasileiro honrou-o com o hábito da Imperial Ordem da Rosa. Nos veículos de informação brasileiros, nos quais tanto escreveu, vemos o reconhecimento de seus pares, como E. Hutchings, outro entusiasta da lavoura algodoeira em terras paulistas e intermediário entre a associação e o Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas:
Hoje, considerado, como um genero de exportação, o algodão, e sua cultura, é um dos factos estabelecidos na historia da provincia, e eu me aproveito desta occasião para patentear a gratidão que todos temos.Quem sabe, o que ha de mostrar-se nos anos que vem? Quasi todas as condições de prosperidade estão unidas nesta provincia; - Um clima sem rival, uma terra cheia de riquesa, e uma natureza, cuja uberdade é espantosa. Tudo isto aqui, e no outro lado do Oceano, a Inglaterra, offerece tudo quanto seja possivel afim de attrahir para lá, os productos da provincia, e com as devidas providencias, e constancia em trabalhar, tudo será possivel, e, sem esta, nada.Campinas, Mogy-mirim, Limeira e outros lugares vão caminhando na cultura do café, e o publico, bem como os particulares, são beneficiados. Parece que, para Sorocaba, resta ainda este outro manancial de prosperidade; - a cultura do algodão, e não ha homem ou natural, ou estrangeiro na provincia, que não abençoará a empresa.[...] Caminho da Luz, S. Paulo Agosto de 1865[...] E. Hutchings108
Evidentemente, tais esforços foram no sentido de produzir algodão adequado às necessidades da indústria inglesa. Foi estimulado o plantio da semente de Nova Orleans, em solicitação de uma circular da Manchester Cotton Supply Association109 e houve uma modificação na postura do produtor brasileiro: “O tipo de algodão tradicional no Brasil era o arbóreo mas o mercado consumidor passou a condicionar a produção ao tipo herbáceo dos 107 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo..., op. cit., p. 16.108 HUTCHINGS, E. “Aos Redactores do Diario de São Paulo”. Diario de S. Paulo, São Paulo, 11 agosto 1865, ano I, nº 10, p. 2. Em outras atividades, além do algodão: E. Hutchings foi um dos secretários da Comissão Julgadora de um concurso para criadores de animais pensado por J. J. Aubertin, tesoureiro do evento. O Comendador Fideles Nepomuceno Prates aparece como um dos Juízes. “Concurso industrial”. Correio Paulistano, Estados Unidos. As variedades mais procuradas eram a U[p. 161, 162]