Trabalhar é preciso, viver não é preciso. Povos e lugares no mundo ibero-americano séculos XVI-XX, 2021. Isnara Pereira Ivo, Maria Lemke e Cristina de Cássia Pereira Moraes
2021 Atualizado em 24/10/2025 02:17:57
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Tibiriçá.8 Bartira recebeu o nome de batismo cristão de Isabel, e sua irmã, o de Maria Grã, mas não abandonaram nomes indígenas. Invariável e geracionalmente, os ascendentes de Francisco Ramalho Tamarutaca mesclavam nomes cristãos e indígenas e/ou eram reconhecidos por apelidos indígenas. Além desse aprendizado e esse costume na vila índia mestiça de São Paulo (ZEQUINI, 2004), que outras orientações valorativas moldaram as ações de Tamarutaca a partir do legado de seus ancestrais? João Ramalho teve oito filhos de Bartira, a saber: André, Joana, Margarida, Vitorio ou Vitorino, Marcos, Jordão ou João, estes com sobrenome Ramalho, e, ainda, Antônio de Macedo e Antônia Quaresma (LEME, 1905, Vol. 9, p. 67.). Segundo Washington Luís (2004, p. 167), João Ramalho deixou “numerosa descendência mestiça, aparentada por casamentos com as principais pessoas da Capitania”. Não dispomos de informações sobre todos os herdeiros do casal. Sabemos apenas que Vitorino, ou Vitório, era frequentador dos sertões, preador de índios. Em 1575 combateu tamoios em Cabo Frio e 20 anos depois, em 1595, foi assassinado por índios tupiniquins (FRANCO, 1989, p. 331). A par de parcas informações, os homens desta família eram, como o pai de Tamarutaca, Antônio de Macedo, preadores de índios. Ele e Tamarutaca viveram experiências diferentes das de Tibiriçá e de João Ramalho. Antônio de Macedo adentrou na bandeira de Domingos Luiz Grou, entre 1590 a 1593, “na conquista dos índios de Mogi […] com cinquenta homens brancos, muitos mamelucos e índios tupinaens” (FRANCO, 1989, p. 230). Como o tio falecido de Tamarutaca, o seu pai era parte de uma rede de parentesco de apresamento de indígenas. Uma ata da câmara, de 1593, ajuda a compor trajetórias de descendentes de Tibiriçá e de João Ramalho em seus apresamentos. Os camaristas das vilas de Santos e Itanhaém enviaram cartas à vila de São Paulo nas quais alegaram que “o povo de cada uma das vilas” não devia fazer guerra contra os índios que não lhes oprimia. Assim, os oficiais camaristas de São Paulo chamaram em sua presença a “Belchior Carneiro [tio de Tamarutaca], aqui morador, e assim Gregório Ramalho [bisneto de Tibiriçá, neto de João Ramalho e de Bartira, primo de Tamarutaca] mancebo solteiro, filho de Vitorio Ramalho [que era filho de João Ramalho, logo, tio de Tamarutaca]”, acompanhados de “Manoel, índio cristão de São Miguel, irmão de Fernão de Sousa”. Todos eles juraram perante os Santos Evangelhos para declarar “o que passava acerca do gentio na viagem que traziam desta entrada de Antônio de Macedo [pai de Tamarutaca] e de Domingos Luiz Grou, em cuja companhia eles todos vinham para esta capitania”. ¹ Aqui, cabe ressaltar que a entrada era,segundo os camaristas da vila de São Paulo, não apenas de Domingos Luís Grou, o moço, como comumente se supõe (FRANCO, 1954, p. 230), mas também do próprio pai de Tamarutaca. Isto significa que a capacidade de arregimentar gente para empreitadas bélicas foi reatualizada pelo pai de Tamarutaca, seguindo os passos do avô paterno e do bisavô materno. Mas a empreitada não foi tão bem sucedida, ao menos em algum momento. Os parentes de Tamarutaca afirmaram ser “verdade” que os gentios “de Mogi, pelo rio abaixo de Anhambi, junto de outro rio de Jaguari, esperaram a toda a gente que vinha branca e índios cristãos, nossos amigos, e Topinães, da companhia de Antônio de Macedo e de Domingos Luís Grou, e mais irmãos, e que, por há pouco, no dito rio, foram dando neles, matando e desbaratando a uns e a outros como tem feito”. ¹¹ Novamente, o empreendimento parental da entrada foi salientado e igualmente deve-se atentar para a expressão “gente … branca” e “índios cristãos”, que denotam, respectivamente, súditos mestiços moradores de São Paulo ou um ou outro português reinol e índios aliados (GODOY; GUEDES, 2017; 2020). Neste ataque dos contrários, faleceram alguns homens, “afora Tamarutaca, que não aparece, e outras pessoas”. Os índios contrários ainda levaram “cativa muita gente Topiaens da que eles traziam em sua companhia e de seu serviço”. Assim, as testemunhas juramentadas argumentaram que os inimigos “apregoaram guerra contra nós dizendo que haviam de fazer caminhos novos para virem a dar em nós e fazerem quanto dano pudessem”. Por isso, contrariando a perspectiva dos camaristas santistas e de Itanhaém, havia “razão” e “brevidade” para “daremlhes guerra e antes que eles se movessem”. Os depoentes parentes de Tamarutaca assim “entendiam por serem homens que andam entre o gentio e o conhecerem, e suas vontades e más intenções”. Tudo foi assinado por Belchior Carneiro, Gregório Ramalho e Gonçalo Camacho.¹² O fato de a entrada também ser reconhecida como de Antônio de Macedo significa que vigorava ainda um sistema de aliança em que parentes descendentes de um indígena comum, precisamente a ancestralidade que remontava a Tibiriçá, pelejavam juntos, e ainda juntos se atavam politicamente a outros índios cristãos, no caso, os Tupioaem. Isto significa que as políticas via alianças, matrimoniais e/ou de uniões sexuais, se perpetuaram com outros índios também nas gerações de Antônio de Macedo e de Tamarutaca. Da mesma forma que João Ramalho arregimentava gente guerreira com base no parentesco, o preamento funcionou alicerçado no parentesco. Na bandeira de 1590- 1593 estavam atados na investida Antônio Macedo, filho de João Ramalho com Bartira e pai deTamarutaca, o próprio Tamarutaca, Gregório Macedo, que era sobrinho de Antônio Macedo e primo de Tamarutaca porque era filho de Vitório Ramalho (neto de Tibiriçá, também filho de João Ramalho com Bartira). Além desse tronco que provinha de João Ramalho e Bartira, chegando a Tibiriçá, outros descendentes do principal dos principais estavam presentes, a exemplo de Belchior Carneiro, filho de Beatriz Dias, irmã de Bartira esposa de João Ramalho. Logo, Belchior Carneiro era primo de Antônio Macedo e tio materno de Tamarutaca. A extensão do parentesco não parava aí porque o outro dono da bandeira, Domingos Luís Grou, era sogro de Belchior Carneiro, e o integrante Gonçalo Camacho, que também assinara o juramento, era casado com uma neta de João Ramalho.¹³ Mas todos foram surpreendidos pelos índios contrários Mogi. Dos mortos e feridos, entre os moradores da vila, apenas Tamarutaca foi referido pelo nome indígena, mas a prestação de serviços bélicos e o preamento de índios foram obras de parentes mestiços e seus índios amigos aliados. Ainda sabemos um pouco mais sobre Tamarutaca e seu pai. Sendo o filho senhor de uma aldeia, dera continuidade à liderança de indígenas, assim como procederam seu pai, seu avô degredado e seu bisavô Tibiriçá. Observamos que seu pai Antônio de Macedo também recebera uma sesmaria junto com seu avô João Ramalho, em terras vizinhas à aldeia Ururai. Pode ser, portanto, que a sesmaria concedida ao pai de Tamarutaca também fosse em uma aldeia indígena, o que, como veremos no caso de Tamarutaca, tinha implicações importantes, pois era uma garantia jurídica de terra aos índios. Especificamente, a aldeia de Ururai pertencera a um dos irmãos de Tibiriçá, Piquerobi, vencido na guerra entre parentes indígenas em 1560-1563. Assim, pode ser que a localização da sesmaria concedida a João Ramalho/Antônio Macedo fosse vizinha às terras do derrotado Piquerobi por razões políticas. Quem sabe se apoderaram de partes da aldeia do índio derrotado?! Se foi o caso, os descendentes, neto (Antônio de Macedo) e bisneto (Tamarutaca) de Tibiriçá, ganharam terras alheias. João Ramalho, segundo Washington Luís (2004, p. 162), “morou num lugar chamado Jaguaporecuba, próximo a Ururai”. No âmbito jurisdicional da monarquia católica portuguesa, o mameluco filho de mameluco Tamarutaca não apenas se valeu dos recursos jurídicos da sesmaria para conquistar terras. Ele se casou três vezes em face da Igreja. Não há informação sobre o nome da primeira esposa, a segunda se chamava Francisca, e a última, Justina, índia forra. Sesmeiro e casado, adentrou no sistema de herança português, mas mantendo as prerrogativas indígenas, igualmente. Vejamos.O seu inventário post-mortem¹4 apresenta a cópia de um título de sesmaria, na qual o capitão-mor da capitania de São Vicente, Roque Barreto, informa que, em 25 de maio de 1601, em nome do governador Lopo de Sousa, atendeu ao pedido de Tamarutaca por sesmarias, já que o considerava merecedor da mercê. Afirmou que ele era morador na vila de São Paulo, casado, com mulher e filhos:e nas guerras e sucessos passados com sua pessoa, escravos e fazenda à sua custa sempre ajudou no que pôde, obedecendo a mim e aos capitães passados. É filho de morador antigo e honrado sem até agora ser dado terras de sesmaria para fazer suas benfeitorias e trazer criações como os mais moradores. Pedindo-me lhe desse de sesmaria em nome do dito Senhor Governador Lopo de Sousa pelos poderes que dele tenho um pedaço de terra de matos maninhos, que estão devolutos, que estão pelo longo do rio que se chama Anhembi, rio arriba nas cabeceiras de Estevão Raposo, pelo rio abaixo, digo, arriba da banda d’além do rio, uma légua em quadra. E se for dada que corra por diante em quadra, segundo que tudo isso melhor e mais compridamente em sua petição, consta que por mim vista, pus nela por meu despacho seguinte – Dou de sesmaria uma légua de terras ao suplicante aonde pede, e sendo dada corra por diante em São Paulo aos [25/05/1601] a qual terra que lhe eu assim dou e lhe dei por dada de sesmaria de hoje para todo o sempre para [que] ele dito Francisco Ramalho [Tamarutaca], e sua mulher e filhos herdeiros ascendentes, e descendentes que após ele vierem, forras livres isentas de todo o tributo, salvo dízimo a Deus dos frutos e novidades que nelas houver […] E, portanto, mando a todos os oficiais e ministros da Justiça de toda esta Capitania lhe façam dar e deem posse das ditas terras na forma que se requerem e lhe deixem lavrar, lograr e aproveitar e nelas fazer suas benfeitorias e trazer suas criações, sem dúvida nem embargo algum que lhe mandei passar a presente por mim assinada, a qual será registrada no livro donde se costumam registrar as ditas dadas. Antônio Rodrigues, escrivão das dadas o fez por meu mandado. Ano do Nosso Senhor [13/06/1601] […]”.¹5 [grifos nossos].
foi publicada a segunda edição na língua inglesa. Pouco depois, em 1848, o relato foi publicado em língua alemã em Dresden e Leipzig, atual Alemanha.A edição em português ocorreu em 1942, na Coleção Brasiliana, intitulada Viagens no Brasil: principalmente nas províncias do norte e nos distritos de ouro e do diamante durante anos 1836-1841, da Companhia Editora Nacional.No ano de 1856 foi publicado o relato Life in Brazil; or, a journal of a visit to the land of the cocoa and the palm de Thomas Ewbank ela Harper & Brothers, Nova York, sendo lançada também na Inglaterra. Nos Estados Unidos houve uma edição em 2005.No Brasil, o relato em português foi publicado com o título A vida no Brasil: ou Diário de uma visita ao país do cacau e das palmeiras, em 1973, pela editora carioca Conquista, em dois volumes.O relato de Henry Walter Bates foi publicado em 1863, em dois volumes, com o título The naturalist on the River Amazons, a record of adventures, habits of animals, sketches of Brazilian and Indian life, and aspects of nature under the Equator, during eleven years of travel by Henry Walter Bates, em Londres pela John Murray. A segunda edição ocorreu um ano depois, com supressão de algumas partes pelo autor, seguida por mais de dez edições na língua inglesa em Londres e nos Estados Unidos. No Brasil O naturalista no Rio Amazonas foi editadoem 1944 pela Editora Nacional.
Em 1869, Richard Burton publicou a primeira edição de Explorations of the Highlands of the Brazil; with a full account of the gold and diamond mines. Also, canoeing down 1500 miles of the great River São Francisco, from Sabará to the Sea by Captain Richard F. Burton, F.R.G.S., etc., em Londres por Tinsley Brothers, em dois volumes. A obra recebeu destaque em finais do ano passado e foi publicada em Nova York no centenário da primeira edição, e nos últimos dezesseis anos teve três edições nos Estados Unidos.
No Brasil, a primeira edição de Viagens aos planaltos do Brasil: 1868, em três volumes,ocorreu no ano de 1941 pela Companhia Editora Nacional, que publicou a segunda edição em 1983. Houve uma edição em 2001 pelo Senado Federal intitulada Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho, volume único.
Em São Paulo, a Tip. Allemã de H. Schroeder publicou Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gaston e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba de John James Aubertin no ano de 1866.
Nesse mesmo ano foi traduzido para o inglês pelo autor e publicado em Londres pela Bates, Hendy & Co. com o título Eleven day’s journey in the Province of Sao Paulo, with the [p. 10]
Outro ponto, o parâmetro comparativo do algodão brasileiro e do norte-americano. A produção dos Estados Unidos figura como indicadora de qualidade e produtividade, em vista do país ter sido o maior fornecedor do mundo, e é trazida pelos viajantes quando desejam estimular a produção no Brasil, em especial, utilizando dados fornecidos por conhecedores do ramo.Nesse sentido, Richard Burton traz as considerações de um renomado pesquisador da cultura algodoeira, Major R. Trevor Clarke96 para quem “Aqui [no Brasil] o algodão tem mais penugem que o habitual; 600 quilos darão 250 de fibra limpa, ao passo que no Alabama são necessários 750 quilos. Em geral, o replantio do arbusto é feito em seu quarto ano”.97 E J. J. Aubertin traz a experiência dos americanos sulistas Dr. Gaston, Dr. Shaw e Major Mereweather, a quem ele acompanhou durante a passagem deles pela Província de São Paulo:Eramos cinco pessoas. Tres Americano sulistas, dr. Gaston, dr. Shaw e o major Mereweather, que ião fazer sua viagem prolongada, na exploração de districtos um pouco remotos, sob a direcção do sr. Engenheiro Bennaton, para esse fim nomeado; e, sendo informado dos seus preparativos, logo me aggreguei a elles, não menos por sympatia para com a antecipada immigração americana, como tambem pelo desejo de visitar em sua companhia algumas plantações de algodão, e tirar algumas instrucções de sua experiencia pratica, a respeito de uma cultura que, sendo hoje estabelecida na província, não póde deixar de influil-os cabalmente na resolução que definitivamente tenhão que tomar.98Durante a permanência na província paulista, o grupo visitou a região de Itu, Salto, Porto Feliz e Sorocaba, daí J. J. Aubertin seguiu para a capital paulista e eles continuaram viagem com destino à Itapetininga. As observações de diferentes aspectos da lavoura algodoeira e o processamento do algodão fizeram os norte-americanos considerarem o clima paulista adequado à produção e benéfico o fato de não haver mudanças bruscas na temperatura, como a ocorrência de geadas, possibilitando maior tempo de conservação do algodoeiro.99Esses dados são agregados por J. J. Aubertin àqueles fornecidos por produtores paulistas de que “emquanto o alqueire norte-americano, dando bem, produz de cem até cento e dez ou talvez 96 Richard Trevor Clarke (1813-1897) – “Army officer and horticulturalist. Major in the Northampton and Rutland Infantry Militia, 1862. Bred nearly thirty new varieties of begonias and many new strains of cotton. Awarded a gold medal by the Cotton Supply Association of Manchester. Member of the Royal Horticultural Society; served on the council and scientific committee for many year; awarded the society’s Veitchian medal, 1894”. BURKHARDT, Frederick et al (Ed.). Charles Darwin. The Correspondence of Charles Darwin (1866). Cambridge: Cambridge University, 2004, p. 502, vol. 14.97 BURTON, Richard Francis. Viagem de canoa de Sabará ao Oceano Atlântico..., op. cit., p. 29. [nota 3]98 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gastón e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba. São Paulo: Typ. Allem[p. 159]
Os esforços de J. J. Aubertin devem ser compreendidos dentro desse contexto, em que ele se coloca como defensor da produção algodoeira paulista e atua em diferentes direções. No Brasil, escreveu para diversos periódicos nacionais e correspondeu-se com diferentes figuras da política brasileira para lhes solicitar o envolvimento com a lavoura algodoeira capaz de colocar São Paulo em posição favorável no mercado inglês, tal como fez o inglês em carta ao Comendador Fideles Prates:
Usai, vos peço, nesta vespera de uma nova semeadura, a vossa bem conhecida influencia entre os vossos amigos, e dizei aos cultivadores do algodão que redobrem os seus esforços na nova plantação, porque pela colheita futura é que se diciderá definitivamente a importante questão se a provincia de S. Paulo pode ou não pode occupar uma posição positiva nos mercados de Manchester.104
Aos agricultores interessados, ele também procurou difundir noções sobre a técnica de cultivar o algodão herbáceo e publicou folhetos sobre a cultura do algodão.105 Essa política de difundir informações sobre o cultivo foi uma atividade constante da associação inglesa, mesmo após o fim da guerra norte-americana.
No plano internacional, empenhou-se em apresentar os algodões paulistas de boa qualidade na Exposição Internacional de Londres, de 1862, com o objetivo de mostrar os atributos do produto. Também foi intermediador entre Manchester Cotton Supply Association e órgãos brasileiros; em duas ocasiões, nos anos de 1862 e 1865, J. J. Aubertin solicitou à associação britânica que enviasse algodão herbáceo ao Ministério da Agricultura e à Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional.106 Em diferentes momentos enviou para a Inglaterra amostras do algodão paulista, em geral, com boas avaliações dos correspondentes.J. J. Aubertin arquitetou ações no Brasil ligadas aos interesses ingleses baseadas em informações colhidas por ele na província ou com base na experiência de nacionais e, principalmente, de norte-americanos, com o propósito de deixar claro as potencialidades de São Paulo e convencer os potenciais produtores paulistas. Para aqueles que mesmo assim estivessem em dúvida, ele escreve:
Deveras, já é tarde demais para duvidar do algodão de São Paulo; mas se ainda ha descrentes, apenas apello para os dous srs. Cultivadores que acompanhei, major Mereweather e dr. Shaw. Ambos elles me repetirão muitas vezes, que melhor algodão que aquelle que nos vimos não desejavão ver; que nas suas proprias plantações e com todos os seus meios perfeitos não costumavãoproduzir melhor. 107
Seus esforços renderam-lhe o reconhecimento da associação inglesa, que o condecorou com uma medalha de ouro, e o governo brasileiro honrou-o com o hábito da Imperial Ordem da Rosa. Nos veículos de informação brasileiros, nos quais tanto escreveu, vemos o reconhecimento de seus pares, como E. Hutchings, outro entusiasta da lavoura algodoeira em terras paulistas e intermediário entre a associação e o Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas:
Hoje, considerado, como um genero de exportação, o algodão, e sua cultura, é um dos factos estabelecidos na historia da provincia, e eu me aproveito desta occasião para patentear a gratidão que todos temos.Quem sabe, o que ha de mostrar-se nos anos que vem? Quasi todas as condições de prosperidade estão unidas nesta provincia; - Um clima sem rival, uma terra cheia de riquesa, e uma natureza, cuja uberdade é espantosa. Tudo isto aqui, e no outro lado do Oceano, a Inglaterra, offerece tudo quanto seja possivel afim de attrahir para lá, os productos da provincia, e com as devidas providencias, e constancia em trabalhar, tudo será possivel, e, sem esta, nada.Campinas, Mogy-mirim, Limeira e outros lugares vão caminhando na cultura do café, e o publico, bem como os particulares, são beneficiados. Parece que, para Sorocaba, resta ainda este outro manancial de prosperidade; - a cultura do algodão, e não ha homem ou natural, ou estrangeiro na provincia, que não abençoará a empresa.[...] Caminho da Luz, S. Paulo Agosto de 1865[...] E. Hutchings108
Evidentemente, tais esforços foram no sentido de produzir algodão adequado às necessidades da indústria inglesa. Foi estimulado o plantio da semente de Nova Orleans, em solicitação de uma circular da Manchester Cotton Supply Association109 e houve uma modificação na postura do produtor brasileiro: “O tipo de algodão tradicional no Brasil era o arbóreo mas o mercado consumidor passou a condicionar a produção ao tipo herbáceo dos 107 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo..., op. cit., p. 16.108 HUTCHINGS, E. “Aos Redactores do Diario de São Paulo”. Diario de S. Paulo, São Paulo, 11 agosto 1865, ano I, nº 10, p. 2. Em outras atividades, além do algodão: E. Hutchings foi um dos secretários da Comissão Julgadora de um concurso para criadores de animais pensado por J. J. Aubertin, tesoureiro do evento. O Comendador Fideles Nepomuceno Prates aparece como um dos Juízes. “Concurso industrial”. Correio Paulistano, Estados Unidos. As variedades mais procuradas eram a U[p. 161, 162]