Desde o século xvii, exploradores de sertão ou sertanistas, como eramchamados os mamelucos de São Paulo, percorreram as vias terrestres e fluviaisque formavam a região platina. As bandeiras de Antonio Raposo Tavares sãouma das mais citadas e mereceram estudos monumentais. Seus integrantesdevassaram os campos gerais, descendo pelos rios Iguaçu, Pequiri, Tibagi,Ivai (Cortesão, Raposo Tavares). Nas peregrinações pelos sertões para caçar eescravizar índios ou descobrir zonas minerais, esses sertanistas construíramuma expertise de práticos e conhecedores dessas terras do interior, forjaram suaprópria identidade de Paulistas com “p” maiúsculo, como a eles se dirigiam asautoridades coloniais.Mas essa expertise da geografia dos sertões, quando acompanhada dedesenhos, inquietava as autoridades coloniais, pois, no século xviii, eram revestidos de autoridade política tanto para a construção de impérios soberanoscomo para a reivindicação de direitos sobre terras (Lennox 4), como sugereo comentário feito por um secretário de Estado sobre um geógrafo genovês cujosserviços foram contratados avulsamente pela Coroa para escrever projetos demapeamento e desenhar mapas na década de 1750:
um homem que tinha pisado tanto o sertão do Brasil e que não ignorava a geografia e topografia de muita parte destes vastos domínios, e que se sabia explicar não só na conversação mas também por carta geographica […] não era justo deixa-lo ir para países estranhos, e que era mais conveniente socegar-lhe a paixão. (ahu, arj, 1756, cx. 50, d. 4983)
Esse secretário em mesmo ofício manifestou ainda seus temores com relação aos sertanistas de São Paulo, como um chamado Angelo Pedroso e seus trânsitos pelas terras do Tibagi englobadas pela vasta região platina. Segundo ele, “este Tibagi nos dá sempre em que cuidar”. Esse sertanista queria “justificar ter entrado no sertão do Tibagi ter dado princípio a descobrir as minas de que já trouxe as amostras” (ahu, arj, 1756, cx. 50, d. 4983).
Acontece que esse sertanista sabia conversar sobre território por carta geográfica e havia contratado um escrivão da câmara, Manuel Angelo Figueira de Aguiar, que, em 1755, desenhou o mapa abaixo para endossar sua petição de direitos de exploração sobre essas terras enviada ao Conselho Ultramarino (ahu, asp, 1755, cx. 4, d. 282).
Era justamente comunicar por desenho, ou seja, construir uma culturavisual das terras do interior de uma região ibérica, como a platina, que a Coroaportuguesa tinha de aprender para sobrepor as suas imagens territoriais às dos sertanistas e jesuítas. Assim, para enfrentar esse problema, a Coroa decidiu investir na reforma do ensino da engenharia militar e contratar governadores deperfil oculocentrista e engajados na produção de conhecimento cartográfico.
> A escolha de D. Luis de Souza como governador da capitania de São Paulofez parte, portanto, de um plano mais amplo de fomentar o desenvolvimentode uma cultura visual institucional das terras platinas diante das pressões dessacultura visual preexistente e para superar o déficit do Império de registro visualdessa região de soberania incógnita ocupada por grupos indígenas autônomosou missionados, percorrida por sertanistas e que, desde o século xvii, anunciavaser rica em jazidas auríferas e de diamantes (Reis).No próprio projeto escrito por esse governador em julho de 1768, cincomeses antes de iniciar os trabalhos de mapeamento da região, já era mencionadaa razão de sua contratação: as representações feitas em 1764 por um coronel e“outros Paulistas” para penetrarem os matos de Guarapuava até a Serra Apucarana (ahu, asp, 1768, cx 25, 2411). [Páginas 24 e 25]
Uma cultura visual institucional mista:mapas oficiais decalcados das lições degeografia de sertanistas e missionáriosO engajamento do governador D. Luis na produção de uma cultura visual institucional fundamentada em mapas pode ser explicado à luz de uma problemáticamais ampla dos Impérios no século xviii, ou seja, o status de império soberanoexigia mapas e esses documentos deveriam ser criações imperiais. Conhecimentogeográfico, por sua vez, dava sustentação ao discurso do Império (Lennox 172).A cultura visual institucional, contudo, era dependente da visualidade espacial do interior do continente forjada por sertanistas e jesuítas, como pode serobservado ao contrastar o projeto de exploração do Tibagi, proposto pelo governador D. Luis, com um mapa encontrado na coleção do Conselho Ultramarinoe que, pelo espaço representado, direção e elementos topográficos destacados,sugere ser um delineado por ele próprio, como declarou em ofício. No cartucho,o próprio título destacava os rios como o assunto geográfico principal: “CartaGeografica em que se demonstram as correntes dos rios, os que sahen da capitania de são paulo, sua extenção e curso; e os grandes rios, em que entrão”. Emseu ofício de encaminhamento, referia-se à ideia de explorar os sertões do Tibagicomo: “minha original e estou formalizado nella com uma larga instrução detodos os rios navegáveis como a vossa V. Exca exponho no mappa que delineei, eque lhe remeto para me fazer perceptível” (ahu, asp, 1768, cx 25, 2411).Os rios navegáveis referidos pelo governador e que dariam entrada noque ele chamava “sertões do Tibagi” eram alguns tributários da margem direitado Rio Paraná. Todos esses rios, com exceção apenas do Yapó, também forammostrados no mapa na figura 2 e trabalhados abaixo: [Página 27]
Na medida em que esse mapa fazia parte da coleção de D. Luis, a hipótese de ele o ter utilizado para delinear o seu próprio, estampado na figura 7é aceitável. O fato ainda de lançarem os mesmos rios que davam entrada aossertões do Tibagi reforça a evidência de apropriação da visualidade espacial deum pelo outro. A cultura visual institucional portuguesa nas mãos desse governador significa verter a espacialidade da região platina produzida por jesuítas eem lingua espanhola para uma outra composta por mapas com enunciados emportugusa, produzidos por goverandores ou outros funcionários e com a função de esclarecer ofícios cujos conteúdos apresentavam projetos ou descreviamações de penetração territorial.A serra de Apucarana era um marcador geográfico das notícias e dosroteiros sertanistas, que a consideravam um reservatório de ouro. D. Luis seapropriou desse marcador e o reespacializou para a agenda imperial portuguesa. Se os sertanistas a consideravam mais perto da fronteira com os domíniosde Espanha, D. Luis a trouxe para mais perto do litoral. Em suas palavras, “Aserra do Apucaraná segundo eu posso conjecturar dos roteiros antigos e noticiasvelhas, concidero eu muito mais perto de nós do que da dita serra à fronteiraque nos convem ocupar” (ahu, asp, 1768, cx 25, 2411). [Página 29]
No mapa encomendado pelo sertanista Angelo Pedroso, cuja projeçãocolocou o oeste na parte superior e o leste na parte inferior, pode-se observaro quanto a serra de Apucarana está distanciada do litoral e mais próxima dosdomínios hispânicos:
Mas a apropriação e a conversão da memória espacial sertanista para aagenda oficial de mapeamento significava também fazer da serra de Apucaranaalgo ainda não descoberto e apenas prometido: “que pelos roteiros antigos, etradição dos Paulistas, se nos prometem naquelas terras riquezas grandes, as quaisaté agora não tem sido descubertas” (ahu, asp, 1768, cx 25, 2411).Caberia, portanto, aos soldados das expedições de mapeamento, muitosdeles, inclusive, práticos do sertão, realizarem as viagens e entradas oficiais paraconcretizar em descobrimentos as ditas promessas dos sertanistas. No entanto, subjacente à visualidade do governador D. Luis, estava a dos próprios sertanistas, como ele mesmo demonstrou em sua fala:“com este mapa que vay junto […] dou idea das expedições satisfaçojuntamente ao que V. Exa. me ordena da parte de S. Mage. […] determinando-me faça remeter huma carta chorografica (ainda que não sejaexatamente calculada) […] em cuja observância deliniey, e procurei fazer acarta que remeto […] ainda que hé muito pouco o que se sabe do interiordeste Certão, porem eu me vali de muitos roteiros, e notícias, combinandohumas cousas com as outras, e procurando averiguar com o maior cuidado todos os pontos duvidosos e pode ser que esta seja a carta de menos errosque athe aqui tem havido deste continente. (ahu, asp, 1768, cx 25, 2411)Tal ponto conduz ao caráter híbrido da cultura visual colonial, construídapela relação ambivalente entre autoridades coloniais não detentoras de memóriaespacial empírica da colônia e que, portanto, reconheciam e se apropriavamda espacialidade de antigos colonos e práticos e a traduziam para a visualidadeimperial. Tal atitude significava modificar o seu sentido ou colocar em dúvidao conhecimento prático dos habitantes da colônia, ao invés de simplesmente oapagar, como alguns autores concluíram (Cañizares-Esguerra 129).Uma estratégia discursiva do governador na tradução da espacialidadesertanista para a agenda imperial era colocá-la em paralelo com a dos engenheiros militares, admitindo a existência da primeira, mas considerando ser maiscerta a segunda, substituindo a fonte de embasamento:Neste mappa segui a opinião de José Custódio de Sá e Faria, porem hároteiros que figurão o Rio Tibagy e abaixo delle o Ivay. Outros figuramestes dois rios correndo direito a Paraná. Outros dizem ser o Tibagy opróprio Rio do Registro, e a opinião que sigo me parece ser a mais certa.(ahu, asp, 1768, cx 25, 2411)A mesma estratégia foi aplicada ao nome do rio Tibagi, usado para intitular o seu projeto de mapeamento. Originalmente, o nome é indígena e foiapropriado pelos sertanistas, e o governador o associou aos enquadramentosespaciais da geografia técnica e erudita de Sebastián Fernandes Medrano:O grande sertão chamado vulgarmente pelos Paulistas do Tibagy porficar da parte d’além deste rio, que principiando junto ao registro de Curitiba corre do sul para o norte/de cujo continente trata na sua GeografiaMedrano. (ahu, asp, Alfredo Mendes Gouveia, cx 27, doc. 2526, 1770) [Páginas 30 e 31]