Essa História, não é que eu goste, mas essa História é incrível que ela nunca tenha sido contada, essa História é que realmente tinha que cair no ENEM. Essa é uma História que todos nós tínhamos que conhecer, porque a História não se divide entre bons e maus, entre mocinhos e bandidos, mas nesse caso específico o lado de "lá", o lado que destruiu as Missões sim, é o lado do vilão. Não tem outra interpretação. A História é complexa, a História é múltipla, a História é quase "furta-cor", a História é camaleônica.Além de tudo, se diz que o passado está sempre mudando, porque ele depende das interpretações do presente, como o presente está sempre mudando, você interpreta o passado de formas diferentes. Que bela lição! Só que nesse caso específico só tem um lado, que essa devastação, imposta ao primeiro período das Missões, o período que vai de 1609 á 1641, não tem desculpa...Portanto, a origem de São Paulo está ligada a escravização dos índios. Só que isso daria uma grande guinada, uma enorme guinada, a partir de 1591, quando Portugal e Espanha já estavam unidas sob a União Ibérica, e chega um Governador-Geral do Brasil, chamado Dom Francisco de Souza (1540-1611). E é ele que cria essas milícias para-militares. De São Paulo já saiam expedições exploradoras para toda a região em seu entorno desde 1530, 1531. Mas ele, Dom Francisco, que militariza essas incursões. Ele dá roteiros, estabelece o número de pessoas que deveriam fazer parte da tropa e até capelães, ou capelões, padres iam junto nessas expedições, que serviam basicamente para escravizar indígenas.É inacreditável que quando se iniciou o estudo do "bandeirismo", por volta dos anos 1920, 1930, 1940, alguns historiadores, ou com cinismo gigantesco ou com deliberada ingenuidade, estabelecem a primeira fase do bandeirismo como chamado "bandeirismo defensivo". Que os paulistas teriam criado essas milícias para-militares para proteger a vila dos ataques indígenas. De fato tinha havido um ataque indígena incrível em São Paulo em 1562, quando a nascente vila de São Paulo quase foi destruída por um ataque coligado de indígenas que saíram do Rio de Janeiro e do oeste do atual estado de São Paulo e atacaram a nascente vila de São Paulo, que escapou um um triz. E houveram outros ataques, em 1570, enfim.Só que a partir de 1590, 1591, com Dom Francisco de Souza, até os historiadores mais "caras-de-pau" são obrigados a admitir que se inicia o "bandeirismo ofensivo". Bota ofensivo nisso né. Ora, os ataques se davam porque eles tinham começado a escraviza-los, como eu falei, desde 1508.Os paulistas saem por essas trilhas que saíam todas do coração de São Paulo e começam a escravizar tudo que é índio que encontram ao redor. Só que, a partir de 1609, os jesuítas, partindo do Paraguai, começaram a estabelecer as Missões no Guayrá, que hoje é o oeste do Paraná, no Tape, que é o oeste do Rio Grande do Sul, e no Itatim, que é no sul do Mato Grosso do Sul.A questão é que o Guayrá, chamada "A Florida Cristandade", que tinha 13 Reduções, com cerca de 5.000 índios afeitos a autoridade, ao trabalho disciplinado, ao trabalho agrícola, ficava a 40, 50 dias de marcha. E São Paulo é uma raça de caminhantes, os caras sempre foram caminhantes. Há relatos do Governador-Geral Tomé de Souza em 1556, de quando encontrou João Ramalho e ele caminhava 90 quilômetros por dia. Já vieram uns comentários aqui dizendo que é impossível caminhar 90 quilômetros por dia. Ok, talvez ele não caminhava todos os dias, 90 quilômetros por dia, mas com certeza algumas vezes ele caminhou 90 quilômetros por dia. 30, 40 quilômetros, esses paulistas caminhavam fácil.E era cheio de trilhas, que eram chamados Peabirus. Peabirú é a principal trilha, mas todas elas se chamavam Apés, palavra tupi, que quer dizer "caminho". Essas trilhas eles percorriam em "fila indiana", porque os nativos brasileiros andavam um atrás do outro. Porque as chamadas "veredas de pé posto", expressão muito usada por Sérgio Buarque de Holanda para as trilhas estreitas, meras picadas na mata, menos o Peabirú, o principal, que era mais largo. E os sertanistas paulistas incorporaram muitos e muitos dos costumes nativos dos tupis, dos tupiniquins, basicamente dos tupiniquins de São Paulo. Então eles aprenderam a andar na mata com senso de orientação inacreditável, e se alimentando de palmitos, quase extinguiram os palmitais, de mel, dizem que comiam mel com abelha e tudo. Sim! "Paulista macho".Atacaram em janeiro de 1628 e destruíram aquela Missão. Quando eles voltam para São Paulo, em maio de 1629, eles ficaram quase dois anos, eles tinham escravizado 30.000 nativos e tinham destruído 9 Reduções.Depois das devastações das Missões, e quem liderou esse êxodo de 12.000 guaranis para o Paraguai, onde daí os paulistas, de fato, não chegavam, pois, pelo menos o Paraguai eles admitiam que pertencia a Espanha, o padre Ruiz de Montoya, primeiro veio para o Rio de Janeiro, em 1638, e depois ele foi para a Espanha. Na Espanha ele foi recebido em janeiro de 1638 pelo Rei Felipe IV, que autorizou os guaranis a se armarem, autorizou os padres jesuítas a armarem os guaranis para que pudessem resistir a esse ataque infame, esse ataque ilegal, esse ataque injusto dos sertanistas de São Paulo. E aí ele também convenceu o Papa Urbano VIII a promulgar uma bula excomungando todo e qualquer homem branco que atacasse essas Reduções. No caso, "os homens brancos" eram evidentemente os sertanistas de São Paulo.Quando essa informação chega na cidade de São Paulo, que vivia única e exclusivamente do tráfico de escravos, a primeira fonte de renda de São Paulo foi a escravização de indígenas, especialmente da nação guarani. Há uma revolta total, e em desafio decidem destruir, acabar de vez com essas Missões.
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