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1944, há 82 anos...
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Direto ao ano:
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*Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, volume XLII
1944, sábado ver ano
   

Nossos bandeirantesBALTAZAR FERNANDESLUIZ CASTANHO DE ALMEIDACapítulo I

Baltazar Fernandes nasceu em Parnaiba cerca de 1580, logo após a transmigração de seus pais, saidos de São Paulo para a fundação daquela vila, se é que com André e Domingos não foi levado já infante.

De toda forma, porem, é oficialmente paulistano, visto como a desmembração de Parnaiba só se deu em 1625.Manuel Fernandes Ramos, português de Moura, casara-se em São Paulo de Piratininga, antes de 1580, com dona Suzana Dias, filha de Lopo Dias e Beatriz Dias. Esta era filha de Tebiriçá, e o marido, português.

Falecendo o esposo, Suzana mostrou-se verdadeira matrona, tocando a fazenda com os filhos menores. André Fernandes, o primogênito, passou a chefiar a casa e cabe-lhe o título de fundador da capela de Santo Antônio e em seguida matriz de Parnaiba, igreja à qual fez um patrimônio, tornando-se, desse modo, o seu protetor.

Foi o pequeno burgo das margens do Tietê o primeiro grande centro de bandeirismo, após São Paulo. O rio lendário sumindo-se rumo do sertão convidava a gente parnaibana às explorações do ouro, que tanto se falava haver alí mesmo no Araçoiaba, e do braço escravo sem o qual se não podiam tocar as lavouras.

No lugarejo glorioso, a família dos Fernandes, era tudo. Viu ainda Silva Leme o livro de 1629, do tabelião, todo ele cheio de escrituras daqueles povoadores. Vimos ainda o de 1640, em que não faltam os três irmãos, André, Baltazar e Domingos, dispondo de seus bens ou adquirindo cabedais.

André Fernandes exerceu uma espécie de morgadio. Herdeiro do pai, administrador dos bens maternos, aumentava-os. para lustre da família. Ainda após a morte da mãe, dotava as sobrinhas casadouras. Grande sesmeiro, provocou o povoamento das regiões vizinhas até Sorocaba, dando terras de amor em graça. E para que nada faltasse à semelhança com as grandes casas, leva o filho a ordenar-se no Paraguai e consegue fazê-lo vigário da igreja que fundara. As parreiras começavam numerosas desde a cozinha, aos lados lourejavam os trigais, mais adiante os escravos vermelhos cuidavam do milho, da mandioca e do algodão — alimento e roupa para os seus míseros corpos. De sua casa grande, em horas de entardecer, podia aquele grão senhor rural paulista abarcar com os olhos o campo lavrado, a igreja e a povoação, adivinhar ao longe os imensos campos de criar e, mais longe ainda, o oeste bravio.Ele sabia escrever muito bem, comia pão de trigo e hauria vinho das peroleiras, sobre alvas toalhas trazidas de alem-mar, assentado à mesa que o filho-padre benzina... Era um senhor, em pleno interior de São Paulo.

De súbito, porém, o índio Tibiriçá reagia no sangue mameluco contra os hábitos lusitanos e lá se ia para o Guairá e as seduções jesuíticas o grande escravizador, já agora capitão de bandeiras.

Ainda em 1647, há notícia de André Fernandes ameaçando os guaranís dos padres da Companhia no atual sul de Mato Grosso. Que os fazendeiros de então sabiam muito bem onde buscar o seu remédio...

André, Baltazar e Domingos Fernandes frequentaram, pois, de cerca de 1600 a 1640, a região do Guairá em bandeiras escravagistas. Até 1634, porém, havia um ímã que os arrastava a Parnaíba: era a mãe, falecida naquele ano.

Por ordem de idade, mencionou o genealogista os restantes irmãos: Pedro Fernandes, Custódia Dias, Benta Dias, Ângela Fernandes e Isabel Fernandes.Pedro faleceu solteiro; Custódia casou-se com Geraldo Betting, minerador, donde os Betim Pais Leme; Benta, casou-se, e não deixou geração; Ângela, casada com Antônio de Oliveira, deixou 4 filhos menores, em 1613; Isabel, casada com Gonçalo Ferreira, deixou 3 filhos.Domingos Fernandes, o fundador de Itú, falecido em 1652 e casado com Ana Costa deixou grande descendência. É menor a do capitão André Fernandes, que faleceu em 1642, e sua mulher já era morta desde 1632; tinham o filho único padre Francisco, e André reconheceu os sete filhos naturais.[p. 210]

Resta-nos Baltazar Fernandes, cuja biografia vamos esmiuçar, não sem antes despedir-nos de Parnaiba.

Em 6 de julho de 1634 Suzana Dias ditou ao juiz João Mendes Geraldo as suas últimas vontades, presente o vigário João Pimentel, Gabriel de Lara, João Álvares Moreira, e outros muitos.

Parece que toda a gente se acercou da matrona “enferma em sua cama”. Encomendou a Deus e aos santos sua alma, desejava ser enterrada na igreja desta vila de que meu filho é padroeiro.

Do primeiro matrimônio tivera sete filhos os quais todos eram herdeiros de seus bens. Do segundo, com Belchior da Costa, não lhe ficou herdeiro, mas ao casar-se Domingos Fernandes com a filha deste, dera-lhe a legítima do pai. Alem disso dotara duas filhas de Belchior da Costa, e ao filho Manuel sustentara em casa até o casamento.

A boa senhora criara tambem duas orfãs, filhas naturais de Pedro Fernandes, fazendo-as herdeiras neste testamento, e já nada devia à que casara com Manuel Coelho.

Tambem nada devia da legítima paterna às suas quatro filhas Custódia, Ângela, Benta e Augustinha a quem havia feito os dotes. André Fernandes devia fazer casar sua sobrinha Custódia Dias, filha de Ângela. Pagar-se-iam uma cavalgadura à filha Benta, e mil réis a Augustinha.

Os índios que ficavam como André Fernandes — diz ela — “estavam em minha casa pelo bom tratamento que lhes fiz e não por direito que eu tivesse neles e por ser de sua vontade vão para a casa de meu filho”; que lhes ensinaria a doutrina, encaminhando-os ao serviço de Deus. Acalmava, assim remorsos de conciência à hora das contas, mas prolongava a escravidão dos que para isso arrancados foram às selvas.

Em 2 de setembro de 1634, João del Campo y Medina, redigiu em puro castelhano o termo de testamenteiro a favor de Baltazar Fernandes, “testamentero de su madre defunta que Dios aya ...por ser verdad y en todo el tiempo me constar, firmo este de my nombre...”

Em 30 de junho de 1635, reunidos os três irmãos André, Baltazar e Domingos assinaram o termo de composição amigavel para pagamento das dívidas maternas.André Fernandes em 1641, 8 de janeiro, dotou Suzana Dias, filha de Baltazar, com 40 peças de gentio da terra, um curral de gado de Taquarivaí e “dez peroleiras de vinho de sua vinha”. Igual foi o dote de Custódia Dias, outra filha de Baltazar. Baltazar ainda estava em Parnaiba e em 6 de maio havia dotado a sua filha Maria de Proença, com muitas cabeças de gado, um cavalo,[p. 211]

uma rasquinha, "um pequeno sítio na Ilha de S. Sebastião, próximo do arrecife junto à barra de um rio.. ."Domingos fundava a capela de Nossa Senhora da Catideláriade Ttú, cerca de 1615. Morreu em 1652..4ndré Fernandes parece que não voltou ao sertão. Morreuem 1641, com a idade de 63 anos.

Sozinho. Baltazar Fernandes resolveu abandonar de ver asua grande casa de Parnaiba e residir definitivamente nas terrasjá suas eonde se afazendara gelo menos desde 1634.

fi muito possivel que o desejo de imitar a André e Domingoslevasse Baltazar a fundar uma capela onde lhe sohrassem sufrágios após a morte. Entreviu certamente a importância do localque tão bem conhecia: verdadeira boca de sertão, pela paragem deSorocaba se atingia por terra o antigo Guairá e os campos deCuritiba, onde a pecuária começava a dar mostrasdo futuro. 0atual sul do Brasil era um livro aberto para aquela gente parnaibana: Gahriel de Lara, presente em 1634 junto ao leito de SuzanaDias, lá estava em Paranaguá, enquanto outro parnaibano, Baltazar Carrasco dos Reis iniciava o povoamento de Curitiha. Em1645, ele, os genros e os filhos se transportaram para o lugar chamado Sorocaba, a légua e meia do Itavovú ou São Felipe, Paraonde em 1611 D. Francisco de Sonsa permitira se transportasseo pelourinho que em 1600 erguera no Araçoiaba.

Nascido em 1579 ou no máximo 1580, Baltazar Fernandesestava pois com 65 anos de idade.Era ainda um homem forte. por sem dúrida. Fundador naidade em que merecia o descanso.Cerca do ano de 1600 casou-se Baltazar Fernandes com Maria de Zúnega, nascida na Vila Rica de Guairá, filha de Bartolomeu de Torales e de Violante de Zúnega.O casamento de Baltazar precedeu de 30 anos a transmigrasão das famílias do Guairá para São Paulo.E um verdadeiro romance de aventuras este tiamoro a tantasléguas, de um bandeirante com uma, digamos, siil-americana.Vê-se com nitidez a união simbólica das duas raças ibéricasno coração da .4mérica. Raças que o caldeamento com os guaranís renovou em proporções gigantescas.

Desse matrimônio nasceu em Vila Rica Maria de Torales, quese casou com outro vilarriquenho: Gabriel Ponce de Leon e comele e outros parentes se transplantou para São Paulo antes de1634 e depois de 1630.

Baltazar ficou certamente em Vila Rica os curtos atios outalvez meses de seu casamento. .4 filha, tão cedo orfã, só se trans-[p. 212]

existente. Fez-se mais tarde o convento. Os monges adotaramSantana como padroeira.Para Nossa Senhora da Ponte construiu Baltazar ainda outraigreja, depois matriz, hoje catedral.É um título notavel e único no Brasil e em Portugal. Por serde cor evidentemente local, trata-se uma ponte do rio Sorocaba,onde se fez a igreja a que trouxeram uma imagem de NossaSenhora.Esta imagem podia ser a Sossa Senhora cie Montesserrale,Qrago do Ipanema, ou outra do próprio Baltazar e é provavel quejá se chamasse Nossa Senhora da Potile antes da mudança do pelourinlio para o atual lugar, pois o Itavovú é à beira-rio e tinhaprovavelmente a primeira ponte.Enumerando os serviços de Baltazar a Sorocaba, seu filhoManuel não se refere a construçáo da ponte.Em 1652 havia morrido a segunda mulher de Baltazar, Isabel de Proença. Ele morreu mais,que octog.enário anbs de 1667 edepois de 1662.NOTUIAS1. Dom Diogo do Rego e Meiidonça a 16 de setembro de1639 é mencionado numa real cédula ao Vice-Rei do Perú, pararemédio e castigo dos portugueses de Sáo Paulo, coin FulanoPonce (deve de ser Gabriel), Fiancisco Sançhez, Fernando Melgarejo, Sebastião de Peralta e outros de nomes sul-americanos,como antigos "vecinos", moradores do Paraguai e que serviam - de guias às entradas dos bandeirantes, devendo ser remetidos emferros ao Conselho das jndias.A restauração, de 1640, e os vastos sertões impediram o cumprimento desta qrdem. Vê-se como em torno dos Fernandes, maxime de Baltazar que se casou na Vila Rica, gravitou a transmigrasáo daquela gente para São Paulo e o Brasil. (C£. Anais doMuseu Paulista, tomo V, pág. 137, documentação castelhana coligida pelo infatigavel A. de Taunay).2. Tambem o padre João de1 Campo y Medina, qiie, seaparece escrevendo em puro espanhol em fins de 1634,~no lestainento da niatrona dos Fernandes, é porque acabava de chegar,o padre Juan de1 Campo y Medina tambem foi honrosamente incluido naquela ordem de prisão. "Clerigo castellano que fué clerigo cura de Guairá", diz o docum~nto citado acima. Mas a prisão seria "usando de manha e recato possivel, afim de evitar al- orot tos". . . [p. 215]





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