27 de junho de 2025, sexta-feira Atualizado em 25/08/2025 01:30:19
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Nobre português nasceu em 1490. Veio para São Vicente provavelmente em 1510. Casou em 1520 (provável) com uma das filhas do Bacharel, morando em São Vicente por 20 anos. Percorreu todo o sul da costa do Brasil, sendo um dos maiores conhecedores do Rio da Prata.Morreu provavelmente em 1559, a serviço da Espanha, vítima de um temporal nas proximidades da Ilha de São Domingos.Fonte: Boletim IHGSV
Por: Ídolo de CarvalhoCananéia tem uma história rica e pouco divulgada. Há autores que a tem como já visitada em viagens pré-cabralinas. Contudo, acredita-se que o início seguro do povoado original é de 1502, data aceita como a do desembarque de um homem ilustre da alta cultura européia, que se tornou conhecido como o Bacharel de Cananéia.
Por conveniência religiosa e política, Mestre Cosme Fernandes, bacharel português, judeu convertido (cristão novo) foi desterrado e deixado em Cananéia, tornando-se o primeiro europeu a se estabelecer no Brasil.
Embora haja indícios de que o Bacharel poderia ter sido trazido numa viagem secreta feita por Bartolomeu Dias em 1499, aceita-se que a sentença tenha sido cumprida pela expedição comandada por Gonçalo Coelho, tendo como cartógrafo o florentino Amerigo Vespucci, que se tornou conhecido na História do Brasil como Américo Vespúcio. Essa expedição saiu de Portugal em 1501 e chegou aqui em 24 de janeiro de 1502, visando reivindicar e demarcar as terras recém descobertas para a coroa portuguesa.
Acredita-se que tenham chegado até a ilha do Cardoso, onde, por conta do seu tamanho e extensão, provavelmente pensaram estar em terras continentais. Assim, desembarcaram o Bacharel e chantaram, no lado nordeste da ilha, junto à barra, na ponta do Itacuruçá, um marco de pedra com as quinas portuguesas em alto relevo, encimadas pela cruz de Cristo, juntamente com 2 tenentes, paralelepípedos sem função específica, espécie de escoltas do marco principal. Vide foto anexa e comentários.
Na época do descobrimento o lugar chamava-se Marataiama, em tupi-guarani: mara = mar e taiama = terra, isto é, "lugar onde a terra encontra o mar".
Habitavam o lugar os índios Carió (Carichó ou Carijó) da nação guarani. Eles jamais haviam visto um navio tão grande, cheio de velas brancas, homens brancos vestidos, de fala macia e cabelos de fogo, ficaram deslumbrados e se referiam ao fato como mutupapaba, isto é, "coisa maravilhosa". Chamaram o marco de Itacoatiara (ita = pedra e cuatiara = risco, desenho, inscrição) ou Itacuruçá (ita = pedra e Curuçá = cruz).
Feito prisioneiro, de alguma forma o Bacharel conquistou a confiança dos selvícolas, vindo a unir-se com a filha do cacique Ariró. Esse fato, freqüente na época do descobrimento, resultava da associação pelos nativos da figura do homem branco com os deuses ou chamãs. Eram os caraíbas, mencionado pelo padre José de Anchieta: "Caraíba quer dizer coisa santa ou sobrenatural e, por esta causa puseram esse nome nos portugueses, logo que vieram, considerando-os uma coisa grande, do outro mundo, por terem vindo de tão longe sobre as águas".
No inverno de 1526, em Porto dos Patos (relativo a tribo dos índios Patos, da nação guarani) no litoral de Santa Catarina, após ouvirem narrativas sobre os tesouros do "rei branco", 32 homens desertaram da expedição de Don Rodrigo de Acuña.
Desses desertores, provavelmente 6 seis homens, fizeram uma longa jornada de cerca de 300 km para o norte até chegar em Cananéia, pois sabiam que o lugar era freqüentado por navegadores europeus, juntaram-se, então, ao Bacharel e ajudaram a povoar a terra.
Dois desses homens: Gonçalo da Costa e Francisco de Chavez, casaram-se com filhas do Bacharel. Francisco de Chavez tinha uma particularidade: era o único homem branco vivo que já estivera no império inca. Ele foi membro da fantástica expedição de Aleixo Garcia até os domínios do El Dorado.
Em 15 de janeiro de 1528, Diego Garcia, passando por Cananéia relata ter encontrado o "Bacharel de Cananéia" uma espécie de "rei branco" vivendo entre os índios com 6 mulheres, mais de 200 escravos e mais de mil guerreiros dispostos a lutar por ele, "… que vive ali faz bem 30 anos e tem muitos genros".
Este foi o quadro que em 1531 a expedição colonizadora de Martin Afonso de Souza encontrou na comunidade de Marataiama, como era chamada a antiga Cananéia, segundo consta no Diário de Navegação da Armada de Pêro Lopes, irmão de Martin Afonso e que durou cerca de 80 anos. O crescimento da comunidade, escassez de água potável e terras agricultáveis, obrigou a vila mudar-se para o lugar onde está atualmente.
Durante as três primeiras décadas após o descobrimento do Brasil, devido às notícias que corriam na Europa, houve uma corrida desenfreada em busca dos domínios do rei branco, El Dorado e da fantástica Potosi, que na língua quíchua quer dizer «montanha que troveja», feita inteiramente de prata e de onde saíram cerca de 6.000 m3 do metal.
Cananéia torna-se, então, à partir de 1502, um importante ponto de passagem de armadas, expedições, exploradores, aventureiros, piratas e corsários.
Para isso contribuíram a geografia em forma de abrigo natural para os navegadores, cujo melhor exemplo é a ilha do Bom Abrigo, as dádivas da natureza exuberante do lagamar: água doce, pesca, caça, frutas e lenha e a presença e liderança do misterioso Bacharel de Cananéia, Cosme Fernandes que sabia negociar os produtos da terra, o pau-brasil, informações e escravos.
A divulgação ao mundo da existência do rei branco e do seu povo resplandecente em ouro, custou muito caro aos incas. Essa notícia chegou ao litoral do Atlântico através do Peabiru.
O Peabiru, um caminho fantástico estabelecido pelas migrações indígenas e depois percorrido pelos europeus, era uma impressionante «estrada transcontinental» com 8 palmos de largura (mais ou menos 1,60 m) forrada de gramíneas, que se estendia por cerca de 3.000 km, ligando o Pacífico ao Atlântico através do Peru, Bolívia, Paraguai e Brasil.
No Brasil a entrada localizava-se em São Vicente. Existiam ainda mais dois outros caminhos indígenas que levavam ao Peabiru: um em Cananéia e outro no Porto dos Patos, em São Francisco do Sul, SC.
O caminho do Peabiru podia também ser atingido pelo interior do Cone Sul através dos rios da Prata, Paraná e Paraguai, passando por Buenos Aires, na Argentina, até atingir Assunção, no Paraguai.
Os topônimos Argentina, derivado de argento (prata) e rio da Prata, foram tirados dos relatos de aventureiros, como Aleixo Garcia, que conseguiu trazer ouro e prata por esse caminho.
Por esse caminho penetrou também, saindo de Cananéia, a malfadada expedição de Pero Lobo Pinheiro, um dos capitães de Martin Afonso de Sousa, cujos componentes foram mortos pelos índios.
A conquista dos incas por Francisco Pizzaro, em novembro de 1532, foi efetuada pelo lado do oceano Pacífico, através dos Andes e abarrotou durante 30 anos navios de ouro e prata em direção à Espanha, obscurecendo os tesouros persas que Alexandre Magno despejou sobre o mundo helênico.
O impacto dessa fortuna cruzando os mares em galeões, nem sempre bem armados ou escoltados, despertou a sanha e a cobiça de incontáveis flibusteiros e bucaneiros à espreita de alguma presa, tornando-se comum sua presença nas costas do Brasil, especialmente em Cananéia, pela natureza do lugar.
Tais provas indiscutivelmente colocam Cananéia como o primeiro povoado surgido no Brasil, quiçá antes mesmo de sua descoberta oficial, um verdadeiro entreposto e parada para reabastecimento. Foi assim que incontáveis expedições e aventureiros aqui aportaram.
A constatação do fato está gravada pelos portugueses no mármore do monumento existente em Lisboa, Portugal, às margens do rio Tejo, chamado de Padrão dos Descobrimentos, junto à Torre de Belém. Lá existe uma rosa-dos-ventos contendo no centro um mapa mundi, conforme normas cartográficas da época. O contorno da costa do Brasil assinala datas e pontos: 1500 – Porto Seguro, 1502 – Cananea e 1514 – Rio da Prata.
A maior de todas as armadas que passaram por Cananéia, foi a de Martim Afonso de Sousa. Era composta por duas naus, duas caravelas e um galeão, tripulados por 400 homens que zarparam de Portugal em 03 de dezembro de 1530. Depois de um longo périplo pelas costas do Brasil e muitas escaramuças com corsários franceses, Martim Afonso chega pela primeira vez a Cananéia em 12 de agosto de 1531.Aqui conhece o Bacharel e Francisco de Chavez, de quem ouve relatos entusiasmados sobre as riquezas do Peru e que promete, caso lhe fossem dadas condições para uma viagem por terra, via Peabiru, «… voltaria com 400 escravos carregados de ouro e prata em 10 meses». Confiante, ele indicou o próprio Chavez para guia e seu capitão Pero Lobo Pinheiro para comandante.Em 01 de setembro de 1531 a expedição partiu com 80 homens brancos, sendo 40 besteiros e 40 espingardeiros, mais um grupo de guerreiros índios. Jamais voltaram, foram todos mortos pelos indígenas no rio Iguaçu, no Paraná. Assim terminou a primeira bandeira organizada pelos portugueses no Brasil.A missão de Martim Afonso já veio comprometida pelo «feitiço do Peru». Assim, após sua primeira estada em Cananéia, entre 12 de agosto até 26 de setembro de 1531, zarpou para o Rio da Prata em busca do caminho para a riqueza. Nessa aventura perdeu homens, navios e até naufragou. Por sorte, conseguiu retornar a Cananéia em 08 de janeiro de 1532, para consertar suas embarcações e se recompor. Tendo zarpado após alguns dias, viajou por mais 4 até chegar em São Vicente no dia 22 de janeiro de 1532.O «feitiço do Peru» paralisou toda a colonização portuguesa e espanhola na «costa do ouro e da prata», como era chamada a costa sul que vai de Cananéia até o rio da Prata.Enquanto isso, o Bacharel fazia História. Dando guarida a europeus de várias procedências, principalmente espanhóis, e fazendo alianças com os nativos, seus domínios se expandiram para muito além de Cananéia, chegando até São Vicente, onde ele se estabeleceu.Pouco antes de partir de volta a Portugal, Martim Afonso toma conhecimento do infortúnio que se abateu sobre a expedição de Pero Lobo. Intrigantes levaram Martim Afonso a acreditar que o massacre tivesse sido planejado pelo Bacharel e pelos desertores castelhanos que viviam em seus domínios.
Pesa sobre o Bacharel ainda a suspeita histórica de que ele na verdade não era português e sim espanhol e teria, inclusive, se bacharelado em Salamanca, na Espanha. O fato é que Cosme Fernandes, o "primeiro grande senhor de escravos do Brasil", segundo Eduardo Bueno, não prestava obediência à Coroa portuguesa e negociava livremente entre São Vicente e Cananéia por puro interesse pecuniário. Dessa forma, Martim Afonso determinou que ele voltasse ao seu lugar de degredo original, isto é, Cananéia.
Temeroso pela sua segurança e de toda a sua família, em seu retorno ele vai para Iguape, onde se homizia com seu amigo espanhol Ruy Garcia Moschera. Dá-lhe, então, ciência que Martim Afonso estava prestes a enviar uma expedição, chefiada por Pero de Góis, para obriga-lo a prestar obediência ao rei de Portugal e desocupar em 30 dias as terras que, conforme o Tratado de Tordesilhas, não pertenciam a Castela e foram usurpadas, sob pena de morte e perdimento de bens.
Os desentendimentos territoriais entre portugueses e castelhanos resultam numa disputa feroz pelo território. Ruy Moschera aliado ao Bacharel, outros europeus descontentes e 150 índios flecheiros, tomam um navio francês que se abastecia em Cananéia, apresam sua artilharia, constroem uma trincheira e organizam a resistência em frente a barra de Icapara, local primitivo da fundação de Iguape.Feroz luta foi travada, cerca de 80 portugueses dizimados, Pero de Góis foi ferido por um tiro de arcabuz. De posse de mais uma nau, Moschera ataca São Vicente. Mediante ardil, tendo o navio de Pero de Góis à frente, se fazem passar pela tropa portuguesa de retorno. Desferem violento ataque, invadem, saqueiam e incendeiam a Vila de São Vicente, fundada dois anos antes por Martim Afonso.A «Guerra de Iguape» foi o primeiro conflito armado entre europeus travado em solo americano, como ensina Eduardo Bueno. O episódio continua virtualmente ignorado pela maioria dos estudiosos. Ruy Moschera fugiu para Porto dos Patos e, depois, aventurou-se pelo Rio da Prata. O Bacharel foi provavelmente morto pelos próprios carijós em 1537.Martim Afonso de Sousa, decepcionado por não ter conseguido sucesso nas suas aventuras pela América, voltou para Portugal em maio de 1533 e jamais retornou ao Brasil, mesmo tendo sido aquinhoado com duas Capitanias Hereditárias, das quais não tomou posse.Em 1577 é construída a igreja de São João Batista de Cananéia e inicia-se a transferência do povoado de Marataiama da ilha Branca para a ilha de Cananéia, concluída no ano seguinte no qual o povoado foi elevado à condição de vila, passando, posteriormente, em 1587, a ser município.A ilha Branca é hoje chamada de Ilha Comprida e foi parte do município de Cananéia, até se tornar politicamente independente em 05 de março de 1992.O fracasso na busca da riqueza dos incas levou a coroa portuguesa a adotar a colonização do Brasil como forma de manter a soberania sobre a terra recém descoberta, porém, sem grandes investimentos. A solução escolhida foi dividi-la em lotes: as Capitanias Hereditárias; doadas a burocratas, militares veteranos nas guerras do Oriente e ricos proprietários de terras, como Pêro de Campo Tourinho, todos próximos ao trono.A idéia não vingou, porém São Vicente esteve entre as poucas capitanias que obtiveram algum êxito, graças principalmente a lavoura de cana. Cananéia pertencia a essa capitania.Assim, no século XVII, se descortina a primeira vocação firme de Cananéia: a agricultura, onde a mandioca, o arroz e a cana de açúcar eram os principais produtos. Em seguida e por conseqüência, instalações para beneficiamento do arroz, os engenhos de cana de açúcar, as fábricas de farinha, as serrarias, os fornos de cerâmica e os estaleiros navais. Surgiram grandes frotas para transportes, muitos tinham seus próprios barcos e a carpintaria naval prosperava mercê da madeira abundante na região.Em 1711, foi construída uma armação para a pesca de baleias na Ilha do Bom Abrigo e beneficiamento de seus derivados, entre outros o óleo para a iluminação e aditivo na construção civil, pois que, acrescentado à cal obtida pela trituração das cascas de moluscos, resultava numa excelente rgamassa.Em 1747 são queimados, por uma desventurada ordem do ouvidor geral Dr. Antônio Pires da Silva e Mello Porto Carreiro, os livros e arquivos do Cartório, perdendo-se, assim, grande parte da documentação sobre a Vila e talvez a última esperança de se identificar com precisão o Bacharel.Conforme o Livro de Tombo (da Prefeitura) em 1734, Cananéia era habitada pelos mais opulentos lavradores, cujas fábricas de farinha de mandioca, transportada em seus próprios navios, supriram toda a cidade do Rio de Janeiro e a Colônia até setembro de 1787.Nessa data, por ordem do capitão-general Bernardo José de Lorena, foi baixado um terrível édito pelo qual, todas as embarcações que zarpassem dos portos do litoral, ficavam obrigadas a escalar em Santos. A ordem visava: arrecadar impostos, abastecer a Capital e tirar Santos do seu isolamento e dependência material e econômica da Capital.A liberdade do comércio marítimo entre as várias praças, principalmente a do Rio de Janeiro, deixou de existir e as embarcações sumiram como por encanto. Sem o amparo do comércio livre, as grandes fazendas foram sendo abandonadas, os canaviais incendiados, os engenhos desarmados e a decadência instalada.A miséria invadiu muitos lares. A pobreza da população chegou a tal ponto que muita gente, não podendo comprar sal, cozinhava com água do mar. Os estaleiros fecharam e grande parte da população mudou-se para Iguape e Paranaguá ou se embrenhou pelos sertões em busca de minérios, principalmente ouro, cuja ocorrência já era registrada desde o fim do século XVI.Juntamente com algumas outras cidades, Cananéia chegou a ser considerada «uma das cidades mortas do litoral paulista», conforme: «A Decadência do Litoral Paulista», de Antonio Paulino de Almeida, Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.Esse foi o período mais difícil da História do município e perdurou até a chegada da família real ao Brasil, em 1808, quando os portos e o comércio entre eles foram novamente tornados livres.Cananéia foi gradativamente, com muito esforço e denodo de sua gente, retomando seus destinos.A atividade principal torna-se a pesca. Foi a pesca e um pouco de agricultura de subsistência que mantiveram viva a comunidade e o sustento das famílias até então economicamente arruinadas.Assim, crescendo em torno da pesca, por volta de 1872, Cananéia já contava com 16 estaleiros e mais de 200 embarcações construídas, tendo contribuído para isso a necessidade de se transportar tropas e mantimentos para a consolidação das fronteiras no sul.Em 1889, é construído um cais de pedra para a movimentação do pescado.Em 1895, São João Batista de Cananéia é elevada a categoria de cidade e, em 1905, passa a se chamar somente Cananéia.Nesse período a pesca transforma-se na principal fonte de renda da cidade, chegando a ser registrado, em 1920, a exportação de 25 toneladas entre pescado, camarões, ostras e mariscos.À partir de 1930, a vocação pesqueira se consolida e em 1936/7 é construído o Entreposto de Pesca.Embora não tenha ocorrido aqui, não se pode deixar de mencionar o desastre ecológico que, segundo ambientalistas, ocorreu na vizinha Iguape, no século XIX, durante o governo de D. Pedro II.Para encurtar caminho e eliminar a necessidade de se passar pela foz do rio Ribeira para chegar a Iguape, seus habitantes exigiram e foi construído um canal que ligou artificialmente o rio à cidade de Iguape. Essa obra hidráulica terminada em 1855, chamada de Valo Grande, inicialmente com 4 m de largura e 2 km de extensão, foi rapidamente destruída, pois as margens foram levadas pelo caudaloso rio, principalmente na época das chuvas na cabeceira, carregando grande quantidade de aluvião canal abaixo através de todo o lagamar.O mar fez o resto e, durante cem anos, carregou tudo para o sul causando o progressivo assoreamento da barra de Cananéia. Assim é que, até 1960, navios cargueiros com cerca de 120 toneladas, contratados pela Cia. Serrana de Mineração para retirar minério do terminal de Porto Cubatão e levar até Santos, via marítima, para fabricação de cimento, entravam e saiam livremente da barra. Depois dessa data, nenhuma outra embarcação desse porte entrou no porto.Ao se falar sobre a História de Cananéia, há que se mencionar algo à respeito dos dois canhões que repousam silenciosos na praça Martim Afonso, junto à igreja, no centro da cidade.Segundo estudos específicos feitos pelo eminente historiador cananeense Antonio Paulino de Almeida, tais peças faziam parte de uma fortificação que foi reivindicada para proteger a cidade contra as investidas dos piratas que, durante os séculos XVII XVIII, atacavam vilas e povoados ao longo do litoral, desde São Vicente, até Paranaguá. Acredita-se que, nessa época, Cananéia foi severamente danificada por tais invasões.Essa fortificação, contudo, somente chegou a ser erguida em 1824, já no século XIX, com «apenas» cem anos de atraso, quando semelhantes incursões já não mais existiam.Para isso, foram feitas instalações precárias sobre um banco de areia na ponta do extremo sul da Ilha Branca (Ilha Comprida) na entrada da barra, no local hoje conhecido como Poço do Bicho, Forte da Trincheira ou somente Trincheira.Foram instaladas seis peças, um paiol e abrigo para os apetrechos e a guarnição. Em 1897, quando o mar já tinha destruído o lugar e levado consigo três peças, as restantes foram resgatadas e transportadas para Cananéia, da quais, duas estão em exposição pública e uma explodiu durante uma malograda tentativa de tiro em 1930.Os canhões são ingleses, identificados na inscrição em relevo, de fácil leitura, onde se vê coroa da casa real inglesa, encimada pela cruz de malta. Ainda, a letra «G», entrelaçada com o número 3, e a letra «R», da palavra latina «Rex», significando: Rei George III da Inglaterra, que reinou de 1760 até 1820. Mais abaixo, Lê-se a data da fundição da peça: 29-III-15, isto é, 29 de março de 1815.http://cananet.com.br/wp/2016/02/05/a-historia-de-cananeia/
foi publicada a segunda edição na língua inglesa. Pouco depois, em 1848, o relato foi publicado em língua alemã em Dresden e Leipzig, atual Alemanha.A edição em português ocorreu em 1942, na Coleção Brasiliana, intitulada Viagens no Brasil: principalmente nas províncias do norte e nos distritos de ouro e do diamante durante anos 1836-1841, da Companhia Editora Nacional.No ano de 1856 foi publicado o relato Life in Brazil; or, a journal of a visit to the land of the cocoa and the palm de Thomas Ewbank ela Harper & Brothers, Nova York, sendo lançada também na Inglaterra. Nos Estados Unidos houve uma edição em 2005.No Brasil, o relato em português foi publicado com o título A vida no Brasil: ou Diário de uma visita ao país do cacau e das palmeiras, em 1973, pela editora carioca Conquista, em dois volumes.O relato de Henry Walter Bates foi publicado em 1863, em dois volumes, com o título The naturalist on the River Amazons, a record of adventures, habits of animals, sketches of Brazilian and Indian life, and aspects of nature under the Equator, during eleven years of travel by Henry Walter Bates, em Londres pela John Murray. A segunda edição ocorreu um ano depois, com supressão de algumas partes pelo autor, seguida por mais de dez edições na língua inglesa em Londres e nos Estados Unidos. No Brasil O naturalista no Rio Amazonas foi editadoem 1944 pela Editora Nacional.
Em 1869, Richard Burton publicou a primeira edição de Explorations of the Highlands of the Brazil; with a full account of the gold and diamond mines. Also, canoeing down 1500 miles of the great River São Francisco, from Sabará to the Sea by Captain Richard F. Burton, F.R.G.S., etc., em Londres por Tinsley Brothers, em dois volumes. A obra recebeu destaque em finais do ano passado e foi publicada em Nova York no centenário da primeira edição, e nos últimos dezesseis anos teve três edições nos Estados Unidos.
No Brasil, a primeira edição de Viagens aos planaltos do Brasil: 1868, em três volumes,ocorreu no ano de 1941 pela Companhia Editora Nacional, que publicou a segunda edição em 1983. Houve uma edição em 2001 pelo Senado Federal intitulada Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho, volume único.
Em São Paulo, a Tip. Allemã de H. Schroeder publicou Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gaston e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba de John James Aubertin no ano de 1866.
Nesse mesmo ano foi traduzido para o inglês pelo autor e publicado em Londres pela Bates, Hendy & Co. com o título Eleven day’s journey in the Province of Sao Paulo, with the [p. 10]
Outro ponto, o parâmetro comparativo do algodão brasileiro e do norte-americano. A produção dos Estados Unidos figura como indicadora de qualidade e produtividade, em vista do país ter sido o maior fornecedor do mundo, e é trazida pelos viajantes quando desejam estimular a produção no Brasil, em especial, utilizando dados fornecidos por conhecedores do ramo.Nesse sentido, Richard Burton traz as considerações de um renomado pesquisador da cultura algodoeira, Major R. Trevor Clarke96 para quem “Aqui [no Brasil] o algodão tem mais penugem que o habitual; 600 quilos darão 250 de fibra limpa, ao passo que no Alabama são necessários 750 quilos. Em geral, o replantio do arbusto é feito em seu quarto ano”.97 E J. J. Aubertin traz a experiência dos americanos sulistas Dr. Gaston, Dr. Shaw e Major Mereweather, a quem ele acompanhou durante a passagem deles pela Província de São Paulo:Eramos cinco pessoas. Tres Americano sulistas, dr. Gaston, dr. Shaw e o major Mereweather, que ião fazer sua viagem prolongada, na exploração de districtos um pouco remotos, sob a direcção do sr. Engenheiro Bennaton, para esse fim nomeado; e, sendo informado dos seus preparativos, logo me aggreguei a elles, não menos por sympatia para com a antecipada immigração americana, como tambem pelo desejo de visitar em sua companhia algumas plantações de algodão, e tirar algumas instrucções de sua experiencia pratica, a respeito de uma cultura que, sendo hoje estabelecida na província, não póde deixar de influil-os cabalmente na resolução que definitivamente tenhão que tomar.98Durante a permanência na província paulista, o grupo visitou a região de Itu, Salto, Porto Feliz e Sorocaba, daí J. J. Aubertin seguiu para a capital paulista e eles continuaram viagem com destino à Itapetininga. As observações de diferentes aspectos da lavoura algodoeira e o processamento do algodão fizeram os norte-americanos considerarem o clima paulista adequado à produção e benéfico o fato de não haver mudanças bruscas na temperatura, como a ocorrência de geadas, possibilitando maior tempo de conservação do algodoeiro.99Esses dados são agregados por J. J. Aubertin àqueles fornecidos por produtores paulistas de que “emquanto o alqueire norte-americano, dando bem, produz de cem até cento e dez ou talvez 96 Richard Trevor Clarke (1813-1897) – “Army officer and horticulturalist. Major in the Northampton and Rutland Infantry Militia, 1862. Bred nearly thirty new varieties of begonias and many new strains of cotton. Awarded a gold medal by the Cotton Supply Association of Manchester. Member of the Royal Horticultural Society; served on the council and scientific committee for many year; awarded the society’s Veitchian medal, 1894”. BURKHARDT, Frederick et al (Ed.). Charles Darwin. The Correspondence of Charles Darwin (1866). Cambridge: Cambridge University, 2004, p. 502, vol. 14.97 BURTON, Richard Francis. Viagem de canoa de Sabará ao Oceano Atlântico..., op. cit., p. 29. [nota 3]98 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gastón e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba. São Paulo: Typ. Allem[p. 159]
Os esforços de J. J. Aubertin devem ser compreendidos dentro desse contexto, em que ele se coloca como defensor da produção algodoeira paulista e atua em diferentes direções. No Brasil, escreveu para diversos periódicos nacionais e correspondeu-se com diferentes figuras da política brasileira para lhes solicitar o envolvimento com a lavoura algodoeira capaz de colocar São Paulo em posição favorável no mercado inglês, tal como fez o inglês em carta ao Comendador Fideles Prates:
Usai, vos peço, nesta vespera de uma nova semeadura, a vossa bem conhecida influencia entre os vossos amigos, e dizei aos cultivadores do algodão que redobrem os seus esforços na nova plantação, porque pela colheita futura é que se diciderá definitivamente a importante questão se a provincia de S. Paulo pode ou não pode occupar uma posição positiva nos mercados de Manchester.104
Aos agricultores interessados, ele também procurou difundir noções sobre a técnica de cultivar o algodão herbáceo e publicou folhetos sobre a cultura do algodão.105 Essa política de difundir informações sobre o cultivo foi uma atividade constante da associação inglesa, mesmo após o fim da guerra norte-americana.
No plano internacional, empenhou-se em apresentar os algodões paulistas de boa qualidade na Exposição Internacional de Londres, de 1862, com o objetivo de mostrar os atributos do produto. Também foi intermediador entre Manchester Cotton Supply Association e órgãos brasileiros; em duas ocasiões, nos anos de 1862 e 1865, J. J. Aubertin solicitou à associação britânica que enviasse algodão herbáceo ao Ministério da Agricultura e à Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional.106 Em diferentes momentos enviou para a Inglaterra amostras do algodão paulista, em geral, com boas avaliações dos correspondentes.J. J. Aubertin arquitetou ações no Brasil ligadas aos interesses ingleses baseadas em informações colhidas por ele na província ou com base na experiência de nacionais e, principalmente, de norte-americanos, com o propósito de deixar claro as potencialidades de São Paulo e convencer os potenciais produtores paulistas. Para aqueles que mesmo assim estivessem em dúvida, ele escreve:
Deveras, já é tarde demais para duvidar do algodão de São Paulo; mas se ainda ha descrentes, apenas apello para os dous srs. Cultivadores que acompanhei, major Mereweather e dr. Shaw. Ambos elles me repetirão muitas vezes, que melhor algodão que aquelle que nos vimos não desejavão ver; que nas suas proprias plantações e com todos os seus meios perfeitos não costumavãoproduzir melhor. 107
Seus esforços renderam-lhe o reconhecimento da associação inglesa, que o condecorou com uma medalha de ouro, e o governo brasileiro honrou-o com o hábito da Imperial Ordem da Rosa. Nos veículos de informação brasileiros, nos quais tanto escreveu, vemos o reconhecimento de seus pares, como E. Hutchings, outro entusiasta da lavoura algodoeira em terras paulistas e intermediário entre a associação e o Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas:
Hoje, considerado, como um genero de exportação, o algodão, e sua cultura, é um dos factos estabelecidos na historia da provincia, e eu me aproveito desta occasião para patentear a gratidão que todos temos.Quem sabe, o que ha de mostrar-se nos anos que vem? Quasi todas as condições de prosperidade estão unidas nesta provincia; - Um clima sem rival, uma terra cheia de riquesa, e uma natureza, cuja uberdade é espantosa. Tudo isto aqui, e no outro lado do Oceano, a Inglaterra, offerece tudo quanto seja possivel afim de attrahir para lá, os productos da provincia, e com as devidas providencias, e constancia em trabalhar, tudo será possivel, e, sem esta, nada.Campinas, Mogy-mirim, Limeira e outros lugares vão caminhando na cultura do café, e o publico, bem como os particulares, são beneficiados. Parece que, para Sorocaba, resta ainda este outro manancial de prosperidade; - a cultura do algodão, e não ha homem ou natural, ou estrangeiro na provincia, que não abençoará a empresa.[...] Caminho da Luz, S. Paulo Agosto de 1865[...] E. Hutchings108
Evidentemente, tais esforços foram no sentido de produzir algodão adequado às necessidades da indústria inglesa. Foi estimulado o plantio da semente de Nova Orleans, em solicitação de uma circular da Manchester Cotton Supply Association109 e houve uma modificação na postura do produtor brasileiro: “O tipo de algodão tradicional no Brasil era o arbóreo mas o mercado consumidor passou a condicionar a produção ao tipo herbáceo dos 107 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo..., op. cit., p. 16.108 HUTCHINGS, E. “Aos Redactores do Diario de São Paulo”. Diario de S. Paulo, São Paulo, 11 agosto 1865, ano I, nº 10, p. 2. Em outras atividades, além do algodão: E. Hutchings foi um dos secretários da Comissão Julgadora de um concurso para criadores de animais pensado por J. J. Aubertin, tesoureiro do evento. O Comendador Fideles Nepomuceno Prates aparece como um dos Juízes. “Concurso industrial”. Correio Paulistano, Estados Unidos. As variedades mais procuradas eram a U[p. 161, 162]