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Os cristãos-novos: o povoamento e a conquista do solo brasileiro

    30 de dezembro de 1976, quinta-feira
    Atualizado em 31/10/2025 09:35:54
  
  


Os cristãos-novos: o povoamento e a conquista do solo brasileiroAutoresJosé Gonçalves SalvadorPor estranho que pareça, vieram, e não foram poucos. No Rio de Janeiro já desde a fundação da cidade. Arrolamos dez famílias troncos nos anos de 1560 a 1580, e assim por diante. Não foi, pois, à toa, que frei Diogo do Espírito Santo escreveu dali ao Santo Oficio, ‘ em 1625, preocupado com a situação local. De fato a comunidade is-raelita caminhava sem detença, em quantidade e em prestígio. No lustre de 1695 o navegante Frogger computou-os em três quartos da população. 0 surto demográfico tinha razões nos conflitos ao Norte, com os holandeses, e no Sul com o progresso do trato angolano-rio-platense, figurando de permeio a Guanabara. Depois aconteceu a fundação da Colônia do Sacramento e o descobrimento aurífero nas Minas Gerais.

Mas, São Paulo, nos campos de Piratininga, isolado pela Serra do Mar e vegetando na pobreza, que atrativo poderia ter para os judeus, se, como já se disse, eram amantes de uma vida facil e mais inclinados ao comércio do que à agricultura? Pergunta-se, de igual modo: que lhes ofereciam de melhor, na época, Luanda e Buenos Aires? E todavia, eles se estabeleceram em ambas, assim como tambem no cimo da Paranapiacaba. Ai está a documentação paulistana a confirmá-lo. As Atas da Câmara mencionam o fato. Havia um rol dos que pagavam as "fintas".

Em 1618 certo Francisco Lopes Pinto recusou-se a entrar com a sua cota individual e solicitou que lhe tirassem o nome do livro, pois não se considerava elemento da estirpe. Estava registrado, precisamente, à folha 21, no verso. Quantos, por isso, não figurariam nas páginas anteriores, e mesmo nas seguintes? E, de mais a mais, fontes de origem hispano-americana, quer jusuitica quer oficial, abundam em referências ao fluxo hebraico em São Paulo. O padre Francisco Crespo, em 1629, e o governador do Rio da Prata, em 1631, declaram que "muchos delos son christianos nuevos", afirmativa que os inquisido-res de Lima, no Peru, tornam a repisar um decênio depois.

Isto posto, verifica-se que laboram em erro quantos admitam o alto acervo de Cristãos-Velhos na colonização, em detrimento da pro-gêníe hebraica, estribando?se nas leis que exigiam pureza de sangue (ou étnica) para o ingresso na vida eclesiástica, nas Ordens nobiliár-quicas e no funcionalismo. Porque, a ser assim, os seus respectivos genitores e todos os familiares estariam isentos do defeito impeditivo, mas o que se constata, na verdade, é a existência de numerosos clérigos e de pessoas nobilitadas, embora de linhagem judia. 0 padre José de Anchieta e Salvador Correia de Sá e Benevides constituem bom exemplo.

A evidência se aplica de igual modo a muitos dos governadores que nos mandaram de Portugal, pois não pertenciam à nobreza sanguínea do Reino e nem às primeiras elites. [p. 551]

Eram elementos da média nobreza, e daí para baixo, tais como Tomé de Sousa, Gomes Freire de Andrade, o governador-geral Afonso Furtado de Castro do Rio, e outros. Nem podemos acompanhar o genealogista Pedro Taques na crença de que os companheiros de Martim Afonso de Sousa eram nobres de tradicional linhagem e que, estabelecendo-se na Capitania de São Vicente, hajam conservado a pureza. Nada mais falso! Basta lembrar o casamento de Jerônimo Leitão com a judia Inês Mendes, e o do hebreu, em São Paulo, Francisco Vaz Coelho, com a filha de Antônio de Proença, todos bem antes de findar-se o século XVI. No Rio de Janeiro o mesmo sucedeu com o velho Salvador Correia de Sá, e na Bahia com o fidalgo Henrique Moniz Teles.

E de suma valia, então, uma análise do problema filogenético ao tempo de nosso embasamento étnico?social. Ressalte-se inicialmente a` falsa idéia segundo a qual os Cristãos-Novos, assim como os da etnia ariana, repudiavam os casamentos mistos. Observe-se, contudo, que o semita hebreu nunca foi rigorosamente fechado a tais enlaces en-quanto viveu em Portugal. A exogamia atingiu a todas as classes, e nos Brasil ainda mais, em virtude da liberdade que vicejava no País. A princípio escassearam as mulheres brancas. Judeus e cristãos uni-ram-se a indígenas. Novos imigrantes formaram o lar casando-se com mamelucas. As famílias, por fim, acabaram misturando-se. No Rio de Janeiro os laços conjugais abrangeram, inclusive, as escravas ne-gras, não escapando ao fato nem mesmo alguns judeus radicados na capitania. Por exemplo, o padre Francisco de Paredes, ainda que impedido pelo sangue da mãe, a preta Leonor, e pelo do pai, Luís de Paredes, semita judeu, tomou-se sacerdote. Mas, não obstante, a sociedade fluminense foi sempre mais exclusivista que a de São Paulo, quer da parte de uma, quer da outra etnia branca. Tambem dois ti-pos de vida tiveram lugar nas duas áreas.

E inegavel, pois, a presença do Cristão-Novo nas Capitanias de Baixo, como nas de Cima. Ele veio e exerceu os mais diversos mis-teres, desde o de modesto trabalhador. Foi canoeiro, sapateiro, mes-tre de açúcares, agricultor, funcionário público, negociante, etc. Na zona dos canaviais, aparece entre os senhores de engenho, ao passo que em São Paulo envergou e endumentária do sertanista e foi policul-tor. Bandeirantes insignes se revelaram Sebastião de Freitas, Pedro Vaz de Barros, André Fernandes e tantos mais, todos de linhagem is-raelita.

A principio os estabelecimentos se formaram ao longo do litoral. As comunicações com a Metrópole o exigiam. As terras bastavam, muito embora destinadas à agricultura do tipo plantation. Tinham, porem, que ser conquistadas aos indígenas. Por isso os judeus entra- [p. 552]



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EMERSON


30/12/1976
ANO:95
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foi publicada a segunda edição na língua inglesa. Pouco depois, em 1848, o relato foi publicado em língua alemã em Dresden e Leipzig, atual Alemanha.A edição em português ocorreu em 1942, na Coleção Brasiliana, intitulada Viagens no Brasil: principalmente nas províncias do norte e nos distritos de ouro e do diamante durante anos 1836-1841, da Companhia Editora Nacional.No ano de 1856 foi publicado o relato Life in Brazil; or, a journal of a visit to the land of the cocoa and the palm de Thomas Ewbank ela Harper & Brothers, Nova York, sendo lançada também na Inglaterra. Nos Estados Unidos houve uma edição em 2005.No Brasil, o relato em português foi publicado com o título A vida no Brasil: ou Diário de uma visita ao país do cacau e das palmeiras, em 1973, pela editora carioca Conquista, em dois volumes.O relato de Henry Walter Bates foi publicado em 1863, em dois volumes, com o título The naturalist on the River Amazons, a record of adventures, habits of animals, sketches of Brazilian and Indian life, and aspects of nature under the Equator, during eleven years of travel by Henry Walter Bates, em Londres pela John Murray. A segunda edição ocorreu um ano depois, com supressão de algumas partes pelo autor, seguida por mais de dez edições na língua inglesa em Londres e nos Estados Unidos. No Brasil O naturalista no Rio Amazonas foi editadoem 1944 pela Editora Nacional.

Em 1869, Richard Burton publicou a primeira edição de Explorations of the Highlands of the Brazil; with a full account of the gold and diamond mines. Also, canoeing down 1500 miles of the great River São Francisco, from Sabará to the Sea by Captain Richard F. Burton, F.R.G.S., etc., em Londres por Tinsley Brothers, em dois volumes. A obra recebeu destaque em finais do ano passado e foi publicada em Nova York no centenário da primeira edição, e nos últimos dezesseis anos teve três edições nos Estados Unidos.

No Brasil, a primeira edição de Viagens aos planaltos do Brasil: 1868, em três volumes,ocorreu no ano de 1941 pela Companhia Editora Nacional, que publicou a segunda edição em 1983. Houve uma edição em 2001 pelo Senado Federal intitulada Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho, volume único.

Em São Paulo, a Tip. Allemã de H. Schroeder publicou Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gaston e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba de John James Aubertin no ano de 1866.

Nesse mesmo ano foi traduzido para o inglês pelo autor e publicado em Londres pela Bates, Hendy & Co. com o título Eleven day’s journey in the Province of Sao Paulo, with the [p. 10]

Outro ponto, o parâmetro comparativo do algodão brasileiro e do norte-americano. A produção dos Estados Unidos figura como indicadora de qualidade e produtividade, em vista do país ter sido o maior fornecedor do mundo, e é trazida pelos viajantes quando desejam estimular a produção no Brasil, em especial, utilizando dados fornecidos por conhecedores do ramo.Nesse sentido, Richard Burton traz as considerações de um renomado pesquisador da cultura algodoeira, Major R. Trevor Clarke96 para quem “Aqui [no Brasil] o algodão tem mais penugem que o habitual; 600 quilos darão 250 de fibra limpa, ao passo que no Alabama são necessários 750 quilos. Em geral, o replantio do arbusto é feito em seu quarto ano”.97 E J. J. Aubertin traz a experiência dos americanos sulistas Dr. Gaston, Dr. Shaw e Major Mereweather, a quem ele acompanhou durante a passagem deles pela Província de São Paulo:Eramos cinco pessoas. Tres Americano sulistas, dr. Gaston, dr. Shaw e o major Mereweather, que ião fazer sua viagem prolongada, na exploração de districtos um pouco remotos, sob a direcção do sr. Engenheiro Bennaton, para esse fim nomeado; e, sendo informado dos seus preparativos, logo me aggreguei a elles, não menos por sympatia para com a antecipada immigração americana, como tambem pelo desejo de visitar em sua companhia algumas plantações de algodão, e tirar algumas instrucções de sua experiencia pratica, a respeito de uma cultura que, sendo hoje estabelecida na província, não póde deixar de influil-os cabalmente na resolução que definitivamente tenhão que tomar.98Durante a permanência na província paulista, o grupo visitou a região de Itu, Salto, Porto Feliz e Sorocaba, daí J. J. Aubertin seguiu para a capital paulista e eles continuaram viagem com destino à Itapetininga. As observações de diferentes aspectos da lavoura algodoeira e o processamento do algodão fizeram os norte-americanos considerarem o clima paulista adequado à produção e benéfico o fato de não haver mudanças bruscas na temperatura, como a ocorrência de geadas, possibilitando maior tempo de conservação do algodoeiro.99Esses dados são agregados por J. J. Aubertin àqueles fornecidos por produtores paulistas de que “emquanto o alqueire norte-americano, dando bem, produz de cem até cento e dez ou talvez 96 Richard Trevor Clarke (1813-1897) – “Army officer and horticulturalist. Major in the Northampton and Rutland Infantry Militia, 1862. Bred nearly thirty new varieties of begonias and many new strains of cotton. Awarded a gold medal by the Cotton Supply Association of Manchester. Member of the Royal Horticultural Society; served on the council and scientific committee for many year; awarded the society’s Veitchian medal, 1894”. BURKHARDT, Frederick et al (Ed.). Charles Darwin. The Correspondence of Charles Darwin (1866). Cambridge: Cambridge University, 2004, p. 502, vol. 14.97 BURTON, Richard Francis. Viagem de canoa de Sabará ao Oceano Atlântico..., op. cit., p. 29. [nota 3]98 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gastón e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba. São Paulo: Typ. Allem[p. 159]

Os esforços de J. J. Aubertin devem ser compreendidos dentro desse contexto, em que ele se coloca como defensor da produção algodoeira paulista e atua em diferentes direções. No Brasil, escreveu para diversos periódicos nacionais e correspondeu-se com diferentes figuras da política brasileira para lhes solicitar o envolvimento com a lavoura algodoeira capaz de colocar São Paulo em posição favorável no mercado inglês, tal como fez o inglês em carta ao Comendador Fideles Prates:

Usai, vos peço, nesta vespera de uma nova semeadura, a vossa bem conhecida influencia entre os vossos amigos, e dizei aos cultivadores do algodão que redobrem os seus esforços na nova plantação, porque pela colheita futura é que se diciderá definitivamente a importante questão se a provincia de S. Paulo pode ou não pode occupar uma posição positiva nos mercados de Manchester.104

Aos agricultores interessados, ele também procurou difundir noções sobre a técnica de cultivar o algodão herbáceo e publicou folhetos sobre a cultura do algodão.105 Essa política de difundir informações sobre o cultivo foi uma atividade constante da associação inglesa, mesmo após o fim da guerra norte-americana.

No plano internacional, empenhou-se em apresentar os algodões paulistas de boa qualidade na Exposição Internacional de Londres, de 1862, com o objetivo de mostrar os atributos do produto. Também foi intermediador entre Manchester Cotton Supply Association e órgãos brasileiros; em duas ocasiões, nos anos de 1862 e 1865, J. J. Aubertin solicitou à associação britânica que enviasse algodão herbáceo ao Ministério da Agricultura e à Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional.106 Em diferentes momentos enviou para a Inglaterra amostras do algodão paulista, em geral, com boas avaliações dos correspondentes.J. J. Aubertin arquitetou ações no Brasil ligadas aos interesses ingleses baseadas em informações colhidas por ele na província ou com base na experiência de nacionais e, principalmente, de norte-americanos, com o propósito de deixar claro as potencialidades de São Paulo e convencer os potenciais produtores paulistas. Para aqueles que mesmo assim estivessem em dúvida, ele escreve:

Deveras, já é tarde demais para duvidar do algodão de São Paulo; mas se ainda ha descrentes, apenas apello para os dous srs. Cultivadores que acompanhei, major Mereweather e dr. Shaw. Ambos elles me repetirão muitas vezes, que melhor algodão que aquelle que nos vimos não desejavão ver; que nas suas proprias plantações e com todos os seus meios perfeitos não costumavãoproduzir melhor. 107

Seus esforços renderam-lhe o reconhecimento da associação inglesa, que o condecorou com uma medalha de ouro, e o governo brasileiro honrou-o com o hábito da Imperial Ordem da Rosa. Nos veículos de informação brasileiros, nos quais tanto escreveu, vemos o reconhecimento de seus pares, como E. Hutchings, outro entusiasta da lavoura algodoeira em terras paulistas e intermediário entre a associação e o Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas:

Hoje, considerado, como um genero de exportação, o algodão, e sua cultura, é um dos factos estabelecidos na historia da provincia, e eu me aproveito desta occasião para patentear a gratidão que todos temos.Quem sabe, o que ha de mostrar-se nos anos que vem? Quasi todas as condições de prosperidade estão unidas nesta provincia; - Um clima sem rival, uma terra cheia de riquesa, e uma natureza, cuja uberdade é espantosa. Tudo isto aqui, e no outro lado do Oceano, a Inglaterra, offerece tudo quanto seja possivel afim de attrahir para lá, os productos da provincia, e com as devidas providencias, e constancia em trabalhar, tudo será possivel, e, sem esta, nada.Campinas, Mogy-mirim, Limeira e outros lugares vão caminhando na cultura do café, e o publico, bem como os particulares, são beneficiados. Parece que, para Sorocaba, resta ainda este outro manancial de prosperidade; - a cultura do algodão, e não ha homem ou natural, ou estrangeiro na provincia, que não abençoará a empresa.[...] Caminho da Luz, S. Paulo Agosto de 1865[...] E. Hutchings108

Evidentemente, tais esforços foram no sentido de produzir algodão adequado às necessidades da indústria inglesa. Foi estimulado o plantio da semente de Nova Orleans, em solicitação de uma circular da Manchester Cotton Supply Association109 e houve uma modificação na postura do produtor brasileiro: “O tipo de algodão tradicional no Brasil era o arbóreo mas o mercado consumidor passou a condicionar a produção ao tipo herbáceo dos 107 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo..., op. cit., p. 16.108 HUTCHINGS, E. “Aos Redactores do Diario de São Paulo”. Diario de S. Paulo, São Paulo, 11 agosto 1865, ano I, nº 10, p. 2. Em outras atividades, além do algodão: E. Hutchings foi um dos secretários da Comissão Julgadora de um concurso para criadores de animais pensado por J. J. Aubertin, tesoureiro do evento. O Comendador Fideles Nepomuceno Prates aparece como um dos Juízes. “Concurso industrial”. Correio Paulistano, Estados Unidos. As variedades mais procuradas eram a U[p. 161, 162]