A carreira de Francisco Félix de Souza na África Ocidental (1800-1849)* Robin Law
2001 Atualizado em 30/10/2025 22:40:29
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A carreira do traficante de escravos brasileiro Francisco Félix de Souza, conhecido como “Chachá”, já mereceu vários estudos, entre os quaisse destaca o de David Ross.1 Esses estudos não lograram, entretanto, resol-ver algumas das principais questões relativas à história do Chachá, nem tam-pouco tratar convincentemente de alguns de seus aspectos mais importan-tes. As deficiências desses trabalhos derivam não só de neles não se ter to-mado em conta todo o espectro de fontes disponíveis, mas também docaráter problemático dessas fontes e das dificuldades em sintetizar as in-formações sobre os diferentes aspectos da carreira de Francisco Félix deSouza.Foi ele uma figura central tanto do tráfico transatlântico de escravos,quanto da história de Ajudá, a comunidade costeira da África na qual elepassou a maior parte de sua vida — e, não só de Ajudá, mas também doreino do Daomé, a que essa comunidade pertencia. Esses dois papéis esta-vam evidentemente interconectados: se a sua posição na África decorriaprincipalmente da riqueza derivada do comércio transatlântico, as suasoperações comerciais ultramarinas foram facilitadas pela família extensa(fundada nos casamentos polígamos e na acumulação de escravaria), pelarede comercial e pelas conexões políticas que formou na África. Esses doispapéis representavam, de certo modo, esferas distintas de atividade, masos estudos até agora escritos sobre Francisco Félix de Souza deram ênfaseapenas à sua dimensão africana.É difícil para o historiador soldar, retrospectivamente, as duas facesda carreira de Francisco Félix, pela natureza limitada dos dados existentes.Qualquer tentativa de rastrear e explicar a vida de nosso personagem temde basear-se numa combinação das fontes européias que lhe são coetâneascom as tradições orais de Ajudá. As fontes européias iluminam principalmente a dimensão internacional de sua carreira: pouco dizem sobre suaposição local, não passando das afirmações gerais a respeito de sua influên-cia sobre o rei daomeano Guezo. Na realidade, a posição que tinha local-mente é tida como um fato, em vez de ser explicada. Um exemplo: o co-merciante afro-francês Nicolas d’Oliveira, cuja carreira antecipa a de Fran-cisco Félix, e que, de acordo com a história oral, teve um papel determi-nante na decisão deste último de fixar-se em Ajudá em 1829, não é sequermencionado nas fontes européias da época.2 Outro exemplo: os mercado-res daomeanos que forneciam escravos a Francisco Félix em Ajudá —Adjovi, Boya, Codjia, Gnahoui, Hodonou, Houénou (Quénum) — fica-ram também invisíveis nessas fontes, até após a morte do Chachá.3 Por outrolado, as tradições locais pouco dizem sobre o envolvimento de FranciscoFélix com o tráfico negreiro, não indo além de generalizações sobre suaposição preeminente entre os que a ele se dedicavam. Apresentam suasconexões internacionais também como um fato conhecido, sem explicá-las.Além isso, os dados disponíveis sobre Francisco Félix de Souza apre-sentam-se fragmentários e desiguais. A maior deficiência reside no fato deFrancisco Félix não nos ter deixado papéis, ao contrário do que sucede comalgumas famílias de origem brasileira de Ajudá, que conservam materialescrito relativo à sua história. Dentre elas, destaca-se a família Dos Santos,que guarda a correspondência de seu fundador, José Francisco dos Santos(m. 1871).4 Um caso semelhante, fora de Ajudá, é o do “Grande Livro”dos Lawson, uma família de afro-britânicos de Popó Pequeno (Anexô ouAného), no qual se contém, inter alia, a sua correspondência comercial entre1841 e 1853.5 Nada de parecido foi preservado pela família Souza. E épossível que nunca tenha existido. Um comerciante que lidou com Fran-cisco Félix em 1830 observou que este evitara ler diante dele uma faturacomercial e deduziu que fosse analfabeto. Isto certamente não era verdade,mas outras testemunhas da época asseveram que Francisco Félix de Souzanão mantinha contabilidade, provavelmente como uma expressão cons-ciente de um código de comportamento mercantil “aristocrático”, segun-do o qual os ajustes verbais eram considerados como suficientes e definiti-vos.6 Um pequeno número de papéis escritos por ele conserva-se fora deAjudá, principalmente nos arquivos britânicos, entre documentos encon-trados em navios negreiros apreendidos pela Marinha do Reino Unido. [p. 9. 10]Deve-se notar ainda a falta de documentação pessoal referente à partebrasileira da história de Francisco Félix de Souza. Os testamentos, feitos,antes de se instalarem definitivamente na África Ocidental, pelos dois maisimportantes mercadores brasileiros da geração seguinte, Joaquim d’Almeida(m. 1857) e Domingos José Martins (m. 1864), foram localizados e publi-cados.7 Não se encontrou documento semelhante de Francisco Félix. Issopode ter-se devido, primeiro, ao fato de ser ele, como alguns relatos decontemporâneos seus sugerem, um homem pobre, antes de se mudar paraa África;8 e, segundo, à circunstância de que, ao contrário de Almeida eMartins, ele não retornou jamais, nem mesmo em curta viagem, ao Brasil.As tradições da família Souza mantêm que ele possuía propriedades noBrasil, mas que os documentos a elas referentes teriam sido destruídos porum incêndio, pouco depois da morte de Francisco Félix em 1849, noentreposto que seu filho mais velho, Isidoro, tinha em Popó Pequeno.9Histórias sobre a destruição de documentos (especialmente sobre documen-tos patrimoniais) são, porém, um estereótipo nas tradições orais de Ajudáe devem ser tratadas com reserva. Entre os papéis da família Lawson, emPopó Pequeno, inclui-se um texto que passa por representar o testamentode Isidoro de Souza, feito logo após o falecimento de seu pai e um poucoantes de haver Isidoro se transferido de volta de Popó para Ajudá. Essedocumento é, contudo, uma cópia evidentemente muito posterior e, por-tanto, de autenticidade duvidosa. De qualquer modo, ele diz respeito ex-clusivamente às suas propriedades em Popó Pequeno, sem conter referên-cia a um só bem no Brasil.10As versões da história da família e de seu fundador, escritas recente-mente pelos Souza, baseiam-se sobretudo nas tradições orais, embora al-gumas vezes essas se combinem com material publicado. Dos papéis dafamília Lawson constam variantes da saga de Francisco Félix.11 Um relatomais amplo foi publicado, em 1955, por seu neto e sucessor no título deChachá, ou chefe da família, Norberto Francisco de Souza. Mais recente é olivro de Simone de Souza, uma francesa casada na família. Esse livro é umacompilação de relatos publicados anteriormente, mas inclui uma boa quan-tidade de material adicional, em parte derivado de manuscritos inéditos,baseados, ao que parece, mais na tradição oral do que em fontes da épo [p. 11]em Ajudá, alegava que este viera parar ali, após ter participado na guerrapela independência do Brasil: alistara-se, no Rio de Janeiro, no exército deD. Pedro, mas posteriormente dele desertara.28 Essa história, no entanto,não pode ser verdadeira, uma vez que Francisco Félix chegou à costa afri-cana cerca de 1800, muito antes, portanto, da secessão brasileira (e, poroutro lado, em 1821 já se escrevia sobre seu “banimento” do Brasil). Hou-ve uma tentativa anterior de insurreição nacionalista em 1798 (mas emSalvador, na Bahia, e não, no Rio), e é possível que a história de Conneauseja uma confusa alusão ao envolvimento de Francisco Félix naquele epi-sódio. Por outro lado, a sua condição de fora da lei poderia estar associadaà sua participação no tráfico de escravos, tecnicamente ilegal ao norte doEquador para os cidadãos portugueses desde 1815. O mais provável é quehouvesse outra razão, que desconhecemos.As fontes também se contradizem quanto ao local onde Francisco Félixse instalou, ao retornar à África, mas é provável que esse não tenha sido,como queria Ross, Ajudá.29 Na penúltima década do Oitocentos, recolheu-se da família a informação de que, em 1800, ele se estabelecera inicialmen-te em Badagry.30 É possível, porém, que tenha havido confusão com suaprimeira viagem ao continente africano, entre 1792 e 1795. Versões fami-liares mais recentes afirmam, de um modo geral, que, em 1800, ele foi morarmais para oeste, em Popó Pequeno, onde levantou um segundo entrepostochamado Ajido. Certamente, Francisco Félix mantinha conexões com PopóPequeno, pois terá sido nessa época que ele desposou Jijibu, uma filha deComlagan, chefe de Popó, de quem lhe nasceu o primeiro filho, Isidoro.Em 1802, de acordo com a tradição familiar.31 Mas é possível que, já en-tão, como sucederia depois, ele possuísse entrepostos em mais de um lugarao longo do litoral.
Como quer que tenha sido, dentro em pouco ele começou a enfrentar reveses em suas atividades comerciais e empregou-se no forte português de Ajudá. Isso ocorreu antes de 1803, quando o seu nome aparece num documento como escrivão e contador da fortaleza.32
O último governador formalmente designado para o forte e que partiu do Brasil em 1804, Jacinto José de Souza, era evidentemente seu irmão, mas a vinda deste não parece ter tido qualquer conexão com a presença de Francisco Félix na costa. [p. 15]Com a morte e a não-substituição de Jacinto e de outros funcionários su-periores, Francisco Félix assumiu a posição de governador interino do for-te, pois como tal aparece em 1806.33 Posteriormente, contudo, ele aban-donaria o forte, para tornar-se um participante por conta própria no flo-rescente, ainda que ilegal, comércio de escravos para o Brasil e para Cuba.Em 1816, o seu nome figura como o do proprietário de um navio negreirointerceptado pela marinha britânica.34
Onde ele então se estabeleceu é também matéria de controvérsia.Diferentes relatos colocam-no em Ajudá, Badagry ou Popó Pequeno. Tal-vez mantivesse residências ou, quando menos, estabelecimentos comerciaisem todos esses lugares. Algum tempo depois, ele se envolveria numa dis-puta com o rei Adandozan, do Daomé, que o levaria à prisão, durante umavisita à capital do reino, Abomei. Dela conseguiu fugir para Popó Peque-no. E dali apoiaria o golpe de estado que, provavelmente em 1818, destro-nou Adandozan e pôs em seu lugar o seu irmão Guezo. Embora essa histó-ria só conste dos relatos tradicionais (que datam do final do século XIX),não há motivo para duvidar de que seja em sua essência verdadeira.35 Emrecompensa a esse apoio, Francisco Félix foi convidado pelo novo rei,Guezo, para voltar a Ajudá. Conforme a saga familiar, ele retornou de PopóPequeno para Ajudá em setembro de 1820,36 o que combina com os textosda época, nos quais a sua presença nessa última cidade é atestada, pela pri-meira vez, em 1821.Francisco Félix de Souza, “Chachá” de AjudáDe acordo com o que se escreveu até agora, quando Francisco Félixregressou a Ajudá, não o fez como um simples comerciante, pois havia sidonomeado pelo rei Guezo para uma posição oficial: segundo Ross, por exem-plo, ele se tornara “um chefe daomeano... como um título especial... oChachá de Ajudá”.37 Provavelmente, porém, estamos diante de uma sim-plificação. Os textos da época mostram que Francisco Félix não pretendiainicialmente fixar-se em Ajudá, pois, em abril de 1821, ele obteve das au-toridades portuguesas do Rio de Janeiro um passaporte para retornar aoBrasil.38 Parece claro que sua evolução para um “chefe daomeano” não es-tava prevista: foi o resultado do tempo. E é quase certo que a palavra Chachá [p. 16]era originalmente uma alcunha pessoal, que se transformou em título re-trospectivamente, após sua morte, quando foi herdado por seus filhos.Não sabemos a razão por que Francisco Félix não voltou então para oBrasil. Talvez ele tivesse sido retido pelas autoridades daomeanas. Huntley,na década de 1830, entendeu que o rei Guezo lhe vedara deixar Ajudá,embora a essa altura a proibição se revelasse inóqua, uma vez que Francis-co Félix já se resignara a viver ali.39 É também possível que seus planos te-nham sido afetados pela independência do Brasil, em 1822. Como indica-do antes, numa das versões sobre o seu alegado “desterro” do Brasil, afir-ma-se que ele era um desertor do exército do Imperador D. Pedro I, e, aindaque isso pudesse não ser literalmente verdade, não se afasta que a alegaçãorefletisse, deturpada, a imagem de quem primeiro apoiara o novo regimebrasileiro e depois com ele rompera. A secessão do Brasil tivera repercus-sões em Ajudá, onde a posse do forte português foi objeto de disputa entreLisboa e o Rio de Janeiro, sendo decidida em favor de Portugal no acordoem que esse reconheceu a independência brasileira, em 1825. De uma his-tória posterior (recolhida na década de 1860) consta que Francisco Félixofereceu a fortaleza de Ajudá ao Governo brasileiro, mas deste não recebeuresposta, o que pode ter sido o motivo da ruptura.40 Como evidência deseu afastamento do Brasil poderia apresentar-se a mudança de destino naeducação de seus filhos: embora seu rebento mais velho, Isidoro (nascidoem 1802) tenha sido mandado estudar no Brasil — e isto, antes da inde-pendência, pois ele teria retornado à África em 1822 —, o caçula, Antô-nio, nascido em 1814 e apelidado de “Kokou”(ou “Cocu”, na pronúnciaportuguesa), foi para a escola em Portugal.41 É de notar-se também queFrancisco Félix continuou a declarar a sua condição de nacional portuguêsapós 1822, e, embora houvesse, para as suas atividades ilegais de negreiro,certas vantagens em fazê-lo (como se explicará mais adiante), isso podetambém ter representado uma tomada de posição política. Ainda que obairro de Ajudá fundado por Francisco Félix tenha passado a chamar-seBrasil (em francês, Brésil, e em fom, Blezin), não se pode disso retirar con-clusões sobre sua fidelidade política ao seu país natal, pois não se registraessa denominação durante a sua vida, quando, ao que consta, a sua casagrande era conhecida, do mesmo modo que os entrepostos por ele criados[p. 17]
foi publicada a segunda edição na língua inglesa. Pouco depois, em 1848, o relato foi publicado em língua alemã em Dresden e Leipzig, atual Alemanha.A edição em português ocorreu em 1942, na Coleção Brasiliana, intitulada Viagens no Brasil: principalmente nas províncias do norte e nos distritos de ouro e do diamante durante anos 1836-1841, da Companhia Editora Nacional.No ano de 1856 foi publicado o relato Life in Brazil; or, a journal of a visit to the land of the cocoa and the palm de Thomas Ewbank ela Harper & Brothers, Nova York, sendo lançada também na Inglaterra. Nos Estados Unidos houve uma edição em 2005.No Brasil, o relato em português foi publicado com o título A vida no Brasil: ou Diário de uma visita ao país do cacau e das palmeiras, em 1973, pela editora carioca Conquista, em dois volumes.O relato de Henry Walter Bates foi publicado em 1863, em dois volumes, com o título The naturalist on the River Amazons, a record of adventures, habits of animals, sketches of Brazilian and Indian life, and aspects of nature under the Equator, during eleven years of travel by Henry Walter Bates, em Londres pela John Murray. A segunda edição ocorreu um ano depois, com supressão de algumas partes pelo autor, seguida por mais de dez edições na língua inglesa em Londres e nos Estados Unidos. No Brasil O naturalista no Rio Amazonas foi editadoem 1944 pela Editora Nacional.
Em 1869, Richard Burton publicou a primeira edição de Explorations of the Highlands of the Brazil; with a full account of the gold and diamond mines. Also, canoeing down 1500 miles of the great River São Francisco, from Sabará to the Sea by Captain Richard F. Burton, F.R.G.S., etc., em Londres por Tinsley Brothers, em dois volumes. A obra recebeu destaque em finais do ano passado e foi publicada em Nova York no centenário da primeira edição, e nos últimos dezesseis anos teve três edições nos Estados Unidos.
No Brasil, a primeira edição de Viagens aos planaltos do Brasil: 1868, em três volumes,ocorreu no ano de 1941 pela Companhia Editora Nacional, que publicou a segunda edição em 1983. Houve uma edição em 2001 pelo Senado Federal intitulada Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho, volume único.
Em São Paulo, a Tip. Allemã de H. Schroeder publicou Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gaston e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba de John James Aubertin no ano de 1866.
Nesse mesmo ano foi traduzido para o inglês pelo autor e publicado em Londres pela Bates, Hendy & Co. com o título Eleven day’s journey in the Province of Sao Paulo, with the [p. 10]
Outro ponto, o parâmetro comparativo do algodão brasileiro e do norte-americano. A produção dos Estados Unidos figura como indicadora de qualidade e produtividade, em vista do país ter sido o maior fornecedor do mundo, e é trazida pelos viajantes quando desejam estimular a produção no Brasil, em especial, utilizando dados fornecidos por conhecedores do ramo.Nesse sentido, Richard Burton traz as considerações de um renomado pesquisador da cultura algodoeira, Major R. Trevor Clarke96 para quem “Aqui [no Brasil] o algodão tem mais penugem que o habitual; 600 quilos darão 250 de fibra limpa, ao passo que no Alabama são necessários 750 quilos. Em geral, o replantio do arbusto é feito em seu quarto ano”.97 E J. J. Aubertin traz a experiência dos americanos sulistas Dr. Gaston, Dr. Shaw e Major Mereweather, a quem ele acompanhou durante a passagem deles pela Província de São Paulo:Eramos cinco pessoas. Tres Americano sulistas, dr. Gaston, dr. Shaw e o major Mereweather, que ião fazer sua viagem prolongada, na exploração de districtos um pouco remotos, sob a direcção do sr. Engenheiro Bennaton, para esse fim nomeado; e, sendo informado dos seus preparativos, logo me aggreguei a elles, não menos por sympatia para com a antecipada immigração americana, como tambem pelo desejo de visitar em sua companhia algumas plantações de algodão, e tirar algumas instrucções de sua experiencia pratica, a respeito de uma cultura que, sendo hoje estabelecida na província, não póde deixar de influil-os cabalmente na resolução que definitivamente tenhão que tomar.98Durante a permanência na província paulista, o grupo visitou a região de Itu, Salto, Porto Feliz e Sorocaba, daí J. J. Aubertin seguiu para a capital paulista e eles continuaram viagem com destino à Itapetininga. As observações de diferentes aspectos da lavoura algodoeira e o processamento do algodão fizeram os norte-americanos considerarem o clima paulista adequado à produção e benéfico o fato de não haver mudanças bruscas na temperatura, como a ocorrência de geadas, possibilitando maior tempo de conservação do algodoeiro.99Esses dados são agregados por J. J. Aubertin àqueles fornecidos por produtores paulistas de que “emquanto o alqueire norte-americano, dando bem, produz de cem até cento e dez ou talvez 96 Richard Trevor Clarke (1813-1897) – “Army officer and horticulturalist. Major in the Northampton and Rutland Infantry Militia, 1862. Bred nearly thirty new varieties of begonias and many new strains of cotton. Awarded a gold medal by the Cotton Supply Association of Manchester. Member of the Royal Horticultural Society; served on the council and scientific committee for many year; awarded the society’s Veitchian medal, 1894”. BURKHARDT, Frederick et al (Ed.). Charles Darwin. The Correspondence of Charles Darwin (1866). Cambridge: Cambridge University, 2004, p. 502, vol. 14.97 BURTON, Richard Francis. Viagem de canoa de Sabará ao Oceano Atlântico..., op. cit., p. 29. [nota 3]98 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gastón e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba. São Paulo: Typ. Allem[p. 159]
Os esforços de J. J. Aubertin devem ser compreendidos dentro desse contexto, em que ele se coloca como defensor da produção algodoeira paulista e atua em diferentes direções. No Brasil, escreveu para diversos periódicos nacionais e correspondeu-se com diferentes figuras da política brasileira para lhes solicitar o envolvimento com a lavoura algodoeira capaz de colocar São Paulo em posição favorável no mercado inglês, tal como fez o inglês em carta ao Comendador Fideles Prates:
Usai, vos peço, nesta vespera de uma nova semeadura, a vossa bem conhecida influencia entre os vossos amigos, e dizei aos cultivadores do algodão que redobrem os seus esforços na nova plantação, porque pela colheita futura é que se diciderá definitivamente a importante questão se a provincia de S. Paulo pode ou não pode occupar uma posição positiva nos mercados de Manchester.104
Aos agricultores interessados, ele também procurou difundir noções sobre a técnica de cultivar o algodão herbáceo e publicou folhetos sobre a cultura do algodão.105 Essa política de difundir informações sobre o cultivo foi uma atividade constante da associação inglesa, mesmo após o fim da guerra norte-americana.
No plano internacional, empenhou-se em apresentar os algodões paulistas de boa qualidade na Exposição Internacional de Londres, de 1862, com o objetivo de mostrar os atributos do produto. Também foi intermediador entre Manchester Cotton Supply Association e órgãos brasileiros; em duas ocasiões, nos anos de 1862 e 1865, J. J. Aubertin solicitou à associação britânica que enviasse algodão herbáceo ao Ministério da Agricultura e à Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional.106 Em diferentes momentos enviou para a Inglaterra amostras do algodão paulista, em geral, com boas avaliações dos correspondentes.J. J. Aubertin arquitetou ações no Brasil ligadas aos interesses ingleses baseadas em informações colhidas por ele na província ou com base na experiência de nacionais e, principalmente, de norte-americanos, com o propósito de deixar claro as potencialidades de São Paulo e convencer os potenciais produtores paulistas. Para aqueles que mesmo assim estivessem em dúvida, ele escreve:
Deveras, já é tarde demais para duvidar do algodão de São Paulo; mas se ainda ha descrentes, apenas apello para os dous srs. Cultivadores que acompanhei, major Mereweather e dr. Shaw. Ambos elles me repetirão muitas vezes, que melhor algodão que aquelle que nos vimos não desejavão ver; que nas suas proprias plantações e com todos os seus meios perfeitos não costumavãoproduzir melhor. 107
Seus esforços renderam-lhe o reconhecimento da associação inglesa, que o condecorou com uma medalha de ouro, e o governo brasileiro honrou-o com o hábito da Imperial Ordem da Rosa. Nos veículos de informação brasileiros, nos quais tanto escreveu, vemos o reconhecimento de seus pares, como E. Hutchings, outro entusiasta da lavoura algodoeira em terras paulistas e intermediário entre a associação e o Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas:
Hoje, considerado, como um genero de exportação, o algodão, e sua cultura, é um dos factos estabelecidos na historia da provincia, e eu me aproveito desta occasião para patentear a gratidão que todos temos.Quem sabe, o que ha de mostrar-se nos anos que vem? Quasi todas as condições de prosperidade estão unidas nesta provincia; - Um clima sem rival, uma terra cheia de riquesa, e uma natureza, cuja uberdade é espantosa. Tudo isto aqui, e no outro lado do Oceano, a Inglaterra, offerece tudo quanto seja possivel afim de attrahir para lá, os productos da provincia, e com as devidas providencias, e constancia em trabalhar, tudo será possivel, e, sem esta, nada.Campinas, Mogy-mirim, Limeira e outros lugares vão caminhando na cultura do café, e o publico, bem como os particulares, são beneficiados. Parece que, para Sorocaba, resta ainda este outro manancial de prosperidade; - a cultura do algodão, e não ha homem ou natural, ou estrangeiro na provincia, que não abençoará a empresa.[...] Caminho da Luz, S. Paulo Agosto de 1865[...] E. Hutchings108
Evidentemente, tais esforços foram no sentido de produzir algodão adequado às necessidades da indústria inglesa. Foi estimulado o plantio da semente de Nova Orleans, em solicitação de uma circular da Manchester Cotton Supply Association109 e houve uma modificação na postura do produtor brasileiro: “O tipo de algodão tradicional no Brasil era o arbóreo mas o mercado consumidor passou a condicionar a produção ao tipo herbáceo dos 107 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo..., op. cit., p. 16.108 HUTCHINGS, E. “Aos Redactores do Diario de São Paulo”. Diario de S. Paulo, São Paulo, 11 agosto 1865, ano I, nº 10, p. 2. Em outras atividades, além do algodão: E. Hutchings foi um dos secretários da Comissão Julgadora de um concurso para criadores de animais pensado por J. J. Aubertin, tesoureiro do evento. O Comendador Fideles Nepomuceno Prates aparece como um dos Juízes. “Concurso industrial”. Correio Paulistano, Estados Unidos. As variedades mais procuradas eram a U[p. 161, 162]