Os tupinambás eram, como se sabe, uma das mais importantes greis ou tribus primitivas do Brasil (secs. XVI e XVII). Aos tupinambás estavam filiados quase todos os povos aborigenes do litoral, - os tamoios do trato costeiro entre a baía Formosa e a angra dos Reis; os tomiminós, ou temiminós, do Espírito-Santo, da margem esquerda do baixo Paraíba e do sul do Macucu; os tupiniquins, localizados no trecho que vaidas imediações de Vitória a Camamu, de onde migraram para as cabeceiras o Tieté; os caetés, que viviam entre o São Francisco e Itamaracá; os tabajaras, ou tob!ajaras, que imperavam no territorio encravado entre as lindes septentrionais da extinta capitania de Itamaracá e o rio Paraíba, de onde se transportaram para a serra de lbiapaba e o Maranhão; os petigul1res, ou potiguares, ou ainda pitiguaras, da região do rio Jaguaribe; e os guajajaras do vale do Pindaré.
DiziaVarnhagen 1 que, se alguem perguntasse a um indioa que "raça" pertencia, fosse esse índio do Maranhãoou do Pará, da Bahia ou do Rio de Janeiro, a resposta era invariavel - indio tupinambá. Tupinambáera, assim, como um nome geral, que se modificavalogo que havia o fracionamento do grupo. Os tamoios,por exemplo, segundo Hans Staden, chamavam-se. a siproprios tupinambás. Tal nome, no dizer de RodolfoGarcia, significava etimologicamente "a gente atinenteou aderente ao chefe dos pais," os "pais principais",ou melhor, os descendentes dos fundadores da nação,- o que vem colocar o termo no mesmo pé de igualdade do nome latino patricia. Todavia, os tupinambás propriamente ditos eram aqueles localizados nabaía da Guanabara, no trecho entre o Camamu e o[p. 10, 11]
rio Real, no baixo Paraguaçu, nas margens do SãoFrancisco (tais como os amoipiras), nas costas doMaranhão (acima da serra de lbiapaba), nas praiasdo Pará (do Gurupi ao Guajará) e na ilha de Tupinambarana, que atingiram já na epoca da colonização.Embora atualmente extintos, ou mesclados, 1 ostupinambás são os incolas sul-americanos entre nósmais conhecidos e estudados, conforme observa o proprio Métraux. Isso devido não só à extensão do grupo, como à sua localização geografica. O fato de ostupinambás ocuparem grande parte da zona litoraneafez com que esses povos estivessem em estreito contáto com os colonizadores portugueses e com as duas.expedições francesas ao Brasil. Entre esses colonizadores vieram alguns letrados, sobretudo sacerdotes, amantes das cronicas e memorias. algumas delasescritas quase que com o objetivo de tratar dos tupinambás.Julga Métraux que são tais as analogias existentes entre a civilização dos guaranis e a dos tupinambás que é bem possível que os dois grupos tivessemsido, outrora, cultural e linguisticamente homogeneos.Até nas mais diferenciadas greis tupicas vamos encontrar os traços culturais característicos dos tupinambás [p. 12]
(a maloca, a rêde, a mandioca amargosa, a tinguijada, a canoa de casca, a ceramica envernizada, o ralador, a tipoia de carregar crianças, õ moquem, o tipiti,o escabelo, as plumas coladas com almecega, o mantoe o boné de plumas, o abano de palha entrançada etantos outros mais)!.Em suma, os tupis da costa, principalmente ostupinambás, representavam, à semelhança dos hebreus,segundo uma frase feliz d~ João Ribeiro, o povo cosmogenico, ao qual estavam reduzidas todas as demaispopulações primitivas do país.Os tupi-guaranis, dos quais a familia tupinambáformava o maior estoque, constituíam, primitivamente,um só grupo, localizado, segundo a lição da etnografia classica, nas proximidades do istmo de Paraná, região dos caraíbas, de onde, rumando para o sul, foram ter .às margens do medio Paraná-Paraguai; dessenovo habitat, depois, empreenderam uma verdadeiraremigração, que tomou três principais direções: a) umdos ramos subiu o litoral e atingiu a foz do Amazonas; b) outro ramo estendeu-se para o noroeste; c)um terceiro ramo, enfim, desceu os cursos do Tapajoz, do Madeira e do Ucaiali.A migração litoranea, pelo menos, parece liquida,pois foi presenciada pelos proprios colonizadores; verifica-se, por outro lado, que as massas tupicas do sul(os guaranis) possuíam lingua mais primitiva e contracta, ao contrario do que ocorria com as massas tupicas do septentrião, cuja impureza atestava, na frase [p. 13]
A RELIGIÃO DOS TUPINAMBASINTRODUÇÃOConstituem o objetivo da presente obra as crençase ritos dos tupi-guaranis que, no seculo XVI e começos do segqinte, assenhorearam quase toda a extensãoda costa oriental do continente americano, desde a embocadura do Amazonas à foz do rio da Prata.Esses aborígenes, cuja lingua e civilização material apresentam uma profunda unidade, estavam divididos em numerosas nações, que se combatiamencarniçadamente. Muito embora cada uma dessasnações <>u tribus usasse seu proprio nome, eramtodas, geralmente, cha_madas de tupinambás. Na realidade, porém, tal designação, que semelhantes indígenas se davam a si mesmos, historicamente cabia apenas aos tupis estabelecidos no reconcavo do Rio dejaneiro, na região da Bahia e na província do Maranhão. Quis o acaso que fosse precisamente sobre essas três tribus tupinambás que possuíssemos o maiornúmero de documentos.
Apesar de sua total extinção, os tupinambás sepodem considerar os aborígenes sul-americanos, na atualidade, mais bem conhecidos. De 1499 aos meados do seculo XVII, aqueles silvícolas foram visitadospor inumeros viájantes e missionarios de diferentespaíses, que deixaram de sua vida e dos seus costumesrelatos extremamente fieis. Varios desses cronistasmostram notavel poder de observação e cuidadoso interêsse pela verdade, circunstâncias só reconhecidas nasobras dos sabios modernos. Estamos, pois, em condições muito favoraveis em relação ao estudo dos tupinambás.
Nossas melhores fontes informativas, no que concerne· .às idéias religiosas dos tupinambás, encontramse, sem nenhuma contradita, nos livros de Thevet, oqual, em 1550 e em 1554, fêz duas viagens ao Brasil (a): Esse "cosmografo", de consideravel erudição,não era, entretanto;- dotado de um espírito critico comparavel ao de varios dos viajantes dele contemporâneos. Mas é justamente essa deficiencia intelectualque torna excelentes as suas informações. A Thevetnada escapa e, como tudo lhe causa espanto, anota asmesmas particularidades, sem perceber as contradiçõesou absurdos das informações assim obtidas. A obraprincipal do referido frade, a Cosmografia Universal,é, infelizmente, devido à sua raridade, pouco conhecida. Desse modo, esforcei-me, no curso do presenteestudo, em extrair de tal obra tudo o que a .mesmacontinha de precioso na esperança de que semelhantesinformações pudessem aproveitar aos que venham a.consultá-la.Examinando, por indicação de Mauss, os originais ineditos de Thevet, existentes na Biblioteca Nacional de Paris, tive a felicidade de encontrar a copia de um livro manuscrito do referido cronista, qué,até hoje, vem escapando à atenção dos eruditos. Esse [p. 31, 32]
de pai dos dois irmãos Aricoute e Tamendonare, osprovocadores do diluvio. Note-se que o diluvio, causado por uma querela entre -aqueles manos, teve comoconsequencia, segundo se diz mais adiante, a morte deMaire-monan. Há, desse modo, uma relação entre ambos os mitos, que, provavelmente, são identicos. Devoconfessar, todavia, que essa verificação seria insuficiente para justificar tal identidade, se, nas cronicasportuguesas, Sommay, ou Sumé, não aparecesse inves-·tido das mesmas características peculiares a Mairemonan. O proprio Thevet tem vaga idéia do errocometido, ao distinguir os dois, pois estabelece entreambos liames de parentesco, fazendo do segundo umdescendente do primeiro.Existe outro dos grandes caraibas ou "profetas"no qual se pode reconhecer Maire-monan e, por consequencia, Sommay. E´ Maire-atá. Tambem este sótem lugar na cosmografia de Thevet 1 por sua situação de pai dos dois gemeos míticos. Depois de os.ter formado, Maire-atá abandonou a mãe e retirou-sea uma taba proxima do Cabo Frio, onde passava porum feiticeiro de muita autoridade, o qual, com o auxilio dos seus demonios familiares, tornou-se habil empredizer o futuro. Logo que seus dois filhos, apósinumeras vicissitudes, conseguiram encontrá-lo, o paiimpôs-lhes diversas provas, de que falarei mais adiante. Esses elementos do mito, referentes a Maire-atá,torná-lo-iarrt uma personalidade independente, se passagens de outros textos não fizessem dele um sinonimo de Sumé e do heroi-civilizador dos tupinambás. Aexemplo ·de outros herois-civilizadores, Thevet r ela [p. 45]
viajante ter fundido, em um só, diferentes mitos oudiferentes versões do mesmo mito, considerando comofiguras distintas o mesmo deus, cujo nome vem seguido de epitetos varios, ou muda em função das açõesa ele atribuídas.Os chipaias ainda hoje assim procedem, designando seu herm-ctvilizador, o demonio Kumãr;ári, sob quatro diferentes nomes, ou seja, ora Sekárika, "nosso vcriador", ora Semãwár;a, ora, enfim, Marusawa (quando é considerado pai dos gemeos). 1· Passando, agora, ao exame de outras fontes, verifica-se, em primeiro lugar, que se trata realmente deum só heroi-civilizador, que certos autores chamamSumé, Çumé ou Maire-Humane, ao passo que outros odesignam pelo nome de Maire-atá, ou simplesmenteMaire.
"Nossos pais (diz Yves d´Évreux, reproduzindo as palavras de um indígena, ensinaram, por tradição transmitida de bôca ém bôca, que apareceu, antigamente, um grande maratá de Tupã, isto é, um enviadode deus, que andou por suas terras, transmitindo-lhes o conhecimento de varias coisas. Foi esse maratá (g), por exemplo, que lhes deu a mandioca, que é a raiz com a qual se faz o pão (pois, até então, só se alimentavam nossos pais çom as raizes silvestres). É verdade que o maratá, ao perceber que os nossos avós não levavam em conta a sua palavra, resolveu afastar-se deles, deixando-lhes, entretanto, o testemunho de sua passagem, isto é, imprimindo na rocha, pormeio de sinais escritos, os seus ensinamentos, imagens diversas e a forma de seus pés, assim como o feitio dos pês dos que õ seguiam, gravados na parte inferior do mesmo rochedo. Tambem deixou o maratávestígios das pegadas dos animais, que conduzia consigo, 1 assim como os buracos deixados por seu bastão, sôbre o qual se apoiava ao marchar. Com oque, depois de assim proceder, atravessou o mar embusca de outros países, e, embora os nossos pais, arrependidos e convictos da sua santidade, o tivessemprocurado bastante, nunca mais. tiveram dele noticias.Pelo que, desde então, nenhum maratá de Toupan jámais ret;ornou a visitar-nos".
Diz Vasconcelos 2 que, segundo a -tradição corrente entre os tupinambás, haviam estes recebido, outrora, a visita de homens brancos, vestidos e barbudos,que "diziam coisas de um Deus, e da outra vida, umdos quais se. chamava Sumé, que quer dizer Tomé; eque estes não foram admitidos de seus antepassados,e se acolheram para outras partes do mundo; ensinando-lhes contudo primeiro o modo de plantar, e colher o fruto do principal mantimento de que usam, chamado mandioca" (h).
Os indios (escreve o padre Nobréga) s dizem "que S. Tomé, a quem eles chamam Zomé, passou por aqui, e isto lhes ficou por dito de seus passados e que suas pisadas estão sinaladas junto de um rio; as quais eu fui ver por mais certeza da verdade e vi, com os proprios olhos, quatro pisadas mui sinaladas com seus dedos, as quais algumas vezes cobre o rio quando en che; dizem tambem que quando deixou estas pisadasia fugindo dos indios, que o queriam frechar, e chegando ali se lhe abrira o rio e passara por meio dele · a outra parte sem se molhar, e dali foi para a India. Assim mesmo contam que, quando o queriam frecharos índios, as frechas se tornavam para eles, e os .matos lhe faziam caminho por onde passasse: outros contam isto como por escarneo. Dizem tambem que lhes prometeu que havia de tornar outra vez a vê-los" (i).
Tradição semelhante existia entre os tupis da região da Bahia: Santo Tomás (Sumé) tê-los-ia visi-.tado, ensinando-lhes a conhecer as virtudes da mandioca; mas os índios, em lugar de agradecer-lhe, quiseram devorá-lo. O santo, acossado contra o mar,teve, para salvar a vida, de dar um extraordinariosalto, indo cair na ilha da Maré e deixando, no localonde tomara o impulso, traços de seus pés. 1 Esseepisodio da vida do heroi-civilizador, tal como é relatado pelos dois missionarios acima referidos, constituiuma fiel variante da passagem de Thevet, 2 na qual omesmo conta a crescente hostilidade dos homens paracom Maire-monan e do artifício a que recorreram paraeliminá-lo. No texto de Thevet, o heroi, na iminenciada morte, é forçado a dar um salto. O motivo é identico, embora difiram sensivelmente os detalhes.O autor anonimo (j) da Informação do Brasil 3é induzido a erros devido aos dois nomes correntesdo heroi-civilizador: em lugar de ver em Çumé e Malrauma unica e mesma pessoa, aquele autor não só dis [p. 50, 51, 52]
Os tupinambás, interrogados por Acuiia1 a respeitoda situação das tribus circunvizinhas, falaram-lhe deÚma nação de anões, que viviam ao sul, assim como deoutra tribu de índios, cujos pés eram voltados para trás.Acufia atribuiu o fato a personagens fabulosos, que possuíam traços dos espíritos ou dos monstros florestais.Tais personagens, entretanto, de· pés invertidos, talveznão fôssem outros senão os Kurupira, que, como já seviu, são frequentemente representados dessa maneira.
Os chipaias são os únicos indigenas tupi-guaranis, modernos, entre os quais foi adotada a crença em Kurupira. Chamam-no Kururpira, e, em suas narrativas, figuram-no como um monstro antropófago, que, todavia,é facilmente logrado. 2 Os indios modernos (observe-sea proposito), .que, com a lingua geral, adotaram a crença em Kurupira, representam-no como um ogre, ao qual se pode escapar pela astucia.
Com Yurupari, Agnan e Kurupira não se esgota a nomenclatura demoníaca, de que tratam os antigos textos. Marcgrave3 cita ainda Macachera, de quell) traça rapidamente os atributos. "Macachera (diz) é o espírito das estradas, que marcha adiante do viajor (d). Os potiguares consideram-no o mensageiro de toda boa nova, ao contrario dos tupinambás, que vêem nele o inimigo da saude humana". É inutil dizer que o papel, conferido por Marcgrave aos espíritos, frequentemente está imiscuído de reminiscencias classicas, -sendo as suas informações, portanto, de relativo valor. Duas outras categorias- de espíritos são menciona das por ·cardim,´ os Ouaioupia e os Taguaigba. Mas [p. 128]
o barulho que fazem alguns pica-paus, eanndo o alimento pelostroncos, ruído que ecoa surdamente pelas matas, querem que sejatambem o curupira a causa dele. Dizem os credulos, quandoisso ouvem, que é o curupira com seu machado, feito de cascode jaboti (Tapajoz), que anda batendo pelas sapopemas das arvores, para ver se estão seguras e podem resistir às tempestades.No alto Amazonas dizem que bate com o calcanhar e, no baixo,em Obidos, que com o penis, que é de tamanho extraordinario"(Barbosa Rodrigues, o.c., p. 4).A etimologia da palavra curupira é muito controvertida. Onumen mentium de Marcgrave, traduz Mons. dr. José Procopiode Magalhães ( ed. do Museu Paulista, de 1942, p. 279) por "divindade dos desígnios". O autor do Vocabulario da Conquistaensina que curupira vemede curub (sarna) e pir (pele). Na giria existe, realmente, o vocabulo curupira- com o sentido de sarnento, leproso (cf. M. Viatti, Dicionario da Gíria Brasileira, p.112, São Paulo, 1945).( d) O trecho de Marcgrave é assim traduzido por Mons.dr. José Procopio de Magalhães: "Temem demasiadamente os espíritos maus, os quais chamam ... Macachera, divindade dos caminhos, guiando os viajantes. Os petiguares ornam o portadorda boa noticia; pelo contrario os tupiguais e os corios, o feiticeiro inimigo da saude humana" (o.c., ps. 278-219). Desse modo,Marcgrave não se refere aos tupinambás propriamente ditos, masaos tupiguais, tambem mencionados por Cardim ( o.c., p. 197),que Rodolfo Garcia supõe tratar-se dos mesmos potiguares. Corio/! é erro de revisão, por Caryo11 (como está no original). Aliás,carijó11.De acordo com Plin1o Ayro!a, Machacera !ignifica "coisaque abrasa, que queima". O fogo-fatuo. Cf. Teodoro Sampaio(o.c., p. 241), que o identifica com o bCUJtatá de Anchieta, -"coisa de fogo", "o que é todo fogo".(e) Trata-se de um lapso de Métraux. Cardim só fala deTaguaigba (Taguain na coleção Purchcu hi• Pilgrime1), que é, 1e- [p. 134]
Em 1549, os habitantes da ciqade de Chachapoyas, no Peru, aprisionaram trezentos selvagens, reconhecidos como sendo povos tupis do trato costeiro do Brasil. Tanto quanto o seu itinerario pode serreconstituído, através das informações contraditariasdas fontes, 1 esses indios, subindo o Amazonas, a partir da .sua embocadura, atingiram o rio .Maranhão; em seguida, remontando o Huallaga, teriam chegado a Chachapoyas. A narrativa, que fizeram da sua aventura, despertou profundo interesse no Peru; referiam-se os mencionados índios a uma região fabulosa, o reino dos omaguas, onde abundavam o ouro e as pedras preciosas. Essa descrição contribuiu, em larga escala, para a formação da legenda de El Dorado, queprovocou a tragica expedição de Pedro de Ursúa (1558).
A maioria dos cronistas, que relatam a migração em especie, assinalam como sua causa o insaciável desejo de guerras e aventuras, tão característico dos povos tupinambás. Segundo outros, o fato não passou de ,uma tentativa para escapar da dominação portuguesa. Gandavo , que viveu longos tempos na costa do Brasil e conhecia muito bem a mentalidade e as crenças desses silvícolas, é o único a indicar a sua verdadeira razão. Segundo esse autor, o feiticeiro Viaruzu e seus companheiros teriam partido com o objetivo de encontrar a terra da "imortalidade e do descanso perpetuo".
A migração teve lugar de este para oeste. A escolha da diretriz corresponde, provavelmente, a uma concepção particular da situação da"terra sem mal". Perdendo a esperança de atravessarem o oceano, a cujas margens se tinham estabelecido há tantos anos, o feiticeiro revelador do mundo ideal persuadiu-se, sem duvida, de que deveria procurá-lono rumo do oeste. Fato idêntico se passou nos dias atuais: um dos feiticeiros apapocuvas, que conduzira esses índios até as bordas do Atlântico, dando-se conta da impossibilidade de franquear o obstaculo, não hesitou em retomar o caminho, atribuindo o fracasso a uma falsa interpretação das lendas tradicionais e aderindo, assim, aos partidarios da teoria da localização da "terra sem mal" no amago da terra.
Os dirigentes das duas outras migrações místicas, das quais fazem menção os antigos autores, permaneceram fieis à opinião geral referente ao local da Yvýmarãeý. A primeira dessas migrações teve lugar aoexpirar o seculo XVI. Claude d´ Abbeville, que deixou o relato do acontecimento, não lhe explica os fins: os oito ou dez mil indios, cujas aventuras narra, deixaram em massa a região de Pernambuco afim de acompanhar certo feiticeiro português ( ?), que havia conseguido assenhorear-se da personalidade e dos atributos dos "caraibas". "A fadiga de tão longa e penosa caminhada (conta Claude d´ Abbeville) 2 não parecia existir para esses pobres retirantes, tanto era a admiração tributada ao condutor da caravana: seu renome
prio essa migração, completando a bibliografia de Jiménez dela Espada. Cf. Métraux (1), ps. 21-22.2 P. 148: "E seu intento nam seja outro senam buscarsempre terras novas, afim de lhes parecer que acharão nellasinmortalidade e descanço perpetuo". [p. 343, 344]
foi publicada a segunda edição na língua inglesa. Pouco depois, em 1848, o relato foi publicado em língua alemã em Dresden e Leipzig, atual Alemanha.A edição em português ocorreu em 1942, na Coleção Brasiliana, intitulada Viagens no Brasil: principalmente nas províncias do norte e nos distritos de ouro e do diamante durante anos 1836-1841, da Companhia Editora Nacional.No ano de 1856 foi publicado o relato Life in Brazil; or, a journal of a visit to the land of the cocoa and the palm de Thomas Ewbank ela Harper & Brothers, Nova York, sendo lançada também na Inglaterra. Nos Estados Unidos houve uma edição em 2005.No Brasil, o relato em português foi publicado com o título A vida no Brasil: ou Diário de uma visita ao país do cacau e das palmeiras, em 1973, pela editora carioca Conquista, em dois volumes.O relato de Henry Walter Bates foi publicado em 1863, em dois volumes, com o título The naturalist on the River Amazons, a record of adventures, habits of animals, sketches of Brazilian and Indian life, and aspects of nature under the Equator, during eleven years of travel by Henry Walter Bates, em Londres pela John Murray. A segunda edição ocorreu um ano depois, com supressão de algumas partes pelo autor, seguida por mais de dez edições na língua inglesa em Londres e nos Estados Unidos. No Brasil O naturalista no Rio Amazonas foi editadoem 1944 pela Editora Nacional.
Em 1869, Richard Burton publicou a primeira edição de Explorations of the Highlands of the Brazil; with a full account of the gold and diamond mines. Also, canoeing down 1500 miles of the great River São Francisco, from Sabará to the Sea by Captain Richard F. Burton, F.R.G.S., etc., em Londres por Tinsley Brothers, em dois volumes. A obra recebeu destaque em finais do ano passado e foi publicada em Nova York no centenário da primeira edição, e nos últimos dezesseis anos teve três edições nos Estados Unidos.
No Brasil, a primeira edição de Viagens aos planaltos do Brasil: 1868, em três volumes,ocorreu no ano de 1941 pela Companhia Editora Nacional, que publicou a segunda edição em 1983. Houve uma edição em 2001 pelo Senado Federal intitulada Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho, volume único.
Em São Paulo, a Tip. Allemã de H. Schroeder publicou Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gaston e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba de John James Aubertin no ano de 1866.
Nesse mesmo ano foi traduzido para o inglês pelo autor e publicado em Londres pela Bates, Hendy & Co. com o título Eleven day’s journey in the Province of Sao Paulo, with the [p. 10]
Outro ponto, o parâmetro comparativo do algodão brasileiro e do norte-americano. A produção dos Estados Unidos figura como indicadora de qualidade e produtividade, em vista do país ter sido o maior fornecedor do mundo, e é trazida pelos viajantes quando desejam estimular a produção no Brasil, em especial, utilizando dados fornecidos por conhecedores do ramo.Nesse sentido, Richard Burton traz as considerações de um renomado pesquisador da cultura algodoeira, Major R. Trevor Clarke96 para quem “Aqui [no Brasil] o algodão tem mais penugem que o habitual; 600 quilos darão 250 de fibra limpa, ao passo que no Alabama são necessários 750 quilos. Em geral, o replantio do arbusto é feito em seu quarto ano”.97 E J. J. Aubertin traz a experiência dos americanos sulistas Dr. Gaston, Dr. Shaw e Major Mereweather, a quem ele acompanhou durante a passagem deles pela Província de São Paulo:Eramos cinco pessoas. Tres Americano sulistas, dr. Gaston, dr. Shaw e o major Mereweather, que ião fazer sua viagem prolongada, na exploração de districtos um pouco remotos, sob a direcção do sr. Engenheiro Bennaton, para esse fim nomeado; e, sendo informado dos seus preparativos, logo me aggreguei a elles, não menos por sympatia para com a antecipada immigração americana, como tambem pelo desejo de visitar em sua companhia algumas plantações de algodão, e tirar algumas instrucções de sua experiencia pratica, a respeito de uma cultura que, sendo hoje estabelecida na província, não póde deixar de influil-os cabalmente na resolução que definitivamente tenhão que tomar.98Durante a permanência na província paulista, o grupo visitou a região de Itu, Salto, Porto Feliz e Sorocaba, daí J. J. Aubertin seguiu para a capital paulista e eles continuaram viagem com destino à Itapetininga. As observações de diferentes aspectos da lavoura algodoeira e o processamento do algodão fizeram os norte-americanos considerarem o clima paulista adequado à produção e benéfico o fato de não haver mudanças bruscas na temperatura, como a ocorrência de geadas, possibilitando maior tempo de conservação do algodoeiro.99Esses dados são agregados por J. J. Aubertin àqueles fornecidos por produtores paulistas de que “emquanto o alqueire norte-americano, dando bem, produz de cem até cento e dez ou talvez 96 Richard Trevor Clarke (1813-1897) – “Army officer and horticulturalist. Major in the Northampton and Rutland Infantry Militia, 1862. Bred nearly thirty new varieties of begonias and many new strains of cotton. Awarded a gold medal by the Cotton Supply Association of Manchester. Member of the Royal Horticultural Society; served on the council and scientific committee for many year; awarded the society’s Veitchian medal, 1894”. BURKHARDT, Frederick et al (Ed.). Charles Darwin. The Correspondence of Charles Darwin (1866). Cambridge: Cambridge University, 2004, p. 502, vol. 14.97 BURTON, Richard Francis. Viagem de canoa de Sabará ao Oceano Atlântico..., op. cit., p. 29. [nota 3]98 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gastón e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba. São Paulo: Typ. Allem[p. 159]
Os esforços de J. J. Aubertin devem ser compreendidos dentro desse contexto, em que ele se coloca como defensor da produção algodoeira paulista e atua em diferentes direções. No Brasil, escreveu para diversos periódicos nacionais e correspondeu-se com diferentes figuras da política brasileira para lhes solicitar o envolvimento com a lavoura algodoeira capaz de colocar São Paulo em posição favorável no mercado inglês, tal como fez o inglês em carta ao Comendador Fideles Prates:
Usai, vos peço, nesta vespera de uma nova semeadura, a vossa bem conhecida influencia entre os vossos amigos, e dizei aos cultivadores do algodão que redobrem os seus esforços na nova plantação, porque pela colheita futura é que se diciderá definitivamente a importante questão se a provincia de S. Paulo pode ou não pode occupar uma posição positiva nos mercados de Manchester.104
Aos agricultores interessados, ele também procurou difundir noções sobre a técnica de cultivar o algodão herbáceo e publicou folhetos sobre a cultura do algodão.105 Essa política de difundir informações sobre o cultivo foi uma atividade constante da associação inglesa, mesmo após o fim da guerra norte-americana.
No plano internacional, empenhou-se em apresentar os algodões paulistas de boa qualidade na Exposição Internacional de Londres, de 1862, com o objetivo de mostrar os atributos do produto. Também foi intermediador entre Manchester Cotton Supply Association e órgãos brasileiros; em duas ocasiões, nos anos de 1862 e 1865, J. J. Aubertin solicitou à associação britânica que enviasse algodão herbáceo ao Ministério da Agricultura e à Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional.106 Em diferentes momentos enviou para a Inglaterra amostras do algodão paulista, em geral, com boas avaliações dos correspondentes.J. J. Aubertin arquitetou ações no Brasil ligadas aos interesses ingleses baseadas em informações colhidas por ele na província ou com base na experiência de nacionais e, principalmente, de norte-americanos, com o propósito de deixar claro as potencialidades de São Paulo e convencer os potenciais produtores paulistas. Para aqueles que mesmo assim estivessem em dúvida, ele escreve:
Deveras, já é tarde demais para duvidar do algodão de São Paulo; mas se ainda ha descrentes, apenas apello para os dous srs. Cultivadores que acompanhei, major Mereweather e dr. Shaw. Ambos elles me repetirão muitas vezes, que melhor algodão que aquelle que nos vimos não desejavão ver; que nas suas proprias plantações e com todos os seus meios perfeitos não costumavãoproduzir melhor. 107
Seus esforços renderam-lhe o reconhecimento da associação inglesa, que o condecorou com uma medalha de ouro, e o governo brasileiro honrou-o com o hábito da Imperial Ordem da Rosa. Nos veículos de informação brasileiros, nos quais tanto escreveu, vemos o reconhecimento de seus pares, como E. Hutchings, outro entusiasta da lavoura algodoeira em terras paulistas e intermediário entre a associação e o Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas:
Hoje, considerado, como um genero de exportação, o algodão, e sua cultura, é um dos factos estabelecidos na historia da provincia, e eu me aproveito desta occasião para patentear a gratidão que todos temos.Quem sabe, o que ha de mostrar-se nos anos que vem? Quasi todas as condições de prosperidade estão unidas nesta provincia; - Um clima sem rival, uma terra cheia de riquesa, e uma natureza, cuja uberdade é espantosa. Tudo isto aqui, e no outro lado do Oceano, a Inglaterra, offerece tudo quanto seja possivel afim de attrahir para lá, os productos da provincia, e com as devidas providencias, e constancia em trabalhar, tudo será possivel, e, sem esta, nada.Campinas, Mogy-mirim, Limeira e outros lugares vão caminhando na cultura do café, e o publico, bem como os particulares, são beneficiados. Parece que, para Sorocaba, resta ainda este outro manancial de prosperidade; - a cultura do algodão, e não ha homem ou natural, ou estrangeiro na provincia, que não abençoará a empresa.[...] Caminho da Luz, S. Paulo Agosto de 1865[...] E. Hutchings108
Evidentemente, tais esforços foram no sentido de produzir algodão adequado às necessidades da indústria inglesa. Foi estimulado o plantio da semente de Nova Orleans, em solicitação de uma circular da Manchester Cotton Supply Association109 e houve uma modificação na postura do produtor brasileiro: “O tipo de algodão tradicional no Brasil era o arbóreo mas o mercado consumidor passou a condicionar a produção ao tipo herbáceo dos 107 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo..., op. cit., p. 16.108 HUTCHINGS, E. “Aos Redactores do Diario de São Paulo”. Diario de S. Paulo, São Paulo, 11 agosto 1865, ano I, nº 10, p. 2. Em outras atividades, além do algodão: E. Hutchings foi um dos secretários da Comissão Julgadora de um concurso para criadores de animais pensado por J. J. Aubertin, tesoureiro do evento. O Comendador Fideles Nepomuceno Prates aparece como um dos Juízes. “Concurso industrial”. Correio Paulistano, Estados Unidos. As variedades mais procuradas eram a U[p. 161, 162]