BARTOLOMEU BUENO da Silva, estigmatizado com a alcunha de Anhanguera, inscreve-se na galeria dos mais teríveis cabos de tropa do bandeirismo paulista. Poucos o terão suplantado nas crueldades praticadas contra o selvagem. Não contente apenas em fazer com que seus prisioneiros desfilassem pelos povoados, marcava-os a ferro em brasa, queimando-lhes a epiderme bronzea, na convicção possivelmente de que tratasse com irracionais (1).Possula Anhanguera a audácia e a manha dos grandes preadores. Sabia, ora insinuante e mateiro, ora agressivo e brutal, conforme se lhe apresentasse a ocasião, “convencer” o gentio, que só mais tarde daria pelo embuste. “Entre as tribos golanas, afora os escravos que apresou e que daria (...) para povoar uma cidade, deparou-se igualmente ouro ao sertanista audaz, a quem os índios o revelaram, amedrontados pela ameaça de serem queimados os seus rios, como o paulista fizera à cachaça, que antes êle pusera a arder numa escudela” (2).Ocorre indagar: por que motivo, tendo recolhido amostras de ouro, tão ardilosamente subtraídos à credulidade do nativo, Anhenguera não voltou mais ao local´ das minas?É provável que o bandeirante, esbanjando prôdigamente o cabedal que conseguira acumular, se visse à braços com dificuldades insuperáveis que o impediram de concretizar a iniciativa esboçada. Observa um cronista “Falto de recursos para meter mão como chefe à novas tentativas, e dotado de espírito sôbre maneira elevado para querer figurar como subalterno, o nosso aventureiro jazeu emociosidade...” (3).De qualquer maneira, porém, sua expedição, realizada por volta de 1673, serviu de prólogo para a conquista posteriormente efefuada por seu filho Bartolomeu Bueno da Silva Filho, participando da jornada em que o pae verificava a existência de ouro na região habitada pela tribo Goiá, associa-se João Leite da Silva Ortiz, Domingos Rodrigues do Prado e Bartolomeu País de Abreu (êste o grande incentivador do movimento), disposto a formar uma poderosa bandeira (1720).A petição em que solicitam ao monarca luso imprescindível consentimento para organização da entrada se faz acompanhar de entusiástica recomendação do Senado da Câmara de São Paulo, órgão francamente a serviço do bandeirismo. O govêmo metropolitano, seduzido naturalmente pelo provável êxito da emprêsa, aprova sem maior formalidade o plano que lhe é apresentado.Rodrigo Cezar de Meneses, então capitão general de São Paulo, suficientemente instruído por Lisboa, facilita e incentiva extraordinãriamente a empreitada. Organizada a bandeira, cuja composição compreendia portuguêses, mamelucos, índios e negros, num total de mais de duas centenas de pessoas; e assegurados aos chefes as vantagens e privilégios requeridos, parte rumo ao sertão uma verdadeira cidade ambulante (3 de julho de 1722).Seu itinerário ainda não está esclarecido, embora não poucos se arvorem em afirmar o contrário. As referências geográficas constantes dos roteiros redigidos por integrantes da bandeira são vagas e imprecisas, portanto os toponímicos usados à época não se afinam com denominações posteriores.E possível que a expedicão haja feito o trajeto quese segue.Até ao rio Paranaíba nãohouve grandes dificuldades,já que a bandeira pelmilhavaregiões razobvelmente fre-juentadas por sertanistas ewentureiros. Após atraves-sarem o curso dágua mencio-snado, os homens de Anhan-guera alcançam Jocalidadespróximas ao ponto aondehoje se levanta Prasília“Nesta ocasião demos emjumas grandes chapadas fal-tas de todo o necessário semmatos, nem mantimentos, sósim com bastante córregos,Jem que havia algum peixe,dourados, traíras, (...) que"foram todo o nosso remédio,achamos também algum pel-“mito, do que chamam jagua-roba...” (4).Do planalto central, de-pois de marchas e contra-marchas, fome, sêde, escara-muças com índios, doenças,mortes, penetram os aventa-reiros em terras da bacia doTocantins, por onde divagamdias e dias.Informado, a essa altura,das proximidades do rio Ma-ranhão, resolve 0 alferes Jo-Informado, a essa altura,das proximidades do rio Ma-ranhão, resolve o alferes Josó Peixoto da Silva Braga,acompanhado algunsamigos e moído de máguas eressentimentos, a “rodar rloabaixo buscando elgumaterra já povoada por nãoperecer a fome e aédo, nomeio daqueles matos” (5).Não é impossível que daí,largando & ia tocantínicae deixando à direita a regiãodos índios Goiá (que procu-rava), após transpor os cur-sos superiores dos Rio dosBois e Turvo e atravessaruma ponta do Mato Grossode Goiás, haja a bandeiraatingido os vales dos rios Pi-lões e Claro.Permitimo-nos agora, ten-tando decifrar as “charadas”(6) do roteiro de Urbano doCouto, levantar conjeturassôbre a trajetória da bandei-ra na zona oeste, cujas “ter-ras medeiam com a Comar-ca de Cutabá” (7). O proble-ma, até o momento, não obs-tante as diversas versõesanresentadas. continua semsolução. Uma nova tentativa,mesmo se se frustrar por es-ta ou por aquela circunstân-cia, não fará diferença.Referentemente ao rio queUrbano do Couto deromi-nou Pasmados, muitas vêzesidentificado como sendo oClaro (afluente do Paransí-tratar-se do rio Formoso,pelo fato de haver, nas vizi-nhanças de suas nascentes,um bloco rochoso semelhan-tíssimo a uma “galera semmastros” (8), que se parecegrandemente também comuma gigantesca galinha ani-nhada em pleno deserto, Orio Formoso nasce “na divi-são das águas em campolimpo, é por éle corre para oSul e se mete no Rio Gran-de... (9). (O rio em ques-tão lança-se indiretamenteno Paranaíba, via Rio Ver-dão e Rio dos Bois). Em to-do o seu curso não existenenhuma elevação. Serpen-teia calmamente pela planf-cle sedimentar. Alogar-se-todavia, que o curso d´águaem referência figura em nos-sas cartas geográficas comomero ribeirão. A verdade,no entanto, é que o volumede suas águas equivale per-feitamente aos volumes daságuas do Turvo, do Claro edo Pilões, considerados emseus cursos superiores e mé-dios.Basílio de Magalhães es-vre: “Spix e Martius (..)referem-se à expedição de1816, feita pelo capitão JoséPinto, que partiu de VilaBoa, em Golás, afim deachar um caminho fluvialpara São Paulo. Tendo em-
Sobre o Brasilbook.com.br