Memória Paulistana: Os antropônimos quinhentistas na vila de São Paulo do Campo
1992 Atualizado em 20/12/2025 22:49:56
Situado, assim, em seu contexto, esse homem deveria carregar consigo, para onde se deslocasse, toda a mística de um mundo ordenado teocentricamente. A colônica d´além mar conheceu tal identificação; a frota de Martim Afonso era, por certo, composta por alguns homens que comungavam tais interesses:
os Góis (Pero, Luís, Scipião), os Adornos (Francisco, Antonio e Paulo Dias Adorno), os Cubas (João Pires Cubas, Brás e Antonio Cubas, Francisco e Gonçalo Nunes Cubas), os Lemes (Antão e Pedro), os Pintos (Rui, Francisco e Antonio), os irmãos Jerônimo e Domingos Leitão, Diogo Rodrigues, Baltazar Borges, Brás Esteves ou Teves, Antonio de Oliveira, Antonio Rodrigues de Almeida, Antonio de Proença, Jorge Pires, Jorge Ferreira, Pero de Figueiredo, Cristovam Monteiro, Cristovam de Aguiar de Almeida, Pedro Colaço. [página 114]
Frei Gaspar(5) e Pedro Taques são omissos quanto à descendência de Pero de Góis. Falam que seu irmão Luís, morador em São Vicente, trouxera para o porto a mulher, Catarina de Andrade e Aguilar e o primogênito Scipião, mas af não tendo ficado por muito tempo, o casal partindo com a armada de Pero de Góis (1553) e o filho aventurando-se no Paraguai. Gabriel, o terceiro irmão, ficou, entretanto, na capitania, administrando o engenho da Madre de Deus e dele devem provir alguns dos Góis que aí existiram. Há, porém, o lado feminino do tronco, representado por Cecília de Góis, filha de Luís e Catarina, que dizem casada com Domingos Leitão, "fidalgo da Casa Real", e sócio do engenho mencionado; não ficaram também na colônia, voltando para o reino, mas, antes, doaram parte da propriedade à sobrinha Isabel Leitão, casada com Diogo Rodrigues, também da caravana afonsina, e sócio de José Adorno na sesmaria entre São Vicente e São Sebastião.
Destes Leitões, as honras parecem ficar com Jerônimo, "o mais ativo guerrilheiro de índios do século XVT", na vila de São Paulo. Capitão Mor e Governador de São Vicente (1572), chefiou bandeira contra Os carijós no sul, em incursão por mar, conseguindo envolver na empreitada grande parte dos moradores do Campo. Deixou filhos, dos quais a quarta se casou com Antonio Pedroso de Barros, "pessoa dequalificada nobreza" para Pedro Taques, vinda de Portugal com o irmão Pedro Vaz de Barros, diretamente para o porto. Chegaram ambos com provisões régias, Antonio indicado para Capitão Mor Governador da Capitania de São Vicente e São Paulo, e Pedro, Ouvidor, o qual, em inícios do Seiscentismo, " pela sua grande autoridade e merecimento de sua pessoa fora encarregado de governar a gente da vila de S. Paulo e seu termo". Não cita o cronista a descendência de Antonio, mas os PedroSos seguramente permaneceram em São Paulo através dos filhos do Ouvidor Pedro, frutos de sua união com Luzia Leme, membro de outro clã importante na genealogia paulistana.
Examinando-se a nomenclatura da família, verifica-se o que se afir-mara em oportunidade anterior: os nomes dos país e tios se repetemnos filhos e sobrinhos, complicando a rede onomástica e tornando di-fícil distinguir uns dos outros. Assim, Antonio Pedroso de Barros, ouo Velho ou o Primeiro — formas de chamamento empregadas pelaAntroponímia para diferençar nomes idênticos — ocorre no nome dosegundo filho de Pedro que, por sua vez, tem o nome repetido no quar-to descendente, e que vai aparecer novamente na geração seguinte; oapelido Pedroso, do tio, caracteriza o terceiro filho de Pedro, LuizPedroso de Barros e o sétimo, Hyeronimo Pedroso, da mesma linhagem.Outros dois irmãos, quinto e sexto filhos, Fernão e Sebastião, intro-duzem a fórmula Paes de Barros,herdada da mãe, Luzia Leme, filha de5 MADRE DE DEUS, Frei Gaspar da. Memórias para a história da Capitania de S. Vicente,S. Paulo, Public. comemorat. sob o alto patroc. da Com. do IV Centenário da Cidade deS.Paulo, Bibl. Hist. Paulista, 111, 1953,[p. 115]
Lucrécia Leme(6) e Fernão Dias Paes, de onde vem o Paes que sejuntou ao Barros de Pedro Vaz; donde o novo ramo a partir daí, distin-to antroponimicamente de Vaz de Barros ou de Pedroso de Barros oude Barros, simplesmente, que são os apelidos característicos da famíliado Ouvidor de São Paulo.
Os Cubas, Brás, Gonçalo, Antonio e Francisco, foram filhos deJoão Pires Cubas, nobre português da cidade.do Porto, também vindona armada de Martim Afonso diretamente para São Vicente. É fora dedúvida que a presença de Brás Cubas dominou todo o cenário da ma-rinha nos primeiros anos quinhentistas. Imediatamente à chegada aoBrasil, recebeu do Capitão Mor a sesmaria de Piratininga (10 de ou-tubro de 1532), donde sua ligação com o Planalto.
Depois, em 1536, as terras da sesmaria de Geribatiba, "fronteiras a Engaguaçu", que chegavam, para alguns, até o Piqueri, com uma ilha que levou o nome dosesmeiro, também chamada do Barnabé. Brás Cubas é considerado o fundador da vila de Santos, então porto da ilha de São Vicente, ao criar, em 1543, a capela de Nossa Senhora da Misericórdia e o hospital de atendimento aos navegantes, ou de Todos os Santos, origem das Misericórdias brasileiras, à semelhança das que havia em Portugal.
Como retribuição, foi nomeado para o cargo de Capitão Governa-dor da Capitania, ao lado de outras honrarias com que foi distinguido(Provedor e Contador das Rendas e Direitos da Capitania, em 1551,Provedor e Contador das Rendas, Capelas, Confrarias, Albergarias eGafarias de São Vicente, em 1563).(7) Guerreiro, participou da defesada vila de São Paulo contra os ataques de 1562 e, como sertanista, or-Banizou a bandeira exploratória de minérios, integrada, entre outros,por Luiz Martins, que encontrou ouro talvez em Jaraguá. Este LuizMartins teve, por sua vez, participação na primeira Ata da Câmara deSão Paulo que se conhece, como procurador do conselho, ao lado deoutros nobres camaristas, Antonio Mariz, juiz ordinário, Jorge Morei-ra, Diogo Vaz Riscado, Garcia Roiz (Rodrigues), vereadores. Foi tam-bém alcaide e almotacel em 1563, e Nuto Sant´Anna, querendo eviden-ciar-lhe o prestígio, destaca o fato de ter hospedado em sua casa a JoãoRamalho, em 1564, que era o "homem de maior ´ popularidade e poderiodurante mais de cinquenta anos do século XVI" (8)O irmão de Brás, Antonio, foi juiz ordinário e administrador daFazenda do Piqueri, onde havia a capela de Santo Antonio, uma dasmais antigas da vila, Nuto Sant´Anna diz que chegou à vila vindo daBorda do Campo; em 1575, seu nome figura como vereador ao lado de6 LEME, Pedro Taques de Almeida Paes. Ibidem, HI, p. 200 € 202.Rice icaS mare Arda Leni buanináe aaiz de toViancosócios do engenho S. Jorge dos Erasmos, de acordo com Frei Gaspar Co PÉ Ator7 FRANCO, Francisco de Assis Carvalho. Ibidem, p. 22-23.8 SANT´ANN, A iiVir O RAbdo de siso Ao RES IEmDAS Ao Alemao sto ei de vim.[p. 116]
Lemes do Prado, ou seja, Mateus, Pedro e João Leme do Prado. Mas aquinta filha de Leonor e Brás Esteves, Lucrécia Leme, doadora dessatipologia antroponímica à primeira filha do irmão Pedro, veio a secasar em São Vicente com um tio, Fernão Dias Paes(15), português deAbrantes, iniciando-se aí o tronco paulista dos Paes Leme, de notóriasignificação para o Planalto, ainda que este Fernão Dias não tenha suaorigem no campo vinculada à viagem afonsina. Constituiu-se, porém,em "uma das pessoas de maior respeito" da vila, vindo a ser proprie-tário de grande gleba nos Pinheiros. Como camarista, foi vereador em1588 e 1592, juiz em 1590 juntamente com Antonio Preto e Antonio deSaiavedra, Do assentamento dos sete filhos, ocorre o registro de fór-mulas antroponímicas diversas, originárias de apelidos ou sobrenomessobrepostos mas que formaram descendência a partir dessa base ono-mástica instável; assim, Isabel Paes, Leonor Leme, Fernão Dias Paes,Pedro Dias Paes Leme e Luiz Dias Leme são as combinatórias conhe-cidas., O filho do povoador, Fernão Dias Paes, repete o nome do pro-genitor; casado com Catarina Camacho, dele disse Pedro Taques tersido " potentado pelo domínio que teve em um grande número de índiosque fez baixar do sertão com o poder de suas armas; e. ´fandou a populosaaldeia chamada de Imboha (Embu) que, depois (...) cederam aos padresjesuttas do Colégio de São Paulo ", tornados "herdeiros dos seus bens"e "estabeleceram jazigo para serem sepultados nele, como assim severificou ".(16) É fácil, como se vê, confundirem-se pais e filhos que seidentificavam não apenas nos nomes mas até na posse das terras, umem Pinheiros, outro no Imboú, as duas glebas na mesma zona do sertão,a oeste e sudoeste da vila.O irmão de Fernão Dias Paes, Pedro Dias Paes Leme, casou-se comMaria Leite, filha do capitão Paschoal Leite Furtado e de Isabel doPrado. A referência interessa a esta pesquisa à medida que, da descen-dência de nove filhos de Pedro Dias, destaca-se o primogênito, Fer-nando (=Fernão) Dias Paes, conhecido como Governador dasEsmeraldas. Se este Fernão Dias incorpora e consagra a fórmula an-troponímica do tio e avó, seus irmãos repetem apelidos de ascendentespróximos ou mais distantes: Leite Dias (Paschoal), Dias Leite (Pedro€ Verônica), Leite da Silva (João e Sebastiana), Dias (Maria), Paes daSilva (Isabel), Leite (Potência). Nove filhos, sete combinatórias pos-Síveis no ramo de Pedro Dias Paes Leme, viáveis apenas por estaremdentro da elástica composição da antroponímia portuguesa.Taunay resume da seguinte maneira o entroncamento familiar deFernão Dias, o Moço, nascido em 1608:
"tinha, como dissemos, bisavó brasileira, a vicentina Felipa Vicente. E um bisavô grande bandeirante, João do Prado, o famoso entradista, emigrado para o Brasil em 1531, com Martim Afonso de Sousa e falecido no sertão em 1597, no arraial do Capitão Mor João Pereira de Souza Botafogo (...). Pelo avô materno, o açoriano Paschoal Leite Furtado, genro de João do Prado(...). Dois tios paternos seus haviam chegado até à opulência. Vinham um a ser Fernão Dias Paes(... .) senhor da (...) aldeia de Imbohu (...). O outro, Luiz Dias Lemes, estabelecido no litoral, vivia como verdadeiro magnata". (17)
Era primo-irmão dos sertanistas Luiz Pedroso de Barros, morto no Peru, em 1662, de Sebastião Paes de Barros, morto em 1674, no Alto Tocantins, de Valentim de Barros, oficial de retirada do Cabo de S. Roque, de Jerônimo Pedroso de Barros, combatente em Mbororé (RS), 1641, de Antonio Pedroso de Barros, companheiro de Antonio RaposoTavares e de Pedro Vaz de Barros, e Fernão Paes de Barros.
De Fernão Dias, a atuação como sertanista e descobridor de minasquase obscurece a de homem público, documentada, por exemplo, emcartas régias citadas por Taques.(18) Taunay, diz que ele não esteve noGuairá com Raposo Tavares, sem descartar de todo a possibilidade,mas aponta o ano de 1638 como o de seu aparecimento no bandeirismo.Em 1639, era Capitão das Ordenanças da vila de São Paulo, época emque o litoral paulista foi visitado por naus holandesas; logo acorreupara defendê-lo, inclusive com recursos próprios. Tempos difíceisesses para São Paulo: brigas internas entre duas de suas melhores fa-mílias, os Taques (um deles cunhado de Fernão Dias) e os Camargos;o episódio da expulsão dos jesuítas, cujo manifesto, para Taunay, nãoteria sido assinado por Fernão Dias, muito embora o fosse Por outrosde sobrenomes ilustres, o que teria certamente pesado na decisão: Fer-nando de Camargo, Garcia Rois (Rodrigues) Velho, Matheus Grou,Antonio Bicudo (de Mendonça), Dom Francisco de Lemos, Pedro Vazde Barros, Antonio Pedroso de Barros, Balthazar de Godoy Moreira,os irmãos Toledo Rendon. Mais tarde, treze anos depois, foi um dosque mais lutaram pela reintegração dos inacianos à vila. Em 1651, eraJuiz ordinário da Câmara: "Da leitura das Atas numerosas de 1651,tira-se a conclusão de quanto conscienciosamente cuidou Fernão DiasPaes do bom andamento das coisas do bem público, tratando do aprovi-sionamento de carnes e vinhos, das entradas ao sertão, das cousas daalmotaçaria, ete".(19) O episódio da bandeira do Sabarabussu, embusca das esmeraldas, foi dissecado em seus pormenores não só porTaunay mas por outros estudiosos, aos quais se remete; os dissaboresda empresa vivificam-se, contudo, na narrativa em que se depreendeque, destituído da ajuda oficial, abandonado à própria sorte, o serta-15 LEME, Pedro Taques de Almeida Paes. Ibidem, III p. 52.16 Idem. Toidem, Ill p. 53,120 Rev. inst. Est. Bras., SP, 33:112- 127, 199217 TAUNAY, Afonso E. À grande vida de Femão Dias Paes. São Paulo, Typograf. DiarioOficial, 1931. p. 14-15,18 LEME, Pedro Taques de Almeida Paes. Ibidem, Ill p. 62.19 TAUNAY, Afonso E. Ibidem, p. 53.Rev. Inst. Est Bras., SP, 33:112—127, 1992 121[p. 120, 121]
foi publicada a segunda edição na língua inglesa. Pouco depois, em 1848, o relato foi publicado em língua alemã em Dresden e Leipzig, atual Alemanha.A edição em português ocorreu em 1942, na Coleção Brasiliana, intitulada Viagens no Brasil: principalmente nas províncias do norte e nos distritos de ouro e do diamante durante anos 1836-1841, da Companhia Editora Nacional.No ano de 1856 foi publicado o relato Life in Brazil; or, a journal of a visit to the land of the cocoa and the palm de Thomas Ewbank ela Harper & Brothers, Nova York, sendo lançada também na Inglaterra. Nos Estados Unidos houve uma edição em 2005.No Brasil, o relato em português foi publicado com o título A vida no Brasil: ou Diário de uma visita ao país do cacau e das palmeiras, em 1973, pela editora carioca Conquista, em dois volumes.O relato de Henry Walter Bates foi publicado em 1863, em dois volumes, com o título The naturalist on the River Amazons, a record of adventures, habits of animals, sketches of Brazilian and Indian life, and aspects of nature under the Equator, during eleven years of travel by Henry Walter Bates, em Londres pela John Murray. A segunda edição ocorreu um ano depois, com supressão de algumas partes pelo autor, seguida por mais de dez edições na língua inglesa em Londres e nos Estados Unidos. No Brasil O naturalista no Rio Amazonas foi editadoem 1944 pela Editora Nacional.
Em 1869, Richard Burton publicou a primeira edição de Explorations of the Highlands of the Brazil; with a full account of the gold and diamond mines. Also, canoeing down 1500 miles of the great River São Francisco, from Sabará to the Sea by Captain Richard F. Burton, F.R.G.S., etc., em Londres por Tinsley Brothers, em dois volumes. A obra recebeu destaque em finais do ano passado e foi publicada em Nova York no centenário da primeira edição, e nos últimos dezesseis anos teve três edições nos Estados Unidos.
No Brasil, a primeira edição de Viagens aos planaltos do Brasil: 1868, em três volumes,ocorreu no ano de 1941 pela Companhia Editora Nacional, que publicou a segunda edição em 1983. Houve uma edição em 2001 pelo Senado Federal intitulada Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho, volume único.
Em São Paulo, a Tip. Allemã de H. Schroeder publicou Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gaston e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba de John James Aubertin no ano de 1866.
Nesse mesmo ano foi traduzido para o inglês pelo autor e publicado em Londres pela Bates, Hendy & Co. com o título Eleven day’s journey in the Province of Sao Paulo, with the [p. 10]
Outro ponto, o parâmetro comparativo do algodão brasileiro e do norte-americano. A produção dos Estados Unidos figura como indicadora de qualidade e produtividade, em vista do país ter sido o maior fornecedor do mundo, e é trazida pelos viajantes quando desejam estimular a produção no Brasil, em especial, utilizando dados fornecidos por conhecedores do ramo.Nesse sentido, Richard Burton traz as considerações de um renomado pesquisador da cultura algodoeira, Major R. Trevor Clarke96 para quem “Aqui [no Brasil] o algodão tem mais penugem que o habitual; 600 quilos darão 250 de fibra limpa, ao passo que no Alabama são necessários 750 quilos. Em geral, o replantio do arbusto é feito em seu quarto ano”.97 E J. J. Aubertin traz a experiência dos americanos sulistas Dr. Gaston, Dr. Shaw e Major Mereweather, a quem ele acompanhou durante a passagem deles pela Província de São Paulo:Eramos cinco pessoas. Tres Americano sulistas, dr. Gaston, dr. Shaw e o major Mereweather, que ião fazer sua viagem prolongada, na exploração de districtos um pouco remotos, sob a direcção do sr. Engenheiro Bennaton, para esse fim nomeado; e, sendo informado dos seus preparativos, logo me aggreguei a elles, não menos por sympatia para com a antecipada immigração americana, como tambem pelo desejo de visitar em sua companhia algumas plantações de algodão, e tirar algumas instrucções de sua experiencia pratica, a respeito de uma cultura que, sendo hoje estabelecida na província, não póde deixar de influil-os cabalmente na resolução que definitivamente tenhão que tomar.98Durante a permanência na província paulista, o grupo visitou a região de Itu, Salto, Porto Feliz e Sorocaba, daí J. J. Aubertin seguiu para a capital paulista e eles continuaram viagem com destino à Itapetininga. As observações de diferentes aspectos da lavoura algodoeira e o processamento do algodão fizeram os norte-americanos considerarem o clima paulista adequado à produção e benéfico o fato de não haver mudanças bruscas na temperatura, como a ocorrência de geadas, possibilitando maior tempo de conservação do algodoeiro.99Esses dados são agregados por J. J. Aubertin àqueles fornecidos por produtores paulistas de que “emquanto o alqueire norte-americano, dando bem, produz de cem até cento e dez ou talvez 96 Richard Trevor Clarke (1813-1897) – “Army officer and horticulturalist. Major in the Northampton and Rutland Infantry Militia, 1862. Bred nearly thirty new varieties of begonias and many new strains of cotton. Awarded a gold medal by the Cotton Supply Association of Manchester. Member of the Royal Horticultural Society; served on the council and scientific committee for many year; awarded the society’s Veitchian medal, 1894”. BURKHARDT, Frederick et al (Ed.). Charles Darwin. The Correspondence of Charles Darwin (1866). Cambridge: Cambridge University, 2004, p. 502, vol. 14.97 BURTON, Richard Francis. Viagem de canoa de Sabará ao Oceano Atlântico..., op. cit., p. 29. [nota 3]98 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gastón e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba. São Paulo: Typ. Allem[p. 159]
Os esforços de J. J. Aubertin devem ser compreendidos dentro desse contexto, em que ele se coloca como defensor da produção algodoeira paulista e atua em diferentes direções. No Brasil, escreveu para diversos periódicos nacionais e correspondeu-se com diferentes figuras da política brasileira para lhes solicitar o envolvimento com a lavoura algodoeira capaz de colocar São Paulo em posição favorável no mercado inglês, tal como fez o inglês em carta ao Comendador Fideles Prates:
Usai, vos peço, nesta vespera de uma nova semeadura, a vossa bem conhecida influencia entre os vossos amigos, e dizei aos cultivadores do algodão que redobrem os seus esforços na nova plantação, porque pela colheita futura é que se diciderá definitivamente a importante questão se a provincia de S. Paulo pode ou não pode occupar uma posição positiva nos mercados de Manchester.104
Aos agricultores interessados, ele também procurou difundir noções sobre a técnica de cultivar o algodão herbáceo e publicou folhetos sobre a cultura do algodão.105 Essa política de difundir informações sobre o cultivo foi uma atividade constante da associação inglesa, mesmo após o fim da guerra norte-americana.
No plano internacional, empenhou-se em apresentar os algodões paulistas de boa qualidade na Exposição Internacional de Londres, de 1862, com o objetivo de mostrar os atributos do produto. Também foi intermediador entre Manchester Cotton Supply Association e órgãos brasileiros; em duas ocasiões, nos anos de 1862 e 1865, J. J. Aubertin solicitou à associação britânica que enviasse algodão herbáceo ao Ministério da Agricultura e à Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional.106 Em diferentes momentos enviou para a Inglaterra amostras do algodão paulista, em geral, com boas avaliações dos correspondentes.J. J. Aubertin arquitetou ações no Brasil ligadas aos interesses ingleses baseadas em informações colhidas por ele na província ou com base na experiência de nacionais e, principalmente, de norte-americanos, com o propósito de deixar claro as potencialidades de São Paulo e convencer os potenciais produtores paulistas. Para aqueles que mesmo assim estivessem em dúvida, ele escreve:
Deveras, já é tarde demais para duvidar do algodão de São Paulo; mas se ainda ha descrentes, apenas apello para os dous srs. Cultivadores que acompanhei, major Mereweather e dr. Shaw. Ambos elles me repetirão muitas vezes, que melhor algodão que aquelle que nos vimos não desejavão ver; que nas suas proprias plantações e com todos os seus meios perfeitos não costumavãoproduzir melhor. 107
Seus esforços renderam-lhe o reconhecimento da associação inglesa, que o condecorou com uma medalha de ouro, e o governo brasileiro honrou-o com o hábito da Imperial Ordem da Rosa. Nos veículos de informação brasileiros, nos quais tanto escreveu, vemos o reconhecimento de seus pares, como E. Hutchings, outro entusiasta da lavoura algodoeira em terras paulistas e intermediário entre a associação e o Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas:
Hoje, considerado, como um genero de exportação, o algodão, e sua cultura, é um dos factos estabelecidos na historia da provincia, e eu me aproveito desta occasião para patentear a gratidão que todos temos.Quem sabe, o que ha de mostrar-se nos anos que vem? Quasi todas as condições de prosperidade estão unidas nesta provincia; - Um clima sem rival, uma terra cheia de riquesa, e uma natureza, cuja uberdade é espantosa. Tudo isto aqui, e no outro lado do Oceano, a Inglaterra, offerece tudo quanto seja possivel afim de attrahir para lá, os productos da provincia, e com as devidas providencias, e constancia em trabalhar, tudo será possivel, e, sem esta, nada.Campinas, Mogy-mirim, Limeira e outros lugares vão caminhando na cultura do café, e o publico, bem como os particulares, são beneficiados. Parece que, para Sorocaba, resta ainda este outro manancial de prosperidade; - a cultura do algodão, e não ha homem ou natural, ou estrangeiro na provincia, que não abençoará a empresa.[...] Caminho da Luz, S. Paulo Agosto de 1865[...] E. Hutchings108
Evidentemente, tais esforços foram no sentido de produzir algodão adequado às necessidades da indústria inglesa. Foi estimulado o plantio da semente de Nova Orleans, em solicitação de uma circular da Manchester Cotton Supply Association109 e houve uma modificação na postura do produtor brasileiro: “O tipo de algodão tradicional no Brasil era o arbóreo mas o mercado consumidor passou a condicionar a produção ao tipo herbáceo dos 107 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo..., op. cit., p. 16.108 HUTCHINGS, E. “Aos Redactores do Diario de São Paulo”. Diario de S. Paulo, São Paulo, 11 agosto 1865, ano I, nº 10, p. 2. Em outras atividades, além do algodão: E. Hutchings foi um dos secretários da Comissão Julgadora de um concurso para criadores de animais pensado por J. J. Aubertin, tesoureiro do evento. O Comendador Fideles Nepomuceno Prates aparece como um dos Juízes. “Concurso industrial”. Correio Paulistano, Estados Unidos. As variedades mais procuradas eram a U[p. 161, 162]