| As Seis lições. Ludwig Heinrich Edler von Mises (1881-1973) | |
1979 Atualizado em 29/11/2025 04:15:37
compreendido. Podemos ser extremamente críticos com relaçãoao modo como nossos concidadãos gastam seu dinheiro e vivemsua vida. Podemos considerar o que fazem absolutamenteinsensato e mau. Numa sociedade livre, todos têm, no entanto,as mais diversas maneiras de manifestar suas opiniões sobrecomo seus concidadãos deveriam mudar seu modo de vida: elespodem escrever livros; escrever artigos; fazer conferências.Podem até fazer pregações nas esquinas, se quiserem – e faz-seisso, em muitos países. Mas ninguém deve tentar policiar osoutros no intuito de impedi-los de fazer determinadas coisassimplesmente porque não se quer que as pessoas tenham aliberdade de fazê-las.É essa a diferença entre escravidão e liberdade. O escravoé obrigado a fazer o que seu superior lhe ordena que faça,enquanto o cidadão livre – e é isso que significa liberdade – tema possibilidade de escolher seu próprio modo de vida. Semdúvida esse sistema capitalista pode ser – e é de fato – malusado por alguns. É certamente possível fazer coisas que nãodeveriam ser feitas. Mas se tais coisas contam com a aprovaçãoda maioria do povo, uma voz discordante terá sempre algummeio de tentar mudar as ideias de seus concidadãos. Podetentar persuadi-los, convencê-los, mas não pode tentarconstrangê-los pela força, pela força policial do governo.Na economia de mercado, todos prestam serviços aos seusconcidadãos ao prestarem serviços a si mesmos. Era isso o quetinham em mente os pensadores liberais do século XVIII, quandofalavam da harmonia dos interesses – corretamentecompreendidos – de todos os grupos e indivíduos queconstituem a população. E foi a essa doutrina da harmonia deinteresses que os socialistas se opuseram. Falaram de um“conflito inconciliável de interesses” entre vários grupos.Que significa isso? Quando Karl Marx – no primeirocapítulo do Manifesto Comunista, esse pequeno panfleto queinaugurou seu movimento socialista – sustentou a existência de um conflito inconciliável entre as classes, só pode evocar, comoilustração à sua tese, exemplos tomados das condições dasociedade pré-capitalista. Nos estágios pré-capitalistas, asociedade se dividia em grupos hereditários de status, na Índiadenominados “castas”. Numa sociedade de status, um homemnão nascia, por exemplo, cidadão francês; nascia na condição demembro da aristocracia francesa, ou da burguesia francesa, oudo campesinato francês. Durante a maior parte da Idade Média,era simplesmente um servo. E a servidão, na França, ainda nãohavia sido inteiramente extinta mesmo depois da RevoluçãoAmericana. Em outras regiões da Europa, a sua extinção ocorreuainda mais tarde. Mas a pior forma de servidão – forma quecontinuou existindo mesmo depois da abolição da escravatura –era a que tinha lugar nas colônias inglesas. O indivíduo herdavaseu status dos país e o conservava por toda a vida. Transferia-oaos filhos. Cada grupo tinha privilégios e desvantagens. Os destatus mais elevado tinham apenas privilégios, os de statusinferior, só desvantagens. E não restava ao homem nenhumoutro meio de escapar às desvantagens legais impostas por seustatus senão a luta política contra as outras classes. Nessascondições, pode-se dizer que havia “um conflito inconciliável deinteresses entre senhores de escravos e escravos”, porque ointeresse dos escravos era livrar-se da escravidão, da qualidadede escravos. E sua liberdade significava, para os seusproprietários, uma perda. Assim sendo, não há dúvida de quetinha de existir forçosamente um conflito inconciliável deinteresses entre os membros das várias classes.Não devemos esquecer que nesses períodos – em que associedades de status predominaram na Europa, bem como nascolônias que os europeus fundaram posteriormente na América– as pessoas não se consideravam ligadas de nenhuma formaespecial às demais classes de sua própria nação; sentiam-semuito mais solidárias com os membros de suas classes nosoutros países. Um aristocrata francês não tinha os franceses das [p. 27, 28]
efetivamente uma expectativa normal e necessária, algo a seesperar de qualquer governo. Essa proteção não constitui umaintervenção, pois a única função legítima do governo é,precisamente, produzir segurança.) Quando falamos deintervencionismo, referimo-nos ao desejo que experimenta ogoverno de fazer mais que impedir assaltos e fraudes. Ointervencionismo significa que o governo não somente fracassaem proteger o funcionamento harmonioso da economia demercado, como também interfere em vários fenômenos demercado: interfere nos preços, nos padrões salariais, nas taxasde juro e de lucro.
O governo quer interferir com a finalidade de obrigar os homens de negócio a conduzir suas atividades de maneira diversa da que escolheriam caso tivessem de obedecer apenas aos consumidores. Assim, todas as medidas de intervencionismo governamental têm por objetivo restringir a supremacia do consumidor. O governo quer arrogar a si mesmo o poder – ou pelo menos parte do poder – que, na economia de mercado livre, pertence aos consumidores. Consideremos um exemplo de intervencionismo bastante conhecido em muitos países e experimentado, vezes sem conta, por inúmeros governos, especialmente em tempos de inflação. Refiro-me ao controle de preços.
Em geral, os governos recorrem ao controle de preços depois de terem inflacionado a oferta de moeda e de a população ter começado a se queixar do decorrente aumento dos preços. Há muitos e famosos exemplos históricos do fracasso de métodos de controle dos preços, mas mencionarei apenas dois, porque em ambos os governos foram, de fato, extremamente enérgicos ao impor, ou tentar impor, seus controles de preço.
O primeiro exemplo famoso é o caso do imperador romano Diocleciano, notório como o último imperador romano a perseguir os cristãos. Na segunda metade do século III, os imperadores romanos dispunham de um único método financeiro: desvalorizar a moeda corrente por meio de sua adulteração. Nessa época primitiva, anterior à invenção da máquina impressora, até a inflação era, por assim dizer, primitiva. Envolvia o enfraquecimento do teor da liga metálica com que se cunhavam as moedas, especialmente as de prata.
O governo misturava à prata quantidades cada vez maiores de cobre, até que a cor das moedas se alterou e o peso se reduziu consideravelmente. A consequência dessa adulteração das moedas e do aumento associado da quantidade de dinheiro em circulação foi uma alta dos preços, seguida de um decreto destinado a controlá-los. E os imperadores romanos não primavam pela moderação no fazer cumprir suas leis: a morte não lhes parecia uma punição demasiado severa para quem ousasse cobrar preços mais elevados que os estipulados.
Conseguiram impor o controle de preços, mas foram incapazes de preservar a sociedade. A consequência foi a desintegração do Império Romano e do sistema da divisão do trabalho.
Quinze séculos mais tarde, a mesma adulteração do dinheiro teve lugar durante a Revolução Francesa. Mas desta vez utilizou-se um método diferente. A tecnologia para a produção de dinheiro fora consideravelmente aperfeiçoada. Os francesesjá não precisavam recorrer à adulteração da liga metálica empregada na cunhagem das moedas: tinham a máquina impressora. E esta era extremamente eficiente. Mais uma vez, o resultado foi uma elevação dos preços sem precedentes. Mas na Revolução Francesa os preços máximos não foram garantidos através do mesmo método de aplicação da pena capital de que lançara mão o imperador Diocleciano. Produzira-se um aperfeiçoamento também na técnica de matar cidadãos.
Todosse lembram do famoso doutor J. I. Guillotin (1738-1814), o inventor da guilhotina. No entanto, apesar da guilhotina, os franceses também fracassaram com suas leis de preço máximo. Quando chegou a vez de Robespierre ser conduzido numa carroça rumo à guilhotina, o povo gritava: “Lá vai o bandido- mor!”. Se menciono este fato é porque é comum ouvir: “O que épreciso para dar eficácia e eficiência ao controle de preços éapenas maior implacabilidade e maior energia”. Ora, Dioclecianofoi indubitavelmente implacável, como também o foi aRevolução Francesa. Não obstante, as medidas de controle depreço fracassaram por completo em ambos os casos.Analisemos agora as razões desse fracasso. O governo ouveas queixas do povo de que o preço do leite subiu. E o leite é,sem dúvida, muito importante, sobretudo para a geração emcrescimento, para as crianças. Por conseguinte, estabelece umpreço máximo para esse produto, preço máximo que é inferiorao que seria o preço potencial de mercado. Então o governo diz:“Estamos certos de que fizemos tudo o que era preciso parapermitir aos pobres a compra de todo o leite de que necessitampara alimentar os filhos”.Mas que acontece? Por um lado, o menor preço do leiteprovoca o aumento da demanda do produto; pessoas que nãotinham meios de comprá-lo a um preço mais alto, podem agorafazê-lo ao preço reduzido por decreto oficial. Por outro lado,parte dos produtores de leite, aqueles que estão produzindo acustos mais elevados – isto é, os produtores marginais –começam a sofrer prejuízos, visto que o preço decretado pelogoverno é inferior aos custos do produto. Este é o ponto crucialna economia de mercado. O empresário privado, o produtorprivado, não pode sofrer prejuízo no cômputo final de suasatividades. E como não pode ter prejuízos com o leite, restringea venda deste produto para o mercado. Pode vender algumas desuas vacas para o matadouro; pode também, em vez de leite,fabricar e vender derivados do produto, como coalhada,manteiga ou queijo.A interferência do governo no preço do leite redunda, pois,em menor quantidade do produto do que a que havia antes,redução que é concomitante a uma ampliação da demanda.Algumas pessoas dispostas a pagar o preço decretado pelo [p. 44, 45, 46]
Capítulo 4 – Quarta lição A Inflação
Se a oferta de caviar fosse tão abundante quanto a debatatas, o preço do caviar – isto é, a relação de troca entrecaviar e dinheiro, ou entre caviar e outras mercadorias – sealteraria consideravelmente. Nesse caso, seria possível adquirilo a um preço muito menor que o exigido hoje. Da mesmamaneira, se a quantidade de dinheiro aumenta, o poder decompra da unidade monetária diminui, e a quantidade de bensque pode ser adquirida com uma unidade desse dinheirotambém se reduz.Quando, no século XVI, as reservas de ouro e prata daAmérica foram descobertas e exploradas, enormes quantidadesdesses metais preciosos foram transportadas para a Europa. Aconsequência desse aumento da quantidade de moeda foi umatendência geral à elevação dos preços. Do mesmo modo,quando, em nossos dias, um governo aumenta a quantidade depapel-moeda, a consequência é a queda progressiva do poderde compra da unidade monetária e a correspondente elevaçãodos preços. A isso se chama de inflação. Infelizmente, nosEstados Unidos, bem como em outros países, alguns preferemver a causa da inflação não no aumento da quantidade dedinheiro, mas na elevação dos preços.Entretanto, nunca se apresentou qualquer contestaçãoséria à interpretação econômica da relação entre os preços e aquantidade de dinheiro, ou da relação de troca entre a moeda eoutros bens, mercadorias e serviços. Nas condições tecnológicasatuais, nada é mais fácil que fabricar pedaços de papel eimprimir sobre eles determinados valores monetários. Nos [p. 58]
Estados Unidos, onde todas as notas têm o mesmo tamanho,imprimir uma nota de mil dólares não custa mais ao governoque imprimir uma de um dólar. Trata-se exclusivamente de umprocesso de impressão, a exigir, nos dois casos, idênticasquantidades de papel e de tinta.No século XVIII, quando se fizeram as primeiras tentativasde emitir cédulas bancárias e atribuir-lhes a qualidade demoeda corrente – isto é, o direito de serem honradas emtransações de troca do mesmo modo que as moedas de ouro eprata –, os governos e as nações acreditavam que os banqueirosdetinham algum conhecimento secreto que lhes permitiaproduzir riqueza a partir do nada. Quando os governos doséculo XVIII se viam em dificuldades financeiras, julgavam sersuficiente, para delas se livrarem, entregar a um banqueiroengenhoso a condução de sua administração financeira. Algunsanos antes da Revolução Francesa, quando a realeza da Françaatravessava problemas financeiros, o rei da França procurou umdesses banqueiros engenhosos e nomeou-o para uma funçãoimportante. Esse homem era, sob todos os aspectos, o opostodas pessoas que vinham regendo a nação até aquele momento.Para começar, não era francês, era um estrangeiro – um genovês.Em segundo lugar, não pertencia à aristocracia, era um simplesplebeu. E, o que contava mais ainda na França do século XVIII,não era católico, e sim protestante. E assim Monsieur Necker, paida famosa Madame de Staël, tornou-se o ministro das finanças,e todos esperavam que resolvesse os problemas financeiros dopaís. Mas, a despeito do elevado grau de confiança desfrutadopor Monsieur Necker, os cofres reais permaneceram vazios. Ogrande erro de Decker consistiu na tentativa de prestar auxíliofinanceiro aos colonos da América em sua guerra deindependência contra a Inglaterra sem elevar os impostos.Aquela era certamente uma maneira errada de procurar resolveros problemas financeiros da França. [p. 59]
financeiramente seguro: seus titulares podem dizer ao povo eaos políticos: “não podemos fazer tal coisa, salvo seaumentarmos os impostos”.Sob condições inflacionárias, o povo se habitua aconsiderar o governo uma instituição que tem recursosilimitados à sua disposição: o estado, o governo podem tudo.Se, por exemplo, a nação deseja um novo sistema de rodovias,espera-se do governo sua implantação. Mas onde poderá ogoverno obter o dinheiro? Pode-se dizer que hoje, nos EstadosUnidos – e mesmo no passado, no governo McKinley –, o PartidoRepublicano é relativamente favorável ao dinheiro lastreado eao padrão-ouro, enquanto o Partido Democrático é favorável àinflação. Obviamente, a uma inflação não de papel, e sim deprata. Contudo, foi um presidente democrata dos EstadosUnidos, o presidente Cleveland que, em fins da década de 1880,vetou uma decisão do Congresso de conceder uma pequenasoma de auxílio – cerca de dez mil dólares – a uma comunidadeque sofrera uma catástrofe. Esse presidente justificou seu vetoescrevendo as seguintes palavras: “É dever do cidadão manter ogoverno, mas não é dever do governo manter os cidadãos”. Estassão palavras que todo estadista deveria escrever numa paredede seu gabinete, para mostrar aos que viessem pedir dinheiro.Sinto-me bastante embaraçado diante da necessidade desimplificar esses problemas. São tantos e tão complexos osproblemas envolvidos no sistema monetário! E eu certamentenão teria escrito volumes inteiros a respeito deles se elesfossem tão simples quanto parecem sê-lo aqui. Mas osfundamentos são precisamente estes: aumentando-se aquantidade de dinheiro, provoca-se o rebaixamento do poderde compra da unidade monetária. É isso que desagrada àquelescujos negócios privados são desfavoravelmente afetados poressa situação. São os que não se beneficiam da inflação quedela se queixam. Se a inflação é má, e se todos sabem disso, porque se teria convertido numa espécie de estilo de vida em [p. 68]
Se afirmo que o investimento externo foi o maioracontecimento histórico do século XIX, faço-o no desejo delembrar tudo aquilo que nem sequer existiria se não tivessehavido qualquer investimento externo. Todas as estradas deferro, inúmeros portos, fábricas e minas da Ásia, o canal de Sueze muitas outras coisas no hemisfério ocidental não teriam sidoconstruídos, não fosse o investimento externo. O investimentoexterno é feito na expectativa de que não será expropriado.Ninguém investiria coisa alguma se soubesse de antemão queseus investimentos seriam objeto de expropriação. No séculoXIX e no início do século XX, não se cogitava disso ao se aplicarno estrangeiro. Desde o princípio havia, por parte de algunspaíses, certa hostilidade em relação ao capital estrangeiro. Noentanto, apesar da hostilidade, estes países, em sua maiorparte, compreendiam muito bem que os investimentos externoslhes propiciavam imensas vantagens. Em alguns casos, osinvestimentos externos não eram destinados diretamente acapitalistas de outros países: realizavam-se indiretamente,através de empréstimos concedidos ao governo do paísestrangeiro. Neste caso, era o governo que aplicava o dinheiroem investimentos. Foi este, por exemplo, o caso da Rússia. Porrazões puramente políticas, os franceses investiram nesse país –nas duas décadas que precederam a Primeira Guerra Mundial –cerca de vinte bilhões de francos de ouro, sobretudo na formade empréstimos ao governo. Todos os grandesempreendimentos desse governo – como, por exemplo, aferrovia que liga a Rússia, indo dos montes do Ural, através dogelo e da neve da Sibéria, até o Pacífico – foram realizadosbasicamente com capital estrangeiro emprestado ao governo russo. Como é fácil presumir, os franceses nem sequer imaginavam que, de um momento para outro, se implantaria um governo russo comunista que simplesmente declararia não pretender pagar os débitos contraídos por seus predecessores do governo czarista. [p. 82]
boas razões para dizer que talvez ainda não tenhamos chegadoao fim das provações que a humanidade deverá atravessar.O sistema constitucional introduzido em fins do séculoXVIII e início do XIX frustrou a humanidade. A maioria daspessoas – e dos autores – que tratou desse problema parecepensar que não houve relação entre os aspectos político eeconômico do problema. Tende-se, por conseguinte, aconsiderar o fenômeno da deterioração do parlamentarismo –governo exercido pelos representantes do povo – como se fosseum fenômeno desvinculado da situação econômica e dasconcepções econômicas que determinam as atividades daspessoas.Essa independência, no entanto, não existe. O homem nãoé um ser que tenha, por um lado, uma dimensão econômica e,por outro, uma dimensão política, dissociadas uma da outra. Naverdade, aquilo a que comumente se dá o nome de deterioraçãoda liberdade, do governo constitucional e das instituiçõesrepresentativas, nada mais é que a consequência da mudançaradical das ideias políticas e econômicas. Os eventos políticossão a consequência inevitável da mudança das políticaseconômicas.As ideias que nortearam os estadistas, filósofos e juristasque, no século XVIII e princípio do século XIX, elaboraram osfundamentos do novo sistema político, partiam do pressupostode que, numa nação, todos os cidadãos honestos têm umamesma meta final. Essa meta final na qual todos os homensdecentes se deveriam empenhar é o bem-estar de toda a nação,assim como o das demais nações. Aqueles líderes morais epolíticos estavam, portanto, firmemente convencidos de queuma nação livre não está interessada em conquista. Julgavam aluta partidária algo simplesmente natural, uma vez que lhesparecia totalmente normal a existência de diferenças de opiniãono tocante à melhor maneira de se conduzirem os negócios doestado. [p. 93]
EMERSON 01/01/1979 ANO:126
testando baseSobre o Brasilbook.com.br
foi publicada a segunda edição na língua inglesa. Pouco depois, em 1848, o relato foi publicado em língua alemã em Dresden e Leipzig, atual Alemanha.A edição em português ocorreu em 1942, na Coleção Brasiliana, intitulada Viagens no Brasil: principalmente nas províncias do norte e nos distritos de ouro e do diamante durante anos 1836-1841, da Companhia Editora Nacional.No ano de 1856 foi publicado o relato Life in Brazil; or, a journal of a visit to the land of the cocoa and the palm de Thomas Ewbank ela Harper & Brothers, Nova York, sendo lançada também na Inglaterra. Nos Estados Unidos houve uma edição em 2005.No Brasil, o relato em português foi publicado com o título A vida no Brasil: ou Diário de uma visita ao país do cacau e das palmeiras, em 1973, pela editora carioca Conquista, em dois volumes.O relato de Henry Walter Bates foi publicado em 1863, em dois volumes, com o título The naturalist on the River Amazons, a record of adventures, habits of animals, sketches of Brazilian and Indian life, and aspects of nature under the Equator, during eleven years of travel by Henry Walter Bates, em Londres pela John Murray. A segunda edição ocorreu um ano depois, com supressão de algumas partes pelo autor, seguida por mais de dez edições na língua inglesa em Londres e nos Estados Unidos. No Brasil O naturalista no Rio Amazonas foi editadoem 1944 pela Editora Nacional.
Em 1869, Richard Burton publicou a primeira edição de Explorations of the Highlands of the Brazil; with a full account of the gold and diamond mines. Also, canoeing down 1500 miles of the great River São Francisco, from Sabará to the Sea by Captain Richard F. Burton, F.R.G.S., etc., em Londres por Tinsley Brothers, em dois volumes. A obra recebeu destaque em finais do ano passado e foi publicada em Nova York no centenário da primeira edição, e nos últimos dezesseis anos teve três edições nos Estados Unidos.
No Brasil, a primeira edição de Viagens aos planaltos do Brasil: 1868, em três volumes,ocorreu no ano de 1941 pela Companhia Editora Nacional, que publicou a segunda edição em 1983. Houve uma edição em 2001 pelo Senado Federal intitulada Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho, volume único.
Em São Paulo, a Tip. Allemã de H. Schroeder publicou Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gaston e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba de John James Aubertin no ano de 1866.
Nesse mesmo ano foi traduzido para o inglês pelo autor e publicado em Londres pela Bates, Hendy & Co. com o título Eleven day’s journey in the Province of Sao Paulo, with the [p. 10]
Outro ponto, o parâmetro comparativo do algodão brasileiro e do norte-americano. A produção dos Estados Unidos figura como indicadora de qualidade e produtividade, em vista do país ter sido o maior fornecedor do mundo, e é trazida pelos viajantes quando desejam estimular a produção no Brasil, em especial, utilizando dados fornecidos por conhecedores do ramo.Nesse sentido, Richard Burton traz as considerações de um renomado pesquisador da cultura algodoeira, Major R. Trevor Clarke96 para quem “Aqui [no Brasil] o algodão tem mais penugem que o habitual; 600 quilos darão 250 de fibra limpa, ao passo que no Alabama são necessários 750 quilos. Em geral, o replantio do arbusto é feito em seu quarto ano”.97 E J. J. Aubertin traz a experiência dos americanos sulistas Dr. Gaston, Dr. Shaw e Major Mereweather, a quem ele acompanhou durante a passagem deles pela Província de São Paulo:Eramos cinco pessoas. Tres Americano sulistas, dr. Gaston, dr. Shaw e o major Mereweather, que ião fazer sua viagem prolongada, na exploração de districtos um pouco remotos, sob a direcção do sr. Engenheiro Bennaton, para esse fim nomeado; e, sendo informado dos seus preparativos, logo me aggreguei a elles, não menos por sympatia para com a antecipada immigração americana, como tambem pelo desejo de visitar em sua companhia algumas plantações de algodão, e tirar algumas instrucções de sua experiencia pratica, a respeito de uma cultura que, sendo hoje estabelecida na província, não póde deixar de influil-os cabalmente na resolução que definitivamente tenhão que tomar.98Durante a permanência na província paulista, o grupo visitou a região de Itu, Salto, Porto Feliz e Sorocaba, daí J. J. Aubertin seguiu para a capital paulista e eles continuaram viagem com destino à Itapetininga. As observações de diferentes aspectos da lavoura algodoeira e o processamento do algodão fizeram os norte-americanos considerarem o clima paulista adequado à produção e benéfico o fato de não haver mudanças bruscas na temperatura, como a ocorrência de geadas, possibilitando maior tempo de conservação do algodoeiro.99Esses dados são agregados por J. J. Aubertin àqueles fornecidos por produtores paulistas de que “emquanto o alqueire norte-americano, dando bem, produz de cem até cento e dez ou talvez 96 Richard Trevor Clarke (1813-1897) – “Army officer and horticulturalist. Major in the Northampton and Rutland Infantry Militia, 1862. Bred nearly thirty new varieties of begonias and many new strains of cotton. Awarded a gold medal by the Cotton Supply Association of Manchester. Member of the Royal Horticultural Society; served on the council and scientific committee for many year; awarded the society’s Veitchian medal, 1894”. BURKHARDT, Frederick et al (Ed.). Charles Darwin. The Correspondence of Charles Darwin (1866). Cambridge: Cambridge University, 2004, p. 502, vol. 14.97 BURTON, Richard Francis. Viagem de canoa de Sabará ao Oceano Atlântico..., op. cit., p. 29. [nota 3]98 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gastón e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba. São Paulo: Typ. Allem[p. 159]
Os esforços de J. J. Aubertin devem ser compreendidos dentro desse contexto, em que ele se coloca como defensor da produção algodoeira paulista e atua em diferentes direções. No Brasil, escreveu para diversos periódicos nacionais e correspondeu-se com diferentes figuras da política brasileira para lhes solicitar o envolvimento com a lavoura algodoeira capaz de colocar São Paulo em posição favorável no mercado inglês, tal como fez o inglês em carta ao Comendador Fideles Prates:
Usai, vos peço, nesta vespera de uma nova semeadura, a vossa bem conhecida influencia entre os vossos amigos, e dizei aos cultivadores do algodão que redobrem os seus esforços na nova plantação, porque pela colheita futura é que se diciderá definitivamente a importante questão se a provincia de S. Paulo pode ou não pode occupar uma posição positiva nos mercados de Manchester.104
Aos agricultores interessados, ele também procurou difundir noções sobre a técnica de cultivar o algodão herbáceo e publicou folhetos sobre a cultura do algodão.105 Essa política de difundir informações sobre o cultivo foi uma atividade constante da associação inglesa, mesmo após o fim da guerra norte-americana.
No plano internacional, empenhou-se em apresentar os algodões paulistas de boa qualidade na Exposição Internacional de Londres, de 1862, com o objetivo de mostrar os atributos do produto. Também foi intermediador entre Manchester Cotton Supply Association e órgãos brasileiros; em duas ocasiões, nos anos de 1862 e 1865, J. J. Aubertin solicitou à associação britânica que enviasse algodão herbáceo ao Ministério da Agricultura e à Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional.106 Em diferentes momentos enviou para a Inglaterra amostras do algodão paulista, em geral, com boas avaliações dos correspondentes.J. J. Aubertin arquitetou ações no Brasil ligadas aos interesses ingleses baseadas em informações colhidas por ele na província ou com base na experiência de nacionais e, principalmente, de norte-americanos, com o propósito de deixar claro as potencialidades de São Paulo e convencer os potenciais produtores paulistas. Para aqueles que mesmo assim estivessem em dúvida, ele escreve:
Deveras, já é tarde demais para duvidar do algodão de São Paulo; mas se ainda ha descrentes, apenas apello para os dous srs. Cultivadores que acompanhei, major Mereweather e dr. Shaw. Ambos elles me repetirão muitas vezes, que melhor algodão que aquelle que nos vimos não desejavão ver; que nas suas proprias plantações e com todos os seus meios perfeitos não costumavãoproduzir melhor. 107
Seus esforços renderam-lhe o reconhecimento da associação inglesa, que o condecorou com uma medalha de ouro, e o governo brasileiro honrou-o com o hábito da Imperial Ordem da Rosa. Nos veículos de informação brasileiros, nos quais tanto escreveu, vemos o reconhecimento de seus pares, como E. Hutchings, outro entusiasta da lavoura algodoeira em terras paulistas e intermediário entre a associação e o Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas:
Hoje, considerado, como um genero de exportação, o algodão, e sua cultura, é um dos factos estabelecidos na historia da provincia, e eu me aproveito desta occasião para patentear a gratidão que todos temos.Quem sabe, o que ha de mostrar-se nos anos que vem? Quasi todas as condições de prosperidade estão unidas nesta provincia; - Um clima sem rival, uma terra cheia de riquesa, e uma natureza, cuja uberdade é espantosa. Tudo isto aqui, e no outro lado do Oceano, a Inglaterra, offerece tudo quanto seja possivel afim de attrahir para lá, os productos da provincia, e com as devidas providencias, e constancia em trabalhar, tudo será possivel, e, sem esta, nada.Campinas, Mogy-mirim, Limeira e outros lugares vão caminhando na cultura do café, e o publico, bem como os particulares, são beneficiados. Parece que, para Sorocaba, resta ainda este outro manancial de prosperidade; - a cultura do algodão, e não ha homem ou natural, ou estrangeiro na provincia, que não abençoará a empresa.[...] Caminho da Luz, S. Paulo Agosto de 1865[...] E. Hutchings108
Evidentemente, tais esforços foram no sentido de produzir algodão adequado às necessidades da indústria inglesa. Foi estimulado o plantio da semente de Nova Orleans, em solicitação de uma circular da Manchester Cotton Supply Association109 e houve uma modificação na postura do produtor brasileiro: “O tipo de algodão tradicional no Brasil era o arbóreo mas o mercado consumidor passou a condicionar a produção ao tipo herbáceo dos 107 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo..., op. cit., p. 16.108 HUTCHINGS, E. “Aos Redactores do Diario de São Paulo”. Diario de S. Paulo, São Paulo, 11 agosto 1865, ano I, nº 10, p. 2. Em outras atividades, além do algodão: E. Hutchings foi um dos secretários da Comissão Julgadora de um concurso para criadores de animais pensado por J. J. Aubertin, tesoureiro do evento. O Comendador Fideles Nepomuceno Prates aparece como um dos Juízes. “Concurso industrial”. Correio Paulistano, Estados Unidos. As variedades mais procuradas eram a U[p. 161, 162]  |
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