INTRODUÇÃOUMA HISTÓRIA DE DOIS TÚMULOSVárias das maiores descobertas arqueológicas dos nossos tempostêm sido acidentais. É como se estivesse um misterioso axiomavelado em uso – aquilo que mais desejamos encontrar raramente descobrimos, e o que menos esperamos descobrir é revelado subitamente.Esta ideia parece-me particularmente aplicável no que concerne aoestudo histórico de Jesus e ao movimento iniciado por ele, que viriaa ser conhecido por Cristianismo. Podemos trazer à colação a descoberta em grutas no deserto da Judeia dos Manuscritos do Mar Morto em 1947, ou o achado de uma ossada completa de um homem crucificado do século I d. C., por construtores de uma estrada, emJerusalém em 1968, ou a descoberta inesperada, em 2000, do túmulodo sumo-sacerdote Caifás, que presidira o Sinédrio que condenouJesus1. No que diz respeito à arqueologia, portanto, parece que otempo e o acaso têm tanto direito à cidadania quanto o método e umaplanificação rigorosa.Uma descoberta pela noite dentro em JerusalémVim a saber deste acontecimento em primeiríssima mão, já ao fimda tarde, de uma quarta-feira, mais precisamente a 14 de Junho de2000, enquanto fazia uma caminhada com cinco alunos meus2 no Valede Hinom, a sul da Cidade Velha de Jerusalém, numa área conhecida [p. 21]
Os ossários eram comummente utilizados nos funerais judaicos nazona de Jerusalém e área circundante, desde mais ou menos 30 a. C.até 70 d. C., isto é, um período de cerca de 100 anos em torno do davida de Jesus. As mais das vezes, acabam por ser achados graças apilhagens falhadas a túmulos, ou acidentalmente devido a um qualquer projecto de construção. Quando um túmulo é violado desta forma, os arqueólogos são chamados como medida de emergência ou desalvamento, para serem registados todos os dados possíveis. Todos osartefactos, incluindo os ossários, são catalogados e armazenados, e osossos são devolvidos de imediato à comunidade ortodoxa judaica,para serem enterrados de novo.Milhares de ossários foram encontrados em Israel, sobretudo nostúmulos esculpidos em pedra nas imediações da cidade de Jerusalém,mas encontrar um esqueleto intacto ainda no loculus e envolvido namortalha era algo de inédito. Por alguma razão, a família do mortonão voltara após o primeiro funeral para o colocar no ossário, lugardefinitivo.Materiais orgânicos, como tecido, não sobreviveriam normalmentefora de uma área desértica, e com Jerusalém nas montanhas, com osseus Invernos húmidos e chuvosos, um achado destes era quase inacreditável. Muito provavelmente, este túmulo não tinha conhecidointervenção humana desde o século I d. C. A maioria dos túmulos daárea de Aceldama datava do tempo de Jesus, e apenas alguns delestinham sido abertos ou saqueados ao longo dos séculos. Não haviaqualquer sinal que distinguisse, de modo especial, este dos restantestúmulos. Todavia, Gibson admitia que este esqueleto em particular,envolto no sudário, pudesse ter sido ali colocado numa época posterior, talvez nas Cruzadas, o que explicaria o seu estado de preservação. Há casos em que túmulos mais antigos foram reutilizados posteriormente. Mas Gibson estava convencido de que tínhamos encontradoo único exemplar alguma vez encontrado de uma mortalha do século I.Apenas os testes do carbono-14 ao tecido poderiam trazer-nos certezas. Todo este acontecimento fazia-me recordar as primeiras análisesdos Manuscritos do Mar Morto. Nessa altura, os académicos acharamuma ideia difícil de admitir que eles pudessem ter sobrevivido durantedois mil anos. Mas esses rolos haviam sido preservados graças ao calorseco do deserto da Judeia, e nós encontrávamo-nos na parte monta [p. 25]
uma tradição absolutamente diferente, retratando Jesus como um entedivino e o sublime Filho de Deus. Nesse sentido, João apresenta umaorientação bem mais teológica, mas isso não quer dizer de modoalgum que a sua versão não tem qualquer valor informativo histórico. Como veremos adiante, sem o registo independente de João faltar-nos-iam importantíssimos pormenores geográficos e cronológicos.Há ainda outros evangelhos para além dos canónicos, tal como oEvangelho segundo Tomé, escrito em cóptico e descoberto em 1945no Egipto, uma versão do de Marcos escrito em hebraico e que foipassado de mão em mão nos círculos rabínicos, e ainda uma meiadúzia de evangelhos ditos «apócrifos» que foram escritos entre osséculos II e III d. C. Estes serão introduzidos e discutidos no nosso textoà medida que os formos encontrando na nossa investigação. Mas apesar de tudo, continua a ser um dado adquirido que as fontes mais credíveis para a reconstrução do que se poderá saber sobre Jesus são mesmo os quatro evangelhos do Novo Testamento. Como tambémveremos, se forem lidos criteriosa e criticamente, há uma série de sentidos novos e magníficos a descobrir. Começaremos a nossa investigação com aquilo que se pode saber da gravidez de Maria e o nascimento do seu primogénito, Jesus. [p. 62]