Fragmentos preservados por ´caçadores de hereges´ mostram grupos que mantiveram apego ao judaísmoSupostamente inspiradas no Evangelho de Mateus, essas narrativas têm autoria e teologia misteriosas
No episódio anterior da nossa série Como Deus nasceu, prometi que abordaríamos a diversidade de concepções sobre a natureza de Jesus Cristo –as diferentes cristologias, como se diz em teologuês– no seio do cristianismo primitivo. Vamos começar, neste capítulo, com as visões mais enigmáticas de todas, aparentemente defendidas por grupos judaico-cristãos.
(Para os interessados nas fontes do que apresentarei aqui, recomendo vivamente o volume "The Apocryphal Gospels: Texts and Translations", editado por Bart Ehrman e Zlato Plese –para quem sabe grego, latim ou mesmo copta, pode-se consultar inclusive os textos nos idiomas originais.)
Bem, é claro que, de início, todos os seguidores de Jesus eram de origem judaica. Com o passar das décadas, porém, e talvez também graças aos eventos traumáticos da rebelião dos judeus contra Roma que levou à destruição de Jerusalém e de seu Templo no ano 70 d.C., a fé no Nazareno foi se transformando num fenômeno majoritariamente "gentio" (isto é, não judaico).
Passaram a predominar os fiéis que se converteram do "paganismo" (diferentes formas de politeísmo da orla do Mediterrâneo). O testemunho de eruditos cristãos que viveram entre os séculos 2º e 5º da nossa era, porém, indica que alguns pequenos grupos judaico-cristãos sobreviveram ou se formaram depois de 70 d.C., em locais como a Síria e a Jordânia.
Designados com epítetos como "ebionitas" (algo como "os pobres") e "nazarenos" (por motivos óbvios), esses grupos tinham suas próprias versões das narrativas sobre a vida, a morte e a ressurreição de Jesus, algumas escritas em grego, outras, quiçá, em aramaico ("primo" do hebraico e provável língua materna de Jesus).
Nenhum desses textos sobreviveu na íntegra. Entre os autores cristãos de origem "gentia" que citam trechos dessas obras, é comum que esses Evangelhos apócrifos ("extraoficiais") sejam descritos como versões alteradas do Evangelho de Mateus (de fato, o mais influenciado pelas Escrituras hebraicas na Bíblia).
Na verdade, porém, a natureza dos Evangelhos judaico-cristãos é mais complexa e variada. Alguns parecem coletar tradições de mais de um dos Evangelhos que conhecemos no Novo Testamento, sugerindo que seus autores já conheciam e editavam esses textos. Outros podem conter tradições próprias sobre Jesus.
Para os propósitos da nossa série, o que chama a atenção são as pistas desses textos sobre uma visão diferente da pessoa do Nazareno. O chamado Evangelho dos Ebionitas, por exemplo, ao que parece começava assim:
"Havia um certo homem de nome Jesus, que tinha cerca de 30 anos. Foi ele que nos escolheu." Será que a obra via Jesus como puramente humano? Na passagem sobre o batismo de Cristo, o texto diz que o Espírito Santo, em forma de pomba, proclamou a Jesus: "Eu hoje te gerei" –dando a entender que ele só teria se tornado Filho de Deus após o batismo.
Essa ênfase no Jesus adulto, sem narrativas sobre sua infância e concepção milagrosa, parece ser típica dos Evangelhos judaico-cristãos (embora também esteja presente em Marcos e João, conforme já vimos).
Ao mesmo tempo, porém, o autor cristão Epifânio, em sua obra "Panarion", do século 4º, afirma –sem citar o texto diretamente– que o Evangelho dos Ebionitas descrevia Cristo como um arcanjo encarnado. Trata-se de uma perspectiva aparentemente intermediária entre a de um Jesus totalmente humano e a "alta cristologia" de Paulo que abordamos no episódio anterior.
É difícil dizer se as ideias dos Evangelhos judaico-cristãos representam uma continuidade com algumas das primeiras comunidades de seguidores de Jesus na Judeia e na Galileia ou se surgiram mais tarde, por meio da conversão de pequenos grupos judaicos que tentaram manter sua conexão com a fé ancestral. O que é seguro afirmar, porém, é que, nos séculos 2º e 3º, outros autores de textos apócrifos desenvolveram uma visão completamente diferente da pessoa de Jesus, afastando-se ainda mais do judaísmo tradicional. Refiro-me aos gnósticos, tema do nosso capítulo vindouro. Até lá!
Como Deus nasceuSérie reúne que sabemos sobre as origens do monoteísmoSérie recontará origens do monoteísmo, do antigo Israel ao IslãArqueologia e análise de textos ajudam a entender a evolução da crença em DeusConheça o grupo de divindades que inspirou Deus único da BíbliaMitos descobertos na Síria, mais antigos que Escrituras, foram ecoados por elasPovo de Israel surgiu na própria terra de Canaã, diz arqueologiaFalta de indícios do Êxodo e de destruição de cananeus indica origem autóctoneO mistério que cerca a gênese do nome bíblico do Deus de IsraelEscrita como YHWH em hebraico, designação tem pronúncia estimada e fonte incertaProcesso de convergência e diferenciação moldou o Deus da BíbliaPesquisadores apontam incorporação de elementos de outros deuses na ´personalidade´ divinaDeus bíblico incorpora muitos traços de seu ´arqui-inimigo´ BaalLigação com tempestades, fertilidade e guerra mostram semelhança de Iahweh com rival pagãoInscrições hebraicas sugerem possível crença em ´esposa de Deus´Descobertas no deserto do Sinai mencionam benção dada por ´Iahweh e sua Asherah´, nome da deusaCrise social e ascensão de impérios podem ter gestado monoteísmoA partir de 800 a.C., poder monárquico e desigualdade criam instabilidade em reinos israelitasJosias, o rei ´anti-imperial´ que unificou a religião israelitaMonarca do fim do século 7 a.C. destruiu altares ´pagãos´ em favor do Templo de JerusalémMisterioso profeta ´Segundo Isaías´ anuncia gênese do monoteísmoProfecias datadas do século 6 a.C. são as primeiras a retratar Deus bíblico como o único existentePensamento apocalíptico foi precursor da crença num Jesus divinoCom perda secular de independência política, judeus se voltaram para a especulação místicaCrença num Jesus próximo da divindade surgiu cedo entre cristãosIdeia já aparece em epístola de Paulo, mais antigo pregador da nova fé a deixar textos escritos