Wildcard SSL Certificates
ImagensCategoriasCategoriasRedeSocialCidades


save:ADDX
<
I.D.:  Senha:  
A Azenha do Chabouco: o léxico arcaico e a memória do Engenho Velho
ver ano


"QUE COSAS NOS DECÍA! ERAM COSAS, NO PALABRAS.” (UNAMUNO, IN, SAN MANUEL BUENO, MÁRTIR)As coisas e as palavras ora se confundem, ora se afastam, no amálgama de uma cultura. Confundem-se, quando seu uso torna-se uma vigência. E se afastam, quando o desuso lhes vai empurrando para o estranho mundo da obsolescência e dos arcaísmos.

Não é novidade para essa dúzia de leitores, que já se fazem amigos dessa página de cronista diletante, o quanto gosto do léxico arcaico, fora de uso, ultrapassado.

Interessado no estudo etimológico das levadas, mós, rodízios, azenhas e coisas do tipo, deparei-me com a antiquíssima palavra “chabouco”. Cha… o que? Sim. Chabouco.

Em Portugal, chabouco é um grande charco, pântano ou lagoa; O mesmo que cabouco , que está na etimologia da palavra cavouco, tão conhecida dos varzeanos e arruadenses, cujo significado, como veremos, está ligado às azenhas e às moendas, com roda d’água vertical.

Cabouco (ou Cavouco), também significa:1 – fosso, cava, ou cova comprida, em que se assentam alicerces; 2 – O espaço em que gira o rodízio da azenha. 1

Francisco de Carvalho Dias de Andrade, in, A Presença dos moinhos hidráulicos no Brasil, transcreve trecho de uma carta, à câmara da vila de São Paulo, datada de 1616, em que um tal Manuel João Branco, em querela por questões de curso d’água, descreve a sua intenção, de construir dois moinhos, no mesmo córrego:

“fazer dous moinhos em hua agoa saindolhe do cabouco a outra parte fazer outro da banda dalém de Bertolomeu Glz as quais agoas nascem na tapera de Dioguo Glz Lasso da banda dos Pinheiros, hú da banda dalém, houtro da banda de Bertolameu Glz e teras pera hu quintal” (grifo meu)

Afirma Dias de Andrade, que “a menção ao “cabouco” que conduziria a água de uma parte à outra se justifica plenamente nos trâmites da legislação ibérica colonial, já que conflitos decorrentes da superexploração de rios e ribeiros foram constantes em Portugal e na Espanha. Principalmente durante os meses secos do verão mediterrânico, a baixa dos rios ocasionava acirradas disputas entre donos de moinhos ou entre moleiros e agricultores que dependiam da mesma fonte de água para irrigar seus campos. Desse modo, (…) era mister que os maquinismos acima operassem sem prejuízo,(…) ou seja, reaproveitando a mesma água e despejando-a novamente no curso do córrego.” (grifo meu)

Dias de Andrade adaptou o trecho de sua paleografia, nos seguintes termos:

“[fazer dois moinhos em uma mesma água que, saindo do cabouco, é conduzida a outro moinho, ambos na banda além da de Bartolomeu Gonçalves]”.

Detalhe de desenho da vila de São Paulo, com os dois moinhos de Manoel João Branco no córrego do Bexiga (Alessandro Massaii. Capitania de S. Vicente, 1616, aquarela sobre papel, 28x40cm. Acervo da Real Academia de História de Madri, apud, Francisco de Carvalho Dias de Andrade, in, A Presença dos moinhos hidráulicos no Brasil)Mas, vamos ao que interessa: A Azenha do Chabouco.

Primeiramente, a definição de azenha, graças ao Dr. Google:

Portanto, definidos os verbetes, chabouco e azenha, preciso dizer que o título desta crônica de diletante é apenas uma provocação aos meus doze queridos leitores. É que havia uma roda d’água (azenha) no riacho Cavouco (chabouco), que ainda corta o Engenho do Meio, pelos quintais do Arruadinho. Quem me disse isso foi o mestre e doutorando pela UFPE, Lula Biu (Luiz Severino da Silva Junior, professor da Univasf, em Petrolina).

Quando o mestre Lula, meu xará, contou-me dessa azenha, sobre as paredes do riacho, hoje canal do Cavouco, eu fiquei encafifado. É que no mapa do alemão Georg Marcgrave, cartógrafo do Maurício de Nassau, há um indicativo de engenho movido a bois, com capela, ou seja, um círculo com ponto no meio e uma cruz, como detalhe do mapa abaixo:

Como assim, roda d’água?

Sim, asseverou o mestre Lula, do qual me tornei admirador, desde a palestra no Simpósio de Arqueologia de Engenhos, em 2015, aqui na UFPE. As épocas eram distintas, mas há indícios de que o Engenho do Meio já teve sua azenha. Primeiro os bois, depois a roda d’água.”

Por isso, segundo ele, deve ter existido uma levada, que é um curso de água desviada de um rio para mover moinhos ou para irrigar terrenos. ou seja, no caso do Engenho do Meio, uma espécie de vala feita de pedras, com declive, para levar a água corrente e dar impulso à moenda de cana de açúcar.

E como localizarmos, hoje, depois de tantos aterros nas margens do Cavouco, as bases do moinho, da antiga azenha, da roda d’água do nosso Engenho Velho da Várzea?

Eureca! Já sei!

A Arqueologia irá aproveitar a passagem do Emissário Enfezado, que escavará a margem direita do Cavouco, para enfim, encontrar e desenterrar as bases da antiquíssima roda d’água do Engenho Velho, unindo assim, o útil ao agradável. Sendo que o agradável, pra nós arruadenses e varzeanos, será encontrar o lugar da azenha do chabouco, isto é, a roda d’água do riacho Cavouco, e que o útil, ou seja, o emissário dos dejetos do prédio do Petróleo e Gás, vá passar na baixa da égua!

Tomara! Oxalá! Deus permita!





EMERSON



ANO:59
  testando base


Sobre o Brasilbook.com.br