ESCOLA, MOVIMENTO NEGRO E MEMÓRIA: O 13 DE MAIO EM SOROCABA – 1930. Fátima Aparecida Silva
dezembro de 2005, quinta-feira Atualizado em 24/10/2025 21:26:01
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Diante das generalizações dos documentos, é preciso desenvolver pesquisaspara esclarecer e rever o que se escreveu sobre as origens culturais da populaçãoescravizada no Brasil. Acrescentamos que sobre as informações da procedência dapopulação escravizadas de Sorocaba, temos documentada a origem de 62 escravosda Fábrica de Ferro de São João de Ipanema ,em 1872. Eles são procedentes deAngola, Moçambique, São Tomé, Piauhy , Majolo, Santa Cruz, Ypanema, SantaCatarina e Rio Grande do Sul. Entretanto, a dificuldade sobre estudos sobre aprocedência dos negros escravizados é assinalada em matéria publicada pelo jornalCruzeiro do Sul.Faltam estudos atualizados sobre a procedência dos negros escravizadosem Sorocaba. De início não havia, nas igrejas, livros especiais para oregistro de africanos. Os batismos de escravos negros eram, então,lançados naqueles em que, anteriormente, se registravam os de índiosapresados e convertidos.Aluísio de Almeida informa que a partir de 1770, os livros originariamentedestinados aos índios, estão cheios de registros de negros trazidos daGuiné (Guiné Bissau), Benguela (Angola) e Mina (Costa da Mina, no golfoda Guiné, atual república do Daomé, na África Ocidental). Menciona ainda apresença de negros trazidos de Moçambique. (Sorocaba. Uma HistóriaIlustrada 350 anos . A trajetória silenciosa dos escravos e a abolição emSorocaba. Fascículo 14, p.214,2004) .Contribuição importante, no âmbito desse problema, pode ser encontrada nosescritos de Kabengele Munaga e Nilma Lino Gomes :(...) Os europeus foram os maiores responsáveis pelo tráfico transatlântico,através do qual 40 a 100 milhões de africanos foram deportados para aEuropa e América. Embora os estudiosos não estivessem de acordo sobreas estatísticas, 40 milhões ou um pouco menos que isto é um númeroassustador quando se pensa em mão-de-obra naquela época, querepresenta quatro vezes a população atual de Portugal ou a totalidade dapopulação da Espanha.Todos os africanos levados para o Brasil o foram através da rotatransatlântica, envolvendo povos de três regiões geográficas:África Ocidental, de onde foram trazidos homens e mulheres do atualSenegal, Mali, Niger, Nigéria, Gana, Togo, Benin, Costa do Marfim, GuinéBissau, são Tomé e Príncipe, Cabo Verde Guiné, Camarões;África Centro-Ocidental, envolvendo povos do Gabão, Angola, Repúblicado Congo, República Democrática do Congo (antigo Zaire), RepúblicaCentro-Africano;África Austral, envolvendo povos de Moçambique, da África do Sul e daNamíbia (MUNANGA, GOMES, 2004, p. 19-20) [p. 37 do pdf]
A quantidade relativamente pequena de escravos negros em Sorocabaestaria ligada a peculiaridades da economia. A cultura de subsistência ealguns pequenos engenhos ainda utilizavam trabalho indígena. No períododo tropeirismo de muares xucros, bem como nas estâncias gaúchas, aatividade dos peões era livre, havendo o emprego de muitos mestiços debrancos e índios. (A trajetória silenciosa dos escravos e a abolição emSorocaba: uma história ilustrada 350 anos. Fascículo 14 p.212 . In:Publicação do jornal Cruzeiro do Sul, 2004.)O documentário já citado, confirma a tese de Almeida, como segue:(...) “a tese de Aluísio de Almeida é confirmada por Sérgio Milliet. Em“Roteiro do café e outros ensaios”, ele sustenta que “antes do ciclo do ouro,São Paulo não tinha negros”. Para o trabalho escravo, os paulistasdispunham dos índios, mais adequados à “vida de nômades e aventureiros”que então levavam”. (A trajetória silenciosa dos escravos e a abolição emSorocaba: uma história ilustrada 350 anos. Fascículo 14 p.212 . In:Publicação do jornal Cruzeiro do Sul, 2004.)Segundo o documentário do jornal , o Cruzeiro do Sul (2004); (..) “Almeidaconstata que, em 1780, a vila de Sorocaba tinha 6.614 habitantes. Os escravoseram 1.174, ou seja, representavam quase 18% da população ou um para cada seispessoas livres”. (A trajetória silenciosa dos escravos e a abolição em Sorocaba. Umahistória ilustrada 350 anos. Fascículo 14, p. 212, 2004. In: Publicação do jornalCruzeiro do Sul). Entretanto, o mesmo documentário relata que o pesquisadorFrancisco Vidal Luna , nos seus estudos, chega a uma conclusão diferente dapostulada por Aluísio de Almeida:Francisco Vidal Luna (FEA/USP), esmiuçando dados do período que vai de1778 a 1836, a partir dos censos populacionais existentes no Arquivo doEstado de São Paulo, chega a conclusões diferentes. Naqueles quase 50anos, o total de fogos (moradias) em Sorocaba oscilou entre um mínimo de901, em 1785, a um máximo de 2075 em 1829.Esse aumento do número de residências, constatado pelo pesquisador daUSP, pode ter resultado da consolidação da feira de muares, que ocorrepraticamente na mesma ocasião.No período estudado, o percentual das moradias com presença de escravosvariou de 19,9% do total, em 1785, a 22,7% em 1836.Conclui o autor que, “no que se refere ao regime de trabalho escravo, tantono período colonial como na fase de país independente”, as condiçõesentão aqui vigentes, “assemelham-se às obtidas de outros estudos sobreMinas Gerais e São Paulo”. (A trajetória silenciosa dos escravos e aabolição em Sorocaba: uma história ilustrada 350 anos. Fascículo 14 p.213 .In: Publicação do jornal Cruzeiro do Sul, 2004).Nesse período os “senhores de escravos eram, predominantemente,pequenos proprietários, mas também se encontravam na vila, àquela época, indivíduos com elevado contingente de cativos, dedicados particularmente aprodução de açúcar, aguardente, criação e, no final do período, café (A trajetóriasilenciosa dos escravos e a abolição em Sorocaba: uma história ilustrada 350 anos.Fascículo 14 p.213 . In: Publicação do jornal Cruzeiro do Sul, 2004). A exploração demão- de- obra escrava pelos senhores “(...) facilitava a realização de negócios quegeravam grandes lucros e fortunas. Aluísio de Almeida em sua pesquisa, identificaos grandes senhores de escravos, em Sorocaba, nas pessoas de Luiz Teixeira daSilva, cujo patrimônio começa a se expandir por volta de 1728, e Salvador deOliveira Leme (o Sarutaiá), que enriquece por volta de 1740” . (A trajetória silenciosados escravos e a abolição em Sorocaba: uma história ilustrada 350 anos. Fascículo14 p.213 . In: Publicação do jornal Cruzeiro do Sul, 2004).Aluísio de Almeida comenta que nenhum dos dois : Luiz de Teixeira Filho daSilva e Salvador de Oliveira Leme “era proprietário de engenhos e sim negociantesem tudo”. A constatação o levou a trabalhar com duas hipóteses com relação aotrabalho escravo: “ambos utilizavam os escravos negros para o trabalho nas áreasde mineração do rio Paranapanema, onde a mão-de-obra africana enxameava oupara vendê-los a terceiros. Seriam, portanto, integrantes do tráfico negreiro”. (Atrajetória silenciosa dos escravos e a abolição em Sorocaba: uma história ilustrada350 anos. Fascículo 14 p.213. In: Publicação do jornal Cruzeiro do Sul, 2004). Amão de obra africana desenvolveu o comércio no ciclo de tropeirismo em Sorocaba.Trataremos este assunto no próximo item.1.4.2 - Tropeirismo e escravidão nos séculos XVIII e XIX em SorocabaO ciclo do tropeirismo do muar em Sorocaba a partir de meados do séculoXVIII, pode ser considerado como o conjunto de atividades comerciais, que se utilizado transporte através de animais.Em Sorocaba, quando alguém fala em tropeiro, normalmente está sereferindo ao comerciante de tropas xucras ou aos auxiliar que oacompanhavam nas viagens ao sul do Brasil, para adquirir e conduzirmuares que, até 1897, foram comercializados na feira de Sorocaba. Houvefeiras semelhantes em outras localidades mas aquela que aqui se realizoudurante uns 150 anos era a maior delas e o evento comercial maisimportante do País.Explica a historiadora Vera Ravagnani Job que, primitivamente, a palavratropa designava multidão de homens ou animais. Com o passar do tempo, adquiriu significados diversos nas diferentes regiões do Brasil. No RioGrande do Sul se referia a um grupo numeroso de animais de qualquerespécie. Nas demais, seu uso se limitava aos rebanhos de eqüinos, muarese asininos. “As tropas - acrescenta a historiadora - podem ser divididas emdois grupos: a tropa xucra ou solta e a tropa arreada ou cargueira”. Foi paraviabilizar a constituição das tropas cargueiras e a atividade dos tropeirosque as conduziam que surgiu e se desenvolveu a atividade do tropeiro detropa xucra. (Tropeiros contribuíram para manter o Brasil unido: umahistória ilustrada 350 anos. Fascículo 06, p.82 . In: Publicação do jornalCruzeiro do Sul, 2004.)É importante notar que a história de Sorocaba é contada sob o aspecto dodesenvolvimento econômico da atividade dos tropeiros no século XIX, maisprecisamente, na década de 1880. Sabemos através de pesquisas realizadas queSorocaba, nesse período, foi um importante centro comercial, com desenvolvimentode feiras e atividades vinculadas ao comércio com outras cidades brasileiras. O quequeremos destacar é que nessa atividade comercial também constata-se a presençada mão-de-obra escrava; nesse sentido o documentário do jornal Cruzeiro do Sul(2004) relata:Sorocaba foi importante centro de comércio de animais. A feira, em queestes eram negociados, movimentava a vida da cidade durante uns 90 diasa cada ano. Escravos participavam das comitivas que iam adquirir tropasxucras nos criatórios do sul do Brasil e vinham vendê-las aqui.O tipo de relacionamento vigente nesses grupos móveis favoreceria,segundo alguns, um contato mais humano entre os escravos e os seusproprietários.Também essa questão precisa ser melhor examinada. As relações entreescravos e senhores, dentro da atividade tropeira, nem sempre eramisentas de conflitos. Um exemplo do Vale Médio do Rio Tietê, em que sesitua Sorocaba, foi a morte em 1842, na estrada de São Paulo a Itu, dotropeiro ituano José Marcelino de Barros, pai do futuro presidente daRepública Prudente de Moraes, assassinado por um escravo a elepertencente.Além disso, nem todo escravo era utilizado exclusivamente em trabalhos daterra. A partir de meados do século XVIII, o crescimento da economia e dapopulação urbanas, faz com que os senhores desloquem um número cadavez maior deles para as cidades, tendo em vista o desempenho de outrasfunções. (Tropeirismo riqueza e poder público: uma história ilustrada 350anos. Fascículo 07, p.100. In: Publicação do jornal Cruzeiro do Sul, 2004.)Esse tipo de trabalho urbano tem características da escravidão urbana quepermitem entender que o escravo era alugado para terceiros, conforme indicam osestudos do jornal Cruzeiro do Sul:(...) Empregados diretamente ou alugados a terceiros, eles são usados paraproduzir, vender ou prestar serviços como pedreiros, sapateiros, alfaiates,carpinteiros, marceneiros, barqueiros, barbeiros, quitandeiras, vendedores [p. 39, 40 e 41 do pdf]
A lei à qual o documento se refere é a Lei do Ventre Livre, que instituiu alibertação das crianças nascidas a partir da assinatura da lei , estabelecendo que a criança ficaria sob a guarda dos donos de escravos da mãe , tendo depois o dono direito a uma indenização do Estado, ou o direito de utilizar do serviço do “liberto” até os 21 anos. Essa lei foi uma estratégia de acalmar os movimentos abolicionistas e dos escravos e ex-escravos , a pressão internacional, quanto ao fim da escravidão.
É interessante observar que a regra que existia no Brasil era a legitimaçãohereditária, isto é, o negro nascido pelo parto de mulher escrava era escravo, omesmo não acontecia quando um escravo fazia filho em uma mulher livre. Segundo Clóvis Moura, “isto tirava o direito da mãe ao filho, fosse gerado por homem livre ou não” (MOURA, 2004, p.237).
Eram muitas as formas de burlar a chamada Lei do Ventre Livre , um exemplo desse desrespeito está no documento por nós encontrado nos Arquivo da cidade de São Paulo em que é registrado em um quadro demonstrativo de Sorocaba de que “menores escravos”, cuja condição servil foi verificada , isto é crianças trabalhando como escravos depois da Lei do Ventre Livre . Aqui é possível observar o quanto essa lei foi um engodo, no sentido de não possibilitar que realmente fosse extinta a escravidão. Segundo Clóvis Moura, o fundo de emancipação era arrecadado em forma de loterias e era motivo de corrupção, desvio de dinheiro e nunca funcionou, sendo usada para muitas vezes libertar idosos, sem condição de trabalho em detrimento dos mais jovens.
Fundo criado pela Lei do Ventre Livre com objetivo de libertar tantosescravos quantos correspondentes quotas disponíveis anualmentedestinadas à emancipação. O Fundo de Emancipação era constituído pelastaxas dos escravos, pelos impostos gerais sobre transmissão depropriedade dos escravos, pelo produto de seis loterias anuais, isentas deimpostos , e pelas multas impostas em virtudes desta lei, pelas quotas quesejam marcadas no Orçamento Geral e nos provinciais e municipais, e pelassubscrições, doações e legados com esse destino.
Esse fundo nada mais foi que um emaranhado de normas jurídicas, administrativas e burocráticaspara que, de um lado, dificultar ao máximo a possibilidade de o escravoconseguir sua emancipação e, de outro , criar toda uma sistemática decorrupção na distribuição de verbas para o fundo. O sistema corruptor tinhadiversos níveis, desde a arrecadação do produto na loteria criada com essefim até a fraude na distribuição dos fundos arrecadados .
Além disso, a burocracia, subserviente aos senhores de escravos, sempre conseguia classificar aqueles a serem emancipados segundo os interesses , privilegiando os velhos, estropiados e incapazes, em detrimento dos sadios e jovens. Tanto isso é verdade que foi insignificante a quantia daqueles que conseguiu alforria por meio deste fundo. Para dar uma idéia da inoperância do Fundo de Emancipação, basta verificar o seu movimento financeiro e aplicação nos períodos anos fiscais de 1871/1872 a 1877/ 1878, quando foram recolhidos 8 034 970$ 196 conto de réis ; somente em livros gratificações e outras despesas foram gastos 525.917$661 contos e, emmanumissões, 2.880 464$ 001 contos. Os 4 151 126$844 restantes nãoforam aplicados, ficando um saldo de 3 883 857$352 contos de réis sujeitoà liquidação. Cabe observar, enfim, que muitas verbas se desviavam numtrajeto entre a Corte e as diversas provinciais (MOURA, 2004, p.163, 164) .[Páginas 49 e 50]
foi publicada a segunda edição na língua inglesa. Pouco depois, em 1848, o relato foi publicado em língua alemã em Dresden e Leipzig, atual Alemanha.A edição em português ocorreu em 1942, na Coleção Brasiliana, intitulada Viagens no Brasil: principalmente nas províncias do norte e nos distritos de ouro e do diamante durante anos 1836-1841, da Companhia Editora Nacional.No ano de 1856 foi publicado o relato Life in Brazil; or, a journal of a visit to the land of the cocoa and the palm de Thomas Ewbank ela Harper & Brothers, Nova York, sendo lançada também na Inglaterra. Nos Estados Unidos houve uma edição em 2005.No Brasil, o relato em português foi publicado com o título A vida no Brasil: ou Diário de uma visita ao país do cacau e das palmeiras, em 1973, pela editora carioca Conquista, em dois volumes.O relato de Henry Walter Bates foi publicado em 1863, em dois volumes, com o título The naturalist on the River Amazons, a record of adventures, habits of animals, sketches of Brazilian and Indian life, and aspects of nature under the Equator, during eleven years of travel by Henry Walter Bates, em Londres pela John Murray. A segunda edição ocorreu um ano depois, com supressão de algumas partes pelo autor, seguida por mais de dez edições na língua inglesa em Londres e nos Estados Unidos. No Brasil O naturalista no Rio Amazonas foi editadoem 1944 pela Editora Nacional.
Em 1869, Richard Burton publicou a primeira edição de Explorations of the Highlands of the Brazil; with a full account of the gold and diamond mines. Also, canoeing down 1500 miles of the great River São Francisco, from Sabará to the Sea by Captain Richard F. Burton, F.R.G.S., etc., em Londres por Tinsley Brothers, em dois volumes. A obra recebeu destaque em finais do ano passado e foi publicada em Nova York no centenário da primeira edição, e nos últimos dezesseis anos teve três edições nos Estados Unidos.
No Brasil, a primeira edição de Viagens aos planaltos do Brasil: 1868, em três volumes,ocorreu no ano de 1941 pela Companhia Editora Nacional, que publicou a segunda edição em 1983. Houve uma edição em 2001 pelo Senado Federal intitulada Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho, volume único.
Em São Paulo, a Tip. Allemã de H. Schroeder publicou Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gaston e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba de John James Aubertin no ano de 1866.
Nesse mesmo ano foi traduzido para o inglês pelo autor e publicado em Londres pela Bates, Hendy & Co. com o título Eleven day’s journey in the Province of Sao Paulo, with the [p. 10]
Outro ponto, o parâmetro comparativo do algodão brasileiro e do norte-americano. A produção dos Estados Unidos figura como indicadora de qualidade e produtividade, em vista do país ter sido o maior fornecedor do mundo, e é trazida pelos viajantes quando desejam estimular a produção no Brasil, em especial, utilizando dados fornecidos por conhecedores do ramo.Nesse sentido, Richard Burton traz as considerações de um renomado pesquisador da cultura algodoeira, Major R. Trevor Clarke96 para quem “Aqui [no Brasil] o algodão tem mais penugem que o habitual; 600 quilos darão 250 de fibra limpa, ao passo que no Alabama são necessários 750 quilos. Em geral, o replantio do arbusto é feito em seu quarto ano”.97 E J. J. Aubertin traz a experiência dos americanos sulistas Dr. Gaston, Dr. Shaw e Major Mereweather, a quem ele acompanhou durante a passagem deles pela Província de São Paulo:Eramos cinco pessoas. Tres Americano sulistas, dr. Gaston, dr. Shaw e o major Mereweather, que ião fazer sua viagem prolongada, na exploração de districtos um pouco remotos, sob a direcção do sr. Engenheiro Bennaton, para esse fim nomeado; e, sendo informado dos seus preparativos, logo me aggreguei a elles, não menos por sympatia para com a antecipada immigração americana, como tambem pelo desejo de visitar em sua companhia algumas plantações de algodão, e tirar algumas instrucções de sua experiencia pratica, a respeito de uma cultura que, sendo hoje estabelecida na província, não póde deixar de influil-os cabalmente na resolução que definitivamente tenhão que tomar.98Durante a permanência na província paulista, o grupo visitou a região de Itu, Salto, Porto Feliz e Sorocaba, daí J. J. Aubertin seguiu para a capital paulista e eles continuaram viagem com destino à Itapetininga. As observações de diferentes aspectos da lavoura algodoeira e o processamento do algodão fizeram os norte-americanos considerarem o clima paulista adequado à produção e benéfico o fato de não haver mudanças bruscas na temperatura, como a ocorrência de geadas, possibilitando maior tempo de conservação do algodoeiro.99Esses dados são agregados por J. J. Aubertin àqueles fornecidos por produtores paulistas de que “emquanto o alqueire norte-americano, dando bem, produz de cem até cento e dez ou talvez 96 Richard Trevor Clarke (1813-1897) – “Army officer and horticulturalist. Major in the Northampton and Rutland Infantry Militia, 1862. Bred nearly thirty new varieties of begonias and many new strains of cotton. Awarded a gold medal by the Cotton Supply Association of Manchester. Member of the Royal Horticultural Society; served on the council and scientific committee for many year; awarded the society’s Veitchian medal, 1894”. BURKHARDT, Frederick et al (Ed.). Charles Darwin. The Correspondence of Charles Darwin (1866). Cambridge: Cambridge University, 2004, p. 502, vol. 14.97 BURTON, Richard Francis. Viagem de canoa de Sabará ao Oceano Atlântico..., op. cit., p. 29. [nota 3]98 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gastón e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba. São Paulo: Typ. Allem[p. 159]
Os esforços de J. J. Aubertin devem ser compreendidos dentro desse contexto, em que ele se coloca como defensor da produção algodoeira paulista e atua em diferentes direções. No Brasil, escreveu para diversos periódicos nacionais e correspondeu-se com diferentes figuras da política brasileira para lhes solicitar o envolvimento com a lavoura algodoeira capaz de colocar São Paulo em posição favorável no mercado inglês, tal como fez o inglês em carta ao Comendador Fideles Prates:
Usai, vos peço, nesta vespera de uma nova semeadura, a vossa bem conhecida influencia entre os vossos amigos, e dizei aos cultivadores do algodão que redobrem os seus esforços na nova plantação, porque pela colheita futura é que se diciderá definitivamente a importante questão se a provincia de S. Paulo pode ou não pode occupar uma posição positiva nos mercados de Manchester.104
Aos agricultores interessados, ele também procurou difundir noções sobre a técnica de cultivar o algodão herbáceo e publicou folhetos sobre a cultura do algodão.105 Essa política de difundir informações sobre o cultivo foi uma atividade constante da associação inglesa, mesmo após o fim da guerra norte-americana.
No plano internacional, empenhou-se em apresentar os algodões paulistas de boa qualidade na Exposição Internacional de Londres, de 1862, com o objetivo de mostrar os atributos do produto. Também foi intermediador entre Manchester Cotton Supply Association e órgãos brasileiros; em duas ocasiões, nos anos de 1862 e 1865, J. J. Aubertin solicitou à associação britânica que enviasse algodão herbáceo ao Ministério da Agricultura e à Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional.106 Em diferentes momentos enviou para a Inglaterra amostras do algodão paulista, em geral, com boas avaliações dos correspondentes.J. J. Aubertin arquitetou ações no Brasil ligadas aos interesses ingleses baseadas em informações colhidas por ele na província ou com base na experiência de nacionais e, principalmente, de norte-americanos, com o propósito de deixar claro as potencialidades de São Paulo e convencer os potenciais produtores paulistas. Para aqueles que mesmo assim estivessem em dúvida, ele escreve:
Deveras, já é tarde demais para duvidar do algodão de São Paulo; mas se ainda ha descrentes, apenas apello para os dous srs. Cultivadores que acompanhei, major Mereweather e dr. Shaw. Ambos elles me repetirão muitas vezes, que melhor algodão que aquelle que nos vimos não desejavão ver; que nas suas proprias plantações e com todos os seus meios perfeitos não costumavãoproduzir melhor. 107
Seus esforços renderam-lhe o reconhecimento da associação inglesa, que o condecorou com uma medalha de ouro, e o governo brasileiro honrou-o com o hábito da Imperial Ordem da Rosa. Nos veículos de informação brasileiros, nos quais tanto escreveu, vemos o reconhecimento de seus pares, como E. Hutchings, outro entusiasta da lavoura algodoeira em terras paulistas e intermediário entre a associação e o Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas:
Hoje, considerado, como um genero de exportação, o algodão, e sua cultura, é um dos factos estabelecidos na historia da provincia, e eu me aproveito desta occasião para patentear a gratidão que todos temos.Quem sabe, o que ha de mostrar-se nos anos que vem? Quasi todas as condições de prosperidade estão unidas nesta provincia; - Um clima sem rival, uma terra cheia de riquesa, e uma natureza, cuja uberdade é espantosa. Tudo isto aqui, e no outro lado do Oceano, a Inglaterra, offerece tudo quanto seja possivel afim de attrahir para lá, os productos da provincia, e com as devidas providencias, e constancia em trabalhar, tudo será possivel, e, sem esta, nada.Campinas, Mogy-mirim, Limeira e outros lugares vão caminhando na cultura do café, e o publico, bem como os particulares, são beneficiados. Parece que, para Sorocaba, resta ainda este outro manancial de prosperidade; - a cultura do algodão, e não ha homem ou natural, ou estrangeiro na provincia, que não abençoará a empresa.[...] Caminho da Luz, S. Paulo Agosto de 1865[...] E. Hutchings108
Evidentemente, tais esforços foram no sentido de produzir algodão adequado às necessidades da indústria inglesa. Foi estimulado o plantio da semente de Nova Orleans, em solicitação de uma circular da Manchester Cotton Supply Association109 e houve uma modificação na postura do produtor brasileiro: “O tipo de algodão tradicional no Brasil era o arbóreo mas o mercado consumidor passou a condicionar a produção ao tipo herbáceo dos 107 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo..., op. cit., p. 16.108 HUTCHINGS, E. “Aos Redactores do Diario de São Paulo”. Diario de S. Paulo, São Paulo, 11 agosto 1865, ano I, nº 10, p. 2. Em outras atividades, além do algodão: E. Hutchings foi um dos secretários da Comissão Julgadora de um concurso para criadores de animais pensado por J. J. Aubertin, tesoureiro do evento. O Comendador Fideles Nepomuceno Prates aparece como um dos Juízes. “Concurso industrial”. Correio Paulistano, Estados Unidos. As variedades mais procuradas eram a U[p. 161, 162]