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NOTAS SÔBRE O CAMINHO PARA MATO GROSSO A descoberta do ouro na região de Cuiabá em 1719, ou mes-mo antes segundo alguns autores, veio revelar e incorporar ao patrimônio luso-brasileiro em terras americanas extensas regiões às quais logo se atiraram os paulistas intemeratos, devassadores audazes dos sertões, levando a marca de sua expansão até o mais longínquo centro-oeste, com a fundação, nas margens do Guaporé, da primitiva Vila-Bela, posteriormente Mato Grosso, a "cidade do ouro e das ruínas". O desastre sofrido pelos paulistas em Minas Gerais na guerra dos emboadas (1709) levou-os a procurar outros centros de atividade mineradora, longe da rivalidade e da inveja dos reinóis, sempre prontos a tirarem o melhor partido do trabalho árduo dos intrépidos sertanistas e descobridores de São Paulo. A expansão paulista em Goiaz e Mato Grosso pode ser levada à conta de conseqüências principais dêsse desvio no rumo da atividade expansionista. Desnecessário dizer que as mesmas rivalidades e, conseqüentemente, as mesmas lutas surgiriam bem cêdo em terras matogrossenses, como o atestam os cronistas que se ocuparam do assunto nos séculos XVIII e XIX.

Este movimento de expansão para o centro-oeste brasileiro corresponde ao denominado "ciclo das monções", no qual coube a preponderância aos filhos de Sorocaba, tal como no início da mi-neração em Minas Gerais coubera a preponderância aos filhos de Taubaté. Em nenhuma outra região do território brasileiro foram tão grandes as dificuldades e os obstáculos a vencer por parte dos devassadores paulistas, principalmente na luta contra o indígena, como na região matogrossense. "Afora as cachoeiras e itaipavas, as inundações das caudais na quadra das chuvas, a fome e as febres, as legiões de insetos incômodos ou nocivos, as serpentes e as feras — foi ali que os índios opuzeram mais óbices aos destemerosos mamelucos" (1). (1) — Bfuglio de Magalhães, Expansdo geográfica do Brasil colonial, 3. ,edição. S. Paulo. Editora Nacional. 1935. P. 200.[p. 551]Todavia, tão rico se afigurava o novo Pactolo descoberto, que verdadeiro "rush" para tão longínquas terras assinalam as crônicas relativas aos dez primeiros anos após as penetrações de que resul-taram as primeras amostras de ouro. "Divulgada a notícia pelos povoados, foi tal o movimento que causou nos ânimos, que das Minas Gerais, Rio de Janeiro e de tôda a capitania de São Paulo se abalaram muitos, deixando casas, fazendas, mulheres e filhos, botando-se para êstes descobertos como se fôra a Terra da Pro-missão ou o Paraíso em que Deus pôs nossos primeiros pais", no dizer de um dos cronistas cuiabanos dos fins do século XVIII (2). A elevação de Mato Grosso à categoria de capitania inde-pendente da de São Paulo (1748) foi a conseqüência política do rápido desenvolvimento daquelas terras, cujo desmembramento marcou o último dos cortes sofrido pelo território paulista no sé-culo XVIII, reduzindo-o a pouco mais do que as proporções atuais depois de, em sua área, englobarem-se Minas-Gerais, Mato-Grosso, Goiaz e todo o sul do Brasil. Dos riscos imensos, bem como de tôdas as dificuldades que ofereciam as viagens para Mato-Grosso dão testemunho todos os cronistas e todos os que se ocuparam dêsse movimento. O citado cronista cuiabano dos fins do século XVIII — Joaquim da Costa Siqueira — referindo-se a uma das expedições do ano de 1720, pinta com côres negras, evidentemente exageradas, as dificuldades aludidas: "Padeceram grandes destroços, perdições de canoas nas cachoeiras por falta de pilotos e práticos, que ainda então não havia, mortandade de gente por falta de mantimentos, doenças, co-midas das onças, e outras muitas misérias; não sabiam ainda pescar, nem caçar, nem o uso de toldar as canoas, que tudo lhe aprodrecia com as chuvas, nem também dos mosquiteiros para a defesa dos mosquitos que muitos anos depois foram a experiência e a neces-sidade ensinando tôdas estas cousas pelo que padeceram de mi-sérias sôbre misérias os que escaparam de morte; houve comboio de canoas em que morreram todos sem ficar um vivo, pois eram achadas as canoas e fazendas podres pelos que vinham atraz, e os corpos mortos pelos redutos e barrancos" (3). Quase todo o percurso era fluvial, representando o nosso Tie-tê seu grande papel de via de penetração ainda não , suficiente-mente assinalado em tôda a sua importância. A navegação tinha início em Pôrto Feliz (primitivamente Araraitaguaba), uma vez que o trecho do Tietê que antecede aquele pôrto não se presta à navegação pelas inúmeras corredeiras. Do Tietê passavam ao Paraná, descendo êste até encontrarem um dos seus grandes afluentes da margem matogrossense, o Pardo ou o Ivinheima, que remotavam até onde o permitissem as águas. Através dum vara- — Joaquim da Costa Siqueira, Crónicas do Cuiabá, In Rev. do Inst. Hist. Geo. S. Paulo, v. IV., p. 19. S. Paulo, I898-1899. [p. 552]

douro atingiam os rios da bacia do Paraguai, alcançando por êles a região da mineração. A procura dum varadouro menos extenso foi sempre uma preocupação constante pelas dificuldades imensas que a sua transposição oferecia. Algumas descrições existem, bem detalhadas, das viagens para Mato Grosso, tôdas elas ressaltando os grandes óbices que oferecia a rota, desde a própria navegação até o risco de ataques das na-ções indígenas do sul de Mato-Grosso. O mais antigo dêsses relatos talvez seja o que Afonso de E. Taunay publicou no tomo I dos "Anais do Museu Paulista", "papel do segundo quartel do século XVIII em que ocorrem diversas circunstâncias valiosas para o estudo de bandeirismo", no dizer do erudito historiador das bandeiras paulistas, copiado de manuscrito existente na Biblioteca Nacional e cuja importância foi assinalada por Capistrano de Abreu, segundo o depoimento do próprio Taunay (4). A seguir, ocorre-nos o ´Diário da navegação" de Teotônio José Juzarte, de 1769, também divulgado por Taunay no mesmo volume dos "Anais do Museu Paulista" (5). Parece ser o mais va-lioso dos documentos que sôbre o assunto nos ficaram do século XVIII. Outro, também importante, é o relato de Manoel Cardoso de Abreu, medíocre escritor paulista do século XVIII — do qual longamente se ocupou Taunay em seu livro "Escri-tores coloniais". Seu trabalho, que traz o gongórico título de "Divertimento admirável para os historiadores observarem as má-quinas do mundo reconhecidas nos sertões da navegação das minas de Cuiabá e Mato-Grosso", datado de 1783, foi descoberto e divul-gado por Eduardo Prado e oferece mais abundância de informes no que se refere à navegação e a vida nos povoados fundados pelos paulistas em Mato-Grosso (6). Deve ser assinalado, ainda, o relato de Lacerda e Almeida "Diário de Vila-Bela até a cidade de São Paulo pela ordinária derrota dos rios", de 1788-1790 (7) bem como o valioso documento há alguns anos divulgados por Taunay — a carta de um passageiro de monção, datada de 1785 e da lavra do — Demonstraçao dos diversos caminhos que os moradores de 8. Paulo se sorvem para os rios Cuyaba e província de Cocldponé, in "Anais do Museu Paulista", t. I, 2.´ parte, pp. 455-464. S. Paulo, 1922. — "Diário da navegação do rio Tleté, Rio Grande Paraná, e Rio e Ga-temy em que se dá Rellação de todas as cousas mais notavels destes Rios, seu curso, sua distancia, e de todos os mais Rios, que se encon-trão, Ilhas, perigos, e de tudo o acontecido neste Diario, pelo tempo de dous annos e dous mezes. Que principia em 10 de Março de 1769. Es-crito pelo Sargento. Mor Theotonio José Juzarte" in "Anais do Mu-seu 1´3 u lista" , t. 1, parte 11, pp. 41-118. S. Paulo, 1922. Reimpresso in "1 avista. do Arquivo M unici pal " , v. LXI, pp. 77-122. S. Paulo, 1939. — V. Revista do Inst. Hist. Geogr. S. Paulo, v. VI, pp, 253-290. S. Paulo, 1902. — ´Pste relato de Lacerda e Almeida foi incluido no "Diário da Viagem pelas Capitanias do Pará. Rio Negro, Mato Grosso, Cuiabá e São Paulo nos anos de 1780 a 1790". Impresso por ordem da Assembléia Legisla-tiva da Província de São Paulo. S. Paulo, Tip. Costa Silveira, 1841. Reedição feita pelo Instituto Nacional do Livro em 1944, com nota-prefá-cio de Sérgio Buarque de Holanda, reunindo diversos outros trabalhos [p. 553]

dr. Diogo de Toledo Lara e Ordonhes, magistrado em Mato-Grosso nos fins do século XVIII (8). Finalmente aludiremos a um valioso manuscrito da Biblio-teca de Évora (Cod. CXVI/2-13, n.° 18) há pouco divulgado na coleção "Documentos dos arquivos portuguêses que importam ao Brasil", que contém o breve roteiro dos caminhos que no século XVIII os paulistas faziam para penetrar no Cuiabá, obra de autor anônimo, provàvelmente um prático de tão perigosas e dilatadas viagens. O interêsse dêsse pequeno roteiro, aliado à circunstância de ter sido dado à publicidade em Portugal, portanto pouco conhe-cido entre nós, animou-nos a divulgá-lo:

"Da cidade de São Paulo à villa da Parnayba he hum dia de viagem; quem leva carga gasta 2 dias neste caminho. Da Parnayba à villa de Utú o mesmo. Da de Utú ao porto do rio he huma legoa. De São Paulo athe este lugar não permite o rio navegação, pellos pre-cipicios de suas pedras. De Utú para baxo se ajuntão as canoas, e formadas as frotas partem para varias con-quistas. Athe o rio grande gastão 20 dias navegando de pela manhã athe a 2 da tarde. Em duas partes, que cha-mão Abanhendaba, e Masuira por serem as cacheiras altas levão as canoas por terra estivado o caminho com madeiras. Em outras duas partes pello perigo tirão as cargas das canoas, e estas vão à sirga. Tem outras cor-rentezas de menos perigo".

É extraordinária a semelhança entre êste manuscrito de Évora e o original da Biblioteca Nacional divulgado por Taunay: as mesmas observações relativas às dificuldades de navegação no Tietê, ao tempo gasto na viagem, à circunstância de só navegarem até as duas horas da tarde, à interrupção nas cachoeiras maiores (Avanhandava, por exemplo).

"Tanto que as frotas chegarão ao rio grande navegão por ele abaixo 6 dias athe a barra do rio Pardo, que lhe saye da parte da mão direita, e logo sobem por elle a rumo do nordeste per espaço de 23 dias, não sem difi-culdade per causa da muita correnteza e pedras. De-xadas as canoas aonde no rio Pardo já não se pode navegar, caminhão os paulistas per terra athe o Cuyaba per espaço de 25 dias, ou hum mez. Outros Paulistas por fogirem o trabalho de caminho de terra tão dilatado, caminhão per terra somente 10 ou 12 dias athe o ribei-rão Itikira, ou em outro chamado Piaguy, os quais então (8) — Taunay, Afonso de E., Assuntos do três séculos coloniais, 1598-1790. S. em outro rio mayor chamado Pikiri com navegação de 5 dias. Este rio Pikri entra em outro mayor char..ado Parrudos, pello qual sobem e em breve navegação chegão a bara do rio Cuyaba, o qual desce dos morros de Cochi-poné e he braço principal do rio dos Parrudos, e este cres-cido já com tantos braços e rios vay dar no grande rio do Paraguay. Outros Paulistas depois de navegarem pello rio Pardo assima, entrão por hum de seos braços cha-mado Ypiranga, donde atravessando por terra para a parte das vargens achão o ribeiro navegavel chamado Camapoan em distancia de 3 lagoas; por este ribeyro, que he navegavel descem ao Tacoary, o qual com navegação de 8 dias, entra no rio Paraguary, e sobindo por este as-sima em distancia de 10 dias de viagem entrão na barra do rio dos Parrudos, da qual barra athe o Cuyaba são 20 dias de viagem. No anno passado Lourenço Leme levou por terra huma canoa feita em Utú e do braço Ypiranga apassou ao Campoã e foy por este caminho ao Cuyaba".

A navegação do rio Pardo foi, de fato, a mais utilizada na rota para Mato-Grosso, embora a do Ivinheima não fôsse de todo deb prezada. Ponto de referência importante é o varadouro de Cama-poã, pelo qual alcançavam o rio Coxim e por êste o Taquarí, o Pa-raguai e o Cuiabá. Ali se abriu logo um centro de povoamento —a Fazenda do Camapoã, "única que se acha em tão dilatado sertão, estabelecida por necessidade por causa da varação das canoas", se-gundo o depoimento do dr. Ordonhes na carta a que nos referimos, "fundada no centro dêste sertão sàmente com o fim de ter carros prontos para a varação das canoas e cargas de um para o outro rio", segundo o dizer de Lacerda. Sôbre as dificuldades de transposição dêsses varadouros escreveu o autor do "Divertimento admirável": "As canoas são conduzidas em carros muito grandes, de 4 rodas, puxados por 6, 8 juntas de bois. As cargas pesadas vão em outros de duas rodas e as mais medianas vão às costas dos negros, que pu-xam as mesmas canoas, saindo daquele lugar para a fazenda à meia noite, acompanhados de outras pessôas que vão alugadas para o serviço da viagem, com armas de fogo para a guarda e defesa dos mesmos negros, os quais não indo com esta precaução é infalível o serem feridos do mesmo caiapó, que não cessam as suas traições em semelhantes lugares" (9).

"Os Paulistas que vão pela vacaria, tanto que no rio grande chegarão à barra do rio descem mais 4 dias pello mesmo rio grande athe o rio Imonheyma, o qual per 3 bra-ços entra no dito rio grande. O braço per onde entrão os Paulistas chamasse Anhanguepy. Navegão pello dito (C) — Rev. Inst. Hist. Geogr. S. Paulo, VI, 267. Silo Paulo, 1902.[p. 555]Imonheyma assim per espaço de 18 dias, os quais aca-bados atravessão per terra 8 dias athe as cabeceiras do rio Botetey no qual fazem canoas e com ellas descem per espaço de 12 dias ao Paraguay, dahi sobem athe a barra de Tacoary assima 3 dias, e dahi a barra Parrudos na forma já dita. Este caminho he mais abundante de sustento, mas arricasdo a encontrar tropas de Castelha-nos, e Cavalleiros Guaycorús, o qual perigo não tem o ca-minho do rio Pardo. O Excellmo. Senhor General Ro-drigo Cezar e Menezes prohibio per justas causas o ca-minho pella vacaria, e concordarão os Paulistas em que o caminho geral fosse palio rio Pardo. Outros Paulistas tanto que chegarão ao rio grande descem por este só por tempo de 2 ou 3 dias e chegando a barra do rio verde sobem por elle assima per espaço de 10 ou 12 dias, e chegando ao salto do rio ahi dexão as canoas e seguem o mesmo caminho que os que forão pello rio Pardo já assima dito. Tambem abaxo do rio verde esta outro rio 2 dias de viagem chamado Ypitanga pello qual assima se faz a mesma viagem que palio rio verde. Na viagem do rio verde ha perigo de gentio Bilrreiro ou Cayepô".

Na descrição dêstes outros caminhos, bem como nas desvan-tagens que êles ofereciam quando comparados com a rat .a Pardo-Camapoã, aproxima-se imensamente êste roteiro do manuscrito da Biblioteca Nacional publicado por Taunay; as dificuldades que o sul de Mato-Grosso oferecia, com os constantes ataques des Ca - telhanos, Guaicurús ou Caiapós (os mesmos Bilreiros) são assina-ladas nos dois documentos quase que com as mesmas palavras. Finalmente, assim conclui o roteiro de Évora:

"O caminho por terra é independente de canoas he de São Paulo a Corocaba 3 dias, de Corocaba a serra de Botycatú 7 dias, dahi ao rio grande 15 ou 20 dias, dahi passado o rio grande vão costeando o rio Pardo e fazen-do a viagem que já .dissemos no caminho navegavel. Todos estes caminhos que acima ficão ditos levão a frente ja a Oeste, ja a Noroeste, Norte e Nordeste. O caminho de terra pellos Batatais he mais direito e breve, mas por hora impraticavel pello perigo dos Cayapos".

Notável não só neste roteiro, como em todos os demais do sé-secuo XVIII a preocupação constante com o indígena. Bilreiro, caiapó, paiaguá, guaicurú são nomes que ocorrem a todo instante. Aliás, contra as agressões dêsses indios, que só diminuiram com o findar do século XVIII, não encontraram os viajantes outro recur-so senão navegar sômente em camboios e com canoas artilhadas.





LUCIA01/01/2026
ANO:123
  


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