Entre Abril e Maio de 1904, o ornitólogo e entomo´logo belga Philogène Wytsman escreveu quatro cartas com destino a Lisboa. Wytsman estava então no auge da sua actividade científica, que o levaria a coordenar vários volumes sobre aves e insectos até 1914. O destinatário era António Augusto Carvalho Monteiro, o milionário nascido no Rio de Janeiro em 1848, consagrado na tradição popular como o “Monteiro dos Milhões”, alcunha que herdara do pai. O que pretendia o cientista deste luso-brasileiro que tratava como “caro colega”?Monteiro e Wystman discutiam a troca de obras científicas recentemente publicadas e a aquisição da pele e esqueleto de um ocapi proveniente do Congo Belga. É bom lembrar que esta espécie da família das girafas fora descoberta apenas em 1901, circunscrita à actual República Democrática do Congo e tornara-se uma excentricidade desejada. Wytsman informou que o primeiro ocapi trazido para a Europa viera para o Museu Britânico em 1901 e custara 30 mil francos. A pele e esqueleto deste animal valeriam agora 15 mil francos.Em troca, o luso-brasileiro teria de obter “três altas distinções honoríficas para os funcionários do Estado do Congo [assunto possível com a intervenção do ministro] que confidencialmente são meus amigos”, escreveu Wytsman. Percebe-se, já nas cartas de Maio de 1904, que Carvalho Monteiro interveio em nome do Museu Zoológico de Lisboa e do seu amigo naturalista José Barbosa du Bocage, mas, desta vez, não teve sorte: Wytsman informou, a 28 de Maio, que a cobiçada peça seguiria para o Museu de Estocolmo.Escassa correspondência de Carvalho Monteiro chegou aos nossos dias e esse espólio remanescente deve muito ao cuidado dos descendentes. Este episódio, porém, ajuda a resolver um equívoco com mais de um século: o rótulo de capitalista excêntrico, ocioso e beneficiário de uma fortuna que lhe permitiu nunca exercer uma profissão, esconde a verdadeira dimensão da sua biografia, que a Fundação Cultursintra, entidade que divulga e estuda o património cultural da Quinta da Regaleira, tem vindo a descobrir. Há hoje razões para acreditar que a famosa caricatura desenhada por Francisco Valença, que mostra Carvalho Monteiro no dorso de um burro, abençoado pela fortuna, com o livro de cheques pendente do bolso e moedas a escorrer da cartola, é uma ínvia representação do ideólogo da Quinta da Regaleira.Eça de Queiroz, por quem o romântico António Carvalho Monteiro não nutriria particular apreço, escreveu:“Para alargar o conhecimento sobre os grandes homens, De facto, não é fácil fazer a arqueologia de uma vida extinta há 90 anos. Para tal, socorremo-nos de fragmentos de informação, relatos orais e documentos como peças de um puzzle incompleto."António Carvalho Monteiro viveu no Brasil até aos treze anos de idade. O pai, Francisco Monteiro, um português de Lagos da Beira, emigrara aos 13 anos para escapar ao sacerdócio que o seu pai havia destinado para si. Trabalhou numa empresa de importação de carvão inglês e viria a casar com Teresa de Carvalho, a filha de um rico comerciante que partira de Lisboa com a corte portuguesa. A família possuía um rico património imobiliário e fundiário potenciado depois pelo crescimento da cidade brasileira.O apreço por Portugal e Brasil manteve-se impregnado na família: de Portugal, Francisco Monteiro não se coibiu de participar em 1863 na subscrição pública para ajudar o império brasileiro, lembrando que foi ali que “passou os melhores 21 anos” da sua vida; em 1890, em contrapartida, poucos meses antes de falecer, foi um dos primeiros aderentes à subscrição nacional de auxílio ao governo português, pressionado pelo ultimato inglês.Em Portugal, a família viveu primeiro na Rua da Couraça de Lisboa, em Coimbra, cidade onde António Carvalho Monteiro estudava, e mais tarde no palácio da Rua do Alecrim, adquirido em hasta pública em 1874 após falência do conde de Farrobo. Fora a residência de Junot durante a primeira invasão francesa.O jovem licenciou-se em direito, entre 1866 e 1871, com 14 valores, e terminou igualmente o curso administrativo, então composto por várias cadeiras de filosofia natural, recebendo prémios em agricultura e mineralogia. Dominaria já o latim, o grego, o francês e o alemão e, graças à sua facilidade de memória, chegou a recitar integralmente os “Lusíadas”, fazendo jus à tradição familiar de camonista dedicado em que se tornaria.Em 1873, casou com Perpétua Augusta Pereira de Melo, com a qual teria dois filhos. Residiu em Petrópolis e no Rio nos três primeiros anos de casamento, movido pela paixão pela entomologia.
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