Quem foram as primeiras mulheres a chegar ao Brasil. Texto: Tiago Cordeiro, consulta em super.abril.com.br
14 de abril de 2024, domingo Atualizado em 21/11/2025 20:12:03
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Poucos meses depois de chegar ao Brasil, em 1549, o chefe dos missionários no País, Manoel da Nóbrega, pediu que o rei João 3º enviasse mulheres para o lado de cá do Atlântico. Elas deveriam cumprir uma função estratégica: a de casar com colonos, e assim gerar descendentes educados num verdadeiro lar cristão. “Todos se me escusam que não têm mulheres com que casem, e conheço eu que casariam se achassem com quem”, ele argumentou na carta em que fazia o pedido. Em outras palavras: não havia como reclamar de os homens dormirem com as índias sem oferecer a eles uma alternativa.
Seu pedido foi atendido com certa agilidade. Nos anos seguintes, até onde os registros indicam, foram enviadas para a colônia 18 órfãs, que chegaram ao Brasil a partir de 1551. Já seria o suficiente para fundar uma primeira geração de famílias brancas nativas da nova terra.
Até aquele momento, praticamente não existiam mulheres europeias na América portuguesa. Essas primeiras eram adolescentes órfãs que, na Europa, viviam em casas de recolhimento ou mosteiros. Em geral, tinham menos de 15 anos e eram filhas de funcionários do governo mortos, normalmente em batalhas ou em viagens para os territórios que Portugal já conquistara, ou onde tinha interesses comerciais. O governo português estava habituado a enviar moças assim para suas outras colônias, em especial Goa, na Índia.
Os homens que se casassem com elas receberiam, como dote, cargos no governo – Francisco de Morais, por exemplo, tornou-se escrivão da alfândega de Salvador depois de se unir a Catarina Fróis. Já Manuel Gonçalves precisou processar o governador do Rio de Janeiro, Mem de Sá, para receber o que lhe fora prometido ao se casar com a órfã Maria Barbosa.
Para as mulheres enviadas, Nóbrega via uma vantagem na mudança de ares. “E digo que todas casarão mui bem, porque é terra muito grossa e larga, e uma planta que se faz dura dez anos aquela novidade, porque, assim como vão apanhando as raízes, plantam ramos, e logo arrebentam. De maneira que logo as mulheres terão remédio de vida, e estes homens remediariam suas almas, e facilmente se povoaria a terra.”
De fato, a mudança não deixava de ser uma opção razoável. Afinal, era necessário casar para receber respeito da sociedade, e não ter pais vivos podia diminuir bastante o interesse das famílias de possíveis maridos em Portugal. As órfãs também recebiam uma garantia bastante rara nas colônias: uma união civil formal, reconhecida pelo Estado.
O Brasil atravessaria seus primeiros três séculos com índices de concubinatos altíssimos. Enquanto isso, as órfãs entraram no rol de mulheres casadas no papel, o que lhes trazia uma série de vantagens, principalmente no caso, muito comum, de o esposo morrer.
Órfãs da rainha
Os nomes e os destinos de 15 das 18 moças são conhecidos – ao menos para onde foram levadas e com quem foram casadas. Sabemos que as primeiras órfãs enviadas para o Brasil foram três irmãs, que chegaram a Salvador em 1551. Eram Mécia Lobo de Mendonça, Joana Barbosa Lobo e Marta de Sousa Lobo, filhas do general lusitano Baltasar Lobo de Souza, que perdera a vida durante as batalhas de conquista das Índias.
Joana foi casada com Rodrigo de Argolo, e juntos fundaram uma família de colonizadores de longa tradição na Bahia. Marta se transferiu para Ilhéus com o esposo, João Gonçalves Dormundo. Seus três filhos mudariam a grafia do sobrenome para Drummond. Por sua vez, Mécia teve duas filhas com Jerônimo Moniz Barreto. E isso é basicamente o que se sabe sobre o destino das irmãs.
A partir de 1551, por cinco anos, quem determinou o envio de mulheres foi a rainha Catarina da Áustria, esposa do rei João 3º, que havia falecido. Foi nesse período que as jovens ficaram apelidadas de “órfãs da rainha”. Uma delas, Clemência Dória, teve um destino dos mais felizes. Trazida para Salvador em 1553, ela primeiro se casou com Sebastião Ferreira, que morreu três anos depois num naufrágio.
Clemência, porém, não permaneceu viúva. Casou-se novamente, agora com um cunhado do primeiro governador-geral Tomé de Souza, chamado Fernão Vaz da Costa. Por aceitá-la como esposa, Fernão recebeu o cargo de contador geral da colônia. Mas também faleceu, em 1560. A esposa viveu até os anos 1590, pelo menos, e se tornou uma latifundiária rica. É a provável matriarca de todos os Dória, incluindo o atual governador de São Paulo, João Dória Jr.
Já Inês de Souza se mostrou uma chefe militar de talento. Essa órfã foi selecionada para casar com Salvador Correia de Sá, governador da capitania do Rio de Janeiro em segundo mandato quando, em 1581, três navios corsários franceses invadiram a Baía de Guanabara. Salvador estava no interior, à caça de índios para escravizar. Inês então liderou a reação à ameaça francesa: na falta de soldados em quantidade, colocou armaduras e capacetes em jovens e mulheres e os mandou para a praia.
Diz a lenda que foi diante desse falso movimento de reação, com um volume de pessoas maior do que as forças portuguesas efetivas, que os franceses se afastaram. Não a invadiram, como possivelmente previam, e se limitaram a parar em outros pontos do litoral para negociar madeira com os indígenas.
O governador Salvador Correia não teve descendentes com Dona Inês, mas tratou como filhos legítimos os dois meninos, Martim e Gonçalo, que gerou com outra mulher, Vitória da Costa. Sinal de que o governador aceitou o casamento com a órfã, mas não levou a sério o compromisso.
Feiticeiras perseguidas
Primeiro, misture pelo e fios de cabelo, pedaços de unhas e pele da sola do homem amado. Acrescente um pedaço de unha do menor dedo do pé da feiticeira. Engula tudo isso. Quando a mistura virar fezes, leve-as para a feiticeira. Ela vai queimá-las até que virem pó. E esse pó precisa ser misturado com uma canja de galinha e servida ao homem. E assim ele vai se apaixonar por você.
Antônia Fernandes, conhecida como a Nóbrega, ditou a receita ao chefe da Inquisição que atuou na Bahia, na década de 1590, Heitor Furtado de Mendonça. Confessou que havia realizado esse feitiço mais de uma vez. Ela já tinha sido expulsa de Portugal sob a acusação de atuar como cafetina de sua filha, Joana. Como degredada, havia encontrado na bruxaria um modo de vida rentável. Até ser denunciada por suas clientes, que certamente temiam serem elas mesmas julgadas por terem participado dos rituais.
A Nóbrega não era, nem de longe, um caso isolado. Muitas mulheres ensinavam poções e rituais mágicos. Uma delas, Maria Gonçalves Cajado, mais conhecida como Maria Arde-lhe o Rabo, descreveu aos inquisidores, sob tortura, suas participações em rituais de magia negra. Nua da cintura para cima, num quintal descampado, sob a lua cheia, ela invocava os demônios. Quando um deles aparecia, fazia sexo com ele. A relação começava, necessariamente, com Maria beijando as nádegas do ser infernal.
As duas, assim como Isabel d’Alcunha, conhecida como a Boca Torta, negociavam “cartas de tocar”. Eram objetos, gravados com o nome da pessoa amada, acompanhado de outras palavras mágicas. Tudo o que a pessoa precisava fazer era encostar esses objetos na pessoa desejada.
No Brasil, as feiticeiras estavam espalhadas por todo canto. Em geral, seus casos ficaram conhecidos porque elas responderam a processos diante do tribunal da Inquisição. Maria Joana de Azevedo, por exemplo, nasceu em São Luís e vivia em Belém quando, em 1766, foi acusada de expulsar demônios e oferecer banhos que afastavam espíritos ruins.
Na mesma época e mesma região, uma índia conhecida como Sabina respondeu por acusações idênticas. O fato de que três pessoas diferentes se apresentaram para denunciá-la indica que Sabina era uma curandeira muito popular. Teria curado a cegueira de um homem, Raimundo José Bittencourt, usando a fumaça de um cachimbo aceso e a própria língua, que ela teria enfiado dentro do olho do paciente, até tirar de lá um bicho, a causa do problema.
Prostitutas populares
Entre matriarcas e feiticeiras, também viviam prostitutas. Elas se mantinham populares na colônia, até porque o casamento, da forma como estabelecido pela Igreja, não permitia nenhum tipo de prazer no sexo. Nesse contexto, os prostíbulos eram um espaço de relaxamento e satisfação dos sentidos. “Pacificadoras da violência sexual contra as donzelas casadouras e do desejo que pusesse em risco a fidelidade às esposas”, escreve a historiadora Mary del Priore em História das Mulheres no Brasil, “as prostitutas, aos olhos da Igreja, eram a salvaguarda do casamento moderno”.
Por isso mesmo, a prostituição era considerada um crime menos grave do que a sodomia ou o adultério – a ideia de que um casamento cristão depende da existência de bordéis já estava presente nos textos de Santo Agostinho, do século 5. Nesse sentido, os homens estavam liberados para explorar seus desejos carnais em prostíbulos, sem que isso configurasse adultério.
É claro que viver cercado de prostitutas não era recomendado com todas as letras. Elas deveriam funcionar mais como válvula de escape eventual. Os frequentadores deveriam seguir orientações médicas, a fim de evitar possíveis doenças trazidas por essas mulheres. Nos séculos 17 e 18, recomendava-se, por exemplo, banhar-se com água fria, dormir sobre tábuas, tomar vinagre forte com duas claras de ovo, encher as solas dos sapatos com fezes de mulher ou mascar losna sempre que possível.
Num contexto de relativa aceitação, era comum que famílias pobres estimulassem a prostituição de filhas e sobrinhas, ou que famílias ricas fizessem vista grossa aos ganhos acumulados por suas escravas durante a noite. Francisca Carijó, de Itu, e Joana Ribeira, de Atibaia, foram acusadas, em 1758, de explorar suas filhas.
Em 1730, um morador de Vila Rica, André Jorge, respondeu a processo por liberar que a própria esposa e sua filha se prostituíssem. A esposa andaria “descomposta, lançando-se no rio à vista da gente, sem mantos”. Em Minas, uma mulher chamada Maria Franca enviava suas três escravas para a rua, para fazer sexo até trazer para casa uma quantia predeterminada. Justa de Sampaio, escrava liberta, fazia o mesmo com suas próprias escravas.
A pobreza, aliás, levava homens como o baiano José Gonçalves a colocar para dentro de casa a esposa e a amante – esta na cama com ele, aquela dormindo numa esteira no chão.
Princesas e escravas
No início da colonização, quando navios deixavam o Brasil em direção à Europa carregados com nativos escravizados, a proporção de mulheres era muito maior do que a de homens, sinal de que os homens brancos queriam sexo forçado com as índias. À medida que o tráfico de negros se intensificou, começaram a surgir especialidades para os escravos, e algumas mulheres passaram a ser compradas com o objetivo específico de gerar filhos. Foi o caso de Aqualtune.
De acordo com uma antiga tradição, ela era filha de um rei do Congo. Uma princesa, portanto. Morreria na capitania de Pernambuco, numa região onde hoje é Alagoas, mãe de Ganga Zumba, avó de Zumbi. Diz uma lenda, contada e recontada em histórias infantis e canções de cordel, que, na África, ela havia sido derrotada na Batalha de Mbwila, em 1665, numa época em que liderava um exército de 10 mil homens. Como punição, foi vendida pelos vencedores, colocada num navio negreiro rumo ao Recife e levada para um engenho ao sul de Pernambuco.
Estava grávida e, antes de dar à luz, teria organizado uma fuga de escravos em busca de um quilombo sobre o qual muito se ouvia falar. Com a barriga de vários meses, ela teria seguido pelo interior, até encontrar o que era o início do Quilombo dos Palmares. Ali, sua posição de princesa teria feito dela uma líder respeitada. Foi vista pela última vez em 1677, quando a aldeia em que vivia foi queimada. O quilombo ainda resistiria até 1695.
A força da grana
A fuga para um quilombo se mostrava como uma das melhores alternativas para escapar ao regime escravista. Mas era possível também comprar a própria liberdade, trabalhando nas horas vagas e juntando dinheiro. Bárbara Gomes de Abreu e Lima conseguiu.
Depois de comprar a alforria, adquiriu um sobrado diante da igreja matriz de Sabará. E tinha suas próprias escravas. Ao morrer, em 1735, era dona de uma rede de negócios em Minas Gerais e na Bahia. Mantinha uma série de imóveis, negociava ouro em pó e colecionava tecidos de diferentes lugares do mundo.
Ela estava no melhor lugar possível para ascender socialmente com tamanho sucesso. “Não foi só o ouro, o comércio gerou fortunas em Minas Gerais, no final do século 17 e início do 18”, diz o historiador Eduardo Franca Paiva, professor de história da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “As mulheres negras dominaram o pequeno comércio, a alimentação, a venda de bebidas. Elas compravam a alforria pagando em parcelas, uma espécie de crediário da liberdade.”
Por isso, diz ele, a parcela de população livre, em Minas, naquele momento, era maior do que a de qualquer outra província do Brasil. E parte dessas pessoas livres havia juntado dinheiro suficiente para ter seus próprios escravos. “Um terço dos senhores de escravos era formado por ex-escravos, entre eles muitas mulheres.”
De fato, no testamento de Bárbara Gomes de Abreu constavam riquezas raríssimas para a época: um cordão de ouro, uma imagem do menino Jesus, também em ouro, brincos com pérolas, quatro colheres e quatro garfos de prata. Na mesma Sabará, na mesma época, viveu outra Bárbara, de Oliveira, também escrava forra, conhecida por manter 22 escravos e só andar pelas ruas da cidade numa liteira.
Expedição feminina
Jovem espanhola liderou uma empreitada de colonização ao Paraguai a partir de Santa Catarina.
Em meados do século 16, quando os europeus ainda estavam muito longe de ter qualquer controle efetivo sobre as terras que tentavam colonizar, e qualquer campanha podia acabar em tragédia, a espanhola María de Sanabria montou uma expedição colonizadora inteiramente liderada por mulheres.
Em 1552, María, a mãe e as três irmãs se viram instaladas na região onde hoje fica o Estado de Santa Catarina. Chegaram em uma comitiva composta por três navios, que partiram da Espanha com 50 mulheres que deveriam formar famílias europeias no Atlântico Sul.
É sempre bom lembrar que, do litoral sul de São Paulo até o Uruguai, segundo o Tratado de Tordesilhas, oficialmente tudo era território da Espanha, ainda que os portugueses, tão ciosos de combater invasores na costa, não se importassem em ocupar espaços que, em tese, não pertenciam a seu reino.
O pai de María, Juan de Sanabria, primo do conquistador do México, Hernán Cortez, viria junto, para ser o governador de Assunção, mas morreu antes da viagem. As mulheres não desistiram e seguiram em frente. O trajeto por mar foi terrível: metade das passageiras morreu e os bens das sobreviventes de um dos navios foram saqueados por piratas franceses, mais ou menos na altura do golfo da Guiné.
Depois de viver no litoral catarinense por alguns meses, parte das mulheres ficou na região, e outra parte seguiu para o atual Paraguai. A mãe de María, Mência Calderón de Sanabria, permaneceu em Santa Catarina. María preferiu liderar as mulheres decididas a explorar o interior do continente. Acabou se instalando em Assunção. E virou uma liderança respeitada na região. Seu filho, Hernando, se tornou franciscano e fundou a Universidade de Córdoba, na Argentina.
foi publicada a segunda edição na língua inglesa. Pouco depois, em 1848, o relato foi publicado em língua alemã em Dresden e Leipzig, atual Alemanha.A edição em português ocorreu em 1942, na Coleção Brasiliana, intitulada Viagens no Brasil: principalmente nas províncias do norte e nos distritos de ouro e do diamante durante anos 1836-1841, da Companhia Editora Nacional.No ano de 1856 foi publicado o relato Life in Brazil; or, a journal of a visit to the land of the cocoa and the palm de Thomas Ewbank ela Harper & Brothers, Nova York, sendo lançada também na Inglaterra. Nos Estados Unidos houve uma edição em 2005.No Brasil, o relato em português foi publicado com o título A vida no Brasil: ou Diário de uma visita ao país do cacau e das palmeiras, em 1973, pela editora carioca Conquista, em dois volumes.O relato de Henry Walter Bates foi publicado em 1863, em dois volumes, com o título The naturalist on the River Amazons, a record of adventures, habits of animals, sketches of Brazilian and Indian life, and aspects of nature under the Equator, during eleven years of travel by Henry Walter Bates, em Londres pela John Murray. A segunda edição ocorreu um ano depois, com supressão de algumas partes pelo autor, seguida por mais de dez edições na língua inglesa em Londres e nos Estados Unidos. No Brasil O naturalista no Rio Amazonas foi editadoem 1944 pela Editora Nacional.
Em 1869, Richard Burton publicou a primeira edição de Explorations of the Highlands of the Brazil; with a full account of the gold and diamond mines. Also, canoeing down 1500 miles of the great River São Francisco, from Sabará to the Sea by Captain Richard F. Burton, F.R.G.S., etc., em Londres por Tinsley Brothers, em dois volumes. A obra recebeu destaque em finais do ano passado e foi publicada em Nova York no centenário da primeira edição, e nos últimos dezesseis anos teve três edições nos Estados Unidos.
No Brasil, a primeira edição de Viagens aos planaltos do Brasil: 1868, em três volumes,ocorreu no ano de 1941 pela Companhia Editora Nacional, que publicou a segunda edição em 1983. Houve uma edição em 2001 pelo Senado Federal intitulada Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho, volume único.
Em São Paulo, a Tip. Allemã de H. Schroeder publicou Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gaston e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba de John James Aubertin no ano de 1866.
Nesse mesmo ano foi traduzido para o inglês pelo autor e publicado em Londres pela Bates, Hendy & Co. com o título Eleven day’s journey in the Province of Sao Paulo, with the [p. 10]
Outro ponto, o parâmetro comparativo do algodão brasileiro e do norte-americano. A produção dos Estados Unidos figura como indicadora de qualidade e produtividade, em vista do país ter sido o maior fornecedor do mundo, e é trazida pelos viajantes quando desejam estimular a produção no Brasil, em especial, utilizando dados fornecidos por conhecedores do ramo.Nesse sentido, Richard Burton traz as considerações de um renomado pesquisador da cultura algodoeira, Major R. Trevor Clarke96 para quem “Aqui [no Brasil] o algodão tem mais penugem que o habitual; 600 quilos darão 250 de fibra limpa, ao passo que no Alabama são necessários 750 quilos. Em geral, o replantio do arbusto é feito em seu quarto ano”.97 E J. J. Aubertin traz a experiência dos americanos sulistas Dr. Gaston, Dr. Shaw e Major Mereweather, a quem ele acompanhou durante a passagem deles pela Província de São Paulo:Eramos cinco pessoas. Tres Americano sulistas, dr. Gaston, dr. Shaw e o major Mereweather, que ião fazer sua viagem prolongada, na exploração de districtos um pouco remotos, sob a direcção do sr. Engenheiro Bennaton, para esse fim nomeado; e, sendo informado dos seus preparativos, logo me aggreguei a elles, não menos por sympatia para com a antecipada immigração americana, como tambem pelo desejo de visitar em sua companhia algumas plantações de algodão, e tirar algumas instrucções de sua experiencia pratica, a respeito de uma cultura que, sendo hoje estabelecida na província, não póde deixar de influil-os cabalmente na resolução que definitivamente tenhão que tomar.98Durante a permanência na província paulista, o grupo visitou a região de Itu, Salto, Porto Feliz e Sorocaba, daí J. J. Aubertin seguiu para a capital paulista e eles continuaram viagem com destino à Itapetininga. As observações de diferentes aspectos da lavoura algodoeira e o processamento do algodão fizeram os norte-americanos considerarem o clima paulista adequado à produção e benéfico o fato de não haver mudanças bruscas na temperatura, como a ocorrência de geadas, possibilitando maior tempo de conservação do algodoeiro.99Esses dados são agregados por J. J. Aubertin àqueles fornecidos por produtores paulistas de que “emquanto o alqueire norte-americano, dando bem, produz de cem até cento e dez ou talvez 96 Richard Trevor Clarke (1813-1897) – “Army officer and horticulturalist. Major in the Northampton and Rutland Infantry Militia, 1862. Bred nearly thirty new varieties of begonias and many new strains of cotton. Awarded a gold medal by the Cotton Supply Association of Manchester. Member of the Royal Horticultural Society; served on the council and scientific committee for many year; awarded the society’s Veitchian medal, 1894”. BURKHARDT, Frederick et al (Ed.). Charles Darwin. The Correspondence of Charles Darwin (1866). Cambridge: Cambridge University, 2004, p. 502, vol. 14.97 BURTON, Richard Francis. Viagem de canoa de Sabará ao Oceano Atlântico..., op. cit., p. 29. [nota 3]98 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo com os Srs. Americanos Drs. Gastón e Shaw, e o Major Mereweather. 1865. Carta dirigida ao Illm. e Exm. Sr. Barão de Piracicaba. São Paulo: Typ. Allem[p. 159]
Os esforços de J. J. Aubertin devem ser compreendidos dentro desse contexto, em que ele se coloca como defensor da produção algodoeira paulista e atua em diferentes direções. No Brasil, escreveu para diversos periódicos nacionais e correspondeu-se com diferentes figuras da política brasileira para lhes solicitar o envolvimento com a lavoura algodoeira capaz de colocar São Paulo em posição favorável no mercado inglês, tal como fez o inglês em carta ao Comendador Fideles Prates:
Usai, vos peço, nesta vespera de uma nova semeadura, a vossa bem conhecida influencia entre os vossos amigos, e dizei aos cultivadores do algodão que redobrem os seus esforços na nova plantação, porque pela colheita futura é que se diciderá definitivamente a importante questão se a provincia de S. Paulo pode ou não pode occupar uma posição positiva nos mercados de Manchester.104
Aos agricultores interessados, ele também procurou difundir noções sobre a técnica de cultivar o algodão herbáceo e publicou folhetos sobre a cultura do algodão.105 Essa política de difundir informações sobre o cultivo foi uma atividade constante da associação inglesa, mesmo após o fim da guerra norte-americana.
No plano internacional, empenhou-se em apresentar os algodões paulistas de boa qualidade na Exposição Internacional de Londres, de 1862, com o objetivo de mostrar os atributos do produto. Também foi intermediador entre Manchester Cotton Supply Association e órgãos brasileiros; em duas ocasiões, nos anos de 1862 e 1865, J. J. Aubertin solicitou à associação britânica que enviasse algodão herbáceo ao Ministério da Agricultura e à Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional.106 Em diferentes momentos enviou para a Inglaterra amostras do algodão paulista, em geral, com boas avaliações dos correspondentes.J. J. Aubertin arquitetou ações no Brasil ligadas aos interesses ingleses baseadas em informações colhidas por ele na província ou com base na experiência de nacionais e, principalmente, de norte-americanos, com o propósito de deixar claro as potencialidades de São Paulo e convencer os potenciais produtores paulistas. Para aqueles que mesmo assim estivessem em dúvida, ele escreve:
Deveras, já é tarde demais para duvidar do algodão de São Paulo; mas se ainda ha descrentes, apenas apello para os dous srs. Cultivadores que acompanhei, major Mereweather e dr. Shaw. Ambos elles me repetirão muitas vezes, que melhor algodão que aquelle que nos vimos não desejavão ver; que nas suas proprias plantações e com todos os seus meios perfeitos não costumavãoproduzir melhor. 107
Seus esforços renderam-lhe o reconhecimento da associação inglesa, que o condecorou com uma medalha de ouro, e o governo brasileiro honrou-o com o hábito da Imperial Ordem da Rosa. Nos veículos de informação brasileiros, nos quais tanto escreveu, vemos o reconhecimento de seus pares, como E. Hutchings, outro entusiasta da lavoura algodoeira em terras paulistas e intermediário entre a associação e o Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas:
Hoje, considerado, como um genero de exportação, o algodão, e sua cultura, é um dos factos estabelecidos na historia da provincia, e eu me aproveito desta occasião para patentear a gratidão que todos temos.Quem sabe, o que ha de mostrar-se nos anos que vem? Quasi todas as condições de prosperidade estão unidas nesta provincia; - Um clima sem rival, uma terra cheia de riquesa, e uma natureza, cuja uberdade é espantosa. Tudo isto aqui, e no outro lado do Oceano, a Inglaterra, offerece tudo quanto seja possivel afim de attrahir para lá, os productos da provincia, e com as devidas providencias, e constancia em trabalhar, tudo será possivel, e, sem esta, nada.Campinas, Mogy-mirim, Limeira e outros lugares vão caminhando na cultura do café, e o publico, bem como os particulares, são beneficiados. Parece que, para Sorocaba, resta ainda este outro manancial de prosperidade; - a cultura do algodão, e não ha homem ou natural, ou estrangeiro na provincia, que não abençoará a empresa.[...] Caminho da Luz, S. Paulo Agosto de 1865[...] E. Hutchings108
Evidentemente, tais esforços foram no sentido de produzir algodão adequado às necessidades da indústria inglesa. Foi estimulado o plantio da semente de Nova Orleans, em solicitação de uma circular da Manchester Cotton Supply Association109 e houve uma modificação na postura do produtor brasileiro: “O tipo de algodão tradicional no Brasil era o arbóreo mas o mercado consumidor passou a condicionar a produção ao tipo herbáceo dos 107 AUBERTIN, J. J. Onze dias de viagem na Província de São Paulo..., op. cit., p. 16.108 HUTCHINGS, E. “Aos Redactores do Diario de São Paulo”. Diario de S. Paulo, São Paulo, 11 agosto 1865, ano I, nº 10, p. 2. Em outras atividades, além do algodão: E. Hutchings foi um dos secretários da Comissão Julgadora de um concurso para criadores de animais pensado por J. J. Aubertin, tesoureiro do evento. O Comendador Fideles Nepomuceno Prates aparece como um dos Juízes. “Concurso industrial”. Correio Paulistano, Estados Unidos. As variedades mais procuradas eram a U[p. 161, 162]